Meditações: XX domingo do Tempo Comum (Ciclo A)

Reflexão para meditar no XX domingo do Tempo Comum (Ciclo A). Os temas propostos são: quando Deus parece calar-se; uma humildade cheia de audácia; Deus dá mais do que pedimos.


ÀS VEZES podemos experimentar a aparente ineficácia da oração. Confiamos a Deus uma intenção concreta e parece que nada muda. Tentamos ser bons cristãos e a nossa vida está cheia de dificuldades. Pedimos ao Senhor que não nos abandone e, em contrapartida, o nosso desânimo cresce. Nesses momentos, pode surgir a impressão de que as nossas súplicas não encontram resposta.

Algo parecido deve ter sentido a mulher cananeia do Evangelho. Ao saber que Jesus se dirigia a Tiro e Sidónia, saiu de um daqueles lugares e pôs-se a gritar-lhe: «Senhor, filho de David, tem compaixão de mim. Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio» (Mt 15, 22). Podemos fazer ideia do sofrimento desta mãe: desejaria estar ela no lugar da filha, mas todos os esforços que fizera até agora para a ajudar resultaram estéreis. Talvez tivesse ouvido falar dos milagres de Jesus e por isso aproximou-se dele com a esperança de que ele a libertasse. O Evangelho, no entanto, regista uma reação desconcertante do Senhor: «Mas Jesus não lhe respondeu uma palavra» (Mt 15, 23).

«Se desejas realmente algo – comenta Leão XIV –, fazes tudo para o poder alcançar, até quando os outros te censuram, te humilham e te dizem para desistir. Se o desejas realmente, continua a gritar!»[1]. Perante o silêncio de Jesus, aquela mulher não desanima; pelo contrário: insiste com mais força, até ao ponto de os discípulos pedirem ao Mestre que a atenda porque não deixa de os seguir. Essa constância na oração, mesmo quando parece que não dá fruto, é uma atitude que muitos santos viveram e aconselharam. «Persevera na oração – escrevia São Josemaria –. Persevera, ainda que o teu esforço pareça estéril. – A oração é sempre fecunda»[2]. Temos a certeza de que «não há grito que Deus não ouça, até quando não estamos conscientes de nos dirigirmos a Ele»[3]. A cena da cananeia recorda-nos que o Senhor conhece os nossos corações e deseja aumentar a nossa fé precisamente no meio das circunstâncias que atravessamos. Perante petições semelhantes, Jesus atua e responde de modos diversos. Por isso, não deixemos de recorrer a Ele, como hoje nos ensina esta mulher. Ainda que ainda não tivesse tido lugar a cura da filha, a sua insistência já produziu o fruto que Cristo procura nela: uma fé que não se vem abaixo nem perante o sofrimento da filha nem perante o silêncio de Jesus.


AQUELA MULHER teve que superar muitas barreiras para se aproximar de Jesus. Como estrangeira, não pertencia ao povo de Israel e não era habitual que os judeus se dessem com pessoas como ela. Além disso, o silêncio inicial do Senhor poderia ter esfriado facilmente o seu ânimo e tê-la feito pensar que aquele homem não queria ou não a podia ajudar. Mas ela, depois dessa primeira resposta silenciosa, prostrou-se diante dele e disse-lhe: «Socorre-me, Senhor» (Mt 15, 25). A oração é mais simples e direta quanto mais extrema é a situação. Aquela mulher não está com rodeios nem usa grandes palavras ou títulos solenes. A sua petição, despojada de adornos, deixa em evidência que necessita urgentemente da sua ajuda.

Se Jesus antes tinha respondido com o silêncio, agora pronuncia umas palavras que podem parecer-nos severas: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos» (Mt 15, 26), referindo-se a que «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel» (Mt 15, 24). Portanto, ela não pertencia ao povo que tinha recebido em primeiro lugar as promessas de Deus, No entanto, essas palavras não a fazem perder a confiança. A mulher não discute, não se retira ofendida, não reclama um direito. De facto, com esse diálogo Jesus está a convidá-la a aumentar ainda mais a sua fé e confiança. E encontra dentro da mesma imagem usada por Jesus um motivo para continuar esperando: «É verdade, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos» (Mt 15, 27). Perante esta atitude audaz e cheia de humildade, Jesus Cristo não poupa elogios e reconhece com alegria: «Mulher, grande é a tua fé. Faça-se como desejas» (Mt 15, 28).

O silêncio e a dureza aparente de Cristo com a cananeia deixam ver duas qualidades da oração que se torna madura pela fé. «A primeira condição da oração é a perseverança; a segunda, a humildade. – Sê santamente teimoso, com confiança. Pensa que Nosso Senhor, quando lhe pedimos uma coisa importante, talvez queira a súplica de muitos anos. Insiste!…, mas insiste sempre com mais confiança»[4]. A mulher cananeia não se cansa de pedir, mas também não transforma a sua súplica numa exigência. Sabe que tudo o que pode receber de Jesus será sempre um dom. Por isso, a sua oração comove o Senhor: porque une a insistência de quem confia com a humildade de quem se sabe necessitado.


AO CONTEMPLAR esta passagem com distância, podemos aprender a olhar para o que nos acontece a partir da perspetiva de Deus. Poder-se-ia dizer que o Senhor, desde o princípio, queria curar a filha possuída pelo demónio. Mas, ao mesmo tempo, tinha também outros planos para aquela mãe que sofria pela sua filha e confiava nele. Deus vê a nossa vida a partir de um desígnio de amor que muitas vezes não conseguimos compreender.

Uma doença, anos a lutar contra um defeito humilhante, feridas causadas por pessoas que nos são próximas, dias cinzentos que decorrem sem grandes estímulos… Tudo isso são situações que talvez gostássemos de mudar e das quais, tal como a cananeia, pedimos ao Senhor com insistência que nos liberte ou que as oriente de uma determinada maneira. Este episódio do Evangelho mostra-nos que por trás do silêncio de Cristo e de umas palavras que à primeira vista nos podem desconcertar, havia uma pedagogia mais profunda: o Senhor estava a fazer crescer e vir à luz a fé daquela mulher, antes de lhe conceder a cura que tanto desejava: «E, a partir daquele momento, a sua filha ficou curada» (Mt 15, 28).

Na oração, portanto, quando pedimos alguma coisa a Deus, também podemos pedir que nos ajude a descobrir os dons que nos quer conceder e que muitas vezes passam despercebidos. Talvez o que Jesus nos queira dar seja até maior do que aquilo que estamos a pedir. A Nossa Senhora, que não foi poupada «à experiência da dor, nem ao cansaço do trabalho, nem ao claro-escuro da fé»[5], podemos pedir que nos ensine a confiar no seu Filho, também quando não compreendemos os seus tempos, e a acolher com fé os dons que Ele nos quer dar em cada circunstância.


[1] Leão XIV, Audiência, 11/06/2025.

[2] São Josemaria, Caminho, n. 101.

[3] Leão XIV, Audiência, 11/06/2025.

[4] São Josemaria, Forja, n. 535.

[5] São Josemaria, Cristo que passa, n. 172.