O Papa aos argelinos: Permaneçam nesta terra como um sinal humilde e fiel do amor de Cristo

De 13 a 23 de abril, o Papa Leão XIV percorre quatro países africanos — Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial — na sua terceira viagem apostólica. Onze dias, onze cidades e uma mensagem de paz e diálogo. Neste artigo, reunimos as suas principais intervenções.

Visita à Casa de acolhimento de idosos das Irmãzinhas dos Pobres (Annaba, Argélia).

Argélia
segunda-feira, 13terça-feira, 14

Camarões

quarta-feira, 15 • quinta-feira, 16 • sexta-feira, 17

Angola

sábado, 18 • domingo, 19 • segunda-feira, 21

Guiné Equatorial

terça-feira, 22 • quarta-feira, 23


Argélia: segunda-feira, 13 de abril

  • Visita ao monumento dos mártires de Maqam Echahid.

«Queridos irmãos e irmãs da Argélia,
a paz esteja convosco! As-salamu alaykom!

Dou graças a Deus por me conceder a possibilidade de visitar, como sucessor do apóstolo Pedro, o vosso país, depois de o ter feito já duas vezes no passado, como religioso agostiniano. No entanto, é sobretudo um irmão que se apresenta diante de vós, feliz por poder renovar, neste encontro, os laços de afeto que aproximam os nossos corações.

Ao olhar para todos vós, vejo o rosto de um povo forte e jovem, cuja hospitalidade e fraternidade pude experimentar repetidamente. No coração argelino, a amizade, a confiança e a solidariedade não são meras palavras, mas valores que contam e tornam calorosa e sólida a vida em comum.

A Argélia é um país amplo, com uma longa história rica em tradições, que remonta aos tempos de Santo Agostinho e muito antes ainda. Uma história também dolorosa, marcada por períodos de violência; no entanto, soubestes superá-la com coragem e honestidade, graças precisamente à nobreza de espírito que vos caracteriza e que aqui sinto viva agora.

Visitar este Monumento é uma homenagem a esta história, e à alma de um povo que lutou pela independência, dignidade e soberania desta nação.

Neste lugar, recordamos que Deus deseja a paz para todas as nações: uma paz que não é apenas ausência de conflito, mas expressão de justiça e dignidade. E esta paz, que permite enfrentar o futuro com o coração reconciliado, só é possível através do perdão. A verdadeira luta pela libertação só será definitivamente vencida quando se tiver finalmente conquistado a paz dos corações. Sei como é difícil perdoar. Todavia, enquanto os conflitos continuam a multiplicar-se em todo o mundo, não se pode acrescentar ressentimento ao ressentimento, de geração em geração.

O futuro pertence aos homens e às mulheres de paz. Por fim, a justiça triunfará sempre sobre a injustiça, e a violência, apesar das aparências, nunca terá a última palavra».

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  • Encontro com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático no Centro de Congressos “Djamaa el Djazair”.

No seu encontro com as autoridades da Argélia, o Papa Leão XIV destacou o papel do país como ponte estratégica entre culturas, exortando à promoção de uma justiça que garanta o desenvolvimento de todos os cidadãos. O pontífice sublinhou que a verdadeira paz nasce da liberdade e de um compromisso sincero com o bem comum, encorajando os líderes a construir uma sociedade onde os jovens sejam protagonistas de um futuro promissor.

Além disso, salientou a importância da liberdade religiosa e da amizade social como pilares da estabilidade nacional. Agradeceu o acolhimento da comunidade católica e reafirmou o desejo da Igreja de servir discretamente os mais necessitados. Esta mensagem convida a ver no serviço público e na colaboração civil uma oportunidade para semear a concórdia e o respeito mútuo no seio da vida social.

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  • Visita privada ao centro de acolhimento e de amizade das Irmãs Agostinianas Missionárias em Bab El Oued

  • Encontro com a comunidade argelina na Basílica de Nossa Senhora de África

Sob o olhar de Lalla Meryem (Nossa Senhora), o Santo Padre dirigiu uma mensagem centrada na identidade de uma Igreja que, apesar de pequena em número, está chamada a ser «sacramento de unidade» e semente de paz no meio da sociedade.

Ao recordar as raízes que remontam a Santo Agostinho, o pontífice encorajou os fiéis a viverem a sua fé com naturalidade, manifestando o rosto maternal da Igreja através do serviço e da dedicação nas circunstâncias quotidianas de cada dia.

A memória dos mártires da Argélia ocupou um lugar central nas suas palavras, apresentando-os como modelos de uma caridade que não conhece fronteiras. A sua decisão de permanecer ao lado do povo nos momentos mais difíceis é descrita como um testemunho de extrema fidelidade, em que o amor se sobrepõe ao medo. Este sacrifício convida a refletir sobre a vocação de todo o cristão de ser artífice da reconciliação, transformando o sofrimento numa oportunidade para estreitar os laços de fraternidade com todas as pessoas, sem distinção de crenças.

Por fim, o Papa apelou à esperança e ao diálogo construtivo, salientando que é precisamente na fragilidade que mais se necessita da dependência mútua e da confiança em Deus. Exortou a comunidade a prosseguir com a cura da memória e a ver no próximo um companheiro de caminho indispensável. Para aqueles que procuram santificar o seu trabalho e as suas relações sociais, esta mensagem reforça a ideia de que a verdadeira liberdade e o dinamismo social nascem de um coração que serve com alegria e contribui para o bem comum a partir da simplicidade da vida quotidiana.

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Argélia: terça-feira, 14 de abril

  • Visita à zona arqueológica de Hipona

  • Visita à Casa de acolhimento de idosos das Irmãzinhas dos Pobres

  • Encontro privado com os membros da Ordem Agostiniana

  • Homilia durante a Santa Missa na Basílica de Santo Agostinho

Queridos irmãos e irmãs,

A Palavra divina atravessa a história e renova-a através da voz humana do Salvador. Hoje ouvimos o Evangelho, boa nova para todos os tempos, nesta basílica de Annaba dedicada a Santo Agostinho, Bispo da antiga Hipona. Ao longo dos séculos, os lugares que nos acolhem mudaram de nome, mas os santos permaneceram como nossos padroeiros e testemunhas fiéis dum vínculo com a terra, o qual vem do céu. É precisamente esta a dinâmica que o Senhor ilumina na noite de Nicodemos: é esta a força que Cristo infunde na fraqueza da sua fé e na tenacidade da sua busca.

Enviado pelo Espírito de Deus, que «não sabes de onde vem nem para onde vai» (Jo 3, 8), Jesus é, para Nicodemos, um hóspede especial. Com efeito, convida-o a uma vida nova, confiando ao seu interlocutor – e também a nós – uma tarefa surpreendente: «tendes de nascer do Alto» (v. 7). Eis o convite dirigido a cada homem e a cada mulher que procura a salvação! Do apelo de Jesus brota a missão para toda a Igreja e, portanto, para a comunidade cristã da Argélia: nascer de novo do alto, isto é, de Deus. Nesta perspetiva, a fé vence as dificuldades terrenas e a graça do Senhor faz florescer o deserto. No entanto, a beleza desta exortação traz consigo uma provação, que o Evangelho nos chama a atravessar juntos.

Efetivamente, as palavras de Cristo têm toda a força de um dever: deveis renascer do alto! Tal imperativo soa aos nossos ouvidos como uma ordem impossível. Ao ouvirmos com atenção Aquele que a dá, compreendemos, porém, que não se trata de uma imposição dura, nem de uma coação, nem muito menos de uma condenação ao fracasso. Pelo contrário, o dever expresso por Jesus é para nós um dom de liberdade, porque nos revela uma possibilidade inesperada: podemos renascer do alto, graças a Deus. Devemos fazê-lo, portanto, segundo a sua vontade de amor, que deseja renovar a humanidade chamando-a a uma comunhão de vida, que começa com a fé. Enquanto Cristo nos pede para renovar por completo toda a nossa existência, também nos dá a força para o fazer. Atesta-o bem Santo Agostinho, que reza assim: «Dai-me o que ordenais, e ordenai-me o que quiserdes» (Confissões, X, 29).

Então, quando nos perguntamos como é possível um futuro de justiça e paz, de concórdia e salvação, lembremo-nos que estamos a fazer a Deus a mesma pergunta de Nicodemos: será que a nossa história pode realmente mudar? Temos tantos problemas, insídias e tribulações! Será que a nossa vida pode realmente recomeçar do zero? Sim! A afirmação do Senhor, tão cheia de amor, enche os nossos corações de esperança. Não importa quão oprimidos estejamos pela dor ou pelo pecado: o Crucificado carrega todos esses fardos connosco e por nós. Não importa quão desanimados estejamos pelas nossas fraquezas: é precisamente então que se manifesta a força de Deus, que ressuscitou Cristo dentre os mortos para dar vida ao mundo. Cada um de nós pode experimentar a liberdade da vida nova que provém da fé no Redentor. Mais uma vez, Santo Agostinho oferece-nos o exemplo: antes mesmo que pela sua sabedoria, olhamos para ele pela sua conversão. Nesse renascimento, providencialmente acompanhado pelas lágrimas da mãe, Santa Mónica, ele tornou-se ele mesmo, exclamando: «Não existiria, meu Deus, de modo algum existiria, se não estivésseis em mim. Ou antes, existiria eu se não estivesse em Vós» (Confissões, I, 2).

Sim, pois os cristãos nascem do alto, regenerados por Deus como irmãos e irmãs de Jesus, e a Igreja, que os alimenta com os sacramentos, é colo acolhedor para todos os povos da terra. Como ouvimos há pouco, os Atos dos Apóstolos dão testemunho disso, relatando o estilo que distingue a humanidade renovada pelo Espírito Santo (cf. At 4, 32-37). Também hoje é necessário acolher e realizar este cânone apostólico, meditando-o como autêntico critério de reforma eclesial: uma reforma que, para ser verdadeira, começa no coração, e que, para se tornar eficaz, diz respeito a todos.

Em primeiro lugar, «a multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma» (v. 32). Esta unidade espiritual é uma concórdia: palavra que expressa bem a comunhão de corações que batem em uníssono, porque unidos ao coração de Cristo. A Igreja nascente não se baseia, portanto, num contrato social, mas numa harmonia na fé, nos afetos, nas ideias e nas escolhas de vida que tem ao centro o amor de Deus, feito homem para salvar todos os povos da terra.

Em segundo lugar, admiramos o efeito concreto desta unidade espiritual dos crentes: «Entre eles tudo era comum» (v. 32). Todos têm tudo, participando nos bens de cada um como membros de um único corpo. Ninguém é privado de nada, pois cada um partilha o que é seu. Transformando a posse em dom, esta dedicação fraterna não significa uma utopia, a não ser para corações rivais entre si e almas ávidas em si mesmas. Pelo contrário, a fé no único Deus, Senhor do céu e da terra, une os homens segundo uma justiça perfeita, que convida todos à caridade, isto é, a amar cada criatura com o amor que Deus nos dá em Cristo. Por isso, sobretudo perante a indigência e a opressão, os cristãos têm como código fundamental a caridade: façamos aos que estão ao nosso lado o que gostaríamos que nos fosse feito (cf. Mt 7, 12). Animada por esta lei, que Deus escreve nos corações, a Igreja está sempre a nascer, porque onde há desespero acende a esperança, onde há miséria leva dignidade, onde há conflito leva reconciliação.

Em terceiro lugar, no texto dos Atos dos Apóstolos encontramos o fundamento desta vida nova, que envolve povos de todas as línguas e culturas: «Com grande poder, os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e uma grande graça operava em todos eles» (v. 33). A caridade que os anima, antes de ser um compromisso moral, é sinal de salvação: os Apóstolos anunciam que a nossa vida pode mudar porque Cristo ressuscitou dos mortos. A primeira tarefa dos pastores, ministros do Evangelho, é, portanto, dar testemunho de Deus ao mundo com um só coração e uma só alma, sem que as preocupações nos corrompam através do medo, nem as modas nos enfraqueçam através do conformismo. Convosco, irmãos no episcopado, e convosco, presbíteros, renovamos constantemente esta missão em benefício daqueles que nos estão confiados, para que toda a Igreja seja, no seu serviço, mensagem de vida nova para quantos encontramos.

Nesta terra, caríssimos cristãos da Argélia, permanecei como sinal humilde e fiel do amor de Cristo. Testemunhai o Evangelho com gestos simples, relações autênticas e um diálogo vivido cada dia: assim, dais sabor e luz onde viveis. A vossa presença no país faz lembrar o incenso: um grão em brasa, que exala perfume porque dá glória ao Senhor e alegria e consolo a tantos irmãos e irmãs. Este incenso é um elemento pequeno e precioso, que não está no centro das atenções, mas convida a dirigir os nossos corações para Deus, encorajando-nos mutuamente a perseverar nas dificuldades do tempo presente. Do turíbulo do nosso coração elevam-se, efetivamente, o louvor, a bênção e a súplica, difundindo o suave odor (cf. Ef 5, 2) da misericórdia, da esmola e do perdão. A vossa história é feita de acolhimento generoso e de tenacidade na provação: aqui rezaram os mártires, aqui Santo Agostinho amou o seu rebanho, buscando a verdade com paixão e servindo Cristo com fé ardente. Sede herdeiros desta tradição, testemunhando na caridade fraterna a liberdade daqueles que nascem do alto como esperança de salvação para o mundo.


Camarões: quarta-feira, 15 de abril

  • Encontro com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático no Palácio de Congressos
  • Visita ao orfanato de Ngul Zamba
  • Encontro privado com os bispos dos Camarões na sede da Conferência Episcopal