Um fim de semana para ler uma encíclica à beira-mar

Hoje o Papa Leão XIV cumpre 71 anos. Dentro de uns dias viajará a França — Paris, Lurdes e Metz —, e muitos começam a preparar-se para recebê-lo. O entusiasmo entre os jovens já é palpável e alguns decidiram não esperar para ir ao seu encontro… através dos seus textos.

De 25 a 28 de setembro, o Papa Leão visitará França. Trata-se da primeira viagem após dezoito anos, desde a ida de Bento XVI, em 2008. Além disso, a visita ocorre num momento marcante para a Igreja francesa: na Páscoa de 2025, foram batizados mais de 10 000 adultos, um aumento de 45% em relação ao ano anterior, e, juntamente com eles, mais de 7 400 adolescentes; o número mais elevado dos últimos vinte anos. A poucas semanas desta viagem, um grupo de amigas decidiu preparar-se ao pôr do sol, na praia de Saint-Malo.

Em Saint-Malo, nove amigas reservaram um fim de semana junto ao mar para ler, estudar e trocar ideias em torno de Magnifica Humanitas, a primeira encíclica do Papa. Entre momentos de estudo, banhos de mar, oração e amizade, contam uma experiência tão simples quanto entusiasmante.

Tudo começou num aperitivo

Tudo começou com uma ideia lançada numa noite, durante um aperitivo, na residência Les Écoles. E se reservássemos um autêntico momento, em grupo, para ler Magnifica Humanitas, a primeira grande encíclica do Papa Leão XIV? Não apenas passar os olhos pelo texto entre duas reuniões, mas mergulhar nele a sério, em conjunto.

E SE RESERVÁSSEMOS UM AUTÊNTICO MOMENTO, EM GRUPO, PARA LER MAGNIFICA HUMANITAS?

Partimos nove para uma primeira sessão: destino Saint-Malo, um apartamento em frente ao mar e um fim de semana inteiro dedicado à descoberta e ao aprofundamento deste magnífico texto.

Juntar o útil ao agradável

A ideia não era ficar fechadas três dias com um livro, mas conciliar um estudo sério com um verdadeiro momento de descontração: dez horas de trabalho, distribuídas ao longo do fim de semana, intercaladas com banhos de mar, passeios pelas muralhas ou à beira-mar, um bom crepe bretão, momentos de oração e, naturalmente, a Santa Missa. Tudo isto permitiu-nos ler a encíclica em profundidade, sem sacrificar o descanso nem a amizade, que dava precisamente sentido a este projeto.

ler a encíclica em profundidade, sem sacrificar o descanso nem a amizade

A organização foi preparada antecipadamente e em equipa: duas de nós ficaram responsáveis pela logística (alojamento, refeições e orçamento partilhado), enquanto outras duas prepararam as sessões de formação. Cada capítulo tinha o seu próprio formato: um quiz para dar início à primeira sessão, apresentações e momentos de partilha para fazer a síntese, e workshops em pequenos grupos, nos quais cada uma se tornava “especialista” num determinado tema antes de o apresentar às restantes.

O que a encíclica nos fez (re)descobrir

A primeira surpresa é a acessibilidade do texto. Uma das participantes resume-o de forma simples: «É uma encíclica acessível, nunca pensei que fosse ler uma encíclica assim». Longe de ser um documento reservado a especialistas, Magnifica Humanitas fala de forma muito concreta sobre as nossas vidas com a inteligência artificial, sobre aquilo que ela transforma no nosso trabalho, no nosso pensamento e na nossa liberdade.

«É UMA ENCÍCLICA ACESSÍVEL, NUNCA PENSEI QUE FOSSE LER UMA ENCÍCLICA ASSIM»

Várias de nós ficaram particularmente marcadas pelo apelo do Papa a saber afastar-se voluntariamente da inteligência artificial. «Fiquei marcada pela ideia de “jejuar da IA”, de aprender a passar sem ela, para manter o controlo sobre a sua utilização», confidencia uma delas. Outra exprime a mesma intuição de uma forma diferente, quase como um propósito: «Que o uso da IA não me faça perder a minha pequena centelha».

«Toca-me o elogio da fragilidade que Leão XIV faz. Porque é nas fragilidades das pessoas que me rodeiam, e nas minhas próprias, que posso contemplar a humanidade, que não responde ao paradigma da otimização, mas que traz consigo a sabedoria, a criatividade, o tempo necessário para aprender, os erros, a solidariedade, o amor e o sofrimento». Uma frase que, por si só, resume aquilo que este fim de semana procurava: redescobrir juntas que o nosso valor não se mede pelo nosso desempenho.

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Uma ideia simples de replicar

Este fim de semana não exigiu meios extraordinários: um apartamento arrendado em conjunto, uma edição em papel da encíclica para cada uma, alguns cadernos e canetas e, sobretudo, a vontade de dedicar tempo a esta leitura. Talvez seja essa a verdadeira lição: não é preciso um dispositivo complicado para nos deixarmos interpelar por um texto do Magistério. Basta combinar um encontro, desligar-nos do quotidiano durante dois dias e ler em conjunto.

NÃO É PRECISO UM DISPOSITIVO COMPLICADO PARA NOS DEIXARMOS INTERPELAR POR UM TEXTO DO MAGISTÉRIO

O fim de semana terminou em frente a uma câmara: algumas voluntárias disponibilizaram-se para fazer uma síntese em vídeo. Uma forma de guardar uma memória viva deste tempo e de despertar noutras pessoas a vontade de experimentar o mesmo.

Por vezes, basta uma ideia lançada numa noite, entre amigas, para que tudo comece.