A riqueza dos escritos de São Josemaria, a profundidade das palavras que nos deixou através dos seus ensinamentos, continuam a dar uma resposta atual e concreta à procura de sentido e de plenitude na vida matrimonial e familiar contemporânea. Algumas das suas reflexões soam hoje como verdadeira profecia: torna-se evidente a clarividência com que abordou questões de enorme importância para os casais, fazendo com que a sua mensagem permaneça sempre viva, porque iluminada pela verdade.
O matrimónio, Sacramentum magnum
No que diz respeito ao amor conjugal, a verdade antropológica e salvífica do matrimónio encontra o seu fundamento no Sacramentum magnum, isto é, no grande mistério da salvação, cuja plenitude se revela na união de Cristo com a Igreja. O matrimónio, já presente na criação, enquanto sacramento, vem «cumprir o originário»[1], isto é, a união entre o homem e a mulher que, pela graça sacramental, se torna ícone do amor trinitário: comunhão eterna e perfeita de amor entre o Amante (o Pai), o Amado (o Filho) e o Amor (o Espírito Santo), que une os dois e nos é comunicado como fogo que aquece, abraço que consola e luz que ilumina. No grande sacramento de Cristo e da Igreja, os esposos cristãos descobrem o fundamento e o cumprimento da sua vocação e de toda a sua vida matrimonial.
O matrimónio como caminho para o Céu
São Josemaria começou a falar de tudo isto há um século e, já então, as suas palavras pareciam ousadas: «Ris-te porque te digo que tens “vocação matrimonial”? Pois é verdade: assim mesmo, vocação»[2]. Na mentalidade da época, como ainda hoje acontece muitas vezes, “ter vocação” significava deixar a vida comum para servir Deus e a Igreja. O chamamento divino identificava-se quase exclusivamente com a vida sacerdotal ou religiosa, abandonando aquilo que é habitual, como a família, o trabalho e a vida quotidiana. São Josemaria revolucionou este conceito, sublinhando que também a vida matrimonial, com o seu quotidiano cheio de responsabilidades, é uma verdadeira vocação divina e um caminho de santidade. «O caminho para o Céu, para ti, tem o nome da tua mulher; ou para a mulher, o do teu marido», recordava São Josemaria aos casais, exprimindo de forma simples a profundidade do seu ensinamento: a santidade não exige feitos extraordinários, mas dedicação fiel aos deveres de cada dia, entre os quais o amor recíproco, a paciência, o cuidado do cônjuge e da família, a entrega total. Amar o cônjuge é a forma e a medida do amor a Deus; é a substância do “mandamento novo”: ir ao encontro do outro para caminhar para o Alto.
Um amor a personalizar
«De longe – além, no horizonte – parece que o céu se une à terra. Não te esqueças de que, na realidade, onde a Terra e o Céu se unem é no teu coração de filho de Deus»[3]. A metáfora do coração, imagem tão comum entre os apaixonados, era especialmente querida a São Josemaria e permitiu-lhe transmitir toda a beleza e autenticidade da sua mensagem. «O que é preciso para conseguir a felicidade não é uma vida cómoda, mas um coração enamorado», recorda-nos o ponto 795 de Sulco, que abre precisamente o capítulo dedicado ao “Coração”. O verdadeiro amor conjugal é aquele que sabe integrar o coração e a vontade, orientando emoções e sentimentos para a pessoa amada; é aquele que sabe tornar o amor pessoal, envolvendo todas as dimensões da personalidade, chegando mesmo a «amar também os defeitos do cônjuge». Fidelidade, exclusividade, eternidade tornam-se, assim, características do amor esponsal, caminho de santidade que conduz à felicidade. Na vida de todos os dias, isto implica a coragem de construir o “para sempre” dia após dia, renovando diariamente as promessas; “dizer sim” não apenas uma vez para sempre – o que, sobretudo nos momentos difíceis, poderia soar como uma condenação sem apelo –, mas todos os dias, num caminho que se constrói instante após instante, dificuldade após dificuldade, alegria após alegria, tornando-se, precisamente por isso, eterno.
“Para sempre” e liberdade
O “para sempre” é possível e realizável porque nasce de uma escolha livre e consciente. Numa época em que somos vistos sobretudo como consumidores, em que tudo parece destinado a ser usado e consumido, a palavra “eternidade” tornou-se cada vez mais escandalosa. No matrimónio, porém, através do amor conjugal e da alegria do dom, sustentados pela graça sacramental, podemos viver a eternidade não como uma condição vazia e intemporal, mas como um tempo que, renovado todos os dias e por isso nunca esgotado, conduz à plenitude da vida. «Pobre conceito tem do matrimónio, que é um sacramento, um ideal e uma vocação, quem pensa que o amor acaba quando começam as penas e os contratempos, que a vida traz sempre consigo. É precisamente então que o carinho se fortalece»[4]. São Josemaria, que tinha um alto conceito da liberdade, convida-nos a olhar para o matrimónio não como uma condição claustrofóbica, nem para o vínculo conjugal como uma corrente que limita e sufoca a liberdade, mas como uma escolha autêntica que liberta a própria liberdade, dando-lhe sentido e significado.
O amor como escolha
«Repito insistentemente aos que Deus chamou a formar uma família que se amem sempre; que se amem com o mesmo amor apaixonado dos tempos de namoro», dizia afetuosamente São Josemaria, desfazendo o lugar-comum segundo o qual o casamento seria «o túmulo do amor».
Como também demonstram diversos estudos, o enamoramento pode, se assim o quisermos, tornar-se uma realidade permanente, alimentada pelos pequenos gestos de cada dia e pela disponibilidade constante para dar e perdoar. O amor para sempre não é uma ilusão nem uma esperança ingénua; é uma escolha, o fiat quotidiano dos esposos. Um “sim” feito de cuidado e atenção, de eros e agape[5], de um amor verdadeiro que deve ser cultivado como o bem mais precioso da vida dos esposos e dos filhos, porque não existe herança maior que os pais possam deixar aos filhos do que o amor verdadeiro que vivem um pelo outro. Amar assim o marido ou a mulher significa corresponder ao sonho de Deus, sonhar com Ele e acolher, com liberdade e alegria, a vocação à santidade na vida conjugal, como caminho de crescimento contínuo.
Que vês quando olhas para o teu cônjuge?
Quando São Josemaria encontrava casais e famílias, costumava desejar-lhes que fossem «lares luminosos e alegres». São palavras que evocam o convite de Jesus a ser «a luz do mundo» e recordam a promessa: «Digo-vos isto para que a minha alegria esteja em vós e o vosso gozo seja completo» (Jo 15, 11). A alegria do casal e da família tem profundas raízes sobrenaturais. É um dom de Deus que não desaparece, mesmo perante a dor ou as contrariedades. Ao longo dos anos, muitas palavras foram sendo manipuladas ao ponto de perderem o seu verdadeiro significado; entre elas, a palavra “matrimónio”. Na atual crise do humano, que abalou a sociedade e na qual princípios e valores parecem dissolver-se, São Josemaria não se limita a fazer um diagnóstico; preocupa-se sobretudo em indicar o remédio. Quando afirmava que «estas crises mundiais são crises de santos», queria dizer que cada cristão pode contribuir para transformar o mundo, a partir da sua própria condição de vida, sendo contemplativo no meio do mundo. No casamento, isto significa, antes de mais, reconhecer o rosto de Cristo no marido e na mulher; olhar para o outro como Deus olha, amá-lo e amá-la como Deus ama. Não se trata de raciocínios abstratos, mas de vida vivida, como vimos; por isso, mais do que discutir a validade ou a duração, como se a relação conjugal tivesse inevitavelmente uma data de validade, importa re-afirmar a verdade: a verdade inscrita por Deus no coração de cada um, para reencontrar o sentido de uma humanidade autenticamente humana.
[1] Joseph. Ratzinger, Per una teologia del matrimonio, Marcianum Press, 2018, p.16.
[2] São Josemaria, Caminho, n. 27.
[3] São Josemaria, Sulco, n. 309.
[4] Salvador Bernal, Mons. Josemaria Escrivá de Balaguer. Apontamentos sobre a vida do fundador do Opus Dei, Aster, Lisboa 1978, p. 54.
[5] Cf. Bento XVI, Deus caritas est.

