Padre Fernando Valenciano: a fidelidade no tempo

Era atualmente o membro mais antigo do Opus Dei – com pouco mais de 86 anos de vocação na Obra – e o último dos que tinham pedido a admissão na década de 30 do século passado. Faleceu em Roma e os seus restos mortais repousam na cripta da igreja prelatícia de Santa Maria da Paz.

«“Que alegria quando me disseram: Vamos para a Casa do Senhor” (Sl 121, 1). Estas palavras do salmo convidam-nos a levantar o olhar para o Céu, confiando que o Pe. Fernando já lá chegou: a plena e definitiva união com Deus na glória». Com estas palavras, recordando a misericórdia de Deus, iniciou a sua homilia o prelado do Opus Dei no funeral celebrado a 23 de abril na Basílica de Santo Eugénio.

Fernando Valenciano Polack nasceu em Sevilha no dia 1 de fevereiro de 1923 e faleceu em Roma no dia 21 de abril de 2026, aos 103 anos, depois de algumas semanas de debilitamento, no mesmo dia em que recordávamos o primeiro aniversário da partida do Papa Francisco. Nesses momentos finais, nos quais recebeu a unção dos doentes, encontrava-se no seu quarto em Villa Tevere, acompanhado pelo Padre, pelos que viviam com ele e pelo médico.

Pediu a admissão ao Opus Dei em 23 de dezembro de 1939, em Madrid, enquanto preparava a entrada na Escola Superior de Engenheiros de Caminhos, na residência de estudantes da rua de Jenner, impulsionada por São Josemaria alguns meses antes.

O padre Fernando (à esquerda) com São Josemaria.

O sacerdote Fernando Valenciano era doutorado em engenharia e, antes da sua ordenação sacerdotal, obtivera também um doutoramento em direito canónico. Após muitos anos de trabalho profissional como engenheiro em Madrid e em Sevilha, partiu para Roma em 1961 para fazer parte do Conselho Geral do Opus Dei (1961-1994), ajudando o fundador em tarefas de governo da Obra, então em expansão por muitos países. Ao chegar a Villa Tevere, a sede central do Opus Dei, foi recebido por São Josemaria. A partir desse momento, a sua presença e a do Beato Álvaro foram uma constante. «Deles – dizia na homilia Mons. Ocáriz – aprendeu uma lição que nos serve a todos: que, para gozar da visão de Deus no Céu, temos de procurar contemplá-l’O já aqui na terra, no exercício dos deveres ordinários no meio do mundo. E foi assim que o Pe. Fernando percorreu a sua vida: primeiro como estudante universitário, depois como engenheiro, mais tarde trabalhando na sede central e cuidando dos seus irmãos no Opus Dei, como leigo e depois como sacerdote; sempre sem outra ambição senão a de servir a Igreja».

Era atualmente o membro mais antigo do Opus Dei – com pouco mais de 86 anos de vocação na Obra – e o último dos que tinham pedido a admissão na década de trinta do século passado. Em 1993, recebeu a ordenação sacerdotal das mãos do Beato Álvaro e exerceu o seu ministério enquanto teve forças para o fazer. Celebrou com grande alegria e gratidão a Deus as suas bodas de prata sacerdotais em 2018.

1993, ordenação sacerdotal celebrada pelo Beato Álvaro del Portillo.

Até aos 100 anos, manteve-se ativo e autónomo, participando nas reuniões de família e nos meios de formação. Durante décadas, ia confessar à Basílica de Santo Eugénio, em Roma, e, como resultado desse trabalho sacerdotal, mantinha e cultivava amizades que se estendiam de uma geração para outra. Recebia frequentemente visitas de parentes e amigos, com idades entre os 10 e os 90 anos, que desejavam vê-lo e expressar-lhe o seu carinho. Por vezes, vinham de muito longe. Talvez tivesse conhecido alguns deles há 60 ou 70 anos, muitos deles engenheiros de Caminhos, e o afeto era herdado pelos filhos, netos e bisnetos. O Pe. Fernando recordava sempre as histórias familiares e acompanhava-as com a oração, mesmo à distância. O seu telefone e o seu WhatsApp dão testemunho dessas longas e fiéis amizades, que ele sabia conduzir a Deus.

Manteve até ao fim a lucidez e a memória, o que lhe permitia acompanhar com interesse os temas de conversa, participar e partilhar recordações antigas e recentes. Por vezes, citava detalhes que pareciam incríveis, como um nome ou o local exato – cidade, rua e número – de um centro da Obra onde tinha estado alguma vez ou a morada dos pais de alguém. Com frequência, recordava factos e frases divertidas, provocando o sorriso de quem o ouvia.

Nos últimos dois ou três anos, perdeu autonomia e força física, mas nunca a piedade, a vibração apostólica, a clareza mental e o desejo de aproveitar o tempo. Poucas semanas antes de falecer, ainda perguntava se não poderia ajudar em alguma tarefa sacerdotal. Pedia orações pelo Papa e pela Igreja. Rezava e fazia rezar pelas intenções do Padre, a quem tinha presente a todo o momento. Perguntava por notícias da atualidade, sem se desconectar do que acontecia no mundo. Rezava também quando lhe falávamos sobre guerras ou outros acontecimentos tristes. E continuava, como bom aficionado, a acompanhar um jogo de ténis ou um western de qualidade.

23 de abril, funeral em Santa Maria da Paz.

Apesar de as limitações serem cada vez maiores, nunca se queixou nem protestou. Dava ouvidos aos médicos e a quem cuidava dele e procurava continuar a participar na vida do centro. Quando alguém lhe perguntava como se sentia, respondia que estava bem e passava a outro assunto, embora, mais recentemente, admitisse um «bem, dentro do possível». Ficava emocionado com os gestos de carinho, visíveis até nas coisas mais simples do dia a dia: na comida preparada com esmero e em tudo o que tornava a sua vida mais cuidada e acolhedora. Agradecia sem se cansar, muitas vezes ao dia, e pedia desculpa pelos transtornos causados. Era um doente muito fácil de cuidar. Na verdade, somos nós, todos aqueles que tivemos a sorte de o conhecer e de cuidar dele, que lhe agradecemos. O seu exemplo acompanhar-nos-á sempre e não deixaremos de lhe pedir que interceda por nós.

Mons. Ocáriz concluía a sua homilia, na Missa celebrada diante do corpo presente em Santa Maria da Paz: «Recorremos à nossa Mãe, a Santíssima Virgem. Quantos terços rezou o Pe. Fernando nestes anos, pedindo por tantas intenções! E pedimos a Nossa Senhora que nos obtenha do seu Filho a graça de compreender aquilo que São Josemaria escreveu no último ponto de Caminho, e que, neste momento, pensando no Pe. Fernando, ressoa com particular atualidade: “Qual é o segredo da perseverança? O Amor. – Enamora-te, e não O deixarás”».

Os seus restos mortais repousam em Villa Tevere, na cripta da igreja prelatícia de Santa Maria da Paz, próximo dos restos mortais de São Josemaria e de Carmen Escrivá, e junto ao Beato Álvaro del Portillo, à serva de Deus Dora del Hoyo, a D. Javier Echevarría e a Rosalía López.