As corridas de Deus

Nestes dias de quarentena, é muito difícil para maioria de nós recorrer à confissão. Talvez o tempo para um retorno à normalidade ainda esteja longe; contudo, quando Deus vê que estamos arrependidos, Ele mesmo corre para nós, entusiasmado, feliz e orgulhoso por estarmos voltando a casa.

Opus Dei - As corridas de DeusPhoto by Anna Earl on Unsplash

Jesus acha que chegou a hora de mostrar o quanto o seu Pai ama aos homens. Quer levá-los à antessala do céu, para eles desfrutarem da alegria que Deus tem cada vez que um pecador decide voltar à casa. Conta-lhes uma parábola. Não é fácil imaginar a emoção e o assombro dos discípulos quando ouvem pela primeira vez a história do filho pródigo (cfr. Lc 15,11-32). Devem ter ficado surpreendidos com a desproporção entre a insolência do filho mais novo e o carinho do pai, ou com a reação enfurecida do irmão mais velho.

Se nos dirigirmos a Deus com um coração “contrito e humilhado”, Ele sempre oferece-nos o seu perdão

Nestes dias de quarentena, é muito difícil para maioria de nós recorrer à confissão, e mais difícil ainda procurar esse sacramento com a frequência de que gostaríamos. As restrições à circulação física das pessoas para evitar mais contágios podem levar a uma demora para receber o sacramento da Misericórdia Divina por um tempo indefinido. Esta contrariedade, juntamente com outras que estamos experimentando, é também uma forma de crescer para dentro: “É bom lembrar que o Senhor nos dá a sua graça para nos santificarmos também nestas circunstâncias de incerteza”[1]. Não sabemos quando poderemos voltar a confessar-nos, mas não devemos duvidar de que o nosso Pai Deus, se nos dirigirmos a Ele com um coração “contrito e humilhado” (Sl 50, 19), oferece-nos sempre o seu perdão, por grande que tenha sido a nossa fragilidade (cf. Lc 15, 20-24).

Um presente que não merecemos

O filho mais novo sente falta da sua casa: “Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome” (Lc 15,17). Embora não pense na angústia e dor do pai, ele não exige perdão (como poderia fazer isso?), mas o implora. Espera e confia na bondade de seu pai. E isso já é uma primeira mudança no seu coração.

Algo semelhante acontece-nos às vezes. Nós lutamos para nos confessarmos com a regularidade que faz bem à nossa alma. Somos muito conscientes do bem que isso nos faz e da alegria que nos dá uma confissão contrita. É verdade que não consideramos isso um direito perante Deus (só faltava essa! Ninguém tem direito ao perdão). Como escrevia São Bernardo: “Maior compaixão não há do que entregar sua vida por réus de morte e condenados. Em vista disso, meu mérito é a misericórdia do Senhor. Nunca me faltam méritos enquanto não lhe faltar a comiseração”[2].

Estamos convencidos de que tudo é graça. Sentimos a necessidade, talvez até maior nestes dias, de pedir perdão a Deus, mas será que pensamos no efeito que o nosso arrependimento produz em Deus?

Um Deus que corre ao nosso encontro

O coração do filho pródigo ainda tinha muito a descobrir. “Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e foi tomado de compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e o cobriu de beijos” (Lc 15,20). São Josemaria ficava comovido ao contemplar esta imagem: “Perante um Deus que corre ao nosso encontro, não nos podemos calar, e temos que dizer-lhe com São Paulo: Abba, Pater! Pai, meu Pai! Porque, sendo Ele o Criador do universo, não se importa de que não o tratemos com títulos altissonantes, nem reclama a devida confissão do seu poder”[3]. Não é só que o pai seja bom, mas continua considerando-o um filho, o filho de sua alma. Não é que não nos queira castigar, é que quer abraçar-nos com força, cobrir-nos de beijos e sussurrar em nossos ouvidos: “Meu filho, minha filha...”

Deus não vai ficar esperando a nossa chegada, que consigamos confessar-nos. Talvez ainda esteja longe o momento do retorno à normalidade; porém, quando nos vê arrependidos, Ele mesmo corre em nossa direção, entusiasmado, feliz e orgulhoso de estarmos voltando para casa. Portanto, não vale a pena dedicar muito tempo a considerar os nossos pecados: “Guiados pelo Espírito, perscrutador das profundezas de Deus, pensemos na suavidade do Senhor, como é bom em si mesmo. Com o profeta, roguemos ver a vontade de Deus e visitar já não mais nosso coração, mas o seu templo; dizendo, contudo: Dentro de mim, minha alma está perturbada: por isso lembrar-me-ei de ti[4].

Dá-me os teus pecados

O Papa Francisco gosta muito de contar uma história:

“Vem-me à mente um trecho da vida de um grande santo, Jerônimo, que tinha um mau caráter, e procurava ser manso, mas com aquele mau gênio... porque era da Dalmácia, e os dálmatas são fortes... Tinha conseguido dominar o seu modo de ser e assim oferecia ao Senhor muitas coisas, tanto trabalho, e rezava ao Senhor:
— O que queres de mim?
— Ainda não me deste tudo
— Mas Senhor, eu dei-te isto e mais aquilo...
— Falta algo
— O que falta?
— Dá-me os teus pecados”[5].

O que causa dor a Deus é o nosso sofrimento e a nossa tristeza, porque é o principal resultado da fraude que qualquer pecado implica. Por isso, se nós voltarmos a Ele, a Sua dor termina, e também o nosso mal. O poder do pecado é limitado, a Cruz roubou o seu veneno: somos salvos, se formos humildes e nos deixarmos salvar.

Podemos dizer muitas vezes: “Basta-me examinar as poucas horas do dia de hoje, desde que me levantei, para descobrir tantas faltas de amor, de correspondência fiel. Tenho verdadeira pena deste meu comportamento, mas não me tira a paz. Prostro-me diante de Deus e exponho-lhe claramente a minha situação. Logo a seguir, recebo a certeza da sua assistência e, no fundo do meu coração, ouço que Ele me repete devagar: Meus es tu! Tu és meu; Eu já sabia - e sei - como és: para a frente!”[6].

Na confissão ouvimos a voz terna e tranquila de Deus dizendo-nos: “Eu te absolvo dos teus pecados”. Nestes dias vamos sentir falta dessas palavras, mas, com uma escuta atenta, ouviremos a voz carinhosa e suave de Jesus que nos consola.

A melhor das devoções

São Josemaria gostava de comparar atos de contrição com algo que tinha aprendido com os italianos. Dizem, em relação às xícaras de café, que não se deve beber menos de três e nem mais de trinta e três: “quanto mais melhor!”[7]

A contrição é a dor que sentimos diante dos pecados cometidos.

A contrição é a dor que sentimos diante dos pecados cometidos. A Igreja tradicionalmente distingue entre a contrição perfeita e a imperfeita. O Catecismo ensina que a contrição perfeita é a dor que “brota do amor de Deus, amado acima de tudo”[8]. Por ser um ato de amor, compreende-se que já é uma obra de graça e, por isso, “perdoa as faltas veniais” e pode obter “também o perdão dos pecados mortais, se incluir a firme resolução de recorrer, quando possível, à confissão sacramental”[9].

Também existe uma contrição imperfeita, que “nasce da consideração do peso do pecado ou do temor da condenação eterna e de outras penas que ameaçam o pecador”[10]. Pode parecer uma dor imatura e, no entanto, “também é um dom de Deus, um impulso do Espírito Santo”[11], que nos prepara para a confissão e a absolvição dos pecados, embora não alcance o perdão dos pecados graves por si mesma.

O Papa Francisco sublinhou isto numa homilia destes dias: “Se você não encontra um sacerdote para se confessar, fale com Deus, Ele é seu Pai. Diga-lhe a verdade: Senhor, eu fiz isso e aquilo. Perdoa-me. Peça-lhe perdão de todo o coração, com o Ato de Contrição e prometa-lhe: Depois, eu vou me confessar, mas perdoa-me agora. E imediatamente você retornará à graça de Deus. Você mesmo pode se aproximar, como o Catecismo nos ensina, do perdão de Deus sem ter um sacerdote. Pensem nisso: este é o momento! E este é o momento certo, o momento oportuno. Um Ato de Contrição bem feito e a nossa alma se tornará branca como a neve”[12].

Por outro lado, a dificuldade atual pode nos servir para pedir a Deus pelas pessoas que gostaríamos que se confessassem, ou pelos que estão passando por situações graves e precisam se reconciliar com Deus. Assim viveremos esta particular comunhão dos santos que dá tanto conforto aos cristãos em tempos difíceis.

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Saber tudo isso pode não ser suficiente em algum momento para restaurar a paz e a alegria em nossos corações. É então a vez da nossa Mãe, das suas carícias que consertam tudo: “Todos os pecados da tua vida parecem ter-se posto de pé. – Não desanimes. Pelo contrário, chama por tua Mãe, Santa Maria, com fé e abandono de criança. Ela trará o sossego à tua alma”[13].


[1] Carta do Prelado, 14/03/2020.

[2] São Bernardo, Sermo 61.

[3] São Josemaria, É Cristo que passa, n. 64.

[4] São Bernardo, Sermo 5, 4-5.

[5] Francisco, homilia 7/07/2017

[6] Amigos de Deus, n. 215.

[7] Sulco, n. 480.

[8] Catecismo da Igreja Católica, 1452.

[9] Catecismo da Igreja Católica, 1452.

[10] Catecismo da Igreja Católica, 1453.

[11] Catecismo da Igreja Católica, 1453.

[12] Francisco, homilia 20/03/2020.

[13] Caminho, n. 498..