Crónica da viagem do Papa Leão XIV a França

De 25 a 28 de setembro, o Papa Leão XIV visitou Paris, Lurdes e Metz. Defendeu a vida contra a eutanásia e a gestação de substituição, apelou ao acolhimento e à integração dos migrantes e encorajou os jovens a não se deixarem dominar pela ansiedade nem pela cultura consumista. Encerrou a viagem com uma advertência contra a ilusão do rearmamento e um apelo à paz e ao perdão.

De 25 a 28 de setembro, o Papa realizou a sua primeira viagem apostólica a França: Paris, Saint-Denis, Lurdes e Metz. Em quatro dias, o Leão XIV percorreu lugares que refletem, cada um, uma faceta particular de França e da sua história cristã. Reunimos aqui, dia a dia, os momentos-chave da visita.


Segunda-feira, 28. Metz

Domingo, 27. Lurdes

Sábado 26

Sexta-feira, 25


Segunda-feira, 28. Encontro inter-religioso em Metz

Na segunda-feira, última jornada da viagem, o Papa chegou a Metz, junto à fronteira com a Alemanha e o Luxemburgo. A cidade mudou de país várias vezes e sofreu três guerras em menos de um século; aí viveu também Robert Schuman, um dos pais da União Europeia. No centro de congressos que leva o seu nome, Leão XIV reuniu-se com representantes de distintas tradições religiosas.

O Papa recordou que Schuman soube transformar «as antigas linhas de divisão em pontes de esperança» e assinalou que os crentes têm hoje uma tarefa semelhante: mostrar que, para além das fronteiras, é sempre possível reencontrar-se e construir a paz. Defendeu um diálogo sem complexos: «Dialogar não diminui a nossa identidade, mas expressa-a com simplicidade e verdade».

Alertou contra o uso da religião para justificar a violência. Invocar o nome de Deus para legitimar a opressão, afirmou, «é uma profanação desse nome», e o discurso religioso deve ajudar ao «desarmamento dos corações e das palavras».

Pediu também às religiões que se mostrem como guardiãs da vida, especialmente junto dos mais frágeis, porque «a grandeza de uma civilização não se mede pelos seus sucessos materiais, mas pela forma como acolhe, protege e eleva a pessoa humana».

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Encontro «Nas raízes da Europa pela paz e pela unidade»

Antes da celebração da Missa, o Centro de Congressos Robert Schuman acolheu o último grande discurso da visita apostólica. No recinto, ao lado do presidente Emmanuel Macron e do cardeal Jean-Marc Aveline, reuniram-se os bispos franceses, representantes de diversas conferências episcopais e altas autoridades das instituições europeias. Inspirando-se na histórica Declaração Schuman de 1950, o Papa Leão XIV percorreu os alicerces do continente para os confrontar com a sua realidade presente.

Ao assinalar a deterioração do panorama geopolítico, advertiu que «as relações humanas e entre estados tornam-se cada vez mais bárbaras. O valor da palavra dada é desprezado; em vez disso, a mentira e o engano são motivos de orgulho». Alertou ainda contra «a falsa ilusão do rearmamento» e colocou uma pergunta incómoda aos líderes presentes: se estão realmente a promover «esforços criativos» pela paz, ou se apenas procuram «conter a hemorragia da guerra» enquanto preparam o terreno para os conflitos seguintes.

Ao abordar o fenómeno migratório, sublinhou que a resposta não pode reduzir-se a uma mera gestão administrativa: «Acolher uma pessoa significa integrá-la como se fosse da própria família, oferecendo-lhe a possibilidade de desenvolver os seus talentos, capacidades e sensibilidade, mas também de entrar no espírito da casa que a acolhe».

Do mesmo modo, perante a pressa contemporânea e a obsessão por «querer tudo para ontem», Leão XIV reivindicou o valor da paciência e do tempo: a verdadeira solidariedade não se improvisa, constrói-se com pequenos passos para garantir que ninguém se sinta «abandonado ou esquecido».

No final, o Papa dirigiu um apaixonado apelo às novas gerações: «Amai a vida em cada momento e não tenhais medo do futuro! Não tenhais medo de formar uma família, de ter filhos, de defender a dignidade de cada pessoa, do primeiro instante no seio da mãe ao último suspiro. Não tenhais medo de trabalhar incansavelmente, também através do empenho político, em prol do bem das vossas comunidades».

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Missa na Catedral de Metz: o perdão na «Lanterna do Bom Deus»

A viagem do Papa a França terminou esta segunda-feira à tarde com a celebração da Missa na Catedral de Santo Estêvão de Metz, o emblemático templo conhecido como a «Lanterna do Bom Deus» pelos seus mais de 6500 metros quadrados de vitrais, entre os quais se destacam os concebidos pelo pintor judeu Marc Chagall. Foi o último ato público de Leão XIV em solo francês.

Numa região historicamente marcada pelas cicatrizes das fronteiras entre França e a Alemanha, o Pontífice centrou a sua homilia no poder do perdão. Ao refletir sobre a passagem evangélica de dar a outra face, reconheceu que esta atitude é muitas vezes interpretada como fraqueza e convidou todos a fazerem uma pergunta interior: «O que produz, no mundo e em nós próprios, atitudes como a vingança, a retaliação e a rejeição?».

A sua resposta apelou diretamente à memória da própria cidade: «Não é verdade que quem se vinga é mais forte do que quem perdoa. Não é verdade que quem não cede é mais forte do que quem procura a reconciliação. Não é verdade que quem se vai embora batendo a porta é mais forte do que quem se esforça por caminhar em conjunto».

Apoiando-se no profeta Isaías, Leão XIV comparou a paz a uma casa: um dom de Deus que exige também o trabalho de todos e que só se mantém de pé através de uma caridade capaz de perdoar «sem cálculos nem limites, tal como numa família».

Para concluir, o Papa recorreu à própria luz da catedral para dirigir o olhar para o futuro da Europa. Recordou que a verdadeira convivência não nasce da uniformidade, mas da «harmonia das diferenças, onde a ferida do passado se transforma uma fresta por onde a luz pode entrar».

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Domingo, 27. Terço e procissão das velas

Na noite de domingo, o santuário encheu-se de pequenas luzes. Milhares de peregrinos, muitos deles doentes em macas e cadeiras de rodas, avançaram com uma vela na mão enquanto rezavam o terço com o Papa, respondendo ao que a Virgem pediu a Santa Bernadette: que se viesse ali em procissão.

O Papa Leão XIV falou dessa luz como sinal de uma esperança que não se apaga nem sequer na doença. Dirigiu-se sobretudo aos doentes e deixou-lhes palavras de São Paulo para guardar: «Os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que há de revelar-se em nós».

Recordou que em Maria, a Imaculada, «tudo recomeça, tudo volta a ser possível», e, com São Bernardo, apresentou-a como uma estrela para quem se sente perdido: «Se a invocas, não desesperarás». No final, pediu que a luz que cada um levava na mão «nunca se apague» na sua vida.

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Domingo, 27. Encontro com os bispos de França

A terceira jornada começou em Lurdes com um encontro privado com os bispos franceses. Antes de iniciar, o Papa parou diante da imagem de uma escultura que representa uma criança a chorar, símbolo das vítimas de abusos.

O Papa Leão XIV encorajou os pastores a não cederem ao desânimo apesar dos erros do passado: «Levantai-vos com esperança, e não vos canseis de anunciar o Evangelho». Reivindicou o lugar da Igreja no debate público – uma voz que «mesmo não sendo sempre compreendida, é esperada» e «necessária» – e pediu que se defenda a sua liberdade para evangelizar e educar no quadro da particular laicidade francesa.

Sobre os abusos a menores, agradeceu as medidas adotadas e exortou a continuar o caminho da escuta, da verdade, da justiça e da reparação «mantendo a máxima vigilância».

O Papa colocou a família no centro do futuro da sociedade, recordando que é aí que «se aprende a vida em comum, o respeito pelo outro, a gratuidade na doação de si mesmo desinteressadamente». Com essa convicção, encerrou a sua mensagem com um desejo explícito: «Que Jesus viva plenamente nas famílias católicas de França!».

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Domingo, 27. Missa na Prairie do santuário de Lurdes

Cerca de 100 000 fiéis, entre eles numerosos doentes em cadeira de rodas acompanhados por voluntários, encheram desde o amanhecer a esplanada do santuário de Lurdes, à margem do rio Gave e em frente à gruta, para a Missa dominical.

Na sua homilia, o Papa Leão XIV voltou ao coração da mensagem que a Virgem confiou a Santa Bernadette: a conversão. Evocou o triplo «Penitência!» pronunciado em Massabielle e explicou que se trata de «uma obra inspirada pelo amor».

Recordou ainda outra frase de Maria a Bernadette que desconcerta uma sociedade centrada no bem-estar: «Não te prometo que serás feliz neste mundo, mas no outro». Perante as correntes que pretendem redefinir o valor da vida face à doença ou à velhice, apresentou Lurdes como o lugar onde «nenhuma fragilidade é rejeitada». Aos doentes assegurou que as suas cadeiras de rodas e as suas lágrimas escondidas «não são obstáculos», e que o seu papel na Igreja é insubstituível.

A todos os peregrinos disse: «Não partireis de Lurdes como chegastes: partireis como missionários da esperança».

Antes do Angelus, recordou que nessa gruta a Virgem apareceu com o rosário na mão, e convidou todas as comunidades cristãs a rezá-lo durante o mês de outubro para que «cessem as guerras e se restabeleça a paz entre os povos em conflito».

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Domingo, 27. Encontro com os doentes do Accueil Notre-Dame

À tarde, Leão XIV dirigiu-se ao Accueil Notre-Dame, a casa do santuário dedicada a acolher e cuidar dos peregrinos doentes, para partilhar um momento de proximidade com eles e com os seus acompanhantes.

A partir da cena da Anunciação – lema pastoral do santuário este ano –, o Pontífice centrou a sua mensagem no olhar de Maria, que contempla cada ser humano «como uma pessoa única» e confirma que «ninguém é invisível aos olhos de Deus». Nessa certeza fundamentou o valor inalienável de todo o indivíduo, recordando que cada um é «digno» pelo «simples facto de existir e de ter como fim a eternidade». Uma condição sobre a qual foi categórico: «a sua dignidade não se mede nem se discute».

Consciente das situações marcadas por sofrimentos «por vezes terríveis», foi claro perante o debate sobre o fim da vida ao rejeitar «a tentação de tirar a vida sob o pretexto de uma falsa compaixão», enfatizando que «o que é legal não é necessariamente moral».

Dirigindo-se a médicos, enfermeiros, caminheiros e voluntários, definiu o núcleo da sua vocação: «cuidar de uma pessoa que sofre, não eliminá-la». Após exortar a promover os cuidados paliativos e «acompanhar com ternura os doentes» – marca distintiva de Lurdes –, fez-lhes um firme apelo: «Sede servidores apaixonados da vida!». Além disso, valorizou a sua dedicação diária com uma reflexão que enobrece o seu trabalho: «Ao cuidardes dos corpos, cuidais também das almas».

Como remate do encontro, o Papa dedicou algumas palavras aos doentes: «Não sois um fardo, sois o coração pulsante da nossa humanidade e um tesouro precioso para a Igreja».

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Sábado, 26. Visita à Maison Bakhita

O segundo dia em Paris começou na Maison Bakhita, um centro de acolhimento e integração para migrantes da Arquidiocese de Paris, gerido pelas Irmãs Scalabrinianas e criado em 2021 na sequência do apelo do Papa Francisco a acolher, proteger, promover e integrar.

O Papa Leão XIV, evocando Santa Josefina Bakhita – a escrava sudanesa que dá nome à casa –, reivindicou «o papel fundamental das mulheres na construção de uma civilização do amor». A história, recordou, não é escrita por quem parece vencer, impondo-se, mas por quem «abre espaço» e gera confiança.

Face à lógica de ricos e pobres, propôs um outro olhar: «Ninguém é tão pobre que não tenha algo para oferecer; ninguém é tão rico que não tenha algo a receber». E deixou uma certeza: os pobres não são uma categoria sociológica, mas «a própria carne de Cristo».

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Sábado, 26. Encontro com a Assembleia sinodal, catecúmenos e neófitos

O segundo compromisso do sábado levou o Papa ao Instituto Católico de Paris, para um encontro com a Assembleia Eclesial Provincial e, sobretudo, com os que renovam a Igreja pela sua decisão de se batizarem: catecúmenos em preparação e neófitos recém-batizados.

Após ouvir os testemunhos de Josué, Marielle e Sophie, o Papa Leão XIV manifestou a sua surpresa diante da «obra imprevisível de Deus». Num país tão secularizado como França, afirmou, é paradoxal o crescente número de adultos que pede os sacramentos – um sinal da graça que «vai além das análises estatísticas e sociológicas» e contradiz todo o «pessimismo estéril».

Mas advertiu contra a autocomplacência: esse espanto «não deve fechar-nos numa alegre ingenuidade», mas impulsionar ações pastorais concretas. Pediu uma Igreja «em estado de iniciação», capaz de acompanhar com «proximidade, compaixão e ternura» os que se aproximam, respeitando o ritmo de cada um e sem os deixar sozinhos após o batismo, para evitar esse «vazio» de que falou um dos testemunhos.

O Papa sublinhou que estes novos cristãos não apenas recebem: «A sua fé é um tesouro que é oferecido à Igreja da França e à Igreja universal». Ilustrou-o com santo Agostinho, cuja fé era apenas uma semente ao ser batizado e chegou a ser «uma árvore tão grande» que ainda hoje dá conforto.

O Papa encorajou a apoiar-se nos santos de França – Santa Teresa do Menino Jesus e a sua «pequena via» da confiança, São Martinho de Tours e a sua caridade – que nos recordam que a missão se constrói hoje «preservando, acima de tudo, a presença do Senhor na vida quotidiana». E lançou um convite direto aos novos cristãos: «Sede também vós missionários do Evangelho nesta sociedade!».

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Sábado 26. Missa multitudinária na Place de la Concorde

O encontro mais concorrido do dia transformou a monumental Praça da Concórdia de Paris – entre o Jardim das Tulherias e os Campos Elísios – num imenso templo a céu aberto, perante cerca de 700 000 pessoas. O Papa Leão XIV articulou a sua homilia em torno do convite evangélico: «Se alguém tem sede, venha a mim e beba», referindo-se a uma sede existencial «de sentido, de verdade e de realização» no meio de um mundo acelerado.

Durante a celebração, o Pontífice aprofundou a experiência do vazio interior que reaparece de forma paradoxal quando atingimos os nossos objetivos ou concluímos os nossos projetos. Face aos «pequenos ídolos que prometem mundos e fundos, deixando o nosso coração vazio», recordou que, para Deus, «nenhum de nós é um número de bilhete de identidade ou um código de identificação, mas uma pessoa, única e insubstituível».

Aceitar esta verdade é o primeiro passo para se abrir à esperança: «As nossas vidas são certamente frágeis, vulneráveis e destinadas a passar pela morte, mas também maravilhosas, milagrosas, capazes de se renovarem nas relações e de se abrirem ao verdadeiro amor». Por isso, exortou famílias, jovens e novos batizados a não guardarem a fé no âmbito privado, mas a deixá-la transbordar até se tornar, segundo uma célebre imagem de Orígenes, em «poços, nascentes e rios» de fraternidade para a sociedade.

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Sábado 26. Oração diante da gruta de Massabielle, em Lurdes

Ao cair da tarde de sábado, o avião que trazia o Papa de Paris aterrou às 19h00 no aeroporto de Tarbes-Lurdes e os sinos da cidade pirenaica começaram a repicar. A caminho do santuário, Leão XIV parou para saudar os fiéis e, a partir de uma ponte sobre o rio Gave – rebatizada para a ocasião como «Ponte Leão XIV» –, abençoou uma estátua enquanto um coro cantava.

As vozes que entoavam a «Ave Maria» cederam lugar ao silêncio quando o Pontífice se ajoelhou ante a gruta de Massabielle, o lugar onde, em 1858, Santa Bernadette viu pela primeira vez a «senhora vestida de branco». Como qualquer peregrino, tocou a rocha da gruta e bebeu água da nascente, cumprindo o pedido que a Virgem fez a Bernadette: «Vai beber à fonte e lava-te lá».

De seguida, fez uma oração pausada a Nossa Senhora de Lurdes por França. Pediu para o seu povo «o dom da concórdia fraterna» e uma sociedade harmoniosa «banindo toda a violência e todo o ódio», onde cada um possa «trabalhar, constituir a própria família e viver até ao fim com tranquilidade e serenidade». Suplicou por governantes «sábios e generosos», capazes de defender os direitos humanos e de rejeitar «para sempre as lógicas da guerra».

Na parte final, confiou à Virgem as famílias cristãs, as vocações e, de modo especial, «as pessoas doentes e sofredoras» e os acompanhantes vindos a Massabielle em busca de força e de cura. Após confiar à Virgem os falecidos, a visita culminou com um gesto de profunda veneração reservado aos Pontífices: a oferta de uma rosa de ouro a Maria.

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Sexta-feira, 25. Encontro com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático – Palácio do Eliseu

O Papa iniciou esta sexta-feira a sua visita a França no Palácio do Eliseu, onde foi recebido pelo Presidente da República. Após uma breve reunião privada com o chefe de Estado, o Pontífice proferiu um discurso no qual percorreu a história e a vocação da nação gaulesa tendo a dignidade humana como fio condutor.

Durante a sua intervenção, o Papa Leão XIV definiu França como um «farol cultural, artístico e espiritual», destacando ao mesmo tempo a restauração de Notre-Dame como «símbolo de uma esperança reencontrada, a prova de que aquilo que se pensava estar destruído para sempre pode renascer graças à colaboração de todos».

Do mesmo modo, ao abordar as raízes cristãs do país e o seu lema oficial, assinalou que a liberdade, a igualdade e a fraternidade «remetem para exigências éticas universais, que têm na mensagem evangélica uma fonte inesgotável de inspiração».

O Pontífice dedicou um eixo central da sua mensagem à defesa da vida. Face à tendência de depositar expectativas ilimitadas no progresso técnico, alertou contra as «empreendimentos lucrativos» ligados à manipulação genética, à maternidade de substituição ou «à oferta de uma morte programada». Neste contexto, reafirmou que a proteção do direito à vida «constitui o fundamento imprescindível de qualquer outro direito humano» e defendeu uma «correta laicidade» que, longe de excluir a religião do espaço público, promova o diálogo entre o Estado e a Igreja «ao serviço do verdadeiro, do bom e do belo».

Em jeito de encerramento, fez um firme apelo à paz, exortando a nunca nos resignarmos à guerra nem a considerá-la «inevitável». «A paz não é um equilíbrio de forças, mas constrói-se dia a dia com o diálogo e a justiça», afirmou, confiando a França a vocação de se tornar «um artífice incansável da paz».

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Sexta-feira, 25. Discurso na sede da UNESCO em Paris

Convidado pelo seu diretor-geral, o Santo Padre visitou a sede da UNESCO para abordar a dignidade humana, a paz e o diálogo na era da inteligência artificial.

Durante a sua intervenção, o Pontífice reiterou que considera a organização «um interlocutor privilegiado ao serviço do bem comum», renovando assim o compromisso de quase 75 anos da Santa Sé com um espaço onde «a humanidade reflete sobre si própria, sobre a sua história e sobre o seu futuro».

Perante a tendência atual de dar por adquiridas muitas respostas, o Papa propôs regressar à pergunta essencial: «O que significa ser humanos?». A este respeito, recordou que a condição humana começa por ser a de um filho – ninguém escolhe nascer – e, portanto, a de um irmão ou irmã. Sublinhou também a fragilidade de origem: somos «pobres desde o nascimento: carentes de pão e de palavra, de cuidados e de afeto», definindo a humanidade como «um dom e uma prova, uma promessa e uma responsabilidade».

Dessa dignidade comum nasce um compromisso especial para quem trabalha na educação, na ciência e na cultura, chamados «a cuidar de cada pessoa, para que a beleza da nossa liberdade possa resplandecer». Neste quadro, alertou para o impacto desumanizador que a tecnologia pode ter: a inteligência artificial, assinalou, «não consegue responder a perguntas sobre o sentido da existência humana». Por isso, enfatizou a necessidade de proteger os mais jovens, cuja vulnerabilidade no ambiente digital «nunca deve tornar-se ocasião de exploração».

Apesar dos riscos assinalados, o Pontífice encerrou com uma mensagem de confiança. Contrapôs a tentação da dominação – simbolizada pela torre de Babel – à comunhão do Pentecostes, onde cada povo ouve a mensagem de paz na sua própria língua, concluindo com uma afirmação central: «Cada filho que nasce traz consigo uma esperança».

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Sexta-feira, 25. Vésperas na Catedral de Notre-Dame de Paris

Após caminhar dois quilómetros e meio entre Notre-Dame des Champs e a Praça de Saint-Michel, o Santo Padre presidiu às Vésperas na catedral de Notre-Dame de Paris perante cerca de 8000 sacerdotes, religiosos e seminaristas. Embora o ato reunisse a comunidade consagrada, a sua mensagem ligou-se diretamente aos desafios, ao trabalho e às vivências de qualquer pessoa no quotidiano.

Ao evocar o simples gesto de cruzar o limiar da catedral, o Papa sublinhou que a beleza do templo fala «ao coração inquieto e convida-o à paz». No meio de uma sociedade «hiperconectada e ruidosa», destacou que a sobriedade do canto e do silêncio na liturgia pode oferecer a qualquer um um verdadeiro «oásis de paz» face à azáfama quotidiana.

Durante a sua intervenção, o Pontífice insistiu em que a fé não é um refúgio onde nos entrincheirar para fugir aos problemas do presente. Ao recordar que Deus enviou o seu Filho a um mundo «já habitado, já em movimento, já marcado pelas misérias e pela bondade dos seres humanos», defendeu uma comunidade de portas abertas. Nessa missão, colocou os fiéis leigos na primeira linha, definindo-os como «a viva linha da frente da Igreja nas encruzilhadas do mundo quotidiano»: a sala de aula, o escritório, a casa ou o trabalho no campo.

Para sustentar esse compromisso sem cair no desgaste, o Santo Padre salientou a necessidade de cultivar a vida interior e a amizade com Deus na oração. Apoiando-se nas palavras da mística francesa Madeleine Delbrêl – «Sem a oração, não amaríamos o Deus do amor. Podíamos ser seus servos, seus combatentes, mas não seríamos nem os filhos nem os amigos» –, alertou para o perigo de reduzir a fé a um mero ativismo. Face ao desânimo de uma época marcada pela pressa e pela falta de certezas, encerrou com uma mensagem clara: «É, portanto, a esperança que nos anima, e não a resignação».

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Sexta-feira, 25. Vigília de oração com os jovens, “Stade de France”

Cerca de 80 000 jovens encheram o Stade de France, em Saint-Denis, para uma vigília festiva e de oração que encerrou o primeiro dia da visita do Pontífice. A noite começou com Chloé, uma estudante de Farmácia de 25 anos empenhada nos bairros populares parisienses, e François, um estudante de agronomia e monitor escuteiro da Borgonha. Ambos colocaram as suas dúvidas sobre como transmitir a fé sem a impor e como escolher um caminho de vida sem se desanimar.

O Santo Padre escutou com atenção e deu nome às inquietações que pesam sobre esta geração: a precariedade dos projetos, a fragilidade das relações, «o cansaço digital e a ansiedade perante as alterações climáticas ou a situação económica e internacional». Face à pressão pela imagem e pelo desempenho, lançou uma crítica direta ao estilo de vida digital que promete plenitude mas deixa isolamento, alertando para o perigo de ser empurrado «a querer ter tudo, mas a não ser ninguém; a receber uma grande quantidade de likes, mas permanecendo sozinhos connosco mesmos».

Para quem procura descobrir a sua vocação, recordou que Deus não fala de forma confusa, mas «dirige-se a cada um, chamando-vos pelo nome». Como bússola para discernir, sugeriu apoiar-se na oração, na ajuda aos mais vulneráveis e na busca de «um silêncio tão raro e necessário, longe do barulho dos meios de comunicação», encorajando os jovens a não terem medo de responder com generosidade: «Eis-me aqui, Senhor!».

Na sua meditação posterior, o Papa ligou-se a uma ideia central da identidade francesa: a liberdade. Definiu-a não como um conceito abstrato, mas como «uma relação viva com Jesus» que se manifesta nas decisões quotidianas. Nessa linha, propôs uma regra muito simples para saber se uma opção é correta: «O bem dá a vida, nunca a tira; cuida dos outros, não é egoísta».

A noite combinou a oração com um ambiente festivo que incluiu música, luz, representações sobre a história dos santos do país e fogo de artifício. No centro do palco foi colocada de forma excecional a Túnica Sagrada de Argenteuil, ao lado de uma relíquia da Cruz. A primeira, venerada desde a Idade Média como a túnica sem costura que Cristo envergou durante a sua Paixão, saiu pela primeira vez do seu santuário para esta vigília. Perante ambas as relíquias, o Pontífice usou uma última imagem para levar para casa: a túnica que foi despida a Cristo e a cruz que lhe foi imposta transformam-se, unidas, num sinal de esperança para quem hoje procura dar um sentido profundo à sua vida.

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