Opus Dei: uma “grande catequese” para qualquer idade e situação

Sobre os jovens de São Rafael, as atividades de São Gabriel, os cooperadores e amigos: este artigo descreve como o acompanhamento espiritual e a formação cristã se adaptam a cada etapa da vida, fomentando a amizade, a santificação do trabalho e o serviço ao próximo no mundo.

Que podemos ver quando Deus atua no nosso interior ou na alma das pessoas que nos rodeiam? Que podemos perceber exteriormente? Embora a ação de Deus costume ser discreta e silenciosa, muitas vezes podemos intuí-la, observando o que acontece externamente, a começar pela linguagem corporal, por vezes involuntária, até chegar aos atos. Quando deixamos Deus agir invisivelmente nos nossos corações, que se pode ver mesmo?

Nas páginas do Evangelho, encontramos alguns relatos do que acontece exteriormente quando alguém se depara com Jesus e Lhe abre o coração. Há o caso da mulher samaritana que, após uma longa conversa com o Senhor, se esqueceu do que estava a fazer – «deixou a bilha» (Jo 4, 28) – e correu de volta para a sua aldeia, dizendo a todos os que encontrava pelo caminho: «Vinde ver um homem que me disse tudo quanto fiz. Não será Ele o Messias?» (Jo 4, 29). Há também o homem que, depois de ter sido possuído durante muitos anos por um espírito imundo e violento, se prostrou diante do Senhor, foi curado e imediatamente se «retirou, começou a apregoar na Decápole o que Jesus fizera por ele, e todos ficavam admirados» (Mc 5, 20). Ou, por último, encontramos o homem rico que reage de forma diferente, mas com igual determinação: assim que Jesus entrou na sua casa e na sua vida, decidiu dar metade dos seus bens aos pobres e restituir quatro vezes mais por qualquer injustiça que tivesse cometido no passado (cf. Lc 19, 8). Todos “se apressam a contar”, “se apressam a proclamar”, sentem a urgência de reparar o mal, para serem esse mesmo amor de Cristo para com os outros.

Isso que se pode ver, no qual se materializa a alegria de se abrir ao amor de Jesus, é aquilo a que São Josemaria chamava uma “grande catequese”: a necessidade que tem aquele que descobre o amor de Cristo de contar e de amar com obras. «Toda a Obra – escreveu o fundador do Opus Dei – equivale a uma grande catequese, feita de forma viva, simples e direta no coração da sociedade civil»[1].

Uma amizade que proporciona formação

O Prelado do Opus Dei recordou-nos que uma das luzes importantes que São Josemaria recebeu de Deus foi a de redescobrir que a amizade autêntica é evangelização, que «a própria amizade é apostolado, a própria amizade é um diálogo em que damos e recebemos»[2]. E esta amizade procura, normalmente, proporcionar o que a outra pessoa necessita em cada situação particular e única: conselhos, descanso em conjunto, ajuda material, companhia numa tarefa, uma conversa profunda… Além disso, quando for adequado, para aqueles que encontram inspiração para a sua própria vida cristã na mensagem de São Josemaria, pode ser facultado um plano de formação humana e espiritual, no qual esta “grande catequese” é posta em prática. «Somos para a multidão – disse São Josemaria –, mas perto de nós há muitos amigos e companheiros que recebem de modo mais imediato o influxo do espírito do Opus Dei»[3].

Esta forma específica de partilha de amizade estrutura-se em torno daquilo a que o fundador do Opus Dei chamou “obra de São Rafael”, quando dirigida aos jovens, e “obra de São Gabriel”, quando dirigida a adultos ou pessoas com um projeto de vida mais avançado. Envolve atividades, tanto individuais como em grupo, retiradas das tradições da Igreja: principalmente palestras sobre como viver a fé no dia a dia, mas também retiros espirituais, aulas de catecismo, visitas a pessoas com necessidades especiais, acompanhamento espiritual, e assim por diante. Não se trata de um curso ou atividade como os que são oferecidos por uma instituição académica ou laica, onde o foco principal é a informação transmitida. Em vez disso, a formação é vivida como um encontro de amigos, onde o aspeto relacional, a compreensão mútua e a confiança partilhada são de importância primordial.

“Rapazes e raparigas de São Rafael”

O apostolado que o Opus Dei faculta aos jovens está sob o patrocínio de São Rafael e São João; o primeiro porque é o arcanjo que ajudou Tobias a descobrir e a preparar-se para a sua vocação para o matrimónio, e o segundo porque é o mais novo dos apóstolos, que seguiu Jesus tendo recebido o dom do celibato. É uma preparação humana e espiritual que procura chegar à mente, ao coração e às mãos: «A linguagem da cabeça, para pensar claramente o que sentimos e o que fazemos. A linguagem do coração, para sentir bem profundamente o que pensamos e o que fazemos. E a linguagem das mãos, para fazer, com eficácia, o que sentimos e o que pensamos»[4].

O seu objetivo é formar uma personalidade madura, uma “alma de oração”, capaz de santificar o estudo ou o trabalho vivendo as virtudes humanas e, assim, lançando as bases para a construção de uma relação pessoal sólida com o Pai, o Filho e o Espírito Santo através da graça recebida nos sacramentos.

As atividades que contribuem para o amadurecimento da cabeça, do coração e das ações incluem a participação nos Círculos de São Rafael – palestras sobre a doutrina cristã –, o acompanhamento de pessoas necessitadas, a catequese, a aprendizagem da oração pessoal através de meditações guiadas e a participação noutras iniciativas organizadas em ambiente familiar. São Josemaria chamava aos jovens que participavam regularmente nestas atividades “rapazes de São Rafael”: não são membros do Opus Dei, mas, explicou, «há, sem dúvida, uma união muito estreita dos rapazes de São Rafael com a Obra»[5], já que são amigos íntimos desta família, sentem o Opus Dei como seu e procuram também partilhar com os outros o que receberam.

«Há uns séculos – comentou o Papa Leão num encontro com jovens – Santo Agostinho compreendeu o desejo profundo do nosso coração, que é o desejo de todo o coração humano. Também ele passou por uma juventude tempestuosa, porém não se conformou, não silenciou o clamor do seu coração. Agostinho procurava a verdade, a verdade que não dececiona, a beleza que não passa. E como a encontrou? Como encontrou uma amizade sincera, um amor capaz de dar esperança? Encontrando Aquele que já o procurava: Jesus Cristo»[6].

É isso que o Opus Dei oferece aos rapazes e raparigas de São Rafael em todas as atividades que organiza para eles: um encontro com Jesus nos sacramentos, no próximo necessitado, na oração, no estudo ou no trabalho, na formação doutrinal, na amizade e na transmissão da fé àqueles que não a conhecem; em suma: na santificação da sua vida quotidiana.

Quem são os cooperadores?

Algo de semelhante pode dizer-se dos adultos que, sem pertencerem ao Opus Dei, participam em atividades de formação – atividades de São Gabriel – como retiros, círculos, aulas doutrinais, etc. Entre estes, alguns, aqueles que assim o desejarem, podem ser nomeados cooperadores, precisamente porque estão dispostos a colaborar de muitas formas diferentes. Esta cooperação dá-se segundo a vontade de cada um: sobretudo através da oração, mas também, se o desejarem e puderem, materialmente, com o seu próprio trabalho, o tempo ou o apoio financeiro. Além disso, os cooperadores recebem benefícios espirituais: as orações diárias de todos os membros do Opus Dei por eles, indulgências concedidas pela Santa Sé em determinados dias do ano, orações pelos defuntos, etc.

Não é essencial que alguém que se queira tornar cooperador frequente as reuniões de formação. Em primeiro lugar, porque há cooperadores católicos que, por qualquer motivo, não desejam participar; em segundo lugar, existem também muitos cooperadores não católicos, e até mesmo não cristãos, que partilham com os membros do Opus Dei e amigos o desejo de fazer o bem – espiritual, educativo, cultural, social, etc. – e oferecem a sua ajuda. E, finalmente, porque são também cooperadoras inúmeras instituições da Igreja que decidiram colaborar de alguma forma, muitas vezes espiritualmente, com o trabalho desenvolvido pelo Opus Dei. São Josemaria poderia afirmar, com razão: «Entre nós, trabalhando nobremente lado a lado nas tarefas apostólicas ou ajudando-nos para que possamos trabalhar, há muitos amigos e cooperadores»[7].

Vivem o espírito do Opus Dei como algo próprio

Como não somos seres isolados, mas existimos e vivemos em relação, o calor da Obra chega muitas vezes à família ou aos amigos daqueles que participam nestes apostolados, seja na obra de São Gabriel ou de São Rafael. Este é também o caminho natural para que esta “grande catequese” chegue a quem dela necessita. Por exemplo, um estudante universitário de São Rafael, na década de 1930, deixou-nos um exemplo nas cartas que escreveu à sua família enquanto vivia na Residência DYA em Madrid. Emiliano contou à sua família, com simplicidade e espontaneidade, sobre as suas próprias experiências na residência: pediu-lhes orações, falou-lhes sobre os planos apostólicos em curso – «daqui a um mês, as pessoas que vão para Paris e Valência começarão a preparar-se» – e partilhou detalhes divertidos da vida quotidiana, como alegrias, amizades e a sua relação com São Josemaria[8]. Foi uma forma genuína de os integrar na sua vida naquela residência, que era como uma segunda casa para ele, porque não é preciso ser membro do Opus Dei para considerar o seu espírito como seu, nem para se considerar parte da família.

O Opus Dei disponibiliza esta formação a milhares de pessoas em todo o mundo. Os jovens de São Rafael, os cooperadores e amigos consideram que o seu caminho para a santidade – unindo-se a Jesus Cristo onde vivem e trabalham – se realiza vivendo o espírito do Opus Dei: com um plano de vida espiritual, fundamentado na profunda convicção de serem filhos de Deus, participando com Ele no trabalho diário no mundo e melhorando a sociedade vivendo a mensagem do Evangelho. Por isso, alguns confiam a sua direção espiritual a membros do Opus Dei, sacerdotes ou leigos. Muitos sentem-no como a sua família espiritual dentro da Igreja e sentem-se em casa quando visitam um centro do Opus Dei em qualquer parte do mundo. Tanto nos encontros de formação como nos encontros informais – conversas ou atividades de lazer –, desfrutam de uma atmosfera que os fortalece. Fazem uma transição natural da obra de São Rafael para a de São Gabriel quando entram no mercado de trabalho ou constituem família.

O que cada pessoa deseja e necessita

Logicamente, como resultado de uma vida de oração mais profunda, de uma intensificação da vida sacramental, de uma maior compreensão da fé católica e de uma maior identificação com a mensagem de São Josemaria, algumas pessoas interrogam-se sobre se uma vocação para o Opus Dei poderá ser o caminho que Deus deseja para elas e iniciam um processo pessoal de discernimento. Uma vocação para o Opus Dei envolve mais do que simplesmente estar em sintonia com a espiritualidade e a formação que oferece; é um chamamento de Deus ao indivíduo, que lhe proporciona um sentido de pertença e de missão que é acolhido de tal forma que molda toda a sua vida.

Por outro lado, por vezes alguém frequenta programas de formação durante algum tempo, mas depois para, por diversas razões: novos compromissos familiares ou profissionais, uma mudança de residência, a descoberta de uma espiritualidade mais adequada à sua personalidade… De qualquer modo, os membros do Opus Dei que os acompanham neste caminho esforçam-se por cultivar uma visão sobrenatural: uma perspetiva que conduz a uma visão não só de longo prazo, mas da eternidade. O seu único desejo é que vivam abertos a Deus e tenham um relacionamento pessoal com Jesus Cristo. Por isso, o mais importante é acompanhar cada pessoa na sua própria caminhada, sem impor o tempo de Deus.

Aqueles que pertenceram ao Opus Dei e, por uma ou outra razão, o abandonaram, também fazem parte desta grande catequese. Algumas destas pessoas viveram experiências dolorosas, que desejamos ouvir com respeito, compreender e tentar melhorar; pedindo também, sinceramente, perdão, quando for caso disso. A este respeito, como salientou o Prelado do Opus Dei: «Às pessoas que fizeram parte da Obra e que, seja por que motivo for, saíram, queremos-lhes bem com toda a alma e agradecemos-lhes sinceramente pelo bem que fizeram durante esse tempo e o que continuam a semear no presente. Temos um grande respeito por cada uma, aliás, porque nessa decisão de ser do Opus Dei havia um desejo de entregar a sua vida a Deus. Em numerosas ocasiões, tive oportunidade de pedir perdão a quem conserva feridas, por alguma falta de caridade ou de justiça, ou por qualquer motivo»[9].

Muitos outros expressam a sua gratidão pelo tempo que passaram no Opus Dei, pela formação e acompanhamento que receberam, que continuam a dar frutos nas suas vidas. Este vínculo perdura ao longo do tempo, e alguns até regressam ao Opus Dei numa nova etapa do seu caminho.

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Os jovens que participam nas atividades de São Rafael, os mais velhos que participam nas de São Gabriel, os cooperadores e os amigos– quaisquer que sejam as suas circunstâncias individuais –, muitos continuam a receber acompanhamento por parte dos membros do Opus Dei ao longo da sua vida. Regozijam-se por estarem próximos da Obra, sentem-se em sintonia com a sua espiritualidade secular e familiar e desejam enriquecer-se através da sua formação, contribuindo, ao mesmo tempo, para a Obra, para que esta possa desenvolver os seus apostolados, e para as suas próprias comunidades, onde desejam ser testemunhas do Evangelho, semeadores de paz e de alegria. «Procuramos, antes de mais – dizia São Josemaria – o aperfeiçoamento espiritual de todas as almas – sem exceção – que se aproximam do nosso apostolado com boa vontade»[10]. O fundador do Opus Dei falou assim dos jovens de São Rafael, mas estas palavras podem ser estendidas a quantos também participam na obra de São Gabriel, cooperadores e amigos. Esta é a “grande catequese” que as pessoas da Obra empreendem, sempre movidas pela alegria daquele encontro com Jesus, para que todos contribuamos «para que o amor e a liberdade de Cristo presidam a todas as manifestações da vida moderna: a cultura e a economia, o trabalho e o descanso, a vida de família e a convivência social»[11].


[1] São Josemaria, Carta 6, n. 47

[2] Fernando Ocáriz, Carta pastoral, 09/01/2018, n. 14.

[3] São Josemaria, Em diálogo com o Senhor, n. 21.

[4] Francisco, Mensagem em vídeo aos jovens que se preparam para a Jornada Mundial da Juventude de Lisboa, 22/06/2023.

[5] São Josemaria, Carta 7, n. 7.

[6] Leão XIV, Vigília de oração com os jovens em Roma, 02/08/2025.

[7] São Josemaria, Carta 29, n. 43.

[8] José Carlos Martín de la Hoz e Josemaría Revuela Somalo, «Un estudiante en la Residencia DYA. Cartas de Emiliano Amann a su familia (1935-1936)», em Studia et Documenta, v. 2, 2008, 299-358.

[9] Fernando Ocáriz, Entrevista a The Pillar, 02/11/2024. Disponível em www.opusdei.pt

[10] São Josemaria, Carta 7, n. 10.

[11] São Josemaria, Sulco, n. 302.

Kathryn Plazek