Meditações: XVIII domingo do Tempo Comum (Ciclo A)

Reflexão para meditar no XVIII domingo do Tempo Comum (Ciclo A). Os temas propostos são: pôr nas mãos de Deus o que temos; distribuir os dons do Senhor; o dom da Eucaristia;


CONTA-NOS hoje o evangelista Mateus que a multidão procurava insistentemente o Senhor. Apreciava tanto a sua pregação e os seus milagres que, quando finalmente o encontravam, escutavam-no com gosto até ao pôr do sol. Numa destas ocasiões, os apóstolos sugeriram a Jesus que despedisse o povo antes de anoitecer, para poderem procurar onde comprar alguma coisa para comer no caminho de regresso a casa. Contudo, o Senhor, comovido perante aqueles corações com tanta sede da sua palavra, não quis deixá-los partir sem lhes fazer uma última dádiva.

Por estarem num descampado, Jesus sabia que não seria fácil encontrar comida para tantos nas aldeias e casarios das redondezas. Por isso quis aproveitar aquela circunstância para formar os seus apóstolos. Jesus queria que confiassem nele, que aprendessem a sonhar em grande e que não se detivessem perante as dificuldades. Então disse-lhes: «Dai-lhes vós de comer» (Mt 14, 16). Eles não compreenderam aquela indicação tão desconcertante: o tempo, o lugar e a falta de recursos tornavam impossível alimentar aquela multidão. Teriam sido necessários vários carregamentos de pão e uma quantia de dinheiro de que não dispunham.

Os apóstolos não sabiam que fazer. Um deles disse a Jesus: «Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes» (Mt 14, 17). Podemos imaginar que se tratava do lanche ou do jantar de algum dos presentes, que ofereceu generosamente o pouco que trazia consigo. «Trazei-mos cá» (Mt 14, 18), respondeu o Senhor. Aqueles poucos pães e peixes converteram-se na matéria-prima do milagre. Sucede também assim na nossa vida: Deus sabe bem que nós, sozinhos, não podemos fazer grande coisa, mas não deixa de nos pedir que ponhamos nas suas mãos o pouco que temos. Graças a esse pequeno dom, Cristo pôde saciar toda a multidão. Por isso, podemos perguntar-nos: «“Que levo hoje a Jesus?”. Ele pode fazer muito com uma oração nossa, com um gesto nosso de caridade para com os outros, até com uma das nossas misérias entregues à sua misericórdia. A nossa pequenez a Jesus, e Ele faz milagres. É assim que Deus gosta de agir: Ele faz grandes coisas a partir das pequenas, a partir das gratuitas»[1]. Quando lhe oferecemos com simplicidade o que somos e o que temos, ainda que pareça insuficiente, o Senhor pode multiplicá-lo muito mais do que imaginamos.


O SENHOR «mandou que a multidão se sentasse na relva» (Mt 14, 19). Pouco a pouco foram-se distribuindo por toda a colina, formando grupos de amigos e conhecidos. Eram mais de cinco mil pessoas; uma autêntica multidão, embora no coração do Senhor cada um encontrasse um lugar de privilégio. Aos seus olhos não eram uma massa anónima, mas pessoas escolhidas e amadas, reunidas à sua volta com fome de salvação. Toda a cena tem algo de banquete festivo, como uma imagem antecipada dos tempos messiânicos, quando o povo desfrutará de uma salvação definitiva, acompanhada de toda a espécie de bens.

«Tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu e pronunciou a bênção; partiu, depois, os pães e deu-os aos discípulos, e estes à multidão» (Mt 14, 19). Os gestos e palavras de Jesus evocam o rito que o pai de família realizava à refeição ao partir o pão. Aquele gesto era acompanhado por uma oração em que se uniam a ação de graças, a bênção e o louvor. Era tradição que o primeiro pedaço de pão fosse comido por quem o abençoava e que depois o distribuísse aos restantes. Nesta ocasião, perante a quantidade de pessoas reunidas, Jesus não dá os pedaços diretamente, mas entrega-os aos discípulos para que sejam eles a reparti-los.

Desse modo, os apóstolos participaram no milagre. Apesar da sua pequenez, tornaram-se sinal concreto da ação omnipotente do Senhor. Era evidente que com cinco pães e dois peixes não se podia alimentar uma multidão tão grande. Porém, o que parecia insuficiente transformou-se numa refeição abundante, da qual «todos comeram e ficaram saciados» (Mt 14, 20). Também hoje o Senhor conta connosco para saciar a fome de Deus das pessoas que nos rodeiam. Os dons que nos deu – a fé, os sacramentos, a vocação – não são apenas para nós: estão chamados a passar pelas nossas mãos e a converter-se em alimento para muitos. São Josemaria contemplava assim esta cena: «Ele podia tirar o pão donde quisesse..., mas não! Procura a cooperação humana: necessita de uma criança, de um rapaz, de uns bocados de pão e de uns peixes. Tu e eu fazemos-lhe falta, e é Deus! Isto há de urgir-nos a ser generosos na correspondência às suas graças»[2]. Jesus poderia fazer tudo sem nós; mas quer associar-nos à sua compaixão, para que a nossa pobreza, unida à sua, chegue a ser abundância para os outros.


NO FINAL do relato, o evangelista acrescenta um pormenor significativo: recolheram-se «doze cestos cheios de sobras» (Mt 14, 20). Nesses cestos, repletos de pão e peixes, descobrimos uma mensagem sobre a gratuidade e a generosidade divinas. Jesus poderia ter calculado com exatidão a comida necessária para todos. Em vez disso, quis que houvesse mais do que o necessário e que os discípulos recolhessem o que havia sobrado. Deste modo, mostra-nos que Deus concede os seus dons e as suas graças sem medida, sem os cálculos humanos da eficácia ou da mera suficiência.

O dom por excelência que o Senhor nos fez, e que fica prefigurado neste milagre, é a Eucaristia. «Pensemos como é bom, reflete o Papa Leão XIV, quando oferecemos um presente – porventura pequeno, proporcional às nossas possibilidades – ver que ele é apreciado por quem o recebe; como ficamos felizes quando sentimos que, apesar da sua simplicidade, aquele presente nos une ainda mais àqueles que amamos. Pois bem, na Eucaristia, entre nós e Deus, acontece exatamente isto: o Senhor acolhe, santifica e abençoa o pão e o vinho que colocamos sobre o altar, juntamente com a oferta da nossa vida, e transforma-os no Corpo e no Sangue de Cristo, sacrifício de amor para a salvação do mundo»[3].

Neste sacramento, Cristo torna-se alimento para nós, que estamos famintos de verdade e de vida. «Jesus ficou na Eucaristia por amor..., por ti. – Ficou, sabendo como o receberiam os homens... e como o recebes tu. – Ficou, para que o comas, para que o visites e lhe contes as tuas coisas e, falando intimamente com Ele na oração junto do sacrário e na receção do sacramento, te apaixones mais cada dia, e faças com que outras almas – muitas! – sigam o mesmo caminho»[4]. Podemos pedir à Virgem Maria um coração eucarístico como o seu: um coração que saiba recorrer a Cristo para saciar a sua própria fome e que, unido a ele, aprenda também a converter-se em alimento para os outros.


[1] Francisco, Angelus, 25/06/2021.

[2] São Josemaria, Forja, n. 674.

[3] Leão XIV, Angelus, 22/06/2025.

[4] São Josemaria, Forja, n. 887.