Traçar o caminho (5): Iguais, diferentes, em relação. Homens e mulheres

Nesta série de artigos, a partir de palavras de São Josemaria, alguns especialistas em Comunicação, Antropologia, Filosofia, Formação e Teologia vão ajudar-nos a descobrir como a mensagem de São Josemaria, através dos seus escritos, é um farol atraente para a santificação das realidades humanas no nosso século.

«Desejaria acrescentar que, a meu ver, a igualdade essencial entre o homem e a mulher exige precisamente que se saibam captar ao mesmo tempo os papéis complementares de um e outro na edificação da Igreja e no progresso da sociedade civil: porque não foi em vão que os criou Deus homem e mulher. Esta diversidade há de compreender-se não num sentido patriarcal, mas em toda a profundidade que tem, tão rica de matizes e consequências, que liberta o homem da tentação de masculinizar a Igreja e a sociedade, e a mulher de entender a sua missão, no Povo de Deus e no mundo, como uma simples reivindicação de atividades até agora apenas realizadas pelo homem, mas que ela pode desempenhar igualmente bem. Parece-me, pois, que tanto o homem como a mulher se hão de sentir justamente protagonistas da história da salvação, mas um e outro de forma complementar»[1].

Os dois opostos: tradicionalismo rígido vs. igualitarismo radical

O debate contemporâneo sobre o género e sobre as relações interpessoais é frequentemente causa de confrontos acesos e palco de posições ideológicas contrapostas. Isto provoca um fechamento por parte de quem gostaria de se interrogar abertamente sobre o tema, para não se deparar com críticas ferozes ou rótulos fáceis. Um contexto deste tipo tem como consequência fácil a urgência de tomar posições e defender teses, mais do que propor perguntas para abrir o debate e a busca da verdade. Muitas vezes encontramo-nos perante dois opostos: por um lado, um tradicionalismo rígido que tem dificuldade em reconhecer as mudanças da sociedade, continuando a sustentar uma diferença de tarefas e de papéis do masculino e do feminino em que hoje é difícil rever-se; por outro, um igualitarismo homem-mulher radical que corre o risco de anular as especificidades de cada género. A reflexão de São Josemaria ultrapassa estas polarizações, oferecendo uma perspetiva profunda e de grande atualidade: uma igualdade essencial.

Isto significa que homem e mulher gozam da mesma dignidade radical enquanto filhos de Deus. Todavia, esta igualdade não se traduz em uniformidade; o texto é breve, mas convida-nos a redescobrir o valor da diversidade não como hierarquia ou submissão – rejeitando qualquer deriva “patriarcal” – mas como complementaridade.

No contexto atual, marcado por uma forte crise relacional e por um individualismo generalizado, esta abordagem transforma a diferença de potencial conflito em recurso. Não se trata de ocupar espaços de poder à custa do outro, mas de edificar juntos a realidade e o mundo em que vivemos. De construir juntos uma relação.

A “duplicação” do masculino

São Josemaria identifica com precisão duas tentações que interpelam diretamente o homem e a mulher de hoje. A primeira é a de “masculinizar” as instituições, a Igreja e a sociedade civil. Isto acontece quando os modelos de liderança, de gestão do trabalho e de relação permanecem presos a lógicas de desempenho, de competição ou de exercício do poder hierárquico. Neste caso, o génio feminino é indispensável para humanizar as estruturas sociais e para recordar que no centro de toda a atividade deve estar a pessoa.

A segunda é a tentação, sobretudo para a mulher, de reduzir a própria missão a uma “mera reivindicação”. Embora reconhecendo a plena capacidade da mulher para desempenhar qualquer atividade profissional a par do homem – um dado hoje demonstrado, mas sem dúvida profético na época em que São Josemaria escrevia, em 1968 –, o fundador do Opus Dei previne contra o risco da imitação. O progresso social não se mede pela duplicação dos modelos masculinos por parte das mulheres, mas sim pela capacidade de o homem e a mulher levarem a sua identidade e riqueza específicas à família, ao trabalho e à sociedade civil.

Complementares por natureza

Hoje, ao contrário de séculos passados, pede-se ao homem que seja capaz de acolher o contributo feminino no contexto laboral, social e político, e isto exige capacidade de acolher a mudança, abertura mental e compreensão de um ponto de vista diferente; por outro lado, pede-se à mulher que traga a sua especificidade, eliminando a atitude de desafio e de reivindicação resultante de anos de exclusão.

Convencidos da riqueza que podem dar juntos, o homem e a mulher podem compreender como acolher as especificidades e valorizá-las, criando uma realidade nova e novas soluções para a vida em comum. Somos por natureza, por vocação, seres em relação, reciprocamente complementares. É precisamente nesta dinâmica que se esconde a chave para transformar o trabalho, a família e a cultura em espaços de autêntica comunhão humana.

O meu ser esposa faz-me viver uma relação que tem como vocação a da unidade da diferença; isto exige um diálogo constante, um olhar atento para compreender, acolher e apoiar, de modo a que nesta relação eu possa tornar-me plenamente mulher e o meu marido plenamente homem. A união, de facto, não deve nivelar nem uniformizar os dois, mas, pelo contrário, exaltá-los nas suas peculiaridades.

A complementaridade não é igualdade

Ambos trabalhamos, ambos somos pais de quatro filhos (dos 16 aos 3 anos) e procuramos viver aquela complementaridade de que falava São Josemaria, descobrindo-a todos os dias.

Não somos complementares por ambos mudarmos a fralda ou por cozinharmos para a nossa família, mas somo-lo pelo modo como o fazemos e pela razão por que o fazemos. A verdadeira complementaridade entre homem e mulher não se mede com base na igualdade das tarefas práticas. A diferença emerge no modo único, (o como) cada um exprime a própria sensibilidade ao executar essas ações e nas motivações interiores (o porquê) que nos levam a fazê-lo. Eu e o meu marido sentimo-nos ambos numa relação recíproca que implica uma doação total, mas o modo como o fazemos reflete a nossa singularidade e a maneira de imaginar esse grande projeto que é a nossa família.

Retomando o exemplo de cozinhar, para o meu marido é muitas vezes uma forma de ajudar, de estar com os filhos, de manifestar um sentido de responsabilidade para com o nosso projeto comum; para mim, pelo contrário, é mais frequentemente uma forma de acolher os pedidos, de manifestar ternura e atenção. Reconheço em nós alguns traços no nosso agir: no meu marido, força, responsabilidade, capacidade de projetar; em mim, suavidade, ternura, acolhimento, consolação. Isto não quer dizer que eu não seja forte, responsável e capaz de projetar, ou que o meu marido não seja terno e acolhedor, mas que o somos de modo diferente e por motivos diversos.

Eu e o meu marido precisamos um do outro para sermos plenamente aquilo que somos, para compreendermos os muitos modos de ser humanos. É isto que nos permite enfrentar a aventura de ser pais, levando aos nossos filhos a riqueza do ser masculino e feminino.

Posições diferentes no jogo

O desafio de hoje, também no contexto laboral, é o de saber encontrar novos caminhos para fazer crescer os talentos e os diferentes contributos que homem e mulher podem trazer ao mundo do trabalho.

Importa-me, porém, sublinhar um ponto crucial: para a mulher, o que está em jogo é diferente. O seu momento de máximo esforço para crescer profissionalmente coincide com a janela biológica para gerar filhos. Isto é verdade também para o homem, mas a geração é um dos aspetos em que as diferenças entre homem e mulher emergem de modo emblemático. A conceção, a gravidez, o parto e os cuidados dos primeiros meses de uma nova vida envolvem o pai e a mãe de modo diferente.

As soluções para acolher estas diferenças na sua beleza devem ser procuradas em conjunto, sem impor condições de trabalho que levem à necessária exclusão da mulher ou, de novo, a uma corrida sua para imitar modelos masculinos, encurtando a maternidade até já não a querendo nem desejando. Se este desafio não for enfrentado em conjunto, perdemos todos, continuando a constatar um inverno demográfico e uma pobreza social cada vez mais insustentável. Para encontrar novas soluções para a construção de uma comunidade profundamente humana, é importante que o homem e a mulher possam compreender, por exemplo, como partilhar o peso da vida familiar, como construir redes de ajuda externas (familiares, babysitters) para gerir o stresse quotidiano. Também o mundo do trabalho e a sociedade em sentido amplo devem ser envolvidos no apoio à tarefa familiar, com decisões e políticas orientadas para permitir e valorizar a presença do masculino e do feminino.

Hoje sou chamada a viver este tempo continuando a estudar, a experimentar e a compreender como viver a beleza desta complementaridade, e a mensagem de São Josemaria ajuda-me a compreender a importância do contributo que posso dar no âmbito público, político e cultural: «A mulher é chamada a levar à família, à sociedade civil, à Igreja, alguma coisa de característico, que lhe é próprio e que só ela pode dar: a sua delicada ternura a sua generosidade incansável, o seu amor ao concreto, a sua agudeza de engenho, a sua capacidade de intuição, a sua piedade profunda e simples, a sua tenacidade»[2]. A mulher, para São Josemaria, tem uma missão própria, tão importante como a do homem: deve ser o fundamento da família, o guia espiritual, e levar os valores cristãos ao mundo do trabalho e da sociedade.

A mim e a ti, que estás a ler, é confiada a aventura de o tentar, amparados pela graça de Deus, nosso Pai.


[1] São Josemaria, Entrevistas a São Josemaria, n. 14.

[2] Ibid., n. 87.

Benedetta Albertazzi