Catequese Documentos Vaticano II: 29. A relação entre a fé e a cultura

O Papa Leão XIV dedicou a sua catequese ao encontro entre a fé e a cultura, seguindo o documento Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II.

Catequese. Os Documentos do Concílio Vaticano II
IV. Constituição pastoral Gaudium et spes (GS, 53-62)
7. A relação entre a fé e a cultura


Estimados irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!

O Concílio Vaticano II não podia deixar de abordar a cultura e as suas relações com a fé cristã. Fá-lo no segundo capítulo da segunda parte da Constituição Gaudium et spes (GS).

A Igreja católica sempre se preocupou por acompanhar a pregação do Evangelho com a instituição de escolas de todos os tipos, destinadas a fomentar a formação humana, cultural e espiritual de homens e mulheres dos cinco continentes. Como sabemos, as universidades medievais nasceram do coração da Igreja, contribuindo de maneira determinante para o desenvolvimento da civilização ocidental. Ao mesmo tempo, o progresso da cultura e dos conhecimentos apresenta interrogações sempre novas e mais profundas, estimulando os crentes a explicar a razão da sua fé (cf. 1Pd 3, 15-17). Além disso, enquanto expressões da dimensão espiritual do ser humano, as várias manifestações da cultura contribuem para abrir as mentes às perguntas perenes sobre o sentido do mundo e da existência humana, preparando assim para receber o Evangelho de Jesus Cristo.

A relação entre fé e cultura encontra o seu fundamento principal na Encarnação: se a Palavra divina se fez carne e veio habitar entre nós (cf. Jo 1, 14), então também a fé é uma realidade encarnada, entrelaçada com a cultura em que está inserida. Também ela é chamada a tornar-se cultura, ou seja, a alcançar a pessoa no seu ambiente de vida, feito de palavras humanas, tradições, sentido religioso, arte e poesia, pensamento e ciência. Como São João Paulo II gostava de repetir, «uma fé que não se torna cultura é uma fé não acolhida de modo pleno, não inteiramente pensada nem vivida com fidelidade»[1].

A fé pode encarnar-se em todas as culturas, pois não se identifica com nenhuma delas de modo específico. Ela habita-as, moldando-as a partir de dentro segundo a “forma” de Jesus Cristo, ou seja, com a caridade, o serviço e o reconhecimento filial da paternidade de Deus. Assim, a Igreja capta nas diferentes culturas o que há de bom, de belo e de verdadeiro, para encarnar e transmitir a mensagem do Evangelho. Ao mesmo tempo, tendo sido «enviada aos homens de todos os tempos e lugares [...] não está exclusiva e indissoluvelmente ligada a nenhuma raça ou nação, a nenhum género de vida particular, a nenhuma tradição antiga ou moderna. Aderindo à própria tradição e, ao mesmo tempo, consciente da sua missão universal, é capaz de entrar em comunicação com as diversas formas de cultura, com o que se enriquecem tanto a própria Igreja como estas várias culturas» (GS, 58).

A Igreja promove a cultura porque esta é um bem em si, é um serviço ao ser humano e ao cumprimento da sua vocação na terra. Por esta razão, a Gaudium et spes exorta a Comunidade internacional a garantir que todos possam ter acesso aos bens culturais fundamentais, superando o analfabetismo e a falta de instrução. Todos aqueles que são capazes de aceder aos estudos superiores — afirma corajosamente o Concílio — devem ser colocados em condições de o poder fazer realmente. Além disso, é «dever de todos reconhecer e fomentar a necessária e específica participação das mulheres na vida cultural» (GS, 60).

Além disso, a Gaudium et spes defende a necessidade de orientar o ensino para uma certa unidade do saber, embora as alteradas condições de vida possam tornar isto mais difícil (cf. GS, 61). Os cristãos são os primeiros a ter o dever de se empenhar para atuar esta unidade sapiencial, antes de mais nada em si próprios. Ainda que tenham recebido da Revelação as respostas às grandes interrogações da existência, contudo eles não estão dispensados de uma paciente formação intelectual e cultural; aliás, os seus conhecimentos humanos e científicos devem evoluir a par com os conteúdos da sua fé, que deverão ser continuamente aprofundados com a idade e de acordo com o nível de estudos. O Concílio dirige um apelo particular aos teólogos: «Aqueles que se dedicam às ciências teológicas [...] procurem colaborar com os especialistas de outros ramos do saber, pondo em comum trabalhos e conhecimentos. A investigação teológica deve, simultaneamente, procurar um profundo conhecimento da verdade revelada e não descurar a ligação com o seu tempo, para que assim possa ajudar os homens formados nas diversas matérias a alcançar um conhecimento mais completo da fé» (GS, 62).

Irmãos e irmãs, a Constituição Gaudium et spes exorta-nos a não viver a fé em espírito de oposição ou de hostilidade em relação ao mundo, à cultura e às suas expressões humanas, mas pelo contrário exorta-nos assim: «Vivam, pois, os fiéis em estreita união com os demais homens do seu tempo e procurem compreender perfeitamente o seu modo de pensar e sentir, como se exprimem através da cultura» (GS, 62). Com efeito, alcançar uma síntese madura e responsável entre fé e cultura é uma condição necessária para a perseverança na vocação cristã, mas também um requisito indispensável para dar testemunho da fé no mundo e para a comunicar aos outros de modo credível.


[1] cf. São João Paulo II, Discurso aos participantes no Congresso do movimento eclesial de compromisso cultural (MEIC), 16 de janeiro de 1982.

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