A autonomia das atividades humanas e o valor da secularidade

O artigo reflete sobre a autonomia das realidades temporais e o valor cristão da secularidade. Os ensinamentos de São Josemaria ajudam a compreender que o trabalho, a vida civil e os compromissos profissionais possuem leis próprias e que os cristãos são chamados a santificá-las a partir de dentro, com liberdade e responsabilidade pessoal.

Nos versículos do relato da criação no capítulo 1 do livro do Génesis, Deus considera que as suas criaturas são “boas e belas”. Sete vezes, o Criador contempla com satisfação as suas obras, quase com olhar paternal, e as reconhece como “boas” (em hebraico, tôb)[1]. A satisfação divina na obra da criação atinge o seu clímax ao criar o homem e a mulher à sua imagem e semelhança, uma obra que o próprio Deus qualifica de “muito boa” (cf. Gn 1, 31). Outras passagens do Antigo Testamento mostram a alegria do Criador pela beleza do mundo e pela multiplicidade dos seres que o povoam (cf. Pr. 8, 30-31; Sir 43, 21-25; Sl 104).

A bondade do mundo indica que a criação é um valor em si mesmo. A própria existência da criação é um bem. As criaturas que a compõem constituem um bem, assim como a sua natureza específica, expressa por meio dos dinamismos, das leis e das relações que as regem. A causa mais profunda da bondade e da dignidade do mundo é compreendida à luz do mistério do Verbo encarnado: todo o universo manifesta a sua ordem originária e misteriosa para acolher a humanidade do Filho de Deus, por meio do qual e em vista do qual todas as coisas foram criadas (cf. Col 1, 16-17). A ordem e as propriedades das diferentes criaturas, a orientação interna dos seus processos rumo a um fim e o desenvolvimento histórico do cosmos no espaço e no tempo, tudo isso estava orientado para essa humanidade.

Um modo de olhar o mundo

Se o olhar de Deus criador sobre o mundo é um olhar paternal, o nosso olhar sobre a criação é filial, reconhecido e agradecido. Reconhecemos a vida como um dom e ficamos maravilhados perante a harmonia e da beleza do universo que nos acolhe. Compreendemos que cada criatura tem um significado nos desígnios de Deus e possui uma autonomia que deve ser respeitada. De modo particular, é a liberdade da criatura humana que merece a nossa mais alta consideração, por ser «sinal privilegiado da imagem divina»[2]. Graças à sua liberdade, os seres humanos podem agir de forma responsável como filhos, cooperando, por meio do trabalho, para levar a criação à sua plenitude. A condição filial, o respeito à liberdade e o reconhecimento da autonomia das coisas criadas são aspetos interrelacionados.

Ao longo da época moderna, no entanto, o reconhecimento de Deus como Criador e sentido último de todas as coisas entrou muitas vezes em conflito com a afirmação da liberdade humana e a autonomia do mundo. «Muitos dos nossos contemporâneos – escreviam os Padres do Concílio Vaticano II – parecem temer que a íntima ligação entre a atividade humanas e a religião constitua um obstáculo para a autonomia dos homens, das sociedades ou das ciências»[3]. Este contraste adotou, por vezes, tons triunfalistas, ao situar no centro um super-homem ou um “homo deus”, e outras vezes tons angustiados, como nas diferentes formas de niilismo e ateísmo existencial. Não é raro que Deus e o ser humano sejam vistos como antagonistas: para afirmar um deles, seria preciso menosprezar o outro. Neste contexto, a liberdade humana seria interpretada como ausência de qualquer vínculo normativo, inclusive perante uma natureza cujas leis se pretende rejeitar ou subverter ao seu bel-prazer. A este respeito, é emblemática a reivindicação de uma liberdade de investigação, entendida como liberdade absoluta para fazer tudo o que for técnica ou cientificamente possível, assim como uma liberdade de escolha mal interpretada em questões morais delicadas, especialmente aquelas que dizem respeito à sacralidade da vida humana.

A teologia cristã ensinou, e continua a ensinar, que a suposta alternativa entre o homem e Deus se apoia em bases inconsistentes[4]. O cristão sabe que afirmar o vínculo do mundo com Deus, em quem crê como Criador e Senhor, não o impede de afirmar, ao mesmo tempo, a sua própria liberdade e secularidade – isto é, a sua vida no mundo e na história – assim como a legítima autonomia das coisas criadas. Iluminados pela verdade da encarnação do Verbo, os cristãos desejam construir a cidade dos homens ao mesmo tempo que procuram edificar a cidade de Deus. A síntese destas duas perspetivas torna-se possível quando se enfatiza a condição filial do ser humano diante de Deus, qualidade que capacita para dar forma a todas as ações do cristão: liberdade filial, obediência filial, trabalho filial, oração filial...

Não faltaram, ao longo dos séculos, autores que souberam conciliar a revalorização do sujeito e da sua liberdade com a afirmação de um vínculo religioso que expressasse a dependência do homem e do mundo com relação a Deus. Basta pensar na importância que Santo Agostinho concedia ao sujeito e à sua experiência vital, ou na primazia da consciência no pensamento de São John Henry Newman. Pensemos também na dimensão personalista e existencial da fé, destacada por Blaise Pascal, Søren Kierkegaard ou Jean Mouroux. Outros autores, como o Bem-aventurado Antonio Rosmini, refletiram sobre a liberdade e a responsabilidade do cristão nas atividades sociais, políticas e científicas. O Magistério social da Igreja, especialmente desde o final do século XIX, realçou a importância de edificar a cidade dos homens, considerando este compromisso como parte necessária do caminho que conduz à cidade de Deus.

Os ensinamentos do fundador do Opus Dei inscrevem-se nesta mesma perspetiva. Nascidos de uma preocupação essencialmente espiritual e pastoral, também têm implicações teológicas precisas. A ênfase na condição filial do cristão que trabalha no mundo foi um elemento-chave na pregação de São Josemaria. A liberdade de todos os cristãos nas suas decisões profissionais, políticas e sociais, sem outro vínculo além da fé e a moral de Jesus Cristo e as orientações do Magistério, ocupa um lugar privilegiado nos seus escritos. A sua visão sobre a santificação no trabalho e a competência com que o cristão deve exercê-lo levou-o a ressaltar que as atividades terrenas possuem dinâmicas e valores próprios e são regidas por leis específicas, que dependem do profissionalismo e dos conhecimentos de quem as exerce.

Avaliadas no contexto contemporâneo da sociedade e do mundo do trabalho, a pregação e os escritos de São Josemaria oferecem recursos valiosos para superar a falsa dicotomia que algumas correntes da modernidade haviam proposto – e, em parte, continuam a propor – entre uma legítima revalorização do sujeito e uma igualmente legítima afirmação do senhorio de Deus. Compreender o trabalho e as atividades humanas à luz do desígnio de Deus sobre a criação não significa forçar o seu significado, penalizá-las ou revogá-las, mas sim valorizar e respeitar a sua legítima autonomia. Como já foi apontado ao longo destes artigos, essa abordagem deriva da profunda compreensão que São Josemaria tinha da lex incarnationis: assumindo uma verdadeira natureza humana, o Verbo encarnado leva a perspetiva cristã a respeitar tudo o que é autenticamente humano, com a única exceção do pecado, atraindo, elevando e redimindo sem anular.

«Quando trabalha, cumprindo a sua obrigação, o cristão não deve contornar nem iludir as exigências próprias da natureza. Se a expressão “abençoar as atividades humanas” significasse anular ou escamotear a dinâmica própria dessas atividades, negar-me-ia a usar essas palavras. Pessoalmente, nunca me convenci de que as atividades correntes dos homens precisassem de ostentar, como letreiro postiço, um qualificativo confessional, porque me parece – embora respeite a opinião contrária – que se corre o risco de usar o santo nome da nossa fé em vão, e também, porque, em certas ocasiões, a etiqueta “católico” foi usada para justificar atitudes e comportamentos humanamente desonrosos»[5].

Os primeiros destinatários da pregação de São Josemaria e da instituição à qual deu vida, o Opus Dei, são os fiéis leigos, cuja condição secular os leva a santificar as realidades terrenas a partir de dentro. Ele desejava proporcionar-lhes instrumentos espirituais, ascéticos e teológicos capazes de sustentar o seu compromisso como cidadãos das duas cidades, evitando o duplo risco do clericalismo e do laicismo. Estas razões convidam-nos agora a reler, com maior atenção, alguns ensinamentos do fundador do Opus Dei sobre estas questões.

Secularidade, amor à liberdade e responsabilidade na vida civil e profissional

A referência à condição secular do cristão que vive e age no mundo é frequente nos escritos e na pregação de São Josemaria. Ela aparece como parte do núcleo do espírito do Opus Dei, já que é a partir dessa condição que os seus filhos espirituais são chamados a procurar a santidade através do trabalho e das atividades quotidianas:

«Compreende-se, meus filhos, que o Apóstolo pudesse escrever: “todas as coisas são vossas, vós sois de Cristo e Cristo de Deus” (1Cor 3, 22-23) [...]. Esta doutrina da Sagrada Escritura, que se encontra, como sabeis, no próprio cerne do espírito do Opus Dei, há de levar-vos a realizar o vosso trabalho com perfeição, a amar a Deus e aos homens [...]. São muitos os aspetos do ambiente secular em que vos moveis que se iluminam a partir destas verdades. Pensai, por exemplo, na vossa atuação de cidadãos na vida civil. Um homem sabedor de que o mundo – e não só o templo – é o lugar do seu encontro com Cristo, ama esse mundo, procura adquirir uma boa preparação intelectual e profissional, vai formando – com plena liberdade – os seus próprios critérios sobre os problemas do meio em que vive; e toma, como consequência, as suas próprias decisões, que, por serem decisões de um cristão, procedem também de uma reflexão pessoal, que tenta humildemente captar a vontade de Deus nesses aspetos, pequenos e grandes da vida»[6].

O conceito de “secularidade” é muito diferente do de “secularismo”, que designa uma visão não religiosa do mundo. Diferencia-se igualmente de “secularização”, entendida como um processo histórico destinado a eliminar a presença de Deus e o sentido religioso da sociedade humana em todas as suas formas. É verdade que algumas interpretações do termo “secularização” procuram afirmar a autonomia da sociedade e das atividades humanas e, portanto, empregam-no em sentido positivo: o de desclericalizar ou dessacralizar. São Josemaria utiliza sobretudo o adjetivo “secular” e o substantivo “secularidade”, e critica, por outro lado, o “clericalismo”; afirma, com isso, os mesmos valores defendidos por aqueles que, ao falar de secularização, afirmam a autonomia da vida civil perante uma presença intrusiva ou teocrática da religião.

«Os cristãos gozam da mais completa liberdade, com a consequente responsabilidade pessoal, para intervir como lhes parecer melhor em questões de índole política, social, cultural…, sem outros limites além dos que o Magistério da Igreja indica. [...] Este sacrossanto respeito pelas vossas opções, desde que elas não vos afastem da lei de Deus, não se entende. Não o entende quem ignora o verdadeiro conceito da liberdade que Cristo nos ganhou na Cruz, qua libertate Christus nos liberavit, quem for sectário de um e de outro extremo, quem pretender impor as suas opiniões temporais como dogmas. Também não o entende quem degrada o homem, ao negar o valor da fé, colocando-a à mercê dos erros mais brutais»[7].

Exorta os cristãos a atuar com liberdade e responsabilidade, sem envolver a Igreja em disputas humanas nem utilizar o adjetivo “católico” para influir em relações que deveriam ser confiadas exclusivamente à responsabilidade pessoal e ao sentido profissional daqueles que atuam no mundo. O fundador do Opus Dei emprega, muitas vezes, um tom enérgico e contundente[8]. Uma frase concisa e eficaz resume o seu pensamento: os cristãos devem servir a Igreja, mas não servir-se da Igreja[9]. Trata-se de uma recomendação necessária, considerando o dano que muitos cristãos causaram ao apostolado e à evangelização ao apresentar a Igreja, aos olhos de quem não crê, como um grupo de pressão no qual se procuram relações e influências em favor próprio, com fins que não têm nada a ver com a difusão do Evangelho.

O tema da santificação do trabalho integra-se naturalmente na lógica da exortação de São Josemaria a uma secularidade baseada numa liberdade responsável. Os resultados que o cristão deseja obter na sua atividade profissional, assim como as legítimas tentativas de melhorar as suas condições sociais, devem apoiar-se nas virtudes e no sentido profissional, e não em favoritismos ou relações criadas em círculos eclesiásticos. O clericalismo afeta, com efeito, não só os eclesiásticos que não respeitam a autonomia da vida civil e profissional, mas também os fiéis leigos que, aproveitando-se da sua condição de cristãos, procuram atalhos para obter o que deveriam alcançar graças unicamente a seu trabalho bem feito.

A tarefa dos pastores consistiria, assim, em formar os fiéis leigos sem os substituir nem os dirigir, para que cada batizado atue com critério cristão ao tomar decisões no âmbito laboral e na vida familiar e em sociedade. É necessário, por isso, que os fiéis leigos conheçam com profundidade a Doutrina Social da Igreja, especialmente nos aspetos que afetam diretamente a sua profissão ou atividade, e saibam aplicá-la com responsabilidade pessoal. Isso também se aplica, de maneira análoga, às tarefas sociais e familiares, que são igualmente objeto dos ensinamentos da Igreja. É lógico que essas questões sejam objeto de oração e acompanhamento espiritual daqueles que desejam santificar a sua realidade quotidiana no meio do mundo e pedem luz e conselho para fazê-lo de acordo com a sua vocação cristã. De facto, a legítima autonomia das realidades terrenas não significa transformar o próprio trabalho num âmbito reservado, fechado àqueles que têm a missão de orientar as consciências. O desejo de se identificar com Jesus Cristo deve impregnar cada aspeto da atividade própria e iluminar cada faceta da vida.

«Tu, pensas, tens muita personalidade: os teus estudos (os teus trabalhos de investigação, as tuas publicações), a tua posição social (os teus apelidos), as tuas atividades políticas (os cargos que ocupas), o teu património…, a tua idade – já não és nenhuma criança!… Precisamente por tudo isso, necessitas, mais do que outros, de um Diretor para a tua alma»[10].

A confidencialidade e o sigilo profissional – que São Josemaria defendeu sempre com firmeza – são compatíveis com um acompanhamento espiritual profundo, capaz de orientar o trabalho e o testemunho dos fiéis segundo os princípios cristãos.

Uma das implicações teológicas mais interessantes do modo de atuar que o fundador do Opus Dei ensinou a viver neste âmbito é uma melhor compreensão da relação entre o sacerdócio ministerial e o sacerdócio comum dos fiéis, sobre a qual o Concílio Vaticano II nos legou páginas de grande relevância[11]. São Josemaria ensinava aos seus filhos espirituais, sacerdotes e leigos, já décadas antes do Concílio, que o sacerdócio ministerial está ao serviço do sacerdócio comum dos fiéis, e que este último atua com vista aos fins – a ordenação do mundo para Deus – enquanto o primeiro atua relativamente aos meios – a administração dos sacramentos e a direção espiritual. Como resumiu numa entrevista a L’Osservatore Romano em 1968, quando se compreender melhor a vocação dos leigos, os pastores viverão melhor a deles:

«O modo de os leigos contribuírem para a santidade e para o apostolado da Igreja consiste na ação livre e responsável no seio das estruturas temporais, aí levando o fermento da mensagem cristã. O testemunho de vida cristã, a palavra que ilumina em nome de Deus e a ação responsável, para servir os outros, contribuindo para a resolução de problemas comuns, são outras tantas manifestações dessa presença através da qual o cristão corrente cumpre a sua missão divina [...]. Gostaria de acrescentar que, juntamente com esta consciencialização dos leigos, se está a produzir um desenvolvimento análogo da sensibilidade dos pastores: eles reparam no que tem de específico a vocação laical, que deve ser promovida e favorecida mediante uma pastoral que leve a descobrir no meio do Povo de Deus o carisma da santidade e do apostolado, nas infinitas e diversíssimas formas em que Deus o concede»[12].

A valorização da secularidade e da liberdade levou o fundador do Opus Dei a distanciar-se daquelas atitudes – às vezes promovidas de boa fé – de quem pretendia obrigar os cristãos a adotar posições “oficialmente católicas” em questões nas quais, pelo contrário, se admite uma legítima pluralidade de opiniões. Isso causou-lhe descontentamentos e incompreensões, como demonstraram os historiadores, não apenas nos círculos eclesiásticos, mas também entre os próprios católicos leigos. Escrevia numa das suas cartas:

«A vossa fé deve guiar-vos, ao julgar sobre os factos e as situações contingentes da terra. Atuareis com plena liberdade, porque a doutrina católica não impõe soluções concretas, técnicas, para os problemas temporais; mas pede-vos que tenhais sensibilidade perante esses problemas humanos e sentido de responsabilidade para os enfrentar e lhes dar uma solução cristã. O vosso amor a todos os homens deve levar-vos a enfrentar os problemas temporais com valentia, de acordo com a vossa consciência. [...]. Repito uma vez mais: tendes plena liberdade de critério, atuais com liberdade pessoal; é vossa, pois, a responsabilidade. Que o vosso critério seja sempre um critério cristão, e que a caridade inspire o vosso modo de agir: fareis assim uma obra apostólica se, além disso, sabeis respeitar a legítima opinião dos outros, convivendo com paz e compreensão»[13].

Uma das passagens mais conhecidas e vibrantes em que o fundador expõe de forma sintética esta visão secular e responsável da vida cristã encontra-se na homilia Amar o mundo apaixonadamente, pronunciada em 1967 no campus da Universidade de Navarra, em Pamplona. Ao referir-se ao cristão que atua com retidão diante de Deus e diante dos homens, afirma:

«Esse cristão não se lembra nunca de pensar ou dizer que desce do templo ao mundo para representar a Igreja, e que as suas soluções são as soluções católicas daqueles problemas. Isso não pode ser, meus filhos! Isso seria clericalismo, catolicismo oficial, ou como quiserdes chamar-lhe. De qualquer modo, seria violentar a natureza das coisas. Tendes de difundir por toda a parte uma verdadeira mentalidade laical, que há de levar o cristão a três consequências:

– a serem suficientemente honrados, para arcarem com a própria responsabilidade pessoal;

– a serem suficientemente cristãos para respeitarem os seus irmãos na fé que proponham – em matérias discutíveis – soluções diversas das suas;

– e a serem suficientemente católicos para não se servirem da Igreja, nossa Mãe, misturando-a com partidarismos humanos»[14].

Construir a cidade dos homens, caminho para a cidade de Deus

O trabalho pelo qual o homem transforma o mundo e edifica a cidade terrena não constitui obstáculo para o caminho que cada um, individual e coletivamente, percorre em direção à cidade de Deus. Para que o trabalho seja verdadeiramente orientado para Deus, é preciso exercer uma autêntica “cidadania” na cidade dos homens. Desde os primeiros séculos da Igreja, a laicidade e a secularidade, entendidas como manifestação de uma vida exemplar e leal no respeito às leis justas e às autoridades legítimas, foram consideradas condição indispensável para o apostolado cristão. O Novo Testamento oferece um belo testemunho disso na primeira carta de Pedro (cf. 1Pd 2, 13-21). Nela os cristãos são exortados a assumir as suas responsabilidades, porque a cidade dos homens pertence-lhes tanto quanto a cidade de Deus.

Numa página da Carta 29, o fundador do Opus Dei mostra a sua interpretação do ensinamento de Jesus sobre a distinção entre o que pertence a Deus e o que pertence a César (cf. Mt 22, 21). De acordo com a melhor tradição cristã, São Josemaria esclarece que essa distinção não significa desinteressar-se dos compromissos temporais:

«A distinção que o Senhor fez entre as coisas de Deus e as coisas de César é às vezes mal entendida. Cristo distinguiu os campos de jurisdição de duas autoridades: a Igreja e o Estado, e, com isso, preveniu os efeitos nocivos do cesarismo e do clericalismo [...]. A distinção estabelecida por Cristo não significa, de modo algum, que a religião tenha de ser desterrada para o templo – para a sacristia –, nem que o ordenamento dos assuntos humanos deva ser feito à margem de toda a lei divina e cristã. Porque isto seria a negação da fé de Cristo, que exige a adesão do homem inteiro, alma e corpo, indivíduo e membro da sociedade.

A mensagem de Cristo ilumina a totalidade da vida dos homens, o seu princípio e o seu fim, não apenas o âmbito restrito de umas práticas de piedade subjetivas. E o laicismo é a negação da fé com obras, da fé que sabe que a autonomia do mundo é relativa e que tudo neste mundo tem como último sentido a glória de Deus e a salvação das almas»[15].

São Josemaria regressa a esta mesma perspetiva no capítulo “Cidadania” de Sulco. O mundo é “o que é nosso”, pertence-nos – afirma – porque nele a maioria dos batizados deve exercer as virtudes que os configurarão com Cristo.

«O mundo! … – “Isso é connosco!”, afirmas tu, depois de pores os olhos e a cabeça no céu, com a segurança do lavrador que caminha soberanamente pela sua messe: “Regnare Christum volumus!” – queremos que Ele reine sobre esta sua terra!»[16].

«Não é verdade que haja oposição entre ser bom católico e servir fielmente a sociedade civil. Como não há razão para que a Igreja e o Estado choquem no exercício legítimo das respetivas autoridades, em cumprimento da missão que Deus lhes confiou. Mentem (isso mesmo: mentem!) os que afirmam o contrário. São os mesmos que, em aras de uma falsa liberdade, quereriam “amavelmente” que os católicos voltassem às catacumbas»[17].

Como indicávamos no início, ensinar que a santidade cristã é plenamente possível num contexto de vida secular remete ao núcleo do espírito e da missão do Opus Dei: santificar-se trabalhando com liberdade filial in sæculum, quer dizer, nas realidades terrenas e temporais. Para isso é necessário conhecer as leis próprias do mundo, a natureza das coisas criadas e o que diz respeito à cidade dos homens, respeitando os seus dinamismos e a sua autonomia. Este compromisso leva a cristianizar a sociedade humana, a transformá-la a partir de dentro, mediante a caridade de Jesus Cristo.

«O Senhor não nos criou para construirmos aqui uma Cidade definitiva, porque este mundo é caminho para o outro, que é morada sem pesar. No entanto, nós, os filhos de Deus, não devemos desligar-nos das atividades terrenas, em que Deus nos coloca para as santificarmos, para as impregnarmos da nossa bendita fé, a única que dá verdadeira paz, alegria autêntica às almas e aos diversos ambientes. Tem sido esta a minha pregação constante desde 1928: urge cristianizar a sociedade; levar a todos os estratos desta nossa humanidade o sentido sobrenatural, de modo que uns e outros nos empenhemos em elevar à ordem da graça a ocupação diária, a profissão ou o ofício. Desta forma, todas as ocupações humanas se iluminam com uma esperança nova, que transcende o tempo e a caducidade do mundano»[18].

O que o fundador do Opus Dei pregou mostra uma singular convergência com os conteúdos da constituição Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II, no que se refere ao sentido e ao valor das atividades terrenas quando iluminadas pelo mistério pascal de Jesus Cristo[19]. Nestas páginas o Concílio defende a legítima autonomia das realidades terrenas[20], afirma a importância da construção da cidade dos homens na edificação da cidade de Deus[21] e reconhece que a esse dinamismo contribuem não apenas as grandes obras, mas também as circunstâncias normais da vida[22]. O Concílio reconhece implicitamente a condição “filial” da liberdade – explícita em São Josemaria – ao aludir à “forma cristológica” que a ação humana deve assumir para transformar o mundo por meio da caridade. De facto, a cooperação do trabalho humano na construção da Cidade de Deus não é fruto de um automatismo; são a graça e os dons do Espírito Santo que aperfeiçoam a atividade humana, permitindo que ela conduza a criação à sua plenitude.


Esta série é coordenada pelo Prof. Giuseppe Tanzella-Nitti. Participam outros colaboradores, alguns dos quais são professores na Pontifícia Universidade da Santa Cruz (Roma).


[1] Talvez não seja casualidade que a Sagrada Escritura utilize o mesmo termo apenas mais uma vez em todo o Antigo Testamento, quando a mãe de Moisés viu que seu filho, recém-nascido, era «belo» (cf. Ex 2, 2).

[2] Concílio Vaticano II, Gaudium et spes, n. 17.

[3] Ibid., n. 36.

[4] Cf. Ibid., n. 34-36.

[5] São Josemaria, Cristo que passa, n. 184.

[6] São Josemaria, Entrevistas a São Josemaria, n. 115-116.

[7] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 11.

[8] Cf. São Josemaria, Cristo que passa, n. 99; Entrevistas a São Josemaria, n. 34, 47, etc.

[9] Cf. São Josemaria, Sulco, n. 355; Entrevistas a São Josemaria, n. 90.

[10] São Josemaria, Caminho, n. 63.

[11] Cf. Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, n. 2, 10-11.

[12] São Josemaria, Entrevistas a São Josemaria, n. 59.

[13] São Josemaria, Carta 14, n. 28-29.

[14] São Josemaria, Entrevistas a São Josemaria, n. 117.

[15] São Josemaria, Carta 29, n. 31.

[16] São Josemaria, Sulco, n. 292.

[17] Ibid., n. 301.

[18] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 210.

[19] Cf. Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, n. 33-39.

[20] Cf. Ibid., n. 36.

[21] Cf. Ibid., n. 34.

[22] Cf. Ibid., n. 38.