Amor conjugal e vida de piedade

"A família que reza unida, permanece unida". Este dito constata que Deus deseja contribuir para o projeto de cada família. Novo artigo da série sobre o amor humano.

Opus Dei - Amor conjugal e vida de piedade

Temos uma grande sorte porque o matrimónio não é coisa de dois, mas de três. Mas quem é o terceiro, estareis a pensar? Pois, além dos cônjuges há alguém ainda mais interessado em levar por diante o projeto de cada matrimónio, o projeto de santidade de cada cônjuge: Deus.

Jesus Cristo elevou o matrimónio natural à elevada categoria de sacramento, para dar uma graça especial a cada um dos esposos ao empreender este caminho apaixonante de formar uma nova ‘igreja doméstica’; e, além disso, não nos deixa sós, antes se intromete na nossa vida e é como se nos dissesse: “Eu envolvo-Me em tudo o que é vosso, pequeno ou grande, permanente ou efémero; percorrereis a minha senda, haverá tempos para tudo, estaremos em Nazaré, em Betânia… e no Calvário; mas não termina aí porque haverá também Ressurreição; mas, confiai, pois Eu estarei sempre convosco animando os vossos dias”.

Como dizia S. Josemaria: “O matrimónio está feito para que aqueles que o contraem se santifiquem nele e santifiquem através dele; para isso os cônjuges têm uma graça especial, que o sacramento instituído por Jesus Cristo confere. Quem é chamado ao estado matrimonial, encontra nesse estado – com a graça de Deus – tudo o que é necessário para ser santo, para se identificar cada dia mais com Jesus Cristo e para levar até ao Senhor as pessoas com quem convive” [1].

A vida conjugal é verdadeiro itinerário de santidade cristã e o truque que qualquer casal procura para conseguir a felicidade consiste em fazer a Sua vontade em cada situação e amar muito, muito, como Ele nos amou. Por isso numa família quando alguém está pendente dos outros é mais feliz, porque então os outros ocupam-se da sua felicidade e, é claro, Deus; Ele nunca falha.

Como nos disse o Papa Francisco na sua catequese sobre a família: “Deus confiou à família, não o cuidado de uma intimidade em si mesma, mas o emocionante desígnio de tornar o mundo ‘doméstico’. A família está no início, na base desta cultura mundial que nos salva; salva-nos de tantos, tantos ataques, tantas destruições, de tantas colonizações, como a do dinheiro ou como daquelas ideologias que tanto ameaçam o mundo. A família é a base para nos defender” [2].

O homem não poderá retirar o melhor da mulher se não está próximo de Deus, e a mulher não poderá retirar o melhor do homem se não está próxima de Deus

Neste sentido, vale a pena recuperar o sentido do matrimónio sacramental. Não só como um evento festivo ou familiar – que o é – mas porque entendemos com profundidade o que vamos fazer; a recíproca entrega/aceitação das nossas pessoas na sua conjugalidade, participando do mistério de amor entre Cristo e a sua Igreja. Daí que a etapa de namoro ou noivado seja tão crucial para ir já pondo Deus no centro da nossa vida pessoal: que chegue a formar parte de um tu, de um eu e de um nós aberto aos filhos e a outras famílias. O homem não poderá retirar o melhor da mulher se não está próximo de Deus, e a mulher não poderá retirar o melhor do homem se não está próxima de Deus. Estar ou não próximo de Deus é a chave para a felicidade matrimonial.

A partir do nosso matrimónio também podemos ser – sem mérito algum da nossa parte – luz para os outros: luz que diga – sem dizer – que Deus está na nossa vida porque as coisas no nosso casamento e na nossa família, com naturalidade se sobrenaturalizam ; não fazemos nada estranho: trabalhamos como os outros, saímos e distraímo-nos como os outros, rimo-nos como os outros, temos as inquietações próprias da nossa idade, sonhos, quimeras que talvez cumpramos ou talvez não. Mas procuramos pôr tudo nas mãos de Deus; esta é a diferença… e vivemo-lo com uma alegria profunda, porque se temos um filho com problemas, ou se parece que os filhos não aparecem, se há uma doença, choraremos como os outros, mas com os pés na terra e os olhos virados para o Céu.

“A caridade levará a partilhar as alegrias e os possíveis dissabores, – recorda-nos S. Josemaria – a saber sorrir, esquecendo-se das preocupações pessoais para atender os outros; a escutar o outro cônjuge ou os filhos, mostrando-lhes que são verdadeiramente amados e compreendidos; a passar por alto pequenos atritos sem importância, que o egoísmo poderia transformar em montanhas; a fazer, com grande amor, os pequenos serviços de que se compõe a convivência diária.”[3].

Rezar juntos em família – respeitando a liberdade e a idade de cada um dos filhos. A fé transmite-se não se impõe – é algo que a tradição cristã recomenda pois, através dessas pequenas mas concretas práticas de piedade familiares, transmitiu-se a fé de geração em geração: rezar pela manhã – o oferecimento a Deus do nosso dia – o Angelus ao meio-dia e pela noite as três Ave-marias; invocar a Deus ao começar uma viagem; assistir juntos à Missa dominical; e talvez rezar o Terço em família, porque como se diz “a família que reza unida, permanece unida”. Entre essas práticas é muito familiar a bênção da mesa, como nos recorda Laudato si’: “Uma expressão desta atitude [contemplativa diante da criação] é deter-se a dar graças a Deus antes e depois das refeições. Proponho aos crentes que retomem este valioso hábito e o vivam com profundidade. Esse momento da bênção, ainda que seja muito breve, recorda-nos a nossa dependência de Deus para a vida, fortalece o nosso sentido de gratidão pelos dons da criação, reconhece aqueles que com o seu trabalho proporcionam esses bens e reforça a solidariedade com os mais necessitados”[4].

Nós, esposos temos o dever conjugal, que prometemos no dia do nosso casamento, da ajuda mútua, e ajudar o outro é abrir-lhe um horizonte para que possa retirar o melhor, e claro, animá-lo a estar junto de Deus – sem pressionar, nem importunar indevidamente; porque o melhor e mais eficaz modo de atrair para Deus, o compelle intrare (Lc 14,23) do Evangelho, é amar e rezar pelo outro cônjuge e pelos filhos – porque o mais importante para cada um é levar o cônjuge para o Céu, mas ajudando-o a apreciar o bem por si próprio.

Há que respeitar os tempos de cada um, as possíveis crises, estando presente, acompanhando, rezando e não angustiando. Mas ao contrário também: respeitar o outro nos seus tempos de intimidade com Deus, mesmo que o outro os não partilhe, é algo que não entorpece o nosso casamento, antes o enriquece. É importante o respeito mútuo e ainda mais no que toca à consciência, que é o lugar onde cada um abre a sua interioridade ao Senhor, o lugar onde a nossa liberdade elabora as decisões mais transcendentes da sua vida. A intimidade com Deus é pessoal e cada um deve descobrir o seu pessoal caminho até Ele, que certamente passa pelo outro cônjuge; isto é muito enriquecedor para ambos.

Deus envolveu-Se connosco nesta aventura do casamento, porque lhe apeteceu, porque nos ama de modo carinhoso e deseja a nossa felicidade e porque quer que sejamos luz para os outros e que formemos uma autêntica ‘Igreja doméstica’ com os nossos filhos. “Na medida em que a família cristã acolhe o Evangelho e amadurece na fé, faz-se comunidade evangelizadora (...). Esta missão apostólica da família está enraizada no Baptismo e recebe com a graça sacramental do matrimónio uma nova força para transmitir a fé, para santificar e transformar a sociedade atual segundo o plano de Deus”[5]. Que grande é a missão a que Deus chamou os esposos e que pôs nas suas mãos! Que maravilhosa responsabilidade estar no surgir de uma sociedade renovada pela caridade de Cristo e que imperiosa necessidade do Seu auxílio!

Rosamaría Aguilar


[1] S. Josemaria, Temas atuais do cristianismo, n. 91.

[2] Papa Francisco, Audiência 16/09/2015.

[3] S. Josemaria, Cristo que passa, n. 23.

[4] Papa Francisco, enc. Laudato si’, n. 227.

[5] São João Palo II, exhort. apost. Familiaris consortio, n. 52.