De 25 a 28 de setembro, decorre a primeira viagem apostólica do papa Leão XIV a França: Paris, Saint-Denis, Lourdes e Metz. Em quatro dias, o Papa percorre lugares que refletem, cada um, uma faceta particular de França e da sua história cristã. Reunimos aqui, dia a dia, os momentos-chave da visita.
Sábado 26
- Visita à Maison Bakhita
- Encontro com a Assembleia sinodal, os catecúmenos e os neófitos
- Missa multitudinária na Place de la Concorde
- Oração diante da gruta de Massabielle, em Lurdes
- Encontro com as autoridades – Palácio do Eliseu
- Visita à UNESCO
- Vésperas na Catedral de Notre-Dame de Paris
- Vigília de oração com os jovens – “Stade de France” (Saint-Denis)
Sábado, 26. Visita à Maison Bakhita
O segundo dia em Paris começou na Maison Bakhita, um centro de acolhimento e integração para migrantes da Arquidiocese de Paris, gerido pelas Irmãs Scalabrinianas e criado em 2021 na sequência do apelo do Papa Francisco a acolher, proteger, promover e integrar.
O Papa Leão XIV, evocando santa Josefina Bakhita – a escrava sudanesa que dá nome à casa –, reivindicou «o papel fundamental das mulheres na construção de uma civilização do amor». A história, recordou, não é escrita por quem parece vencer, impondo-se, mas por quem «abre espaço» e gera confiança.
Face à lógica de ricos e pobres, propôs um outro olhar: «Ninguém é tão pobre que não tenha algo para oferecer; ninguém é tão rico que não tenha algo a receber». E deixou uma certeza: os pobres não são uma categoria sociológica, mas «a própria carne de Cristo».
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Sábado, 26. Encontro com a Assembleia sinodal, catecúmenos e neófitos
O segundo compromisso do sábado levou o Papa ao Instituto Católico de Paris, para um encontro com a Assembleia Eclesial Provincial e, sobretudo, com os que renovam a Igreja pela sua decisão de se batizarem: catecúmenos em preparação e neófitos recém-batizados.
Após ouvir os testemunhos de Josué, Marielle e Sophie, o Papa Leão XIV manifestou a sua surpresa diante da «obra imprevisível de Deus». Num país tão secularizado como França, afirmou, é paradoxal o crescente número de adultos que pede os sacramentos – um sinal da graça que «vai além das análises estatísticas e sociológicas» e contradiz todo o «pessimismo estéril».
Mas advertiu contra a autocomplacência: esse espanto «não deve fechar-nos numa alegre ingenuidade», mas impulsionar ações pastorais concretas. Pediu uma Igreja «em estado de iniciação», capaz de acompanhar com «proximidade, compaixão e ternura» os que se aproximam, respeitando o ritmo de cada um e sem os deixar sozinhos após o batismo, para evitar esse «vazio» de que falou um dos testemunhos.
O Papa sublinhou que estes novos cristãos não apenas recebem: «A sua fé é um tesouro que é oferecido à Igreja da França e à Igreja universal». Ilustrou-o com santo Agostinho, cuja fé era apenas uma semente ao ser batizado e chegou a ser «uma árvore tão grande» que ainda hoje dá conforto.
O Papa encorajou a apoiar-se nos santos de França – Santa Teresa do Menino Jesus e a sua «pequena via» da confiança, São Martinho de Tours e a sua caridade – que nos recordam que a missão se constrói hoje «preservando, acima de tudo, a presença do Senhor na vida quotidiana». E lançou um convite direto aos novos cristãos: «Sede também vós missionários do Evangelho nesta sociedade!».
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Sábado 26. Missa multitudinária na Place de la Concorde
O encontro mais concorrido do dia transformou a monumental Praça da Concórdia de Paris – entre o Jardim das Tulherias e os Campos Elísios – num imenso templo a céu aberto, perante cerca de 700 000 pessoas. O Papa Leão XIV articulou a sua homilia em torno do convite evangélico: «Se alguém tem sede, venha a mim e beba», referindo-se a uma sede existencial «de sentido, de verdade e de realização» no meio de um mundo acelerado.
Durante a celebração, o Pontífice aprofundou a experiência do vazio interior que reaparece de forma paradoxal quando atingimos os nossos objetivos ou concluímos os nossos projetos. Face aos «pequenos ídolos que prometem mundos e fundos, deixando o nosso coração vazio», recordou que, para Deus, «nenhum de nós é um número de bilhete de identidade ou um código de identificação, mas uma pessoa, única e insubstituível».
Aceitar esta verdade é o primeiro passo para se abrir à esperança: «As nossas vidas são certamente frágeis, vulneráveis e destinadas a passar pela morte, mas também maravilhosas, milagrosas, capazes de se renovarem nas relações e de se abrirem ao verdadeiro amor». Por isso, exortou famílias, jovens e novos batizados a não guardarem a fé no âmbito privado, mas a deixá-la transbordar até se tornar, segundo uma célebre imagem de Orígenes, em «poços, nascentes e rios» de fraternidade para a sociedade.
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Sábado 26. Oração diante da gruta de Massabielle, em Lurdes
Ao cair da tarde de sábado, o avião que trazia o Papa de Paris aterrou às 19h00 no aeroporto de Tarbes-Lurdes e os sinos da cidade pirenaica começaram a repicar. A caminho do santuário, Leão XIV parou para saudar os fiéis e, a partir de uma ponte sobre o rio Gave – rebatizada para a ocasião como «Ponte Leão XIV» –, abençoou uma estátua enquanto um coro cantava.
As vozes que entoavam a «Ave Maria» cederam lugar ao silêncio quando o Pontífice se ajoelhou ante a gruta de Massabielle, o lugar onde, em 1858, santa Bernadette viu pela primeira vez a «senhora vestida de branco». Como qualquer peregrino, tocou a rocha da gruta e bebeu água da nascente, cumprindo o pedido que a Virgem fez a Bernadette: «Vai beber à fonte e lava-te lá».
De seguida, fez uma oração pausada a Nossa Senhora de Lurdes por França. Pediu para o seu povo «o dom da concórdia fraterna» e uma sociedade harmoniosa «banindo toda a violência e todo o ódio», onde cada um possa «trabalhar, constituir a própria família e viver até ao fim com tranquilidade e serenidade». Suplicou por governantes «sábios e generosos», capazes de defender os direitos humanos e de rejeitar «para sempre as lógicas da guerra».
Na parte final, confiou à Virgem as famílias cristãs, as vocações e, de modo especial, «as pessoas doentes e sofredoras» e os acompanhantes vindos a Massabielle em busca de força e de cura. Após confiar à Virgem os falecidos, a visita culminou com um gesto de profunda veneração reservado aos Pontífices: a oferta de uma rosa de ouro a Maria.
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Sexta-feira, 25. Encontro com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático – Palácio do Eliseu
O Papa iniciou esta sexta-feira a sua visita a França no Palácio do Eliseu, onde foi recebido pelo Presidente da República. Após uma breve reunião privada com o chefe de Estado, o Pontífice proferiu um discurso no qual percorreu a história e a vocação da nação gaulesa tendo a dignidade humana como fio condutor.
Durante a sua intervenção, o Papa Leão XIV definiu França como um «farol cultural, artístico e espiritual», destacando ao mesmo tempo a restauração de Notre-Dame como «símbolo de uma esperança reencontrada, a prova de que aquilo que se pensava estar destruído para sempre pode renascer graças à colaboração de todos».
Do mesmo modo, ao abordar as raízes cristãs do país e o seu lema oficial, assinalou que a liberdade, a igualdade e a fraternidade «remetem para exigências éticas universais, que têm na mensagem evangélica uma fonte inesgotável de inspiração».
O Pontífice dedicou um eixo central da sua mensagem à defesa da vida. Face à tendência de depositar expectativas ilimitadas no progresso técnico, alertou contra as «empreendimentos lucrativos» ligados à manipulação genética, à maternidade de substituição ou «à oferta de uma morte programada». Neste contexto, reafirmou que a proteção do direito à vida «constitui o fundamento imprescindível de qualquer outro direito humano» e defendeu uma «correta laicidade» que, longe de excluir a religião do espaço público, promova o diálogo entre o Estado e a Igreja «ao serviço do verdadeiro, do bom e do belo».
Em jeito de encerramento, fez um firme apelo à paz, exortando a nunca nos resignarmos à guerra nem a considerá-la «inevitável». «A paz não é um equilíbrio de forças, mas constrói-se dia a dia com o diálogo e a justiça», afirmou, confiando a França a vocação de se tornar «um artífice incansável da paz».
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Sexta-feira, 25. Discurso na sede da UNESCO em Paris
Convidado pelo seu diretor-geral, o Santo Padre visitou a sede da UNESCO para abordar a dignidade humana, a paz e o diálogo na era da inteligência artificial.
Durante a sua intervenção, o Pontífice reiterou que considera a organização «um interlocutor privilegiado ao serviço do bem comum», renovando assim o compromisso de quase 75 anos da Santa Sé com um espaço onde «a humanidade reflete sobre si própria, sobre a sua história e sobre o seu futuro».
Perante a tendência atual de dar por adquiridas muitas respostas, o Papa propôs regressar à pergunta essencial: «O que significa ser humanos?». A este respeito, recordou que a condição humana começa por ser a de um filho – ninguém escolhe nascer – e, portanto, a de um irmão ou irmã. Sublinhou também a fragilidade de origem: somos «pobres desde o nascimento: carentes de pão e de palavra, de cuidados e de afeto», definindo a humanidade como «um dom e uma prova, uma promessa e uma responsabilidade».
Dessa dignidade comum nasce um compromisso especial para quem trabalha na educação, na ciência e na cultura, chamados «a cuidar de cada pessoa, para que a beleza da nossa liberdade possa resplandecer». Neste quadro, alertou para o impacto desumanizador que a tecnologia pode ter: a inteligência artificial, assinalou, «não consegue responder a perguntas sobre o sentido da existência humana». Por isso, enfatizou a necessidade de proteger os mais jovens, cuja vulnerabilidade no ambiente digital «nunca deve tornar-se ocasião de exploração».
Apesar dos riscos assinalados, o Pontífice encerrou com uma mensagem de confiança. Contrapôs a tentação da dominação – simbolizada pela torre de Babel – à comunhão do Pentecostes, onde cada povo ouve a mensagem de paz na sua própria língua, concluindo com uma afirmação central: «Cada filho que nasce traz consigo uma esperança».
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Sexta-feira, 25. Vésperas na Catedral de Notre-Dame de Paris
Após caminhar dois quilómetros e meio entre Notre-Dame des Champs e a Praça de Saint-Michel, o Santo Padre presidiu às Vésperas na catedral de Notre-Dame de Paris perante cerca de 8000 sacerdotes, religiosos e seminaristas. Embora o ato reunisse a comunidade consagrada, a sua mensagem ligou-se diretamente aos desafios, ao trabalho e às vivências de qualquer pessoa no quotidiano.
Ao evocar o simples gesto de cruzar o limiar da catedral, o Papa sublinhou que a beleza do templo fala «ao coração inquieto e convida-o à paz». No meio de uma sociedade «hiperconectada e ruidosa», destacou que a sobriedade do canto e do silêncio na liturgia pode oferecer a qualquer um um verdadeiro «oásis de paz» face à azáfama quotidiana.
Durante a sua intervenção, o Pontífice insistiu em que a fé não é um refúgio onde nos entrincheirar para fugir aos problemas do presente. Ao recordar que Deus enviou o seu Filho a um mundo «já habitado, já em movimento, já marcado pelas misérias e pela bondade dos seres humanos», defendeu uma comunidade de portas abertas. Nessa missão, colocou os fiéis leigos na primeira linha, definindo-os como «a viva linha da frente da Igreja nas encruzilhadas do mundo quotidiano»: a sala de aula, o escritório, a casa ou o trabalho no campo.
Para sustentar esse compromisso sem cair no desgaste, o Santo Padre salientou a necessidade de cultivar a vida interior e a amizade com Deus na oração. Apoiando-se nas palavras da mística francesa Madeleine Delbrêl – «Sem a oração, não amaríamos o Deus do amor. Podíamos ser seus servos, seus combatentes, mas não seríamos nem os filhos nem os amigos» –, alertou para o perigo de reduzir a fé a um mero ativismo. Face ao desânimo de uma época marcada pela pressa e pela falta de certezas, encerrou com uma mensagem clara: «É, portanto, a esperança que nos anima, e não a resignação».
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Sexta-feira, 25. Vigília de oração com os jovens, “Stade de France”
Cerca de 80 000 jovens encheram o Stade de France, em Saint-Denis, para uma vigília festiva e de oração que encerrou o primeiro dia da visita do Pontífice. A noite começou com Chloé, uma estudante de Farmácia de 25 anos empenhada nos bairros populares parisienses, e François, um estudante de agronomia e monitor escuteiro da Borgonha. Ambos colocaram as suas dúvidas sobre como transmitir a fé sem a impor e como escolher um caminho de vida sem se desanimar.
O Santo Padre escutou com atenção e deu nome às inquietações que pesam sobre esta geração: a precariedade dos projetos, a fragilidade das relações, «o cansaço digital e a ansiedade perante as alterações climáticas ou a situação económica e internacional». Face à pressão pela imagem e pelo desempenho, lançou uma crítica direta ao estilo de vida digital que promete plenitude mas deixa isolamento, alertando para o perigo de ser empurrado «a querer ter tudo, mas a não ser ninguém; a receber uma grande quantidade de likes, mas permanecendo sozinhos connosco mesmos».
Para quem procura descobrir a sua vocação, recordou que Deus não fala de forma confusa, mas «dirige-se a cada um, chamando-vos pelo nome». Como bússola para discernir, sugeriu apoiar-se na oração, na ajuda aos mais vulneráveis e na busca de «um silêncio tão raro e necessário, longe do barulho dos meios de comunicação», encorajando os jovens a não terem medo de responder com generosidade: «Eis-me aqui, Senhor!».
Na sua meditação posterior, o Papa ligou-se a uma ideia central da identidade francesa: a liberdade. Definiu-a não como um conceito abstrato, mas como «uma relação viva com Jesus» que se manifesta nas decisões quotidianas. Nessa linha, propôs uma regra muito simples para saber se uma opção é correta: «O bem dá a vida, nunca a tira; cuida dos outros, não é egoísta».
A noite combinou a oração com um ambiente festivo que incluiu música, luz, representações sobre a história dos santos do país e fogo de artifício. No centro do palco foi colocada de forma excecional a Túnica Sagrada de Argenteuil, ao lado de uma relíquia da Cruz. A primeira, venerada desde a Idade Média como a túnica sem costura que Cristo envergou durante a sua Paixão, saiu pela primeira vez do seu santuário para esta vigília. Perante ambas as relíquias, o Pontífice usou uma última imagem para levar para casa: a túnica que foi despida a Cristo e a cruz que lhe foi imposta transformam-se, unidas, num sinal de esperança para quem hoje procura dar um sentido profundo à sua vida.
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