Meditações: X domingo do Tempo Comum (Ciclo A)

Reflexão para meditar no X domingo do Tempo Comum (Ciclo A). Os temas propostos são: a misericórdia de Deus perante o mal; um chamamento que dilata o coração; escutar de novo o «segue-Me».


«Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide aprender o que significa: “Prefiro a misericórdia ao sacrifício”. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores» (Mt 9, 12-13). Assim se exprime o Senhor no Evangelho de hoje. Com estas palavras manifesta que a atitude mais própria de Deus, aquela em que o seu amor resplandece de modo especial, é a misericórdia.

Ter misericórdia não consiste apenas em compadecer-se do outro. Consiste, sobretudo, em querer arrancar o mal que está na raiz do sofrimento. Deus é misericordioso no grau máximo porque é omnipotente e pode vencer o mal a partir do seu interior. Contudo, perante a dor do mundo, surge muitas vezes uma pergunta difícil: se Deus é bom e omnipotente, porque permite o mal? É o escândalo que, em todos os tempos, pôs à prova a fé no Deus misericordioso e omnipotente.

Perante este falso dilema, o Papa Bento XVI ensinava que «um comportamento autenticamente religioso evita que o homem se arvore em juiz de Deus, acusando-O de permitir a miséria sem sentir compaixão pelas suas criaturas. [...] Muitas vezes não nos é concedido saber o motivo pelo qual Deus retém o seu braço, em vez de intervir. Aliás, Ele não nos impede sequer de gritar, como Jesus na cruz: “Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?” (Mt 27, 46)»[1].

Em Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, uniram-se a omnipotência e a misericórdia. Deus toma sobre Si o mal com a sua morte na cruz e vence-o com a sua ressurreição. Como bom médico, não cura apenas os sintomas, mas a raiz de todo o mal: a soberba. Por isso, o verdadeiro campo de batalha onde se trava a luta entre o bem e o mal não é simplesmente o mundo exterior, mas o coração humano. É aí que nascem tantas feridas, mas é também aí que o Senhor quer entrar para nos curar. O coração é como o fundo afetivo da alma, que orienta a inteligência e a vontade, e que precisa de ser purificado para poder ver Deus.


ALGUMAS palavras de Jesus dirigidas aos escribas e fariseus explicam o chamamento do publicano Mateus ao apostolado. «Viu um homem chamado Mateus sentado no posto de cobrança dos impostos, e disse-lhe: “Segue-Me”. Ele levantou-se e seguiu Jesus» (Mt 9, 9). A misericórdia divina está na origem desse chamamento, pois o Senhor não veio chamar os justos, mas os pecadores. E chama-os não apenas para receberem o perdão, mas também para colaborarem com Ele no anúncio da salvação, alargando a sua misericórdia a todos os homens.

Toda a vocação é uma manifestação da misericórdia de Deus para com cada pessoa. Depois da fé, é a graça «maior que o Senhor pôde conceder a uma criatura»[2]. Deus concedeu-nos a alegria de estar perto d’Ele e de sermos enviados aos outros. Longe de ser um peso, a vocação divina capacita-nos para alcançar a meta mais alta que se pode imaginar nesta vida: a santidade. Muitas pessoas são capazes de se entusiasmar com nobres projetos humanos; também nós podemos encher-nos de entusiasmo por esse projeto simultaneamente sobrenatural e humano que Deus coloca nas nossas mãos. Porque não aspirar ao mais alto? Porque não propor a nós próprios o mais ambicioso? A um cristão que descobriu o chamamento à santidade apetece gritar: «Loucos! Deixai essas coisas mundanas que amesquinham o coração... e muitas vezes o aviltam..., deixai isso e vinde connosco atrás do Amor»[3].


DEUS DIRIGIU-NOS a sua palavra cheia de misericórdia, como fez com Mateus. Não se trata da mera comunicação de um conteúdo intelectual, mas da autocomunicação do próprio Deus, de uma transmissão de vida eterna. O Senhor reparou em cada um de nós para nos chamar desde toda a eternidade, antes mesmo de nos dar a existência. Perante a grandeza desta eleição, prova de carinho e de misericórdia, enchemo-nos de gratidão e de humildade, convencidos – como diz São Paulo – de que «o que é louco segundo o mundo é que Deus escolheu para confundir os sábios; o que é fraco, segundo o mundo, é que Deus escolheu para confundir o que é forte» (1Cor 1, 27-28).

Cada pessoa descobre a voz de Deus na intimidade do seu coração num momento concreto da sua vida. Mas a vocação não pertence apenas ao passado, como se o presente fosse a continuação de um impulso inicial que se vai apagando pouco a pouco pela habituação. A vocação permanece sempre atual. Se olharmos para a vida dos Apóstolos, vemos que Jesus os chama em diversas circunstâncias com as mesmas palavras. A Simão e a André convoca-os no início da sua missão: «Vinde após Mim e farei de vós pescadores de homens» (Mc 1, 17). E do mesmo modo se dirige a Mateus: «Segue-Me» (Mt 9, 9). Depois da Paixão e da tríplice confissão reparadora do seu amor, Pedro ouve de novo dos lábios do Senhor, passados os anos e tantas experiências, o mesmo «Segue-Me!» (Jo 21, 19). No início e depois da Paixão, em circunstâncias tão diversas, ressoa a mesma palavra, o mesmo chamamento.

A Virgem Maria pode ajudar-nos a escutar hoje essa voz do seu Filho com gratidão e confiança. Ela, que acolheu a palavra de Deus com um coração humilde, ensina-nos a reconhecer a vocação como um dom de misericórdia e a responder todos os dias com renovada fidelidade.


[1] Bento XVI, Deus caritas est, n. 37-38.

[2] São Josemaria, Apontamentos de uma meditação, 06/01/1956.

[3] São Josemaria, Caminho, n. 790.