“Dilexi te”, um ano depois

Por ocasião do primeiro aniversário da publicação da Exortação Apostólica Dilexi te, do Papa Leão XIV, oferecemos um resumo de suas principais ideias. É uma oportunidade para voltar ao texto e considerar novamente o convite do Papa a reconhecer Cristo no rosto dos pobres e a renovar o nosso compromisso de cuidado com os necessitados.

Este primeiro aniversário é uma ocasião para reler a Exortação Apostólica Dilexi te e considerar novamente as ideias propostas pelo Papa Leão XIV sobre o amor pelos pobres. O documento pode ser lido na íntegra aqui.

Há um ano, o Papa Leão XIV publicou Dilexi te, sobre o amor pelos pobres. Em continuidade com a grande tradição da Igreja, a Exortação recorda que o cuidado dos pobres não é algo secundário na vida cristã, mas parte essencial do caminho da Igreja. Os pobres não são uma categoria sociológica: são a própria carne de Cristo.

O documento retoma, em profunda continuidade com a Encíclica Dilexit nos, do Papa Francisco, o mistério do amor de Cristo e o seu vínculo com o chamado a nos fazermos próximos dos pobres. O ponto de partida são as palavras do Senhor: “Eu te amo” (Ap 3,9). O amor por Cristo e o amor pelos pobres aparecem, assim, profundamente unidos.

O amor que se aproxima dos pobres

No início da Exortação, o Papa recorda a mulher que derramou sobre a cabeça de Jesus um perfume precioso. Ao defendê-la, o Senhor afirma: “Tereis sempre pobres entre vós, mas a mim nem sempre Me tereis” (Mt 26,8-11). Aquele pequeno gesto foi uma profunda consolação para Jesus e mostra que nenhum gesto de afeto é esquecido, sobretudo quando dirigido a quem sofre. Nessa perspectiva, o amor pelo Senhor se une ao amor pelos pobres.

São Francisco de Assis é uma inspiração. O encontro com os pobres provocou nele um renascimento evangélico que marcou a Igreja e a sociedade de seu tempo. O testemunho de Francisco continua atual: a “opção preferencial pelos pobres” renova a Igreja e a sociedade quando nos libertamos da autorreferencialidade e escutamos o “grito dos pobres”.

A Exortação também adverte contra uma felicidade baseada na riqueza e no sucesso a todo custo, que pode alimentar uma cultura que descarta os outros e permanece indiferente diante da fome e de condições de vida indignas. Em muitos casos, a pobreza não é acidental nem fruto de uma escolha. Os cristãos também podem ser influenciados por ideologias mundanas, como mostra o desprezo ou a ridicularização da caridade.

Deus escolhe os pobres

Deus é amor misericordioso e veio ao encontro das suas criaturas, cuidando da sua condição humana e da sua pobreza. Ele mesmo se fez pobre, compartilhando as limitações e a fragilidade da nossa natureza humana e a radical pobreza da morte.

Podemos falar, assim, de uma opção preferencial de Deus pelos pobres, sem que isso implique exclusividade ou discriminação. A predileção de Deus pelos pobres, presente em toda a história do Antigo Testamento, encontra em Jesus a sua plena realização. Cristo “despojou-se de si próprio, tomando a condição de escravo, tornando-se semelhante aos homens” (Fl 2,7).

Jesus é a revelação do privilegium pauperum: não apenas o Messias pobre, mas o Messias dos pobres e para os pobres. Eles são os primeiros destinatários da palavra de esperança e libertação do Senhor. Por isso, ninguém, mesmo em situação de pobreza ou fragilidade, deve se sentir abandonado.

Uma Igreja para os pobres

O cuidado dos pobres sempre esteve presente na vida da Igreja. Desde os primeiros tempos, manifesta-se na instituição do diaconato pelos Apóstolos e, ao longo dos séculos, na ação dos Padres da Igreja, das congregações religiosas, das ordens mendicantes e dos mosteiros.

Em tempos mais recentes, essa missão continuou através de santos e santas dedicados à educação dos pobres e ao acompanhamento dos migrantes e dos últimos — doentes, prisioneiros e escravos. O cuidado dos necessitados permanece uma constante na vida da Igreja e também se manifesta em movimentos populares que defendem os direitos dos pobres diante das causas estruturais da pobreza.

Uma história que continua

As profundas transformações tecnológicas e sociais dos últimos dois séculos também foram enfrentadas e pensadas pelos próprios pobres, por meio de movimentos de trabalhadores, mulheres e jovens. A Doutrina Social da Igreja possui igualmente uma raiz popular que não deve ser esquecida: sua reflexão sobre as circunstâncias sociais, trabalhistas, econômicas e culturais modernas contou com a contribuição de leigos cristãos que enfrentaram os desafios de seu tempo.

O magistério dos Papas abordou progressivamente a questão social, desde a Rerum novarum, de Leão XIII, e a Mater et Magistra, de João XXIII. O Concílio Vaticano II, com documentos como a Gaudium et Spes e a Populorum progressio, reafirmou a proximidade da Igreja com os pobres e o destino universal dos bens. João Paulo II consolidou a opção preferencial pelos pobres como expressão da caridade cristã; Bento XVI aprofundou a relação entre amor ao próximo e busca do verdadeiro bem comum; e o Papa Francisco valorizou o contributo das Conferências Episcopais latino-americanas.

Nesse caminho, o magistério reiterou a ligação entre a missão da Igreja, a justiça e a solidariedade universal. A Exortação destaca ainda as “estruturas de pecado” que criam pobreza e desigualdades extremas e a necessidade de reconhecer os pobres como “sujeitos”, e não apenas como objetos de beneficência. Eles são sujeitos de evangelização e promoção humana integral, e sua sabedoria e experiência são uma riqueza para toda a Igreja.

Um desafio permanente

A história bimilenar da Igreja com os pobres constitui uma parte essencial do seu caminho. O cuidado dos pobres pertence à grande Tradição da Igreja, que, a partir do Evangelho, iluminou os corações e os passos dos cristãos de todos os tempos.

Um ano depois de Dilexi te, permanece o convite a reconhecer Cristo no rosto das pessoas necessitadas e que sofrem. Os cristãos não podem considerar os pobres apenas como um problema social: eles são uma “questão familiar”, são “dos nossos”.

A parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37) recorda esse compromisso. As palavras de Jesus — “Vai, e faz tu também do mesmo modo” (Lc 10,37) — constituem um mandado para cada dia.

A Exortação conclui recordando que o amor cristão vence barreiras, aproxima os que estão longe, une os desconhecidos e torna familiares até os inimigos. É um amor sem limites. Por meio do trabalho, da transformação das estruturas injustas e dos gestos concretos de ajuda pessoal, o pobre poderá ouvir também hoje as palavras de Jesus: “Eu te amo” (Ap 3,9).


Referências e para aprofundar

Sobre a Exortação Apostólica Dilexi te

São Josemaria e o cuidado dos pobres

Atualidade e ação social