Rosário Alonso Nieto, conhecida por todos como Charo, nasceu em Lérida, na Espanha, em 18 de novembro de 1934. Pediu a admissão no Opus Dei em 18 de janeiro de 1953. Faleceu em São Paulo no dia 13 de setembro de 2026, às 12h30, aos 91 anos.
Depois de alguns anos na Espanha e em Portugal, fez parte do primeiro grupo de mulheres do Opus Dei que veio para o Brasil, em setembro de 1957. Viveu quase setenta anos no Brasil, trabalhando como nutricionista e, mais tarde, dedicando-se à administração de centros do Opus Dei.
As primeiras mulheres chegaram quando o trabalho do Opus Dei no Brasil estava apenas começando. Em Marília, no interior de São Paulo, Gabriela, Maria Clara, Rosarito, Amparo e Charo Alonso deram início ao primeiro Centro feminino do país. Havia muito por fazer e poucos recursos.
As jovens encontraram muitos desafios pela frente. Era uma experiência nova: precisavam se adaptar ao país, aos seus costumes e a um modo de vida diferente, enquanto procuravam trabalho, conheciam famílias, buscavam uma casa e davam os primeiros passos das atividades apostólicas.
Mas Charo não estava completamente sozinha nessa nova etapa. Além das outras pessoas da Obra que vieram com ela e das novas amizades que formou no Brasil, contou também com a proximidade do irmão José Luiz Alonso Nieto, médico e numerário do Opus Dei, que fez parte do primeiro grupo de homens que veio ao Brasil para iniciar o trabalho no país. Para Charo, ter o irmão por perto era uma segurança e um motivo de alegria. José Luiz, que faleceu em maio de 2019, também valorizava muito a companhia da irmã.
Em 1959, Charo deixou Marília e foi para São Paulo, onde colaborou na abertura de uma residência universitária na capital paulista.
Da Farmácia à Nutrição
Charo havia prometido ao pai que faria uma faculdade. Tinha começado a estudar Farmácia na Espanha e em Portugal. Em São Paulo, descobriu que o curso de Farmácia da USP exigia cinco anos em período integral, o que tornava difícil conciliar os estudos com o trabalho.
Seu irmão, médico, soube da existência do curso de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP, com três anos de duração. Charo decidiu cursar Nutrição. Foi mais uma mudança de caminho. Charo trabalhou durante décadas no Hospital do Servidor Público Estadual, em São Paulo. Entrava muito cedo, por volta das sete da manhã, e era conhecida e estimada no departamento de Nutrição. Era exigente no trabalho e levava suas responsabilidades a sério.

Uma vida de trabalho
O trabalho ocupava um lugar importante na vida de Charo. Quem conviveu com ela a descreve como uma mulher muito responsável e constante, capaz de manter um ritmo de trabalho durante longos períodos, sem transmitir agitação. Quando terminava uma tarefa, encontrava outra: fazia costuras, organizava alguma coisa ou cuidava de algum detalhe da casa.
Depois de se aposentar como nutricionista, começou uma nova etapa, dedicando-se à administração dos centros da Obra. Viveu mais de dez anos em Brasília, onde realizou esse trabalho. Ali fez muitas amizades que permaneceram ao longo do tempo. Mesmo quando já estava mais velha e morava em São Paulo, algumas dessas amigas continuavam indo visitá-la.
Uma personalidade forte
Charo cresceu em uma família que conheceu as dificuldades da Guerra Civil espanhola. Essa experiência deixou nela uma sensibilidade particular diante do esforço e das dificuldades econômicas.
Ao longo dos anos, sua capacidade de ajudar assumiu muitas formas. As pessoas que conviveram com ela recordam seu apoio, sua experiência e sua disponibilidade para acompanhar outras mulheres. “Ela parecia durona, mas tinha um coração gigante”, resume uma delas.
Quando as contas da administração passaram a ser feitas pelo computador, já mais velha, precisou aprender a usar o Excel. Anotava em um caderninho cada passo: como ligar o computador, abrir um arquivo, salvá-lo e fazer os registros. Não foi fácil, mas aprendeu. Até dava algumas broncas no computador, mas não desistia. Charo era assim: diante de uma dificuldade, podia reclamar um pouco, mas continuava lutando e recomeçava quantas vezes fosse necessário.
Durante uma tarde na Casa Nova, centro do Opus Dei onde vivia com outras numerárias, recebeu algumas jovens que foram visitá-la. Uma delas recorda que Charo conversou longamente com elas, perguntou de onde eram, o que faziam, se havia um centro do Opus Dei em sua cidade e o que as tinha levado a São Paulo. “Ela queria saber tudo sobre nós”, lembra.
Depois, ao passar por alguns ambientes da casa, percebeu que uma cortina estava presa no sofá e foi ajeitá-la. Notou também uma poltrona fora do lugar e pediu ajuda para desencostá-la da parede. Ao sair do corredor, lembrou-se de apagar a luz. Pouco depois, levantou-se para fazer oração. No oratório, uma das jovens ouviu-a rezar: “Minha Mãe Imaculada, São José, meu Pai e Senhor, meu Anjo da Guarda, intercedei por mim e alcançai essa graça”.
A lembrança mostra bem como era Charo: interessada nas pessoas, atenta às pequenas coisas, cuidadosa com a casa e dedicada à oração, que fazia naturalmente parte do seu dia.

Sua história foi feita de mudanças, trabalho, adaptações e recomeços. A jovem que saiu de Portugal em 1957 sem saber exatamente o que encontraria no Brasil acabou construindo aqui a maior parte de sua vida. Em São Paulo, retomou os estudos e formou-se em Nutrição; depois, trabalhou durante décadas, mudou de cidade, dedicou-se à administração e acompanhou muitas pessoas.
Não foi uma vida sem dificuldades nem sem limites. Sua personalidade firme fazia com que, às vezes, tivesse dificuldade para compreender as reações de pessoas com um temperamento diferente do seu. Ela mesma procurou aprender a ser mais flexível e a conviver com pessoas diferentes. Mas justamente aí aparece um aspecto humano de sua trajetória: Charo não deixou de lutar para mudar o que precisava ser mudado. Como ela própria dizia, quando se cai, é preciso retificar, confessar e recomeçar.
Quase setenta anos depois de vir da Europa, Charo morreu no Brasil, país que havia se tornado sua casa. Ficaram as amizades, o trabalho realizado com responsabilidade, a atenção às pequenas coisas e tantas histórias guardadas por quem conviveu com ela. A jovem que chegou a Marília em 1957 tornou-se, com o passar dos anos, parte da história do Opus Dei no Brasil e da vida de muitas pessoas que cruzaram seu caminho.

