Quais são as bem-aventuranças?

O Catecismo da Igreja Católica ensina-nos que “as bem-aventuranças” estão no centro da pregação de Jesus. O seu anúncio retoma as promessas feitas ao povo eleito, desde Abraão. A pregação de Jesus completa-as, ordenando-as, não já somente à felicidade resultante da posse duma terra, mas ao Reino dos céus.

Perguntas sobre a fé cristã
Opus Dei - Quais são as bem-aventuranças?

As bem-aventuranças retratam o rosto de Jesus Cristo e descrevem-nos a sua caridade: exprimem a vocação dos fiéis associados à glória da sua paixão e ressurreição; definem os atos e atitudes caraterísticas da vida cristã; são as promessas paradoxais que sustentam a esperança no meio das tribulações; anunciam aos discípulos as bênçãos e recompensas já obscuramente adquiridas; já estão inauguradas na vida da Virgem Maria e de todos os santos. (Catecismo da Igreja Católica, 1716-1717).

As bem-aventuranças (Mt 5, 3-12)

- Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus.

- Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.

- Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.

- Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

- Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.

- Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.

- Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.

- Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o Reino dos céus.

- Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal de vós. Alegrai-vos e exultai, pois é grande nos céus a vossa recompensa».

1ª Bem-aventurança: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus”.

 “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus”.

O domínio das Bem-Aventuranças começa onde termina o do Decálogo. Cristo convida-nos a um desinteresse verdadeiro. Pede aos menos favorecidos que fechem, resolutamente, o seu coração a qualquer cobiça. Ordena aos privilegiados que se desfaçam do supérfluo, em proveito dos que não têm o necessário, e convida-os a exercer esta medida obrigatória, porque um cristão não pratica a virtude da caridade quando socorre os outros: só começará a amar os seus semelhantes a partir do momento em que se privar de si próprio em favor deles. Não falamos, evidentemente, do simples desinteresse de pessoas honestas e justas, se bem que a probidade e o respeito dos outros levem mais de uma vez a um empobrecimento notável.

Quando é que Jesus Cristo foi honesto e justo? Com quem? … Com a pecadora pública, com o bom ladrão, pagou os impostos como qualquer cidadão …


2ª Bem-aventurança: “Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra”

“Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra”.

A palavra grega que traduzimos por «mansos» aplica-se àqueles que possuem diversas qualidades, desde a doçura até à tolerância. Mas não são, em caso algum, nem os moles nem os amorfos. A mansidão evangélica supõe firmeza de caráter. «Que o vosso coração não se perturbe» dirá Cristo (Jo 14, 1, 27). E acrescentará noutra ocasião «Por causa da vossa paciência salvareis as vossas almas» (Lc 21, 19). Não é uma questão de temperamento, de uma tendência natural para a indiferença ou para a apatia; também não é o hábito de capitular perante as opiniões ou vontades dos outros, para evitar complicações. É uma virtude e, portanto, um ato de força. Não nos iludamos com o seu aspeto calmo e até sorridente, que só adquiriremos usando de severidade para connosco próprios.

Quando é que Jesus Cristo viveu a mansidão? Com quem? … Com os pecadores, com os fariseus hipócritas, durante a Paixão …


3ª Bem-aventurança: “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados”.

“Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados”

A quem tiver confiança em Deus, mesmo nos dias que não forem felizes oferecerão a sua pequena alegria: a energia sorridente na adversidade ou a canção simples que dá ritmo ao trabalho; o impulso interior que resiste ao perigo e à tristeza, ou simplesmente a poesia que transfigura as pequenas misérias de cada dia. Os homens são tristes porque não compreendem ou porque não aceitam. O cristão abandona-se ao Pai, que sabe e que decide; ao Deus que distribui os dias de sol ou de nevoeiro; ao Artista delicado que imaginou os espinhos para proteger as rosas; mas muito mais ao «Deus que se fez homem para que o homem se tornasse Deus». E nesta frase de Santo Agostinho vai todo o «segredo gigantesco» da alegria cristã.

Quando é que Jesus Cristo manifestou alegria? Com quem? … Com as crianças “deixai que se aproximem de mim”, com as pessoas simples, com os seus amigos, descansando …


4ª Bem-aventurança: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”.

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”.

A santidade carateriza-se pela união com Cristo. União de vida, de graça e de glória: é a obra exclusiva de Deus. União de pensamento, de louvor, de obediência, de amor: é a nossa parte. A fome de santidade é, pois, um tormento irresistível de formar uma única coisa com Ele; um desejo sempre vivo de conformar os nossos pensamentos com os seus; de identificar a nossa vontade com a sua, o que exige uma determinação sempre contínua de nos fazermos semelhantes a Ele nas nossas ações. Esta fome, sempre insatisfeita, Cristo acalma-a e alimenta-a ao mesmo tempo, pela sua graça, até a saciar completamente na união do céu.

Quando é que Cristo recorria ao seu Pai? Com quem? … Antes de tomar decisões, perante as dificuldades, com os seus amigos e ensinando-nos a rezar o Pai Nosso …


5ª Bem-aventurança: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”.

“Bienaventurados los misericordiosos, porque ellos alcanzarán misericordia”.

A misericórdia é, por último, um ato de justiça para connosco próprios. “Não quero pensar mais nisso, dizemos, mas não perdoo”. Mas, apesar de tudo, continuamos a pensar, encerramo-nos numa frieza calculista, tornamo-nos desconfiados, azedos e sufocamos a bondade. Só saberemos esquecer quando perdoarmos. A maneira de triunfar da ofensa é recusarmo-nos a considerar-nos ofendidos: é a maneira de Deus, que destrói verdadeiramente o mal. Perdoar é um poder divino.

Quando é que Jesus Cristo perdoa? A quem? … Sempre e a todos.


6ª Bem-aventurança: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”.

“Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus”.

Cristão verdadeiro é aquele que assina cristão em todas as circunstâncias. É o homem de palavra; vai até ao fim nas suas convicções, sem se deixar dominar por qualquer compromisso. As suas atitudes, decisões, tentativas, revelam-no, “caraterizam-no” como cristão.

Esta mesma integridade de caráter deve ser cultivada em todos os discípulos de Cristo. Ela esbarra com o que hoje se chama conformismo, esse hábito que leva a pautar a conduta pelas ideias ou exemplos da maioria. Este existiu sempre, e apenas é mais sensível na nossa época, que desenvolveu ao mesmo tempo o espírito de carneiro e os meios de publicidade. Hoje espalham-se as opiniões e impõem-se os costumes da mesma forma que os produtos alimentícios ou uma marca de sabonete. Hoje tudo se fabrica em série. Os habitantes do planeta não tendem apenas a moldar a mesma silhueta num fato de corte idêntico; a uniformidade não é menos rigorosa no domínio do pensamento.

Quando é que Jesus Cristo atua sem duplicidade nem engano? Com quem? … Com os seus Apóstolos, amigos e inimigos…


7ª Bem-aventurança: “Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”.

“Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”

As bem-aventuranças anteriores puseram-nos a espada na mão para cortarmos pela raiz as paixões humanas. Se nos libertarmos das peias do dinheiro e do orgulho; se nos imunizarmos contra a dor; se nos arrancarmos à mediocridade, à dureza e à duplicidade, então a paz de Cristo pode expandir-se em nós e brilhar à nossa volta.

Se é possível, na medida em que depende de vós, tende paz com todos os homens (Rom 12, 18).

S. Paulo, exortando os fiéis de Roma a mostrarem-se pacíficos, não lhes promete que as suas tentativas amigáveis hão de ser retribuídas na mesma moeda. “Se é possível, na medida em que depende de vós”. Para viver em paz com outra pessoa, é preciso que ambas o queiram. E o Apóstolo apenas tem em vista aqui as relações habituais da vida. Que será, ao tratar-se de manter a paz pública, quer entre cidadãos da mesma pátria, quer entre os diferentes povos da terra? Mas, os receios, as próprias probabilidades de um desaire não dispensam o cristão de tentar tudo, de atrever-se a tudo, para fazer reinar a paz no mundo. E só com esta condição é que merecerão ser chamados filhos de Deus.

Quando é que Cristo transmite a paz? Com quem? … Dialogando inclusivamente com os seus inimigos, perante as discussões dos seus Apóstolos, nos momentos de tensão e de sofrimento…


8ª Bem-aventurança: “Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o Reino dos céus”.

“Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o Reino dos céus”.


Cristo interroga o auditório: “Estais decididos a lutar pelos direitos de Deus e pelos direitos dos vossos irmãos, a opor-vos ao mal sob todas as formas?” Para dilatar o reino de Deus, precisa de discípulos corajosos. Os que vierem depois d´Ele não deverão contentar-se em ensinar e praticar a “justiça” – terão ainda de a defender e de sofrer por ela.

Este apelo à coragem é dirigido aos homens de todos os tempos, a todos os que quiserem ser cristãos. Lembremo-nos de que Ele nos recruta para um combate cujo resultado não é incerto: “Eu venci o mundo”. Devemos estar alegres, pois apesar da fadiga, da denúncia e da injúria, estamos certos da vitória do Evangelho.

Quando é que Jesus Cristo foi valente? Com quem? … Diante do mar, diante da dor e do sofrimento …


9ª Bem-aventurança: “Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal de vós. Alegrai-vos e exultai, pois é grande nos céus a vossa recompensa”.

“Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal de vós. Alegrai-vos e exultai, pois é grande nos céus a vossa recompensa”.

Cristãos, reparai que temos mais do que Moisés e os Profetas. Alguém veio das esferas eternas, de onde os homens não voltam. O Filho de Deus fez-se homem para nos fazer participar da sua filiação divina. Toda a sua pregação foi orientada para esta vida nova e eterna, concedida àqueles que acreditavam nele. Aos céticos que o intimavam a dar provas do que dizia, respondia que dava apenas uma. Ele próprio sofreria a morte e depois retornaria, animado daquela Vida que comunicaria aos homens regenerados.

Os acontecimentos deram-se como Ele anunciara. Notai que a nossa fé não assenta em teorias, mas em factos históricos. E o facto principal é a ressurreição de Cristo. Os apóstolos começaram por não acreditar na realidade de semelhante prodígio. Hesitaram e duvidaram. Finalmente, em presença das aparições repetidas do Salvador a eles mesmos e aos outros – numa delas estavam reunidos mais de quinhentos irmãos – renderam-se à evidência. E proclamaram até à morte aquilo de que tinham sido testemunhas: “Vimo-lo com os nossos olhos; tocámo-lo com as nossas mãos; comemos e bebemos com Ele depois da ressurreição de entre os mortos”.

Inutilmente, os outros recorrem a ameaças para os fazer calar: “Não podemos deixar de dizer o que vimos e ouvimos”.

Não só Paulo, como ainda os outros apóstolos tiraram as consequências do triunfo de Cristo sobre a morte. A ressurreição é a prova suprema da sua divindade e da verdade da sua doutrina, e além disso inclui a certeza da nossa própria ressurreição. Como as primícias são a prova da futura ceifa, também a vitória dos cristãos está contida na vitória de Cristo.

Quando é que Jesus cristo viveu o otimismo profundo? Com quem? … diante de aparentes fracassos, com os traidores …

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Artigo escrito com extratos do Sermão da Montanha de Georges Chevrot (3ª Edição, Edições Prumo, 1992).


Bibliografia e links