Evangelho (Mt 18, 15-20)
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
«Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te escutar, terás ganho o teu irmão. Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fi que resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas. Mas se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um pagão ou um publicano. Em verdade vos digo: Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu. Digo-vos ainda: Se dois de vós se unirem na terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus. Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles».
Comentário
A prática cristã da correção fraterna tem as suas raízes no Evangelho. É um meio fundamental para alcançarmos a santidade e não nos desviarmos do caminho. Nesta passagem, Jesus ensina os discípulos sobre como a devem praticar entre eles, com caridade, a sós.
A necessidade da correção é universal, porque as pessoas têm dificuldade em reconhecer as suas próprias faltas. Assim, o seu valor foi reconhecido por autores pagãos tais como Séneca[1]. Sto. Ambrósio testemunhou esta prática entre os católicos quando, no século IV, escreveu, «Se vires algum defeito no teu amigo, corrige-o a sós (…). Com efeito, as correções fazem bem e são de maior proveito do que uma amizade muda»[2].
O primeiro ponto que a passagem evangélica revela é que a correção fraterna é uma coisa boa. É necessário ter uma atitude de humildade e disposição para aceitar a correção. Só na medida em que uma pessoa está disposta a aceitar a correção fraterna e a emendar a sua vida, saberá quando e como é apropriado fazer uma correção fraterna.
Antes de fazer uma correção, é conveniente rezar por essa pessoa. Depois, uma vez purificada a intenção, será prudente consultar outra pessoa que esteja em condições de julgar se a correção é oportuna ou não.
E então, com estas ressalvas, estamos a cumprir de um modo muito prático o mandamento de amar o próximo como a si mesmo, que é o mandamento que resume todos os outros. É o verdadeiro amor ao próximo que nos leva a cuidar uns dos outros de um modo extremado.
O afeto é importante para que a correção fraterna tenha eficácia. Quando as pessoas se preocupam realmente com os outros, a correção fraterna será relativamente fácil, e será bem acolhida porque o destinatário sentirá que o motivo é caritativo, e é humanamente mais provável que o assuma. Daí vem a importância de viver a fraternidade em todos os seus aspetos, e não somente na correção dos outros.
Deve perdoar-se também qualquer ofensa antes de corrigir. Precisamente depois desta passagem, Pedro pergunta a Jesus quantas vezes deve perdoar ao seu irmão quando pecar contra ele. Até sete? E Jesus responde que não, mas até setenta vezes sete. Onde há verdadeira caridade, com afeto, há correções fraternas; e há também um verdadeiro ambiente de perdão.
[1] cf. Séneca, De Ira, 3, 36, 4.
[2] Sto. Ambrósio, De Officiis Ministrorum II, 125-135.