Imaculado Coração de Maria

Tanto a devoção ao Coração de Jesus como ao Coração de Maria têm fundamentos bíblicos e patrísticos e estão presentes em toda a Tradição da Igreja.

Opus Dei - Imaculado Coração de Maria

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A Sagrada Escritura vê no coração o lugar do encontro com Deus, o que se aplica especialmente a Maria, de quem se diz que guardou tudo e o meditou no seu coração. Três textos bíblicos do Novo Testamento constituem o ponto de partida da devoção ao Coração de Maria: Lc 2,19: «Quanto a Maria, conservavatodas estas coisas, ponderando-as no seu coração»; Lc 2, 51: “Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração”; e a profecia de Simeão, aludindo às suas dores em Lc 2, 35: “ uma espada trespassará a tua alma”. Esta última seria fundamental para afirmar a colaboração de Maria na Redenção. Por isso, pode dizer-se que a devoção ao Santíssimo Coração da Virgem Maria não é uma coisa nova. É tão antiga como a religião cristã e o Evangelho.

Os Padres da Igreja proclamaram que o Verbo de Deus encarnou primeiro no coração da Mãe do que no seu seio virginal e que tudo o que se cumpre no corpo paciente do Filho acontece também no coração e na alma da Mãe. A tradição pode ser resumida numa formulação de São Jerónimo: “As injúrias que Cristo sofreu no corpo, Maria sofreu-as no seu coração”.

São Bernardo de Claraval (séc. XII) foi um precursor desta devoção. Atribui ao Coração de Maria: concentrar e distribuir as graças divinas, a maternidade espiritual e ser corredentor, em íntima união com Cristo, em comunhão de corações. E São Boaventura considera-o como fonte universal de salvação. No século XIII distinguem-se Santa Matilda de Hackborn († 1288), Santa Matilde de Magdeburgo († 1288) e Santa Gertrude de Helfta († 1302), eminentes pela sua cultura e santidade, pela sua vida mística e pelos seus escritos. No século XIV, Santa Brígida da Suécia ressalta a identidade moral dos Corações de Jesus e Maria. Afirma que a Virgem lhe revelou que ambos formaram quase um único coração e que Jesus Cristo lhe fez saber que operaram a Redenção como com um único Coração. Estas revelações, entre outras, foram mais um impulso significativo nestas devoções.

A grande divulgação desta devoção dá-se sobretudo no século XVII com São João Eudes, que escreveu uma obra intitulada “O Coração admirável da Mãe de Deus”. Este santo escreveu: “não é uma coisa nova a devoção ao Santíssimo Coração da Virgem Maria. É tão antiga como a religião cristã e o Evangelho” (Œuvres complètes, VIII, 411-412). Este santo foi um grande estudioso desta devoção e promotor do seu culto litúrgico.

não é uma coisa nova a devoção ao Santíssimo Coração da Virgem Maria. É tão antiga como a religião cristã e o Evangelho

Foram importantes e decisivas para a divulgação destas devoções as revelações a Margarida Maria Alacoque, em Paray-le-Monial (1672-1675), a Catarina Labouré (1806-1896) e aos três pastorinhos de Fátima (1917) assim como o eco encontrado na piedade popular. Em todas elas, o Coração do Filho aparece unido ao Coração da Mãe. Restaura-se uma religião do amor, cujo símbolo mais expressivo é o coração e vai-se desenvolvendo uma crescente espiritualidade. Um elemento original desta devoção é um forte sentido do pecado e do sentido de solidariedade para reparar as ofensas feitas a Deus.

O conhecimento do segredo de Fátima, a missão entregue à irmã Lúcia de difundir esta devoção e a realização da primeira Consagração do mundo ao Coração Imaculado de Maria, pelo Papa Pio XII (31-X-1942) numa radiomensagem em português: “A vós, ao vosso Coração Imaculado, nesta hora trágica da história humana, confiamos, entregamos, consagramos não só a santa Igreja [...] mas mesmo todo o mundo dilacerado por funestas discórdias”, originaram um[1] interesse crescente, não só do ponto de vista devocional, mas também no âmbito teológico.

Assim como a devoção ao Coração do Redentor, mais do que ao coração de carne é dirigida à pessoa do Verbo Encarnado, como um sinal vivo do amor de Deus pelos homens, assim a devoção ao Coração de Maria é dirigida mais do que ao coração físico, a toda a sua pessoa. O decreto da [então] Congregação dos Ritos (4-V-1944) que aprovou os textos litúrgicos para a festa do Coração de Maria precisa bem o significado do Coração de Maria como “símbolo da santidade sublime e excecional da alma da Mãe de Deus, e especialmente do seu amor ardentíssimo a Deus e ao seu Filho Jesus Cristo, assim como da sua piedade maternal para com os homens redimidos pelo sangue divino”.

Pio XII, na Encíclica Haurietis aquas (15-V-1956), fala do Coração de Jesus, como principal indicador e símbolo do amor com que o divino Redentor ama continuamente o Pai eterno e todos os homens e como «síntese de todo o mistério da nossa Redenção» (n.36). Aconselha a unir estreitamente esta devoção à devoção ao Imaculado Coração da Mãe de Deus. Ele próprio, com um ato solene, consagrou a Igreja e o mundo inteiro ao Imaculado Coração da Santíssima Virgem, como já haviam sido consagrados ao Coração de Seu Filho.

O Concílio Vaticano II, na Constituição Lumen Gentium (n.53, 58), refere o Coração de Maria associado à obra da redenção e da santificação e à sua mediação maternal na ordem da graça (n.60-62). São Paulo VI no encerramento do Concílio (21-XI-1964) proclamou a Santíssima Virgem como Mãe da Igreja, renovou a Consagração ao Coração Imaculado de Maria e anunciou o envio da rosa de ouro ao Santuário de Fátima. O mesmo Pontífice, na Exortação Apostólica Signum magnum, de 13-V-1967 - data muito significativa, pois veio a Fátima nesse dia - exortou os fiéis a renovar a Consagração ao Coração Imaculado da Mãe da Igreja e a viver este ato com uma vida cada vez mais conforme à vontade divina.

São João Paulo II - depois do atentado sofrido em 1981 - retomou esta reflexão sobre o Coração de Maria, numa das suas audiências: “no Coração de Maria, vemos o símbolo do seu amor maternal, da sua santidade única e do seu papel central na missão redentora realizada pelo seu Filho (...). A devoção ao Coração de Maria tem uma importância capital, porque amando o seu Filho a toda a humanidade, Maria intervém singularmente como um instrumento que nos conduz a Ele” (24-IX-1986).

no Coração de Maria, vemos o símbolo do seu amor maternal, da sua santidade única e do seu papel central na missão redentora realizada pelo seu Filho

Bento XVI, numa homilia no dia da Imaculada Conceição (8-XII-2010), refere-se ao amor materno do coração imaculado que flui de Deus Amor e afirma que o seu coração imaculado está sintonizado com a misericórdia de Deus.

São Josemaria Escrivá foi um dos mestres da vida espiritual que teve uma profunda devoção ao Coração de Maria, associada ao Coração de Jesus. Esta devoção, recebida no lar familiar, foi-se aprofundando ao longo dos anos, num contínuo crescendo. Era uma devoção sentida e doutrinal, fruto da sua vida espiritual e, ao mesmo tempo, profundamente teológica, baseada na meditação e no estudo da Sagrada Escritura, dos Santos Padres, do Magistério da Igreja, dos grandes teólogos; considera Maria como caminho para o Caminho, ou atalho que facilita o acesso ao Coração de Cristo.

Já desde pequeno costumava repetir: “Doce Coração de Jesus, sede o meu Amor!”, Doce Coração de Maria, sede a minha salvação!”. E dizia em 1970: “nestes dias vem-me à boca, constantemente, uma jaculatória que, sem muito sentido sobrenatural, mas com piedade, dizia quando era pequeno: Doce Coração de Maria, sede a minha salvação”.

Uma das suas biografias mais conhecidas relata que o Fundador do Opus Dei tinha um medalhão com dois esmaltes, com os Corações de Jesus e de Maria e todas as noites, “depositava, com grande amor, um beijo nos Corações, acompanhado de umas jaculatórias: Coração de Jesus, dá-nos a paz! Doce Coração de Maria, sede a minha salvação!”[1]. Ao receber a missão de fundar o Opus Dei, sentindo que esta ultrapassava totalmente as suas forças, considerava-se como uma criança pequena que tem de recorrer ao Pai e à Mãe do Céu: “Fui procurar fortaleza nos bairros mais pobres de Madrid. (…) Que procurava? Coração dulcíssimo de Maria, prepara um caminho seguro! Dizia-o em latim: Cor Mariæ Dulcissimum, iter para tutum! Procurava o poder da Mãe de Deus, como um filho pequeno”[2].

Não deixa de ser significativo que o início do trabalho apostólico fora de Espanha, contra os planos do próprio Fundador do Opus Dei, tenha sido em Portugal, a pedido da irmã Lúcia, a vidente de Fátima. Esta não só lhe pediu para começar o apostolado da Obra de Deus em Portugal, como lhe conseguiu imediatamente os papéis necessários para entrar no país, a 5 de fevereiro de 1945. Por isso, considerava que “as portas de Portugal foram abertas pela Virgem pelas mãos da irmã Lúcia”[3].

Em momentos de especiais contradições, viria a realizar a Consagração do Opus Dei ao Coração Imaculado de Maria (15-VIII-1951) e ao Coração de Jesus (26-X-1952), pedindo a todos os seus filhos espirituais que repetissem: Cor Mariae Dulcissimum, iter para tutum! deixando a solução de todas as dificuldades nas mãos maternais de Maria.


Maria Helena da Guerra Pratas
Doutora em Teologia pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz


[1] VÁZQUEZ DE PRADA, A., Josemaria Escrivá, Ed. Verbo, Lisboa 2002.

[2] S. JOSEMARÍA ESCRIVÁ, Los caminos de Dios, 19-III-1975, AGP, RHF 20.164, 801-803.

[3] AZEVEDO, H., «Portugal», DSJEB (2013), 989.