POUCO depois da morte de Acab, as consequências das suas más ações e das da sua esposa foram sentidas dramaticamente. Os seus inimigos conspiraram para matar o filho e todos os sobreviventes da sua casa. A violência foi tal que ultrapassou as fronteiras e se estendeu também ao reino de Judá: acabaram com o rei Ocozias e todos os seus irmãos. Então «Atalia, mãe do rei Ocozias, ao saber que o filho morrera, mandou matar todos os descendentes do rei» (2Re 11, 1), para que ela pudesse reinar sozinha no país.
No meio de toda esta loucura, os planos de Deus vão-se abrindo, com a colaboração de pessoas piedosas. Um dos filhos recém-nascidos de Ocazias foi salvo por uma das suas tias que, arriscando a vida, «tomou Joás, filho de Ocazias, e livrou-o do massacre dos filhos do rei» (2Re 11, 2). «Ficou no templo do Senhor, com Josebá, escondido pelo espaço de seis anos, enquanto Atalia reinava no país» (2Re 11, 3). Assim, se salvou a dinastia davídica, da qual Deus havia prometido que viria o Messias.
Às vezes, perante circunstâncias adversas, ao perceber as consequências do pecado no mundo, podemos sentir a tentação do medo e do desânimo. «É natural que nos sintamos impotentes para mudar o rumo da história. Mas apoiemo-nos no poder da oração»[1]. A intimidade com Deus ajudar-nos-á a lembrar que «todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus» (Rm 8, 28). É verdade que «Nem sempre podemos ver esse bem de uma forma imediata. Às vezes nem sequer chegamos a compreendê-lo. O facto de procurarmos estar perto de Deus não nos evita os cansaços, as perplexidades e os sofrimentos normais da vida. Mas essa proximidade pode levar-nos a viver tudo de uma forma bem diferente»[2]. Deus faz sempre o Seu caminho, é sempre mais forte: esta segurança ajuda-nos a abandonar nas Suas mãos as dificuldades da nossa vida.
PASSADOS seis anos, mandaram chamar os chefes das aldeias. Uma vez reunidos, mostraram o filho do rei, que tinha permanecido escondido no Templo por medo da rainha Atalia. O sacerdote entregou as lanças e os escudos de David. Ao redor do filho do rei, eles pegaram nas armas e, ao sair, todos começaram a aplaudir e gritar: «Viva o rei!» (2Rs 11, 12). E a Escritura diz que naquele dia se podia ver «o povo exultando de alegria, ao som das trombetas» (2Rs 11, 13).
É uma alegria semelhante à que aconteceria com a entrada de Jesus em Jerusalém. No entanto, o Senhor nem sempre foi cercado por tal esplendor. Sendo Rei e Senhor do universo, quase sempre nos aparece como fraco e necessitado da nossa ajuda para reinar. «Todos sentis nas vossas almas – dizia São Josemaria – uma alegria imensa, ao considerar a santa Humanidade de Nosso Senhor, por saberdes que se trata dum Rei com um coração de carne como o nosso, que é o autor do universo e de todas as criaturas e que não se impõe pelo domínio, mas mendigando um pouco de amor, ao mesmo tempo que nos mostra, em silêncio, as suas mãos chagadas»[3].
Como aconteceu muitas vezes com o povo eleito, Cristo não garante o sucesso humano, mas assegura uma paz e uma alegria que só Ele pode dar. O Seu poder não é o dos reis e grandes desta terra. «É o poder divino de dar a vida eterna, de libertar do mal, de derrotar o domínio da morte. É o poder do Amor, que do mal sabe obter o bem, enternecer um coração endurecido, levar paz ao conflito mais áspero, acender a esperança na escuridão mais cerrada»[4]. O reino de Deus é discreto. Procura um pequeno espaço nas nossas almas para reinar com a Sua paz.
HÁ APENAS uma pessoa na Judeia que não compartilha da alegria do povo. É, como é lógico, Atalia, que «ao ouvir os clamores populares (…) e viu o rei, (…) os chefes e os tocadores de trombetas junto do rei e todo o povo exultando de alegria, ao som das trombetas, Atalia rasgou as vestes e gritou: “Traição! Traição!”» (2Re 11, 13-14). Pensava que tinha matado toda a descendência real, mas não foi assim. Ninguém mais a seguia agora. E ela, que tinha chegado tão longe para alcançar o trono, sai da cena triste, para alívio das pessoas sobre as quais ela reinou durante seis anos.
Às vezes pode acontecer que, como Atalia, deixemos de saborear a alegria de que Jesus reine nos nossos corações. Então, tentamos preencher esse vazio com coisas que não nos podem satisfazer. O Senhor adverte-nos da insensatez deste modo de viver: «Acumulai tesouros no Céu, onde a traça e a ferrugem não corroem e onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois, onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração» (Mt 6, 20-21).
Cheio de trevas aparece o coração de Atalia. Em contraste, o coração imaculado de Maria aparece-nos cheio de luz. Podemos pedir-lhe para nos ajudar a «mudar a nossa atitude com os outros e com as criaturas: da tentação de devorar tudo, de satisfazer a nossa avidez, à capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso coração (...). E assim redescobrir a alegria do projeto que Deus colocou na criação e no nosso coração, que é amá-l’O, amar os nossos irmãos e irmãs e o mundo inteiro, e encontrar neste amor a verdadeira felicidade»[5].
[1] Fernando Ocáriz, Mensagem, 26/02/2022.
[2] Fernando Ocáriz, Mensagem, 12/08/2020.
[3] São Josemaria, Cristo que passa, n. 179.
[4] Bento XVI, Angelus, 22/11/2009.
[5] Francisco, Mensagem, 04/10/2019.

