Excertos de entrevista a Mons. António Barbosa (c/ áudio)

Excertos da entrevista à TSF a 1 de outubro de 2002, e testemunho de Mons. António Barbosa no livro "O Opus Dei em Portugal: o testemunho de 50 homens e mulheres", dir. de José Freire Antunes.

Opus Dei - Excertos de entrevista a Mons. António Barbosa (c/ áudio)

Excertos da entrevista à TSF (Manuel Vilas Boas) a 1 de outubro de 2002, nas vésperas da Canonização de S. Josemaria.



Excerto do artigo publicado no livro “O Opus Dei em Portugal: o testemunho de 50 homens e mulheres” dir. José Freire Antunes, Ediora Edeline (2002).


Nasci no velho bairro da Mouraria, em Lisboa, um bairro cada vez mais anódino. Tive o meu primeiro contacto com a fé na Capela das Olarias, cuja catequese era animada pelo padre Manuel, um homem zeloso e paciente. Aí a minha irmã Marta e eu assistíamos à missa, ao domingo. Mas as cerimónias mais importantes, nesse tempo da minha infância, decorriam na Igreja dos Anjos, onde aliás eu viria a celebrar em 1963 a minha primeira missa. O pároco era Vicente Esteves, meu “padrinho de capa”, expressão que é usada no léxico eclesiástico.

A minha mãe era de Pedrógão Pequeno; o meu pai nascera em Lisboa, mas vinha de uma família numerosa das Termas ou Caldas de São Pedro do Sul

Os meus pais, já falecidos, tinham uma catolicidade habitual nas pessoas da província. A minha mãe era de Pedrógão Pequeno, Sertã, Beira Baixa; o meu pai nascera em Lisboa, mas vinha de uma família numerosa das Termas ou Caldas de São Pedro do Sul, perto de Viseu. Nas férias visitávamos sempre os avós e os tios, mantendo-se as ligações familiares e o conteúdo religioso. Sem euforias. Entretanto, fiz também perto de casa a minha vida escolar. A escola primária e os sete anos do liceu completei-os na Escola Portugália, externato masculino, perto da Igreja dos Anjos. Fiz o exame do ciclo no Liceu Gil Vicente.

Em 1954, fomos campeões de Lisboa. Faziam parte da nossa equipa, entre outros, Joaquim Bernardo, Marques Pereira, Mário Miranda, Arala Chaves. Manuel Morais, o treinador, era um bom pedagogo.

Em 1954 entrei para a Faculdade de Medicina de Lisboa, e não para a Sorbonne, em Paris, como o meu colega Filipe e eu havíamos sonhado.

Estando a acabar o liceu, e prestes a entrar na Universidade, fiquei dividido. O meu teste de orientação profissional recomendava a área da economia, mas há anos que fazia um jornal manuscrito (de exemplar único) com um vizinho meu, José Aquino, que enveredou pela música e foi para Grenoble. Eu estava seduzido pela escrita. Mas, como não havia cursos de Comunicação Social, esperei uma oportunidade.

Três professores meus, Belmira Mendes, Luisette Rijo e Fernanda Cordeiro, abriram-me os horizontes da investigação; sobretudo a segunda, depois colaboradora do cientista Branquinho da Fonseca. Acabei, assim, por entrar para a Faculdade de Medicina de Lisboa, e não para a Sorbonne, em Paris, como o meu colega Filipe e eu havíamos sonhado.

Quando contactei o Opus Dei vivia numa situação de busca interior. Através de um colega, Ferdinando, conhecera alguns jovens da sua paróquia, a Penha de França, que se costumavam reunir no Grupo Pedro Jorge Frassati, nome de um jovem italiano beatificado pelo Papa João Paulo II. Tive também alguns contactos com a estrutura da Juventude Operária Católica (JOC). Mas um dia convidaram-me para ir à Residência de Estudantes das Avenidas, na Rua Dr. António Cândido, n.º 10, junto à Igreja de São Sebastião da Pedreira.

Era então, em Lisboa, o único centro onde se recebia formação do Opus Dei; já não existe. Depois das aulas, no Hospital de Santa Maria, estudava com frequência na Residência das Avenidas. Continuei a ir a actividades da Juventude Universitária Católica (JUC). Assisti a magníficas intervenções de António dos Reis Rodrigues, actual bispo emérito do Patriarcado de Lisboa. Aliás, o primeiro retiro que fiz era organizado pela JUC, no Seminário dos Olivais, no Carnaval de 1956. Foi pregado por um sacerdote jesuíta. Deixou-me uma lembrança inesquecível. Pouco depois pedi a minha admissão ao Opus Dei.

Durante aqueles anos convivi com fiéis do Opus Dei que marcaram a minha formação. Foto numa atividade de formação de Verão de 1956 (António Barbosa é o da direita).

No convívio com residentes das Avenidas, membros do Opus Dei, entendi-me a mim próprio e encontrei as respostas que eu procurava. A minha opção foi ditada pelo ambiente de amizade e pelos exemplos de generosidade e de alegria, a ajuda do sacerdote, a maior frequência de sacramentos, o ideal da fé cristã vivida numa tendência dinâmica para o ideal da imitação de Cristo. Lembro-me bem da novidade que foi para mim o Caminho, do beato Josemaria, pela sua força e clareza. Entendi mais tarde a portentosa radicalidade evangélica do Caminho e tornei-me um leitor diário do Evangelho e da Bíblia.

Durante aqueles anos convivi com fiéis do Opus Dei que marcaram a minha formação. Foi especialmente importante conhecer Xavier de Ayala, sacerdote, o primeiro vigário regional do Opus Dei em Portugal. Também Francisco Martínez, farmacêutico; Mário Pacheco, o primeiro português do Opus Dei, filósofo, mais tarde professor da Faculdade de Letras; Óscar Candeias, médico; Emérico da Gama e Osvaldo Aguiar, advogados, e muitos outros ligados à história do Opus Dei.

No ano lectivo 1956-1957 fui para a Universidade de Coimbra. Os meus primeiros tempos no Opus Dei decorreram na normalidade de me esforçar por ser um bom estudante, cumprir práticas cristãs, testemunhar a fé entre os colegas. Sentia que aquilo que encontrara era para muita gente, como me mostrava o convívio com pessoas tão diversas que o Opus Dei unia.

Anos antes, ao corresponder ao apelo sobrenatural, fixara para mim uma condição, decorrente da experiência e da sensibilidade: viver o dom divino do celibato. Agora fortalecia a consciência de que assim me disponibilizava mais para tarefas formativas que me pedissem. Esta opção pressupunha outra condição: a ajuda do Opus Dei, ou seja, dos meios inspirados ao beato Josemaria por via do seu carisma fundacional e aprovados pela Igreja, para persistir nesse propósito até ao fim da minha existência.

Olhando para trás, verifico que a sucessão de eventos providenciais na minha vida, após a vinculação ao Opus Dei, foi semelhante ao que descobri mil e uma vezes em tantos membros da Obra, diferentes pelas culturas, idade, sexo, condição social, experiência de vida. Só me podia ter acontecido e apenas pode ser compreendido na perspectiva da fé, da vinculação à Igreja, na medida em que é sacramentum salutis, mistério de salvação. E, no caso dos fiéis do Opus Dei, em função da proposta de santidade no mundo, usando actividades honestas, sem enterrar talentos, respeitando as idiossincrasias de cada um.

Dentro da minha visão da fé, a proposta que me fizeram os directores do Opus Dei de ir para Roma pareceu-me lógica, apesar de implicar uma alteração completa dos meus planos. O trabalho iniciado em 1946 exigia mais sacerdotes. Os directores apelavam aos numerários para, com liberdade de decisão, optarem ou não pelo sacerdócio. Neste quadro, alguns numerários do Opus Dei foram para Roma, depois de anos de trabalho profissional, e podiam receber as ordens sagradas. Nas circunstâncias de expansão rápida do Opus Dei pelo mundo, convinha adiantar o processo de formação junto do fundador.

Junto do fundador do Opus Dei ia acelerar a preparação específica, tendo em vista tarefas futuras que me pedissem para executar. Nos três anos seguintes estudei Filosofia e Teologia e licenciei-me em Direito Canónico na Universidade de São Tomás de Aquino, mais conhecida por Angelicum.

Quando voltei de Roma, trazia na minha bagagem espiritual uma experiência intensa da santidade do beato Josemaria. Eu tinha-me “romanizado”, como ele dizia. Ou seja, tinha-me universalizado, dentro do espírito católico, vendo as coisas grandes e pequenas, as passageiras e as eternas, as agradáveis e as dolorosas (estou a citá-lo, embora não textualmente...) com fé. Em Roma conhecera directores do Opus Dei, entre eles o futuro bispo, Álvaro del Portillo, e o actual bispo-prelado, D. Javier Echevarría. D. Álvaro del Portillo era considerado o braço direito do beato Josemaria; em contactos frequentes, transmitiu-me o sentido de fidelidade a Cristo, à Igreja e ao fundador.

Quando voltei de Roma, trazia na minha bagagem espiritual uma experiência intensa da santidade do beato Josemaria.

Todavia, ao chegar a hora de partir de Roma, em 1960, havia um vazio na minha preparação. Interrompera o curso de Medicina e, como acontece com os numerários do Opus Dei, devia fazer um novo curso civil ou terminar o iniciado. A premência de regressar em condições de poder colaborar na área sacerdotal fez com que voltasse ao antigo sonho adiado: o de estudar Jornalismo. Ingressei então no Instituto de Jornalismo, actualmente Faculdade de Ciências de Informação, da Universidade de Navarra, em Pamplona, no norte de Espanha. Vivi três anos universitários — de 1960 a 1963 — em que ocorreram muitas transformações notáveis em Portugal e no mundo, e na Igreja.

Ao terminar o curso de Jornalismo, perguntaram-me da parte do fundador se estaria disposto a receber as ordens sagradas. Fui para Madrid, levando o meu currículo académico devidamente em ordem. Juntei-me a outros 23 membros da prelatura, de vários países, e recebi as ordens sagradas da 11 de Agosto de 1963 e, dias depois, vim a celebrar a missa nova em Lisboa.

Mons. António Barbosa pouco depois da sua ordenação em 1963.

Estive depois em Madrid até ao início de 1964, como capelão do Colegio Mayor Moncloa, e trabalhei numa residência sacerdotal, junto da catedral. Regressei a Lisboa, por alguns meses, antes de sair para Coimbra, onde fiquei até ao começo de 1965. Durante esses meses, além do trabalho pastoral com universitários residentes na Residência da Beira, dava apoio a sacerdotes diocesanos da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz e outros. Por isso, viajava muito para Viseu, Lamego e Guarda. Entretanto, o cónego Urbano Duarte tinha aceitado a minha colaboração no semanário Correio de Coimbra. D. Ernesto Sena de Oliveira, ainda usando naquele tempo o seu título de Bispo-Conde, nomeava-me juiz pró-sinodal do tribunal eclesiástico.

A minha tarefa pastoral no Opus Dei distribuía-se entre o mundo universitário, os casais e o apoio espiritual aos meus colegas sacerdotes diocesanos do Patriarcado de Lisboa e da Arquidiocese de Évora, onde ia todas as semanas.

Mas, ao iniciar-se 1965, fui chamado para Lisboa, a tarefas gerais de governo do Opus Dei em Portugal. Fui viver com os outros directores do Opus Dei num andar alugado, na Rua D. Estefânia, um centro que tinha sido inaugurado poucos anos antes. O vigário regional era o padre Nuno Girão. A minha tarefa pastoral no Opus Dei distribuía-se entre o mundo universitário, os casais e o apoio espiritual aos meus colegas sacerdotes diocesanos do Patriarcado de Lisboa e da Arquidiocese de Évora, onde ia todas as semanas.

Hoje na função de vigário do prelado para Portugal compete-me visitar os bispos e contactar a Conferência Episcopal. Na medida em que a prelatura tem difusão mundial, corresponde-me avistar-me com o senhor Núncio Apostólico, que representa o Papa no nosso país. Vivi sempre de muito perto, naturalmente, os acontecimentos em Portugal. Na condição de fiel e sacerdote, e na medida em que o Opus Dei serve in loco a Igreja Universal, identifico-me totalmente, assim como todos os membros do Opus Dei, com as preocupações, objectivos e orientações pastorais dimanadas do magistério pontifício ou episcopal.

Em Maio de 1974, o beato Josemaria estava em Madrid, a preparar uma longa viagem de catequese por países da América do Sul. Não lhe tinham chegado informações directas sobre Portugal e as mudanças bruscas na vida política e no tecido social.

Com imenso carinho, o fundador deu-nos conselhos humanos e espirituais. Quanto aos primeiros, recomendou-nos que estivéssemos serenos. Com alguma graça, pediu-nos para dizermos às pessoas que pudessem sofrer a violência e a injustiça de certos comportamentos que, se fosse preciso, tomassem um comprimido — seria melhor se fosse meio comprimido — para manter a calma.

Em Maio de 1974, Portugal teve mudanças bruscas na vida política e no tecido social. Com imenso carinho, o fundador deu-nos conselhos humanos e espirituais.

A notícia da morte do beato Josemaría foi para todas as pessoas do Opus Dei um momento muito difícil. Procurámos conciliar a tristeza da separação, com a paz de que Deus sabe mais. A imediata e espontânea união de todos os membros em volta de D. Álvaro del Portillo, que viria a ser o sucessor do fundador, determinou que se tornasse realidade aquilo que ouvira muitas vezes ao Beato Josemaría: muitas instituições da Igreja, quando morre o respectivo fundador, passam por uma espécie de terramoto; com o Opus Dei não será assim. Ora, Deus ouviu-o.

O actual bispo-prelado, D. Javier Echevarría, visitou-nos por altura da beatificação dos videntes de Fátima, Jacinta e Francisco. Veio então a convite do bispo de Leiria-Fátima, D. Serafim Ferreira da Silva, encontrando-se brevemente com dois numerosos grupos de membros do Opus Dei, em Lisboa. Do impulso que ficou da sua deslocação durante o Ano Jubilar saíram reforçados os objectivos que deu como prioritários no momento da sua eleição: a cultura, a família e a juventude. Mas, não deixaram de ser referidas as iniciativas sociais e assistenciais, como a Associação Criança e Vida, do bairro Miragaia, no Porto, empenhada na recuperação das famílias e das crianças, pela grande generosidade de Teresa Resende e da sua equipa, ou da mais recente Emergência Social, na Charneca do Lumiar, do casal Pimentel Calderón, para além das acções de voluntariado com deficientes profundos.

Mons. António Barbosa acompanhando a visita do Prelado do Opus Dei ao Oratório S.Josemaria em Lisboa no ano 2000.

A breve visita que fez ao Oratório do Beato Josemaría e a bênção sacerdotal com que assinalou o edifício do Colégio Universitário Montes Claros, à Palma de Baixo, em Lisboa, foram o complemento da estada. Foi uma visita demasiado rápida para que D. Javier Echevarría pudesse apreciar algumas outras iniciativas de membros da prelatura em Portugal: o Centro de Convívio Almançor, com a Escola de Formação Profissional, que estava em construção em Montemor-o-Novo, e a nova sede da AESE.



Excerto do artigo publicado no livro “O Opus Dei em Portugal: o testemunho de 50 homens e mulheres” dir. José Freire Antunes, Ediora Edeline (2002)

Fotografias do Arquivo Regional da Prelatura do Opus Dei em Portugal

Ver também:

Entrevista de Mons. António Barbosa à Revista Visão:
Link Original da Visão
Entrevista ao Correio da Manhã: Link