"Não se pode dizer a uma pessoa como deve rezar se não se estiver ao seu lado e não se conhecer a sua realidade"

Alba Duchemin (França, 1992) gosta muito de voluntariado. Trabalha na ONG “Jovens e desenvolvimento” e empenha-se também em actividades da sua paróquia (Maria Auxiliadora em Atocha)

Opus Dei - "Não se pode dizer a uma pessoa como deve rezar se não se estiver ao seu lado e não se conhecer a sua realidade"

1. Que significado tem para ti a iniciativa do Papa neste Sínodo?

Parece-me muito acertada e fico satisfeita por a Igreja abordar as coisas a partir da base; não a partir das nuvens, mas sim com os pés na terra. Se queremos mudar e atualizar a Igreja, há que começar pela juventude porque os jovens serão o futuro. São eles que estão a pedir a mudança e para quem se está a fazer esta reflexão, portanto, é muito importante escutar a sua voz. Creio que todo o trabalho que se está a fazer neste Sínodo é muito corajoso e provavelmente não está a ser suficientemente valorizado, mas certamente veremos a sua repercussão dentro de alguns anos.

2. Pessoalmente, quais te parecem ser os temas mais importantes deste Sínodo?

Que se esteja a dar lugar, com tanta força, à participação e também ao esforço que se está a fazer para analisar a realidade, para se poder adaptar a ela. Embora cada país seja diferente, os jovens são jovens aqui, na América, na Oceânia… e as suas realidades são muito semelhantes, devido sobretudo ao efeito da globalização. Por exemplo, tudo o que tem a ver com o mundo digital: é um tema que afeta todos os jovens e que a Igreja deve repensar. Outro tema muito importante é o acompanhamento, a que se deu muita importância nos textos do pré-sínodo.

3. Por que te parece tão importante o acompanhamento?

Está-se a falar muito de escutar, de dignificar, de personalizar cada processo de fé… e isso só se pode conseguir estando ao lado da pessoa, tanto mais se é jovem. No meu caso, que recebo formação dos Salesianos, tenho um acompanhamento espiritual e formei-me para acompanhar outros, algo que para mim é muito importante, sobretudo porque nos sentimos instrumento de Deus. Creio que este é um ponto de partida chave na actualização da fé. Só estando perto das pessoas se entende o que estão a viver, de que necessitam, qual é a sua relação com Deus… Não se pode dizer a uma pessoa como deve rezar se não se estiver ao seu lado e não se conhecer a sua realidade.

4. No caso de Madrid, o trabalho do pré-Sínodo foi orientado através dos chamados “Parlamentos da Juventude”, em que consistiram exatamente?

Desenvolveram-se vários encontros paralelamente em diversas vigariarias de Madrid. A iniciativa começou em Roma, mas em Espanha recebemos o testemunho e, em Madrid o Arcebispo Mons. Osoro pô-los em movimento com muita determinação.

Os encontros duravam entre duas e quatro horas. Começavam com uma oração conjunta e depois havia lugar para o debate sobre dez temas: sociedade actual, mundo do trabalho, voluntariado, entrega da vida… Cada um destes temas era debatido por grupos de não mais de doze jovens de diferentes idades, paróquias e realidades eclesiais, que partilhavam as suas perspetivas. Em maio, teve lugar um último fórum com representantes de todas as vigararias.

5. Em que debate te tocou participar?

Eu gostava de todos os temas, apetecia-me falar de todos. Por exemplo, “Igreja” parecia-me bastante atrativo porque a Teologia me atrai muito, mas por fim estive no grupo de “Voluntariado e Caridade”, porque trabalho no terceiro setor e era onde podia dar um contributo maior: desde como viver a caridade através do voluntariado ou porque dignifica a pessoa, até que linguagem usar, que formação é necessária ou como dar-lhe visibilidade.

6. Como chegaste a esta iniciativa dos Parlamentos?

Estava na equipa organizadora do Parlamento da Juventude da minha vigararia, a quinta, porque estou na Mesa Jovem e já tínhamos passado um ano a refletir sobre todos os documentos do Sínodo e a realidade dos jovens, concretamente nas nossas imediações. Neste segundo ano. já pusemos mãos à obra, com alguma ação pastoral e encabeçando este Parlamento da Juventude. Embora o material tenha sido preparado pela DELEJU, estivemos na equipa organizadora.

Desde que, em setembro de 2017, nos propuseram os Parlamentos, estávamos ansiosos pelo seu lançamento. Cada um dos membros da equipa se encarregou de convocar os jovens na nossa paróquia e nas paróquias próximas. Quanto a mim, quanto mais o contava. mais ia acreditando que valia a pena.

7. São todos cristãos?

Somos todos crentes, pelo menos gente que reconhece a existência de Deus. Nos espaços de debate, havia gente mais afastada da fé e o seu contributo foi muito interessante, embora seja verdade que a maioria era gente ativa na Igreja, porque a convocatória foi feita nas paróquias e é um apelo que não é atrativo para quem está afastado.

Por exemplo, na primeira convocatória, havia uma pessoa homossexual que se declarava um pouco condenada pela Igreja, mas participou. A mim parece-me engraçado que uma pessoa seja capaz de ir e dizer “não me senti confortável e venho aquiexpressá-lo”. Esta é a chave. Todos íamos com essa atitude: de escuta, de dar voz e também de crítica construtiva sobre as realidades com que não nos sentimos tão confortáveis na nossa Igreja.

8. Não foi um pouco impossível retirar conclusões com tanta gente?

Um pouco. Coube-me ser secretária do meu grupo: ia tomando notas, tentando retirar as palavras- chave e esquematizar, e era complicado porque, embora houvesse temas em que todos coincidíamos facilmente, noutros, cada um vive realidades tão diferentes, que era difícil. Contudo, há um núcleo central em que todos os jovens estão de acordo: que há muita diversidade, que são precisas mais ação e mais visibilidade. Também vimos que há alguns temas em que a Igreja não está atualizada.

9. Por exemplo?

Por exemplo, no grupo de “Afetividade e sexualidade” pedia-se mais análise e compreensão por parte da Igreja face à realidade que existe atualmente no mundo. Por vezes, os jovens têm a sensação de que se parte de realidades idílicas ou que se dão explicações com uma linguagem que a gente de hoje não entende.

No grupo do “Mundo do trabalho” acontecia o mesmo: os jovens veem que há uma grande diferença entre o que se prega e o que há na sociedade. Quanto a ética, direitos humanos, respeito pela pessoa, dignidade da pessoa… são temas que estão em cima da mesa, mas que não se têm trabalhado em profundidade, ouvindo todos.

Ainda assim, estamos em processo de mudança. O Papa Francisco está a ir em frente com o seu chamado “novo estilo”, sendo capaz de identificar novas realidades e enfrentando os desafios que representam. Sabemos que nem todos estão de acordo com o que o Papa diz, mas ele está a ser muito corajoso.

10. Como vão fazer chegar todas estas conclusões ao Sínodo?

Na primeira fase do Parlamento, o Cardeal de Madrid recebeu o documento de conclusões de cada vigararia e, no encontro final entre vigararias do mês de Maio, estiveram presentes os bispos auxiliares e puderam viver, em primeira mão, os debates e o retirar, em comum, das conclusões. Depois deste Parlamento, o Arcebispo Osoro organizou um pequeno encontro com alguns dos jovens participantes para lhes perguntar em primeira mão as suas impressões e poder transmiti-las no Sínodo.

A sua atitude em todos os momentos, e assim no-lo transmitiu também de palavra, é de que as palavras exatas dos jovens cheguem aos ouvidos do Papa. Por isso, os jovens de Madrid estão a sentir-se muito ouvidos, não de modo idílico, mas real. Depois há que esperar para ver se a mudança se torna efetiva.