“Posso rezar por eles com o meu trabalho”

Mary tem uma agenda preenchida numa cidade movimentada, mas encontra alegria e sentido na sua rotina diária. Como numerária do Opus Dei, Mary esforça-se por viver a sua vocação à santidade no mundo do trabalho. Nesta entrevista, Mary descreve como a sua fé, os ensinamentos de São Josemaria e o espírito do Opus Dei a ajudam no seu trabalho enquanto designer centrada no ser humano.

Fale-nos um pouco sobre a sua origem, os seus interesses e o que estudou

Cresci em Chicago e adoro a minha cidade! Embora já tenha vivido noutras cidades, estou grata por estar de volta ao Elms University Center, no coração de Chicago, perto dos meus pais e irmãos.

Explorar a cidade é o meu passatempo principal. Aos fins de semana, ponho a conversa em dia com uma amiga, enquanto caminhamos pela margem do lago ou pelo passeio ribeirinho, ou descubro um novo café num dos bairros de Chicago.

Estudei Engenharia Mecânica com especialização em design de produto. Durante a licenciatura, conheci o processo de design centrado no ser humano, que tem sido o fio condutor de todas as minhas experiências profissionais. É o que mais adoro no que faço. O design centrado no ser humano começa com a compreensão da experiência de quem utiliza um produto ou presta um serviço, tornando-se o princípio que norteia a conceção de novos produtos e serviços.

Pode descrever, de forma breve, a sua carreira profissional?

Comecei na área do design de produto de equipamento para restaurantes e, posteriormente, de produtos para consumo. Depois, trabalhei alguns anos no fabrico e criação de linhas de montagem de instrumentos usados na medicina. Dos produtos tangíveis passei para a criação de experiências de serviço em espaços sem fins lucrativos.

Atualmente, trabalho como designer estratégica para um instituto de saúde pública, numa universidade. Presto serviços de consultoria a instituições públicas de saúde, para a criação de acesso equitativo a cuidados de saúde, para populações com necessidades sociais relacionadas, tais como insegurança alimentar ou habitacional.

O que a levou a trabalhar nesta área em particular? Do que gosta neste trabalho?

Tenho estado envolvida em projetos sociais desde muito nova, graças ao exemplo dos meus pais e às oportunidades que tive durante o ensino secundário e a universidade. Enquanto jovem profissional, continuei a dedicar algumas horas por semana ao voluntariado, em diferentes instituições. Conheci muitas delas no contacto com pessoas ou programas ligados ao Opus Dei.

Na pós-graduação, estudei conceção de sistemas e liderança estratégica. Ao mesmo tempo, para complementar os meus estudos, li a doutrina social da Igreja Católica e comecei a refletir sobre como os sistemas e as políticas, baseados numa compreensão profunda do ser humano, têm o potencial de criar trajetórias para que as pessoas socialmente vulneráveis possam levar uma vida mais plena.

O que o Papa Francisco escreveu em relação à aproximação aos nossos vizinhos mais necessitados, bem como as cartas de São Josemaria, inspiraram-me a procurar oportunidades profissionais onde pudesse dedicar toda a minha energia ao trabalho de impacto social.

Como é o seu dia típico de trabalho?

Todos os dias são diferentes! Os meus dias preferidos são aqueles em que estou “no terreno” com a equipa de investigação, a aprender com quem estiver mais próximo das questões que estamos a tentar resolver. É comum passar uma ou duas semanas em cada projeto a viajar pelo estado, para visitar clínicas, acompanhar a equipa e conversar com pacientes e respetivas famílias.

Quando não estou em trabalho de campo, estou em casa a rever gravações de entrevistas e notas, ou no escritório com os meus colegas. Debatemos sobre o que descobrimos, esboçamos possíveis soluções e organizamos sessões de trabalho, com as diversas partes interessadas, para projetar sistemas futuros e traçar um plano para alcançá-los.

Trabalho num escritório aberto, com muitos quadros brancos e divisórias móveis cheias de post-its coloridos e de esboços dos processos nos quais estamos a trabalhar. Adoro o dinamismo e a criatividade do processo, do espaço e das pessoas.

São Josemaria percebeu que é possível santificar o próprio trabalho. No que diz respeito à sua área de trabalho específica, como acha que esta pode ajudar a transformar o mundo?

Estou a trabalhar num projeto para integrar duas agências governamentais que financiam e prestam serviços na área da saúde mental e do consumo de substâncias. Atualmente, nos EUA, a maioria das pessoas com problemas concomitantes de saúde mental e de consumo de substâncias tem de se dirigir a uma clínica para tratar a sua ansiedade ou depressão (por exemplo) e a outra para lidar com a dependência de drogas. Estamos a tentar construir um sistema de saúde em que, independentemente da porta pela qual se entre, se tenha acesso a cuidados holísticos que ajudem à recuperação a longo prazo.

Também contribuo, em hospitais psiquiátricos estatais, para a implementação de uma abordagem de tratamento personalizada para doentes com doenças mentais graves, com problemas na justiça, para que possam aceder a cuidados de qualidade num ambiente o menos restritivo possível. Na maioria dos estados dos EUA, não há camas suficientes nos hospitais psiquiátricos. As pessoas ficam a definhar na prisão durante semanas e meses, sem o tratamento de que necessitam para se estabilizarem, no sentido de poderem ter uma voz ativa no seu processo judicial, participando na sua própria defesa.

A transformação é muito lenta neste tipo de trabalho, o que pode desencorajar. Tento fazer a minha parte para concretizar a mudança da forma mais eficaz possível, contornando as limitações do sistema e colaborando com as pessoas e estratégias que podem levar a soluções.

De que forma os ensinamentos de São Josemaria sobre a importância da santificação no trabalho a ajudaram a desempenhar as suas funções?

Sinto-me muito grata por saber que a transformação a nível pessoal e espiritual segue o calendário de Deus, não estando presa aos limites humanos!

Lembro-me de uma conversa com um colega de trabalho, a meio de uma investigação emocionalmente difícil. Uma história em particular fez-nos parar e até chorar. Sentimos profundamente o contraste gritante entre a nossa situação, sentados num escritório confortável a fazer planos para reparar um sistema comprometido, e a vida traumática de quem viveu as falhas do sistema na própria pele. Quando o meu colega me perguntou como lido com esse contraste, respondi que me ajuda saber que posso rezar por essa pessoa e pela sua família, com o meu trabalho.

Consola-me muito saber que, ao receber nosso Senhor na Eucaristia, todos os dias, Ele me empresta as suas mãos e o seu coração durante o meu trabalho. Adoro a citação de São Josemaria: «Uma hora de estudo, para um apóstolo moderno, é uma hora de oração» (Caminho, n. 335). Sei que cada hora do meu trabalho pode ser uma oração de súplica em que, com a minha concentração e intenção, em vez de usar as minhas palavras, peço a Jesus que console as pessoas, durante qualquer tarefa que tenha pela frente.

Ao mesmo tempo, tento não ficar pela teoria e o simples planeamento. Não posso resolver pessoalmente a epidemia de solidão nem eliminar todas as mortes por desespero, mas posso fazer “pequenas coisas”, como ensinou São Josemaria. O que se traduz, por exemplo, na minha “batalha do café com leite”. Todas as manhãs, tento passar por um café, no caminho para o trabalho, e usar esse dinheiro para comprar cartões-presente para uma sanduíche, para oferecer às pessoas com as quais me cruzo e que estão a pedir comida. Não é grande coisa, mas ajuda-me, espiritualmente, a ligar-me ao meu trabalho e às pessoas a quem o meu trabalho serve.

De que forma o espírito e as atividades do Opus Dei a ajudaram a ver o seu trabalho como um espaço para cultivar amizades e aproximar as pessoas de Deus?

Poucos dos meus colegas de trabalho partilham a minha fé, mas todos partilham a minha preocupação e desejo de tornar o mundo um lugar melhor. Gosto do facto de a formação no Opus Dei dar ênfase ao tempo para compreender colegas de trabalho e amigos, para conhecer a forma como veem o mundo e para permitir que nos conheçam. O que leva, naturalmente, a algumas conversas sobre Deus.

Em viagens de trabalho, por exemplo, partilhamos o carro, por isso é bastante óbvio quando peço as chaves para poder ir à Missa. O facto de partilhar com naturalidade esta parte importante da minha vida levou a conversas profundas com os meus colegas sobre as suas experiências em relação à fé.