Vimos o Evangelho ao vivo em Sepetiba, Rio de Janeiro.

O Centro Cultural e Universitário Botafogo (CCUB) organizou uma iniciativa de voluntariado em Sepetiba, no Rio de Janeiro, que reuniu jovens de diferentes cidades para ajudar a comunidade local. Durante alguns dias, eles colaboraram na reforma de um salão paroquial, visitaram famílias e ofereceram atendimento médico.

É curioso pensar que, até poucos meses atrás, Sepetiba[1] era apenas um nome que praticamente nenhum de nós conhecia. Hoje, basta mencioná-lo para que venham à memória rostos, histórias, risadas e uma certeza: fomos até lá para ajudar, mas voltamos tendo recebido muito mais.

Tudo começou de forma um pouco improvisada. O projeto social  do Centro Cultural e Universitárido Botafogo (CCUB) que costumávamos realizar em julho não pôde acontecer e, depois de outras tentativas frustradas, o tempo começou a apertar. Havia ainda um pequeno detalhe: oito estudantes mexicanos já tinham comprado passagem para o Brasil.

Foi então que surgiu Sepetiba. Dom Antônio Augusto, bispo-auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro, comentou sobre a possibilidade de ajudarmos uma paróquia da região. Nós ainda não sabíamos exatamente onde ficava Sepetiba, muito menos o que faríamos ali, mas, com certo alívio, já brincávamos: “Não sabemos o que vai acontecer, mas vamos para Sepetiba...”.

Ação social Sepetiba

Poucos dias depois, estávamos reunidos com o Pe. José Milton, pároco da Nossa Senhora de Fátima, que em todas as ocasiões nos acolheu muito bem. A paróquia era relativamente nova e tinha, ao lado da igreja, uma espécie de galpão que precisava ser transformado em salão paroquial. Nossa missão seria arrecadar os recursos necessários para a reforma, ajudar a realizá-la, visitar famílias da região e oferecer atendimento médico.

Tínhamos menos de dois meses para organizar tudo. Aos poucos, porém, as coisas foram acontecendo. Jovens de várias cidades se animaram, familiares e amigos contribuíram, grupos fizeram rifas e campanhas. Os participantes de Belo Horizonte e Brasília conseguiram levantar uma ajuda especialmente importante. Um sacerdote tcheco, Pe. Vit, também havia recebido de seus paroquianos uma generosa doação destinada a uma obra social no Brasil.


Quando chegamos a Sepetiba, já éramos um grupo bastante internacional: brasileiros, mexicanos, um espanhol, um paraguaio e gente de diferentes cidades do país.

Na primeira noite, espalhamos sacos de dormir e colchões infláveis pelo alojamento. Fazia 26 graus às dez da noite, e a quantidade de repelentes que a própria paróquia tinha deixado à nossa disposição já anunciava que dormir também faria parte da aventura.

No dia seguinte, depois da Missa e do café da manhã, conhecemos os trabalhos e dividimos as equipes. Entre português, espanhol e algumas boas doses de mímica, fomos nos entendendo. Os mestres de obra davam as orientações, nós tentávamos aprender, e a primeira grande recompensa veio no almoço: uma feijoada que dispensou qualquer tradução.

À tarde, ainda tivemos uma espécie de despedida do velho galpão. Todos nos sentamos ali para assistir à final da Copa do Mundo. Para a alegria do espanhol Kike, a Espanha terminou campeã.

Final da copa no futuro salão
Final da copa no futuro salão

No dia seguinte, começou o trabalho de verdade.

Luvas, óculos de proteção, andaimes, lixas, pincéis. No início, tudo parecia uma grande festa. Havia música mexicana, piadas, conversas e muito guaraná natural — que alguns bebiam como se fosse uma água típica do Rio de Janeiro.

Enquanto parte do grupo trabalhava na reforma, os estudantes de medicina visitavam famílias que haviam pedido atendimento. Outros também saíam para conhecer os moradores, ouvir suas histórias, levar alguma lembrança e, muitas vezes, rezar com eles.

Foi aí que o voluntariado começou a mudar de significado para nós.

À medida que o antigo galpão ganhava forma de salão paroquial, o cansaço também aparecia. A animação continuava, mas se tornava mais serena. Era bonito ver jovens que nunca tinham utilizado determinadas ferramentas escutando atentamente os profissionais e tentando fazer bem aquilo que lhes era pedido.

Também fomos percebendo que o projeto já não era simplesmente “nosso”. As senhoras que trabalhavam na cozinha, os jovens da comunidade, os operários e os moradores entraram naturalmente naquilo que estávamos fazendo. Cada um encontrava um jeito de ajudar.

E, às vezes, o idioma ajudava a tornar tudo ainda melhor.

Um dos mexicanos, Silverio, perguntou a uma senhora onde poderia colocar a “basura”. Ela entendeu outra coisa e saiu apressada da cozinha. Pouco depois, voltou muito contente trazendo uma vassoura. Quando finalmente descobrimos que ele estava procurando apenas uma lixeira, ninguém conseguiu segurar a risada.

Mas foi justamente a palavra “basura” que acabou entrando em uma das lembranças mais bonitas daqueles dias.

Dona Ana e três sacos de reciclagem

Conhecemos a dona Ana durante uma visita a uma casa que precisava de alguns reparos. Ela e seu Pedro são um casal de idosos muito querido na região. Trabalham com reciclagem e vivem em uma casa simples, com pouca iluminação, goteiras e um pequeno galinheiro.

Foi difícil encontrá-los em casa. Quando finalmente conhecemos dona Ana, ela nos recebeu como se já fôssemos conhecidos havia muito tempo. Mineira, morava em Sepetiba havia mais de quarenta anos.

Logo começou a contar histórias.

Explicou, por exemplo, que não matava suas galinhas para comer, porque elas eram muito carinhosas e gostavam de receber carinho. Também dizia que queria que ficássemos morando com ela. Não tinha tido filhos e brincava que, naquele dia, havia ganhado vários.

Passamos quase dois dias ajudando na casa.

seu Pedro
seu Pedro

Silverio, Tomás, José Pablo e outros mexicanos separavam materiais em diferentes sacos: lixo, reciclagem, adubo. Dona Ana aprendeu rapidamente uma palavra em espanhol e começou a apontar, toda contente:

“Basura!”

“Reciclaje!”

No fim do trabalho, ficaram separados três sacos de materiais recicláveis. Para nós, aquilo parecia apenas parte da organização. Para ela, não. Com toda naturalidade, dona Ana disse que queria doar aqueles sacos para a paróquia. Demoramos alguns segundos para entender. Ela vivia justamente da reciclagem. Aquilo tinha valor para ela. Era parte do seu sustento. Mesmo assim, queria doar.

Tomás, Jorge, Axel, Silverio e José Pablo recolhendo o lixo na dona Ana
Tomás, Jorge, Axel, Silverio e José Pablo recolhendo o lixo na dona Ana

Um de nós percebeu o que estava acontecendo e chamou a atenção dos demais. Naquele momento, a cena do Evangelho da viúva pobre deixou de parecer distante. Não estávamos diante de alguém dando aquilo que sobrava. Estávamos diante de uma mulher simples oferecendo aquilo que possuía. Nós tínhamos ido até aquela casa para ajudá-la. E saímos de lá tendo recebido uma lição.

O sorriso de Maria José

Outra visita que ficou gravada em nós foi a Maria José.

Ela tem 62 anos e uma alegria difícil de explicar. Desde o momento em que abriu a porta, sorria. E continuou sorrindo até mesmo quando, ao contar a própria história, algumas lágrimas começaram a aparecer.

Casou-se aos 17 anos e ficou viúva aos 22. Pouco depois, o pai adoeceu. Maria José passou então a ajudar a mãe a cuidar dele. Mais tarde, a própria mãe também adoeceu.

Depois da morte do pai, os cuidados com a mãe passaram a ocupar praticamente toda a sua vida.

Hoje, a mãe não fala e não consegue sair de casa. Maria José dá-lhe água com uma colher, ajuda-a a ir ao banheiro, administra os medicamentos, alimenta-a e acompanha cada necessidade.

Ela contava tudo isso sem dramatizar. Havia dor, certamente. Havia cansaço. Havia saudade. Mas havia, sobretudo, amor. Era impressionante ouvi-la falar sobre aquela vida que, vista de fora, poderia parecer limitada, e perceber que ela própria não a enxergava assim. Em algum momento da conversa, uma frase do Evangelho parecia ganhar corpo diante de nós: “Ninguém tem maior amor do que este: dar a vida pelos seus amigos.” (Jo 15,13). Talvez este tenha sido um dos maiores presentes de Sepetiba: algumas passagens do Evangelho deixaram de ser apenas frases conhecidas. Ganharam rosto.

Fomos trabalhar. Encontramos uma catequese.

Os dias seguiram com uma rotina simples: oração, Missa, trabalho, terço, refeições barulhentas, histórias, futebol com o pessoal da comunidade. Houve também um dia de descanso, com trilha e praia.

Ao final, o galpão já não era o mesmo.

Salão finalizado
Salão finalizado

Mas nós também não.

Encontramos em Sepetiba muitas histórias parecidas com as de dona Ana, seu Pedro e Maria José. Pessoas com dificuldades bastante concretas, mas que não se resumiam a essas dificuldades. Pessoas alegres, generosas, cheias de fé e capazes de oferecer muito mesmo tendo pouco.

É fácil chegar a um voluntariado pensando naquilo que vamos dar: algumas horas, dinheiro, trabalho, conhecimento, disposição.

Sepetiba nos ensinou algo diferente.

A caridade não acontece apenas quando alguém que tem mais oferece alguma coisa a quem tem menos. Ela acontece no encontro. E, nesse encontro, nem sempre sabemos quem está ajudando quem.

Fomos até lá para pintar paredes, consertar casas e atender pessoas.

Voltamos lembrando de três sacos de reciclagem oferecidos por uma senhora que precisava deles. Do sorriso de uma mulher que entregou a vida cuidando da mãe. Das gargalhadas provocadas por uma vassoura. Das conversas durante o trabalho. Das orações feitas dentro de casas simples.

Sem que tivéssemos planejado, aqueles dias se tornaram uma espécie de catequese viva.

Em Sepetiba, o Evangelho não apareceu para nós como uma teoria. Pudemos vê-lo em pequenos gestos, ouvi-lo em histórias concretas e, por alguns dias, participar um pouco dele.

Talvez por isso seja tão estranho pensar que, até pouco tempo atrás, mal sabíamos onde ficava Sepetiba. Agora sabemos. Fica também dentro de nós

pôr do sol na Igreja
pôr do sol na Igreja

[1] Sepetiba é um bairro localizado na Zona Oeste do município do Rio de Janeiro. Faz limite com os bairros de Santa Cruz, Pedra de Guaratiba, Barra de Guaratiba e Guaratiba

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Gabriel Olímpio e Lázaro Fernandes