Sexta-feira, 21 de junho de 1946[1], era o dia em que São Josemaria devia empreender a viagem por mar com destino a Itália. Celebrou a Santa Missa no pequeno oratório do Centro de Muntaner, presidido por um belo quadro da Imaculada Conceição. No frontal do altar, gravadas a fogo, destacavam-se dois veados e umas palavras do Salmo 51: «Sicut cervus desiderat fontes aquarum» (Sl 51, 2). Antes da Missa, o Padre dirigiu a meditação aos seus filhos que o acompanhavam nessa altura. Uma oração em voz alta que, apesar dos anos que passaram, nenhum dos ouvintes pôde esquecer.
Que será de nós?
Citando o Evangelho de São Mateus na passagem do jovem rico, que se afasta triste, por lhe ter faltado generosidade: «ecce nos reliquimus omnia et secuti sumus te; quid ergo erit nobis?» «deixámos tudo e seguimos-Te, que será de nós?» e partindo dessas palavras evangélicas, o Padre abriu o seu coração em queixa filial. Dizia ao Senhor que por ele era indiferente, mas que olhasse para os seus filhos que o tinham seguido: «Senhor – clamava –, pudeste permitir que eu de boa fé tenha enganado tantas almas? Tudo fiz pela tua glória e sabendo que é a tua Vontade! É possível que a Santa Sé diga que chegámos com um século de antecedência...? Ecce nos reliquimus omnia, et secuti sumus te (Mt 19, 27)».
As palavras de São Pedro pareciam aos que o escutávamos o reflexo exato dos sentimentos do Padre: misturava-se a ansiedade de se encontrar perante um horizonte humanamente escuro com a confiança certa em que o Senhor, por quem ele e os seus filhos tinham deixado tudo, não podia abandoná-los. «Vim a Roma – escreverá mais tarde São Josemaria numa carta de 25 de janeiro de 1961 – com a alma posta na minha Mãe, a Virgem Santíssima e com uma fé viva em Deus nosso Senhor, a quem invocava confiadamente, dizendo-lhe: “ecce nos reliquimus omnia, et secuti sumus te: quid ergo erit nobis?” (Mt 19, 27) Que será de nós, meu Pai? Deixámos tudo: honra – com tanta calúnia em cima – a vida inteira, fazendo cada um no seu lugar o que o Senhor lhe pedia. Deus escutou-nos e escreveu, nestes anos romanos, outra página maravilhosa da história da Obra».
Viagem no “J. J. Sister”
Na sexta-feira, 21 de junho, o céu em Barcelona estava coberto, com chuva intensa e fortes rajadas de vento. Era pouco frequente na segunda metade de junho, e o encarregado de escrever o “diário” do “Palau” não deixa de exprimir a sua estranheza: «O tempo continua a fazer das suas, pois amanhece a diluviar e com muito frio (inverno outra vez?)». Ao princípio da manhã, São Josemaria foi com alguns de nós à basílica da Merced, e ali aos pés da Virgem, confiou-se a Ela filialmente e pôs especialmente nas suas mãos o grande assunto que estava pendente em Roma. Enquanto regressava ao Centro, Francisco Ponz e eu fomos à “Transmediterranea” buscar os bilhetes com destino a Génova. O Inspetor da Companhia, Antonio Dezcallar, disse-nos que só conseguira reservar um camarote interior, visto que o “J. J. Sister”, na altura o único meio de transporte regular para sair de Espanha para a Europa, estava completamente cheio. A partida estava prevista para o meio-dia, mas pelo mau tempo, foi adiada para as quatro da tarde.

Ao camarote não chegavam ar nem luz do dia e as suas dimensões eram reduzidíssimas. À direita, havia dois beliches sobrepostos, um divã à esquerda, que podia ser usado como terceira cama e, ao fundo, um lavabo. A única iluminação era a luz ténue de umas lâmpadas elétricas, que pareciam tão antigas como o barco. Depois de deixar a bagagem, o Padre subiu ao convés: por volta das seis, finalmente o “J. J. Sister” zarpou. No cais, Francisco Ponz e o motorista Miguel Chorniqué acenavam com o braço a dizer adeus, e continuaram a fazê-lo até os perdermos de vista.
Uma travessia atribulada
O documento mais fidedigno para reconstruir a viagem é provavelmente uma carta que, por encargo do Padre, escrevi de Roma para Espanha em 24 de junho, ou seja, no dia a seguir à nossa chegada. Vou reproduzir, portanto, alguns parágrafos da carta, que tem a vantagem de recolher, ainda bem recentes, as impressões daquela singular aventura. Depois de sair do porto de Barcelona, começaram a sentir-se solavancos alarmantes. Tínhamos entrado na sala de jantar e achei prudente aconselhar o Padre a que, em vez de esperarmos pelo jantar, fôssemos rapidamente para o camarote, pois aqueles movimentos, cada vez mais fortes, eram o anúncio de que a travessia seria muito má. «E fizemos bem – diz a carta – porque a confusão que se criou foi extraordinária; e pensar que para o Padre era o batismo de mar…! Passámos dez ou doze horas de verdadeiro inferno… Não se ouvia senão o barulho da louça a partir-se, os móveis a deslocar-se de um lado para o outro, as senhoras a gritar: “Vamos afundar-nos, meu Deus! Que perigo!”; as bombas a aspirar continuamente a água que entrava por todo o lado: na primeira classe, estava alagado o “office”; na segunda, nos camarotes, a água chegava aos joelhos; o convés era materialmente varrido pelas ondas».
Talvez alguém pudesse pensar num certo exagero, demasiado dramatismo nestas linhas escritas quando mal tinham decorrido quarenta horas da chegada a Itália. Na página redigida no diário de bordo pelo capitão do barco à chegada a Génova, em tom frio e desapaixonado, dizia-se: «Começamos a navegação com vento fresco de NNW (nor-noroeste), que vai aumentando a pouco e pouco. O barco dá fortes solavancos e entram continuamente águas do mar para o convés. Levamos as escotilhas fechadas para evitar que entre água nos porões, mas não conseguimos evitar que a fruta que levamos à popa fique molhada, pelas contínuas batidas do mar. Por tudo isto, faço constar a recente declaração a carregadores, destinatários e quem quer que seja, pelos prejuízos que possa ter sofrido a carga durante as viagens e os danos que causar ao barco». O “diário” foi assinado em Génova no dia 22 de junho 1946 pelo capitão José M.ª Samitier.
Voltando aos aspetos humanos da aventura: o pior que talvez tenham os temporais no mar é que parece que não acabam nunca. A que sofremos nesta viagem deve ter durado entre quinze e dezoito horas: toda a noite e boa parte da manhã de sábado, 22 de junho.
Vamos voltar a Madrid transformados em pescadas
O Padre, que ocupava o beliche inferior do camarote, passou muito mal. Eu, para ficar à mesma altura, estendi-me no divã; assim conseguia ficar mais perto, ajudá-lo no que conseguisse e sobretudo conversar com ele durante essas horas intermináveis. O mau estado de saúde, o enjoo e o facto de essa ser a sua primeira vigem marítima contribuíam para aumentar o sofrimento físico do Padre. No entanto, mesmo parecendo mentira, nunca perdeu não só o ânimo, nem a alegria e o bom humor. «Padre – disse-lhe numa ocasião – não se preocupe: estamos no golfo de Lião e aqui o mar está sempre muito furioso». «Há que ver – respondeu-me – como o diabo meteu a cauda no golfo de Leão! É evidente que não acha graça nenhuma a chegarmos a Roma!». E nalgumas alturas, quando o barco, sacudido pela ondulação, assumia posições inverosímeis, dizia-me m tom jocoso: «Pepe, parece-me que vamos voltar a Madrid transformados em pescadas», ou «Pepe, sabes o que te digo? Se formos a pique e os peixes nos comerem, o Pedro Casciaro, que é tão delicado, não volta a comer pescadinha em toda a vida dele!».
Por fim, perto do meio-dia, amainou a violência do temporal, veio o sol e as águas acalmaram um pouco. Pensei que o Padre se ia sentir melhor ar livre do que no camarote escuro e inóspito e, felizmente, assim foi. No convés, o salitre que a água do mar tinha deixado notava-se por toda a parte e os restos chegavam até à chaminé. O Padre conversou bastante tempo com o capitão, que comentava os episódios da tempestade e até sentiu forças para tomar uma chávena de café com leite e algumas bolachas, único alimento durante toda a travessia. Nessas horas, a passear pelo convés, tivemos ocasião de contemplar umas tantas coisas que pareciam insólitas mesmo aos mais habituados às viagens marítimas.
O primeiro espetáculo foi o encontro com três grupos de filhotes de baleia, que lançavam grandes quantidades de água, de cada vez que emergiam para respirar. Tratava-se de um fenómeno, que, segundo os marinheiros do barco, raramente ocorre no Mediterrâneo. Como é de calcular, o aparecimento das baleias trouxe-nos de imediato à mente a narração bíblica do profeta Jonas, que adquiria aos nossos olhos uma atualidade renovada.
O encontro com uma mina por explodir
O segundo espetáculo pouco tinha a ver com velhas recordações, mas sim, muito, com a história mais recente. Num determinado momento, apercebemo-nos de que o “J. J. Sister” se virava bruscamente para a direita e pudemos dar-nos conta do motivo da manobra: à proa do barco tinha aparecido uma mina à deriva.
Passara apenas um ano sobre o fim da Segunda Guerra Mundial, durante a qual as duas partes tinham semeado de minas as águas em que se combatia. A mina foi avistada com bastante antecedência, pois o sol brilhava e havia boa visibilidade: a grande esfera metálica de cor escura, cravejada de tubos ou pontas, passou à esquerda do navio e em breve a perdemos de vista.
Anos depois, a falar com um amigo, oficial de Marinha e engenheiro naval, lembrei-me de lhe perguntar o que podia ter acontecido se o barco tivesse embatido no artefacto bélico. Respondeu-me que, já antes da Primeira Guerra Mundial uma Convenção internacional – não recordo se a de Haia ou de Genebra –, regulamentando o uso de armas em guerras no mar, tinha estabelecido que as minas deviam estar providas de um mecanismo de segurança que funcionasse automaticamente e impedisse a explosão caso se tivessem soltado da sua “ancoragem” e andassem à deriva sem rumo. O problema estava em saber se os beligerantes teriam respeitado ou não essas normas no fabrico das minas e também em saber se esse mecanismo funcionaria corretamente ou se teria ficado inutilizado, passados anos de permanecer debaixo de água. A conclusão do oficial foi que, de toda a maneira, era melhor não ter experimentado. Naquele caso, foi fácil de evitar. Outra coisa seria se fosse de noite ou no meio do temporal, em que teria sido impossível de avistar.
Um fortíssimo abraço: chegada a Génova
Era já alta noite quando o barco atracou. O Pe. Álvaro e Salvador tinham chegado, vindos de Roma, por volta da uma da tarde e tiveram uma grande deceção, ao saber pela Companhia do atraso, por ter saído tarde de Barcelona e o mar estar agitado. O Pe. Álvaro faz constar o seu desconforto no “diário romano”: «Quanto rezámos para que o mar estivesse calmo, a viagem corresse bem, etc., etc. Também por ser a primeira viagem por mar do Padre!». Vimo-los a atracar. «Cá estou, malandro!», foi a primeira coisa que o Padre gritou ao Pe. Álvaro: «Teimoso, conseguiste o que querias!». E, ao ver também Salvador, acrescentou: «Os dois, que bom virem os dois!». Poucos minutos depois, descemos para terra e o Padre pôde dar um fortíssimo abraço àqueles seus dois filhos, felizes de estar de novo com ele.

Um bocadinho de queijo parmigiano
O [agora] Beato Álvaro e Salvador tinham reservado quartos para essa noite no Hotel Columbia e para lá nos dirigimos sem perder tempo. O Padre estava contentíssimo, mas ao mesmo tempo, exausto. A viagem fora cansativa e estava praticamente em jejum e sem as injeções de insulina prescritas no tratamento para a diabetes. Chegados ao hotel, procurámos que nos dessem alguma coisa para jantar, mas já não serviam nada àquela hora, nem sequer nos quartos. O Beato Álvaro tinha guardado um bocadinho de queijo parmesão, pensando que o Padre podia gostar e uns pedaços de pão, que tinham sobrado do saco de viagem trazido de Roma; isso foi tudo o que o nosso Padre teve para jantar, na sua primeira noite em terra italiana.
A primeira Missa de São Josemaria em Itália
No domingo, 23 de junho, às 7 da manhã, saímos a pé do hotel à procura de uma igreja onde São Josemaria e o Beato Álvaro pudessem celebrar a Santa Missa. Fomos primeiro a uma igreja dos Agostinianos na via Balbi, uma das artérias principais do centro histórico da cidade; mas lá, por motivos que não recordo e de que não ficou registo escrito, foi impossível celebrar. Referiram-nos uma “igrejinha” próxima, em que o Padre celebrou no altar-mor, ajudado por Salvador Canals, e eu ajudei o Beato Álvaro no altar do Sagrado Coração. Depois de uma pesquisa aturada por membros italianos da Obra, concluiu-se que terá sido na igreja paroquial de São Sisto, Papa e Maria Bambina.
À saída, um encontro com os “Camisas Vermelhas”
Às nove, começámos a viagem de carro. Antes de sair da cidade, estava-nos ainda reservada a sorte de sermos testemunhas diretas de um acontecimento “histórico”. Ao chegar a uma avenida que era preciso atravessar para apanhar a estrada para Roma, a passagem estava interrompida por uma manifestação singular ou “cortejo cívico”, que nos obrigou a parar. Muitos dos manifestantes usavam camisas vermelhas e essa cor podia fazer pensar num desfile comunista. Mas demo-nos logo conta de que não era: as Camisas Vermelhas eram o velho uniforme garibaldino e toda aquela multidão fazia parte de um cortejo fúnebre que acompanhava os restos mortais de Giuseppe Mazzini. Este célebre tribuno do “Risorgimento” tinha sido o criador da República Romana, depois da revolução que forçou Pio IX, em 1848, a abandonar os Estados Pontifícios e a refugiar-se em Gaeta, cidade que na altura pertencia ao Reino de Nápoles. A República romana de Mazzini durou pouco e, se o “Risorgimento” continuou a progredir, isso veio a dar-se sob as bandeiras da Casa de Sabóia, que conseguiu efetuar a unidade de Itália e, após o desaparecimento dos Estados Pontifícios em 1870, fez de Roma a capital do novo Reino de Itália.
Mazzini, irredutível republicano, não aceitou a Monarquia dos Sabóia e viveu em exílio em vários países da Europa. Regressou a Itália com o nome fictício de Doutor Brown e, encontrando-se em Pisa, faleceu em 10 de março de 1872. Parece que, antes de morrer, tinha determinado que ninguém levasse os seus ossos do túmulo até ter triunfado a República em Itália. E era justamente o que acontecera pouco antes da nossa chegada. O referendo de 2 de junho dera a vitória à República; no dia 10, o Supremo Tribunal proclamou oficialmente o resultado e no dia14, o rei Umberto II abandonou o país. Os velhos republicanos recordaram a última vontade de Mazzini e levavam agora, com grande solenidade, os seus restos mortais para serem sepultados nalgum honroso panteão de Génova, a sua cidade natal. Terminado o cortejo, pudemos seguir viagem. Do assento do automóvel, São Josemaria teve ocasião de contemplar o primeiro de muitos espetáculos insólitos que lhe tocaria viver durante os quase trinta anos da sua permanência em Roma.
Em direção a Roma!
A chuva não parou de cair em toda a manhã. «Mais do que Itália – escrevi para Madrid – parecia a Escócia». Numa Península italiana ainda sem autoestradas, eram precisas pelo menos doze horas para percorrer a distância entre as duas cidades. O Padre falava de projetos para o futuro trabalho apostólico da Obra e recordo que me causou surpresa o seu anúncio de que o Opus Dei criaria alguns – pouquíssimos – centros de ensino secundário. Uns anos mais tarde, Gaztelueta, à entrada da ria de Bilbau, seria o primeiro destes colégios, obras corporativas, ou seja, atividades apostólicas das quais o Opus Dei assume a responsabilidade da orientação doutrinal e espiritual. Por volta das nove e meia da noite, surgiu diante dos nossos olhos a silhueta inconfundível da cúpula de São Pedro. São Josemaria, visivelmente comovido, rezou o Credo em voz alta. Era o anúncio de que estávamos às portas da Urbe, daquela Roma papal, cabeça e coração da Cristandade, com que tantas vezes sonhara na sua vida. Naquela altura a campina romana chegava quase até aos muros da Cidade do Vaticano e não existiam os grandes bairros de nova construção que agora se estendem muito para lá do perímetro urbano. Por isso, passados poucos minutos, entrávamos nas ruas da antiga Roma.
[1] O texto é de José Orlandis em Mis recuerdos. Primeros tiempos del Opus Dei en Roma, Rialp, Madrid: 1995 (a tradução é nossa e foram suprimidos alguns parágrafos, para não alongar o artigo). Na altura da publicação do texto, São Josemaria ainda não tinha sido canonizado; no original, é referido como Beato, que alterámos agora, por motivos de clareza. O Pe. Álvaro del Portillo é agora Beato.
