A hora dos pobres

Não podemos correr atrás dos bens materiais como quem vai à busca de um tesouro; nosso tesouro está aqui, reclinado numa mangedoura; é Cristo, e nEle se devem concentrar todos os nossos amores

Estas linhas não são um cântico de louvor à fome, à indigência ou a qualquer outra carência humana. Querem-no ser, sim, um cântico ao uso equitativo dos bens, à temperança, à generosidade e ao desprendimento. Estamos em tempos difíceis para a economia, e talvez esta realidade seja um momento propício para um melhor uso daquilo que possuímos. Mas também não se trata de pôr um freio às aspirações legítimas das pessoas, nem de arranjar desculpas para governantes, trabalhadores e empresários. O que proponho é o de sempre, que tem a ver com o sentido comum; mas apresentam-se ocasiões em que isto pode sensibilizar um pouco mais. Ou então poderíamos recordar aquilo que se costuma dizer: fazer da necessidade, virtude.

A primeira das bem-aventuranças diz que os pobres são felizes porque deles é o Reino dos Céus. São Mateus fala de pobres em espírito, e São Lucas, de pobres apenas. Não são duas expressões contraditórias nem a primeira é uma versão mais branda da segunda: fica claro nos dois evangelistas que são necessários os dois pontos. Bento XVI escreveu: “A pobreza de que aqui se trata não é um fenômeno simplesmente material. A simples pobreza material não redime, ainda que certamente os preteridos deste mundo possam contar, de um modo muito especial, com a bondade de Deus. Mas o coração daqueles que nada possuem pode estar endurecido, envenenado, ser mau — interiormente cheio de cobiça pela posse das coisas, esquecendo-se de Deus e cobiçando as propriedades externas” (Jesus de Nazaré 1, p. 81).

Por outro lado, a pobreza de que o Evangelho fala – afirma também o Papa – não é uma atitude puramente espiritual. Nem a todos nos é pedido o mesmo no não ter ou no ter menos, mas todos necessitamos das renúncias suficientes para que o coração e a mente não fiquem pesados, ou mesmo embotados, pelas riquezas. O possuir só pode ser um serviço que contraponha a cultura da liberdade interior à do desejo de acumular bens. Se se é cristão, para atingir o necessário desprendimento que permita possuir o Reino dos Céus e amar o próximo. Se se não é, porque a avareza jamais gera uma sociedade melhor.

“Os bens da terra – afirmava o fundador do Opus Dei – não são maus; pervertem-se quando o homem os erige como ídolos e se prostra diante deles; enobrecem-se quando os convertemos em instrumentos a serviço do bem, em uma tarefa cristã de justiça e de caridade. Não podemos correr atrás dos bens materiais como quem vai à busca de um tesouro”. Onde está o teu tesouro aí está o teu coração, diz a Escritura. Se amontoarmos bens, se eles não servirem para exercer a justiça e a caridade, se não vivermos desprendidos da matéria, o nosso coração e a nossa mente reduzem-se, diria mesmo que se tornam vis, já que foram chamados à magnanimidade, a metas mais altas e amplas nas quais devem ter posto o seu tesouro.

Encontramo-nos em momentos delicados na economia que, segundo os entendidos, mostra tendência para piorar. É necessário o concurso e o empenho de todos para resolver a conjuntura. Mas é certamente uma boa oportunidade para apertar o cinto, e não apenas os que precisamente menos têm. É boa ocasião de travar o consumismo desenfreado que busca unicamente o bem-estar material no supérfluo; é boa ocasião para viver a sobriedade na bebida, na comida e na roupa; é boa ocasião de viver a generosidade com as pessoas e instituições mais carenciadas ou que trabalham para o bem dos outros; é boa ocasião de moderar os gastos; é boa ocasião de promover uma publicidade que não incite a desejar o que é mais caro; é boa ocasião de refletir sobre o modo de educar os filhos no esforço e no conhecimento prático do que as coisas custam, é boa ocasião de prescindir de caprichos…

A indigência, por si mesma, não é boa. Mas na medida em que é voluntária – ou se vive com garbo a que é forçosa – e conduz a metas mais altas, pode converter-se em virtude: temperança, desprendimento, pobreza. Talvez nos sirva esta máxima de Caminho: “Não esqueças: tem mais aquele que precisa de menos. - Não cries necessidades”.

Pablo Cabellos, Las Provincias, 24-6-2008