Um professor, um advogado, um técnico e um químico recém-ordenados

No sábado, 23 de maio de 2026, quatro nigerianos foram ordenados sacerdotes da Prelatura do Opus Dei. Antes desta nova aventura, estes quatro homens exerciam profissões diferentes. Provêm de origens diversas e, neste artigo, partilhamos as suas respostas a algumas perguntas que nos ajudam a conhecê-los melhor.

Da esquerda para a direita: Augustin, Tobe, Charles, Anthony.

Para começar, podem apresentar-se?

Augustine: o meu nome é Augustine Ufoegbune Onyekachi. Sou de Isele-Uku, que fica no estado do Delta. Nasci a 28 de agosto de 1988. Normalmente, os católicos lembram-se facilmente do meu aniversário por ser no dia de Santo Agostinho, razão pela qual os meus pais me deram esse nome. Sou o quinto de seis irmãos e a minha família é católica há três gerações.

Anthony: sou o Anthony Oluchukwu Momah, e o meu nome de crisma é Alphonsus, apesar de raramente o usar. Nasci a 24 de outubro de 1991, em Shomol, um município do estado de Lagos. Sou de Ubulu-Uku, um município de Aniocha do Sul, que fica no estado do Delta.

Tobe: o meu nome é Tobe Attoh. Nasci a 18 de setembro de 1995, em Lagos. Sou o terceiro de quatro filhos. Também cresci em Lagos, mas sou de Asaba, no estado do Delta.

Charles: o meu nome é Charles Ozoene, sou de Ngwo, no Estado de Enugu, na Nigeria. Nasci a 8 de outubro de 1985, numa família grande, sendo o sétimo de nove irmãos, e cresci em Ibute Ameke Ngwo.

Conte-nos uma coisa sobre si que surpreenda o leitor?

Augustine: diria que, na verdade, sou um pouco reservado. Percebê-lo forçou-me a sair da minha zona de conforto. O que me levou a arriscar, quando trabalhava como professor no Colégio Whitesands, a conhecer novas pessoas e a interagir de perto com os meus colegas e alunos, para reforçar a minha autoconfiança.

Anthony: não sei se será uma grande surpresa, mas, se olharmos para os meus passatempos, talvez seja interessante saber o quanto me tenho dedicado ao desporto. Corro, jogo futebol e tenho vindo a desenvolver cada vez mais o gosto por tentar modalidades desportivas diferentes.

Tobe: sou um grande fã do Batman, desde os 14 anos. Também sou fã do Arsenal e no dia em que fui ordenado, ganhámos a Primeira Liga inglesa.

Charles: diria que não gosto de apressar as coisas. Gosto de pensar bem antes. Os meus pais, às vezes, chamam-me “Charlie Mentol”, devido à minha natureza calma. O meu nome igbo é Ejike, que é um lembrete para não usar a força para fazer coisas, em vez disso, descontrair e permitir que o vento da graça me leve.

Quais dão os vossos passatempos ou talentos?

Augustine: jogo futebol e corro. Desde que me mudei para a Europa, arranjei mais uns passatempos, faço caminhadas e pratico um pouco de ciclismo.

Anthony: além da corrida e do futebol, tentei jogar ténis e ténis de mesa. Quando vivia em Espanha, também pratiquei um pouco de ciclismo. Além disso, adoro cantar. Essa característica vem diretamente da minha família. Comecei a cantar quando era muito pequeno. Na ordenação de padres de 2024, cantámos a música igbo do ofertório: “Ezi Chukwu” que ficou muito popular porque a maioria dos membros do coro era europeia (éramos apenas dois nigerianos).

Tobe: adoro futebol. Mas também gosto de ver filmes e de ler, especialmente um bom livro ou um romance cativante. Também gosto de fazer longos passeios, sempre que possível. Há uns dois domingos, alguns amigos e eu fizemos uma peregrinação para visitar as sete maiores basílicas de Roma, uma bela experiência.

Charles: quando me mudei para Espanha, tive finalmente a coragem para explorar o meu interesse por música e comecei a aprender órgão. Agora, consigo ler pautas de música. Também adoro jogar futebol, porque me permite descansar, já que envolve o cérebro e o corpo. Recentemente, tenho jogado ténis e também gosto de ciclismo.

Tobe durante uma caminhada com outros membros da Obra.

De que tipo de música ou filmes gostam?

Augustine: gosto imenso dos clássicos. Em relação aos livros, gosto muito de obras sobre História, porque me ajudam a situar-me num contexto específico: História do mundo, de Paul Johnson é um dos meus favoritos. Quando me mudei para Espanha, ler o Dom Quixote de la Mancha, de Cervantes, foi uma verdadeira revelação, pelo uso de parábolas, que espelha muito bem a tradição do conto africano. Também adoro Os irmãos Karamazov, de Dostoievski, Os noivos, de Alessandro Manzoni e, claro, o escritor nigeriano Chinua Achebe.

Anthony: inclino-me muito para o gospel e a música clássica. Adoro música sacra e cantar em coros, apesar de, em geral, apreciar qualquer música boa. Em relação aos filmes, gosto muito de clássicos, como O Senhor dos Anéis e o Hobbit. Não leio muita literatura, mas adoro mergulhar numa história bem escrita.

Tobe: na verdade, vejo qualquer filme que conte uma boa história, independentemente do género, ação ou drama. O mesmo vale para os livros, se for uma boa narrativa, leio. No último ano, li vários livros históricos. Li um sobre os problemas que ocorreram na Irlanda do Norte, em meados do século XX, depois de termos visto uma série sobre isso, que me levou a ler mais livros sobre História, em particular sobre a Nigéria. E, claro, sou um grande fã de Harry Potter. Li, vi e ouvi Harry Potter.

Charles: quando se trata de livros, gosto de dramas que reflitam genuinamente a humanidade. Atraem-me quaisquer histórias decentes centradas no ser humano, porque as experiências verdadeiramente humanas têm sempre um elemento de respeito e dignidade. E adoro ouvir música tradicional igbo. O meu pai costumava ouvi-la, o que me põe em contacto com os seus sacrifícios e as memórias da minha aldeia. É uma âncora ótima para a minha fé.

Que universidade frequentaram e que profissão exerciam?

Augustine: frequentei a Universidade do Benim (UNIBEN), onde estudei Gestão Educativa e Economia. Depois, tornei-me professor no Colégio Whitesands, onde ensinei Educação Cívica, Gestão e Economia. Gostei muito de ensinar, porque o meu objetivo era ajudar os estudantes a interiorizar valores em vez de os memorizar. Em Educação Cívica, tornei a política mais envolvente ao atribuir funções legislativas às minhas turmas do ensino básico (JSS1 na Câmara dos Representantes, JSS2 no Parlamento e JSS3 como Senadores) e apresentei-lhes a Constituição nigeriana. Em Gestão, sublinhei que, qualquer carreira, da medicina à engenharia, exige ética e uma mentalidade comercial. Para tornar as aulas reais, tínhamos um dia das profissões, em que os estudantes se vestiam de acordo com as suas profissões futuras, começando até a esboçar planos de negócio no JSS1, para mostrar que a educação vai muito para lá da aprovação nos exames.

Anthony: estudei Química na UNIBEN. Os meus irmãos mais velhos também frequentaram essa instituição, pelo que me abriram caminho. Depois de me formar, na verdade não trabalhei como químico; a minha única experiência real em laboratório foi durante um estágio de licenciatura. Trabalhei, isso sim, no Instituto de Tecnologia Industrial (IIT) como coordenador de programas, durante cerca de dois anos. Posteriormente, desempenhei várias funções a tempo parcial, incluindo explicações no Colégio Whitesands, ajuda numa ONG, a Educational Cooperation Society (ECS), e, ao mesmo tempo, desempenhei as funções de secretário do Centro Regional de Estudos.

Tobe: estudei Direito na Universidade de Lagos (UNILAG) e, posteriormente, frequentei a Faculdade de Direito da Nigéria, no campus de Lagos. Depois de obter a licença para exercer advocacia, fi-lo durante cerca de dez meses, antes de me mudar para Espanha para começar os meus estudos em Teologia.

Charles: também concluí a minha licenciatura na Universidade do Benim (UNIBEN), onde estudei Ciências de Laboratório e, durante vários anos, trabalhei como técnico de laboratório no Hospital da Fundação do Níger, no estado de Enugu.

Como conheceram o Opus Dei?

Augustine: foi enquanto me preparava para os exames depois do Exame de Admissão ao Ensino Superior Pós-Unificado (UME). O meu pai sugeriu que me mudasse para mais perto do ambiente universitário, para me manter informado e frequentar aulas de preparação. Fiquei a viver com um amigo e, num domingo, visitei a capelania da universidade. Lá, encontrei um velho amigo chamado Victor, que tinha sido o presidente do grupo dos acólitos quando a minha família vivia no estado de Cross River. Ele falou-me de um sítio ali perto, onde poderia ir confessar-me sem ter de esperar numa longa fila, o Centro de Estudos de Isiuwa. Comecei a frequentar as atividades de sábado, reparei num curso de programação informática no quadro de avisos e inscrevi-me. Com a oração e o crescimento da minha vida interior, acabei por perceber a minha vocação. Pedi para ser admitido no Opus Dei, como numerário, no dia 10 de maio de 2013.

Anthony: conheci o Opus Dei em Lagos, depois de terminar o ensino secundário, quando li o “Caminho”. Uma colega do meu pai estava a lê-lo e eu pedi-lho emprestado. No entanto, só tomei conhecimento das atividades de formação da Obra quando fui para a universidade, no Benim. Procurava orientação espiritual e confissão regulares, algo que não conseguia facilmente com os capelães da universidade, devido às suas agendas sobrecarregadas. Ouvi dizer que havia um padre disponível no Centro de Estudos de Isiuwa, comecei a frequentar as atividades, durante o meu segundo ano de universidade, e acabei por entrar para o Opus Dei em 2013.

Tobe: conheci a Obra graças à minha mãe. Antes de a minha irmã mais nova nascer, a minha mãe chegou um dia do trabalho e preparou uma sobremesa incrivelmente deliciosa para a família. Ela contou-nos que tinha aprendido a receita num centro do Opus Dei para mulheres, pelo que os meus irmãos e eu a encorajámos com entusiasmo a continuar, já que de lá saíam coisas boas! Com o tempo, os meus irmãos começaram a frequentar os grupos de jovens no Centro de Estudos de Helmbridge, e eu segui o exemplo, chegando mesmo a fazer a minha Primeira Comunhão lá. Mais tarde, frequentei o Colégio Whitesands e, no meu segundo ano na UNILAG, em 2015, pedi para aderir à Obra, como numerário. No ano anterior, tive o privilégio de estar em Espanha para a beatificação de D. Álvaro, o que acho que reforçou as minhas convicções.

Charles: o meu primeiro encontro verdadeiro aconteceu numa Missa vespertina na Universidade do Benim. Durante os anúncios, reparei num colega, o Kosi, que tinha na mão um pequeno livro intitulado “Caminho”. Fiquei intrigado e aceitei o seu convite para saber mais. Com este providencial “apostolado do livro”, o Kosi acabou por me levar a um centro do Opus Dei, onde encontrei muito mais do que apenas livros. No centro, descobri um silêncio diferente de tudo o que conhecera: um silêncio que escutava, questionava, purificava e convidava. Ali, convenci-me de que escutar é indispensável para o discernimento de qualquer vocação. Naquele silêncio, debati-me com as grandes questões da vida: o sofrimento, o propósito, o trabalho e o significado da vocação. Comecei a sentir que Deus me estava a pedir algo, embora eu hesitasse, à espera de um sinal. No entanto, Deus continuou a acender a faísca, a centelha, por meio de pessoas, livros e circunstâncias.

A minha admissão na universidade, o meu hábito de ir à Missa diariamente e o dom inesperado do “Caminho” fizeram todos parte de uma coreografia divina. À medida que o chamamento se tornava mais claro, dei por mim a perguntar a Deus, meio a medo e meio com admiração: «Tem a certeza de que sou eu e não outro Charles?». Por fim, a tremer de alegria, escrevi a carta para entrar para o Opus Dei, como numerário, em 2012. Pensei que fosse o fim da história. Estava enganado. Era apenas o começo.

Interpretação do coro de «Ezi Chukwu» na ordenação sacerdotal de 2024.

Que mais vos marcou no Opus Dei?

Augustine: vindo de uma família de grandes trabalhadores, sempre acreditei que é preciso trabalhar bem. O meu pai insistia muito nisso. O que me marcou no Opus Dei foi levar esse conceito um passo mais além: não se tratava apenas de trabalhar bem, mas de servir a Deus, à família e ao próximo por meio desse trabalho. A ideia de dar um sentido sobrenatural ao trabalho profissional quotidiano captou completamente a minha atenção.

Anthony: a primeira coisa que me impressionou foi a imensa solenidade e o ambiente durante a recoleção, que se vivia no oratório do centro. De certa forma, a atmosfera e o ambiente fizeram-me lembrar a escola secundária católica que frequentei, ambiente esse que me tocou profundamente.

Tobe: para mim, é a vida em família, o quanto somos genuinamente próximos uns dos outros. Além disso, o próprio carisma é muito atraente, porque nos lembra de que Deus quer que sejamos felizes aqui mesmo, na Terra e, depois, para sempre, no Céu. Para o alcançar, não é preciso fazer nada de extraordinário, Deus vem ao nosso encontro diretamente, no meio das nossas vidas quotidianas e comuns.

Charles: o ambiente familiar tão profundo, o acolhimento caloroso e a paciência de todos os presentes destacaram-se imenso. O que me ajudou a perceber que a Obra é verdadeiramente sobrenatural.

⁠⁠Foi difícil deixar a vossa profissão anterior para se prepararem para o sacerdócio? A que tiveram de renunciar?

Augustine: no fim de contas, independentemente do que se estude, todos somos professores, até mesmo um padre. Passar de professor, responsável por uma turma de 35 ou 600 rapazes, para zelar pelas almas de milhares de pessoas pareceu-me uma continuação natural. A profissão de professor preparou-me muito bem para isto, porque os professores atuam in loco parentis (no lugar dos pais). Da mesma forma, um padre age em nome de Deus para administrar os sacramentos e acompanhar as pessoas ao longo da vida, desde o casamento e o nascimento até aos seus momentos finais. É simplesmente uma forma mais profunda de servir os outros.

Anthony: dada a transição profissional que já tinha feito – deixar o IIT para gerir um centro de estudos e zelar pelas pessoas que lá viviam –, a decisão de partir para Espanha não foi propriamente um choque. Já me tinha mentalizado que iria cuidar de pessoas. Sinceramente, o que achei mais difícil aconteceu muito antes, quando tive de deixar o coro da universidade para me dedicar às atividades de formação. Vindo de uma família de músicos, foi um verdadeiro sacrifício, mas sabia que tinha de dar prioridade à minha formação.

Tobe: como Deus é incrivelmente generoso, é impossível comparar. Do que se abdica não é nada comparado ao que se recebe. Para ser sincero, não abdiquei de muito, tinha uma carreira jurídica em ascensão e um futuro promissor pela frente. A transição foi suave, e qualquer sacrifício é eclipsado pelo que Deus me deu em troca.

Charles: nas cartas que escrevi ao Padre, sempre disse que estava disponível para tudo. Nunca pensei que me pedissem para estudar para o sacerdócio, nem sequer me passou pela cabeça. Quando me pediram, foi um verdadeiro choque. Tive de pedir a alguém que me ajudasse a escrever a carta ao Padre, enquanto eu ditava, porque não conseguia escrever.

⁠⁠Quais foram os maiores choques culturais que tiveram na Europa?

Augustine: nós, nigerianos, somos radiantes de energia, cumprimentamo-nos em voz alta e fazemos amigos num instante. No norte de Espanha, onde morei inicialmente, as pessoas são um pouco mais reservadas no início. Levam o seu tempo a criar uma amizade, mas, assim que esse laço se forma, abrem-nos as portas de par em par e tornam-se amigos para a vida. O outro choque cultural foram as crianças. Na Nigéria, as crianças costumam ser tímidas perto de adultos, mas na Europa são incrivelmente ousadas. Elas avistam-te na rua e testam-te de forma ousada com perguntas de matemática tipo: “7x5”, ou exigem saber se torces por Madrid ou por Barcelona!

Anthony: no meu caso, foi durante as minhas primeiras semanas em Pamplona, em Espanha. Cheguei em julho de 2019, mesmo durante as festas do San Fermín. Nunca antes tinha saído da Nigéria, por isso, ver milhões de espanhóis reunidos na praça da cidade, vestidos de branco e vermelho, a fugir dos touros e a assistir aos fogos de artifício foi uma experiência avassaladora. A enorme quantidade de gente, cerca de seis vezes a população normal da cidade, foi um choque enorme para mim.

Tobe: para mim, a maior adaptação não foi a língua, mas sim o frio do inverno! Esse foi, sem dúvida, o maior desafio. A língua é difícil, mas com tempo, paciência e prática, acaba por se apanhar o jeito. A comida também exigiu alguma adaptação, já que há certos pratos europeus de que ainda não sou grande fã, mas acabamos por habituar-nos.

Charles: o maior choque cultural foi no momento em que cheguei a Espanha, para estudar Teologia na Universidade de Navarra. Cheguei lá e percebi que nem sequer conseguia dizer o meu próprio nome em espanhol! No início, tinha-me perguntado como é que alguma vez iria aprender a língua. Felizmente, as pessoas do centro e da universidade foram incrivelmente pacientes. Quando finalmente consegui formar a minha primeira frase completa em espanhol, disse a mim mesmo: «Qualquer ser humano na Terra pode aprender qualquer língua».

Tobe, Charles, Anthony e Augustine com outros nigerianos, em Roma.

Sejamos honestos, alguma vez se adaptaram à comida em Roma?

Augustine: sim, estou a adorar a comida daqui. A pizza, a carbonara, a massa… é tudo maravilhoso. E nem me faças falar do gelato! Até a fruta é incrível; as laranjas daqui são mesmo de um laranja vivo, ao contrário das nossas, que são verdes, e as maçãs são do tamanho de um punho.

Anthony: sim, adaptei-me. Em Pamplona, só comi comida nigeriana uma vez, quando um amigo me convidou para ir a um restaurante nigeriano. Mas nunca senti um desejo especial por ela nem me senti deslocado. Roma é diferente de Espanha; a culinária italiana gira em torno da massa e da pizza e a cidade tem vários restaurantes nigerianos. De vez em quando, os residentes daqui reúnem-se para um encontro nigeriano para partilhar uma refeição caseira, o que é sempre agradável.

Tobe: quase totalmente, sim. Ainda há algumas coisas que me custam, mas, na maior parte das vezes, tenho-me adaptado bem. Quando servem algo de que não se gosta muito, basta encarar isso como um pequeno momento de mortificação e comê-lo naturalmente!

Charles: sinceramente, como de tudo! Ter crescido como o sétimo de nove irmãos ensinou-nos que precisávamos de sobreviver, por isso, comíamos o que nos davam. Portanto, adaptar-me à comida em Roma nunca foi um problema para mim.

Tobe a fazer uma paella.

Viver tão perto do Vaticano, do Papa e do Padre deve parecer surreal. Conseguem partilhar um momento inesquecível durante a vossa estada lá?

Augustine: um momento que me marcou profundamente foi no dia 8 de maio, do ano passado, quando o Papa Leão XIV foi eleito. A nossa universidade fica muito perto do Vaticano e, naquela quinta-feira, a caminho de casa, alguém comentou ter visto fumo branco. Corri para a Praça de São Pedro. Enquanto esperávamos, alguém fez uma observação muito bonita: «Esta é uma das raras ocasiões em que os filhos esperam pelo nascimento do seu pai». Foi incrivelmente emocionante, e o seu primeiro discurso foi proferido diretamente do coração. Quanto ao Padre, sabe que, quando se entra para o Opus Dei, só se ouve «o Padre, o Padre, o Padre, o Padre», mas estar aqui, cruzarmo-nos tantas vezes, ter encontros com ele, contar piadas e falar-lhe sobre a minha família, a minha região e, em geral, o meu apostolado, criou uma bonita proximidade que me leva a rezar por ele constantemente, porque sei que tem uma responsabilidade muito grande. E agora, estando na Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, estou aqui para o ajudar na santidade e no apostolado, que é o principal objetivo do Opus Dei.

Augustin à espera do anúncio do Papa após o fumo branco.

Anthony: uma das primeiras coisas que fazemos ao chegar é visitar a Basílica de São Pedro para rezar o Credo e, em seguida, dirigirmo-nos à igreja prelatícia de Nossa Senhora da Paz para rezar junto ao túmulo de São Josemaria. Além disso, participar nas grandes audiências papais e assistir à Missa na Praça de São Pedro, com pessoas de todo o mundo, é uma experiência maravilhosa. Os meus encontros com o Padre também têm sido maravilhosos; ele é um homem de poucas palavras que escuta atentamente, nos encoraja e encarna verdadeiramente o papel de um pai que zela pela sua família.

Tobe: a eleição do Papa Leão XIV foi inesquecível. Nós os cinco fomos à Praça de São Pedro naquela quinta-feira, e foi uma verdadeira providência, pois um dos nossos colegas tinha de partir de Roma nesse mesmo dia para assumir um cargo de gestor num centro de conferências nos arredores da cidade. Rezávamos para que ele pudesse, pelo menos, ver o fumo branco antes de partir, e ele foi, de facto, o primeiro do nosso grupo a vê-lo! Foi um momento muito emocionante. Por coincidência, um estudante americano do nosso grupo tinha passado o ano inteiro a ler as cartas de Leão XIII e as obras de Santo Agostinho como projeto pessoal, e eis que o novo Papa se chamava Leão XIV e era ele próprio agostiniano! Além disso, viver em Roma torna a visita ao Papa tão acessível, basta apanhar o metro.

Charles: é decididamente surreal. Um momento que ficará para sempre gravado na minha memória foi apertar a mão ao Papa Francisco. Foi incrível! A proximidade com o Padre tem sido extraordinariamente especial. Ele irradia uma paz tão profunda e um calor paternal. Uma memória inesquecível foi no dia dos meus 40 anos, aqui em Roma. Tivemos uma reunião e, quando o Padre nos viu (aos dois aniversariantes), abraçou-nos. Estava tão descontraído que ficou literalmente pendurado nos nossos ombros, as suas pernas saíram completamente do chão! Foi um momento belo e humano.

Charles, no seu 40.º aniversário, com o Padre.

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À medida que se preparam para a ordenação sacerdotal, que vos passa pela cabeça?

Augustine: rezo muito pelo meu país, a Nigéria, e pela paz no mundo. Sinto um grande peso no coração devido aos desafios que se vivem no meu país. Reconheço que nós, que estamos aqui, somos sustentados pelas orações de tantos “guerreiros da oração”, os nossos pais, familiares e amigos que nos têm apoiado. Peço a Deus que me ajude a ser um instrumento de unidade e de paz profunda para todas as pessoas com quem me cruzo.

Anthony: a minha mente está concentrada em estar totalmente disponível para aquilo que Deus, a Igreja e a Obra esperam de mim. Peço a todos as suas orações e rezo para que me seja concedida a graça de renovar diariamente esta disposição. Com a aproximação da festa de Pentecostes, peço ao Espírito Santo que me torne um instrumento dócil nas Suas mãos.

Tobe: para ser sincero, nada de mais. Estou feliz, grato a Deus pela dádiva que vou receber e rezo para ser um bom instrumento nas Suas mãos.

Charles: o que mais me ocupa a mente é o imenso dever de zelar pelas almas. Peço constantemente a Deus que me torne maleável, recetivo e um canal puro para a Sua graça. Não quero, de forma alguma, ser um obstáculo ao crescimento espiritual de ninguém. Às vezes, ainda pergunto a Deus: «Estarei realmente pronto?». Mas encontro paz sabendo que não confio na força humana: com a Sua graça, posso ser um instrumento útil.

Com o vigário do Opus Dei na Nigéria, Pe.Tony Odoh.

Que esperam que as pessoas sintam quando se encontrarem convosco, enquanto padres?

Augustine: rezo para que, com as minhas ações, as pessoas vejam Cristo e não a mim. Volto frequentemente às palavras de São João Batista: «É preciso que Ele cresça, e que eu diminua». Quero estar entre as pessoas como Cristo esteve: como alguém que está ao serviço.

Anthony: espero que me vejam como amigo e como verdadeiro instrumento de Cristo e da Sua Igreja.

Tobe: quero transmitir o amor de Cristo que recebi pessoalmente.

⁠⁠Últimas palavras?

Augustine: diria que vale totalmente a pena. Independentemente das circunstâncias que enfrentamos ou dos desafios que surgem, mesmo que o céu estivesse a desabar, nada está verdadeiramente perdido. Tudo o que semeamos com as nossas orações, o nosso apostolado e o amor que demonstramos às nossas famílias e amigos cria ondas que ressoam no tempo.

Independentemente das dificuldades, cada breve oração e cada esforço para aproximar uma alma de Deus vale a pena. Mesmo que a pessoa pareça indiferente, temos de continuar a rezar, tal como o fazem por nós, que estamos aqui pela intercessão dos outros. Devemos rezar por todos, especialmente pelos necessitados, e pela perseverança dos que estão casados, no sacerdócio, na vida religiosa ou no celibato, para que possamos construir aquilo a que o Papa Paulo VI chamou a «civilização do amor». Em última análise, Deus não perde batalhas: cada boa ação que fazemos hoje ressoa na eternidade, pois tudo o que fazemos é para a Sua glória.

Anthony: quero expressar o meu enorme reconhecimento pelo trabalho que está a ser feito na Nigéria. Trata-se de um ambiente desafiante, mas a dedicação das pessoas transmite uma enorme esperança à Igreja e à Obra. Estamos todos a apoiar-nos mutuamente na comunhão dos santos, nas nossas orações e nos nossos sacrifícios diários.

Tobe: obrigado a todos aqueles que, de alguma forma, nos apoiam e rezam por nós; contamos com as vossas orações.

Charles: estou muito feliz com visita dos meus pais a Roma, pela primeira vez, para assistir à minha ordenação. Estou profundamente grato ao Opus Dei por me ter encontrado. O Opus Dei fez um trabalho incrível na minha alma e rezo para que Deus continue essa transformação. Por fim, quero sublinhar que a unidade sempre foi fundamental para a santidade. A santidade que não está orientada para a união com os outros é uma santidade falsa, porque a Igreja é Una, Santa, Católica e Apostólica.