No dia 21 de junho, o fundador da Obra encontrava-se em Barcelona. Num centro do Opus Dei pregou uma meditação. Recordou que um eclesiástico tinha comentado que a Obra tinha chegado a Roma com um século de antecedência e, enquanto olhava para o sacrário, acrescentou: «Senhor! Como pudeste permitir que eu, de boa-fé, enganasse tantas almas? Fiz tudo para a tua glória e sabendo que era a tua Vontade!»[1]. E recordou as palavras de Pedro a Jesus: «Eis que deixámos tudo e Te seguimos» (Mt 19, 27),), continuando a sua oração: «Que será de nós? Não podes abandonar aqueles que confiaram em Ti!»[2].
Pouco depois, São Josemaria e José Orlandis, que o acompanharia, rezaram diante da imagem de Nossa Senhora das Mercês e embarcaram no vapor J.J. Sister, que fazia a ligação Barcelona–Génova. Durante a noite, o mar esteve muito agitado. O navio sofreu fortes balanços. Os passageiros ouviram gritos e o ruído da loiça que caía e se partia. Atracaram em Génova ao anoitecer do dia 22. O Beato Álvaro e Salvador Canals, que os esperavam no porto, conduziram-nos ao hotel. Na manhã seguinte celebraram a Missa na igreja de São Sisto e, num automóvel alugado, seguiram para Roma, onde chegaram depois das 21 horas.
Uma noite de vigília
Mal viu a cúpula de São Pedro, o fundador, comovido, rezou em voz alta o Credo. Ficaram alojados num apartamento nas águas-furtadas de Piazza della Città Leonina, n. 9, a poucos metros da colunata de Bernini. Para surpresa de todos, que se retiraram para descansar, São Josemaria passou uma noite inteira de vigília em oração na varanda, com o olhar voltado para os aposentos pontifícios.
O apartamento onde o fundador se alojou com os seus filhos naquela pequena praça de Città Leonina era propriedade da Santa Sé, arrendado a Luciana Frassati – irmã de Pier Giorgio, canonizado em 2025 – e mulher do diplomata polaco Jas Gawroński. A senhora Frassati subarrendou-lhes uma parte da casa, que incluía um vestíbulo, um pequeno corredor, a sala de jantar, um oratório, o quarto de São Josemaria, uma varanda coberta e uma casa de banho.
Muitas visitas, muitas diligências e audiência com Pio XII
O Beato Álvaro, que se encontrava em Roma há alguns meses, organizou para São Josemaria uma agenda de visitas destinada a favorecer contactos úteis para a obtenção do decretum laudis. Com efeito, em apenas duas semanas encontrou-se com numerosas personalidades eclesiásticas[3]. Foram dias de «muitas visitas, muitas diligências e muita providência de Deus Pai»[4], acompanhados pela oração e pelo trabalho sobre as novas formas do decreto – confiado pela Santa Sé a Larraona – e sobre as Constituições da Obra: «Estamos mergulhados na doutrina canónica»[5], anotou São Josemaria no seu calendário litúrgico.
No dia 16 de julho, o Papa Pio XII recebeu-o em audiência. Não conhecemos os pormenores desse encontro; de certo modo, coroava os primeiros dias romanos. O fundador estava radiante: não imaginara um acolhimento tão cordial por parte da Cúria. E, apesar do muito calor, acelerou o trabalho no estudo das chamadas formas novas[6] e do decretum laudis para o Opus Dei.
O fundador visitou também outras personalidades eclesiásticas e civis, como o jesuíta Severiano Azcona, assistente para Espanha, que se comprometeu a escrever uma carta aos provinciais para que alterassem a sua atitude de desconfiança em relação ao Opus Dei; José Antonio Sangróniz e Mario Ponce de León, respetivamente embaixador e cônsul de Espanha junto do Estado italiano; Juan Teixidor, ministro encarregado de negócios junto da Santa Sé; Carlos Calaf, diretor espiritual do Colégio Espanhol; e Martin Gillet, mestre-geral dos dominicanos.
À procura de uma sede para o Opus Dei
São Josemaria enfrentou também o segundo objetivo: estabelecer-se em Roma. A Cidade Eterna favoreceria o contacto direto com a Santa Sé e a difusão universal da mensagem da Obra. Por isso, era necessário encontrar uma casa que servisse de sede central. Visitou alguns edifícios à venda ou para arrendamento e comprou móveis, candeeiros e velharias para mobilar o apartamento onde viviam.
Com a ajuda dos seus filhos, obteve da Penitenciaria Apostólica indulgências para aqueles que realizassem o seu trabalho profissional como oferecimento a Deus e para aqueles que beijassem com devoção ou rezassem uma breve oração diante da cruz de madeira colocada nos oratórios dos centros do Opus Dei; rescritos da Congregação dos Religiosos, como a autorização para os membros da Obra se encarregarem da conservação dos objetos de culto; e outro do Vicariato de Roma que autorizava a instituição da procuradoria-geral do Opus Dei em Roma e a existência de um oratório semipúblico. Recebeu com especial alegria do bispo de Forlì as relíquias de São Sinfero e de Santa Mercuriana, mártires romanos, bem como uma relíquia do Lignum Crucis e outras relíquias oferecidas por Umberto Dionisi, reitor da Basílica de Santa Cecília.
Alguns sonhos realizados
No dia 3 de julho, reservou a Eucaristia no oratório do apartamento de Città Leonina e, a partir de então, celebrou aí habitualmente a Missa. Além disso, realizou alguns dos sonhos que acalentara durante décadas, como rezar na Basílica de São Pedro – onde se dirigiu dois dias depois da sua chegada – e celebrar Missa nas catacumbas, em particular nas de São Calisto. Celebrou também na cela de São José de Calasanz, nos aposentos de Santo Inácio de Loyola e na igreja do convento dos claretianos da Via Giulia. Sentia-se feliz na Cidade Eterna, apesar do intenso calor, que o seu organismo afetado pela diabetes sentia de modo especial. Com o automóvel alugado por Canals, deu alguns passeios a Óstia, Castel Gandolfo e Tivoli, por vezes acompanhado por Larraona ou por Goyeneche.
São Josemaria observava que a vida na Cidade Eterna lhe oferecia uma nova perspetiva: «Estou muito contente. Era preciso vir, para nos apercebermos das coisas»[7], comentava aos seus irmãos. Por isso, além de recordar os assuntos pendentes em Espanha, nas cartas aos membros do Conselho Geral e da Assessoria Central pedia que pensassem em pessoas que pudessem ir viver para Roma e na aquisição dos objetos necessários para completar o oratório de Città Leonina.
Uma vez dados os primeiros passos romanos, era o momento de reforçar o governo e as atividades da Obra. No dia 31 de agosto, São Josemaria e o Beato Álvaro levantavam voo do aeroporto de Ciampino para regressar temporariamente a Espanha. Além da bagagem pessoal, levavam consigo as relíquias de dois mártires, a mala diplomática[8] da embaixada de Espanha destinada ao ministro dos Negócios Estrangeiros e a do Vaticano destinada ao núncio em Espanha.
[1] Testemunho de Francisco Ponz Piedrafita, Pamplona, 17/10/2005, Arquivo Geral da Prelatura do Opus Dei (AGP), A.5, 238-3-5.
[2] Ibid.
[3] Mons. Giovanni Battista Montini, pró-secretário de Estado, que se entusiasmou com o trabalho do Opus Dei junto dos intelectuais e se comprometeu a solicitar-lhe uma audiência com o Papa; o cardeal Ernesto Ruffini, arcebispo de Palermo; o cardeal Federico Tedeschini, antigo núncio em Espanha; Mons. Manuel Fernández-Conde, oficial da Secretaria de Estado; Mons. Luca Ermenegildo Pasetto, secretário da Congregação dos Religiosos; os claretianos Siervo Goyeneche e Arcadio Larraona, oficiais da mesma Congregação; e Serafino De Angelis, oficial da Penitenciaria Apostólica.
[4] Calendário litúrgico, 11 e 18/07/1946, AGP, A.2, 180-1-5.
[5] Ibid.
[6] Associações de vida cristã e de apostolado que não se enquadravam no conceito canónico estrito dos estados de perfeição, quer porque os associados não emitiam votos públicos, quer porque não viviam em comunidade. Pela sua novidade, eram designadas por formas novas de vida cristã, formas novas de perfeição, de apostolado ou de vida religiosa; ou simplesmente formas novas.
[7] Carta de Josemaria Escrivá de Balaguer a Carmen e Santiago, Roma, 30/06/1946, AGP, A.3.4, 259-1, 460630-3.
[8] Conjunto da correspondência que uma missão diplomática no estrangeiro envia ao seu próprio governo, ou dele recebe, permitindo-lhe comunicar com o seu Estado em plena liberdade e segurança.
