Evangelho de quinta-feira: a vida, tempo para servir

«Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e fazia todos os dias esplêndidos banquetes». Qualquer dom recebido é uma chamada para nos pormos ao serviço dos outros. Deus conta connosco para ir ao encontro das necessidades do próximo, com o que somos e com o que temos.

Evangelho

«Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e fazia todos os dias esplêndidos banquetes. Um pobre, chamado Lázaro, jazia ao seu portão, coberto de chagas. Bem desejava ele saciar-se com o que caía da mesa do rico; mas eram os cães que vinham lamber-lhe as chagas. Ora, o pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão.

Morreu também o rico e foi sepultado. Na morada dos mortos, achando-se em tormentos, ergueu os olhos e viu, de longe, Abraão e também Lázaro no seu seio. Então, ergueu a voz e disse: “Pai Abraão, tem misericórdia de mim e envia Lázaro para molhar em água a ponta de um dedo e refrescar-me a língua, porque estou atormentado nestas chamas.” Abraão respondeu-lhe: “Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em vida, enquanto Lázaro recebeu somente males. Agora, ele é consolado, enquanto tu és atormentado. Além disso, entre nós e vós há um grande abismo, de modo que, se alguém pretendesse passar daqui para junto de vós, não poderia fazê-lo, nem tão-pouco vir daí para junto de nós.”

O rico insistiu: “Peço-te, pai Abraão, que envies Lázaro à casa do meu pai, pois tenho cinco irmãos; que os previna, a fim de que não venham também para este lugar de tormento.” Disse-lhe Abraão: “Têm Moisés e os Profetas; que os oiçam!” Replicou-lhe ele: “Não, pai Abraão; se algum dos mortos for ter com eles, hão-de arrepender-se.” Abraão respondeu-lhe: “Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão-pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos.”»


Comentário

Tudo nesta parábola é um convite à conversão. Não falta nenhum elemento: uma pessoa afortunada e outra necessitada; uma gastadora e que parece só pensar em si mesmo, e uma que mendiga à sua porta. Morte e juízo: o tempo de que dispomos aqui é tempo para pensarmos uns nos outros. O que se enraíza nos nossos corações aqui será o que baterá às portas do Reino celestial. Por isso, temos de demonstrar agora, com a nossa vida, enquanto temos tempo, aquilo a que aspiramos: o que é que verdadeiramente nos importa. Como vivemos e para quem vivemos? Quem sabe de quanto tempo ainda dispõe?

O texto tem muita força. Mas esta é ainda maior se tivermos em conta para o que ele nos remete no Antigo Testamento. Abraão é a chave da interpretação: ele é o pai na fé do povo de Israel; a ele e aos que acreditam como ele foram prometidas bênçãos; ele corresponde com generosidade à chamada divina, e, tendo muitos bens, ficou como modelo de hospitaleiro: Não vos esqueçais da hospitalidade, pois, graças a ela, alguns, sem o saberem, hospedaram anjos (Hb 13,2). Em Abraão vemos uma fé que penetrou e chegou fundo no seu coração: uma fé viva e que dá fruto. Uma fé movida pela caridade.

O rico da parábola, homem sem nome, embora poderoso, tem-se na conta de filho de Abraão e portanto herdeiro das bênçãos. Mas a morte, que é um juízo sobre a vida, mostra-lhe para onde é que Deus olha quando julga os homens: a sinceridade dos corações. A parábola diz-nos que uma fé sem obras é uma fé morta. O rico não era um bom judeu: não tinha escutado Moisés. Mas, por outro lado, não são somente as obras que salvam. De Lázaro, esse sim tem nome, não se contam feitos. Os Padres da Igreja dizem que o que se lhe premeia é a sua aceitação paciente, não só dos males, mas também do desprezo que sofre. Para nós, a mensagem é clara: ver como podemos acolher o próximo nos nossos corações, pondo ao seu serviço os bens, materiais e espirituais, que possuímos em cada momento.