"Esquecemos que os jovens não são o futuro, são o presente"

Inés San Martín (Argentina, 1986) foi correspondente no Vaticano e trabalha no site Crux, um portal especializado em notícias da Igreja Católica.

Opus Dei - "Esquecemos que os jovens não são o futuro, são o presente"

1. Qual é a novidade deste Sínodo?

Creio que é o facto de, pela primeira vez em muito tempo, a Igreja estar a falar não só dos jovens e aos jovens, mas com os jovens. Quer realmente entrar em diálogo para tentar entender de que necessitam e, ao mesmo tempo, o que podem dar. Porque muitas vezes esquecemos que os jovens não são o futuro, são o presente.

2. Os Sínodos influem realmente na vida da Igreja?

São um instrumento que tem potencial para a mudança, mas, por diferentes motivos, nem sempre é assim. Por vezes são muito aborrecidos e não se lhes presta atenção, por exemplo, o Sínodo para as Américas despertou a atenção de muito pouca gente, apesar de ser relevante. E também se verifica que, quando se trata de temas de interesse, as conclusões costumam reduzir-se a duas ou três questões pontuais, que afetam uma parte muito pequena da Igreja. E este é um problema que nasce na imprensa – ou de que é muito fácil acusar a imprensa - mas nós somos os únicos culpados.

Aconteceu-me que, ao entrevistar um bispo, sem lhe ter feito nenhuma pergunta, reduziu o Sínodo da Família à questão dos divorciados que voltaram a casar; quando na realidade o tema é mais profundo e mais importante.

3. Este dos jovens é um Sínodo normal, mas tem algo de especial?

Sim. A mim chamou-me muito a atenção, de modo positivo, esta tentativa do Santo Padre e do Vaticano de dialogar com os jovens no mês de março. Já no Sínodo da Família, se fizeram muitos questionários mas desta vez levaram os jovens a Roma e manteve-se um diálogo com eles através do Facebook. Portanto, embora sejam os Bispos a falar entre eles - como diz o nome do encontro, “Sínodo de Bispos” - os principais participantes, os jovens, desta vez, foram ouvidos em direto.

4. O Papa preocupa-se com a excessiva intermediação da informação que lhe chega?

Efetivamente, também tenho a impressão de que esta é uma preocupação do Papa. Por este motivo, se está a fazer um esforço muito evidente para que sejam realmente os jovens a falar e que a mensagem venha diretamente deles; não através de intermediários, não através do bispo, sem que eles sejam os protagonistas.

5. Como foi o diálogo durante o encontro pré-sinodal?

Creio que foi um diálogo muito rico, muito honesto. Como sempre, não falta quem diga que no documento final a sua voz foi excluída… Há coisas que não se vão poder realizar porque, como eles próprios dizem, alguns não entendem ou não aceitam os ensinamentos da Igreja, mas parece-me foi essencial terem-no reconhecido.

6. A que pensa que isso se deve?

Há poucas mensagens mais importantes, que cheguem melhor ao coração das pessoas do que a da Igreja, que obviamente não é nossa mas de Cristo. Contudo, há uma falha comunicativa muito grande. Um especialista em marketing costuma dizer: “a Igreja não sabe como “marketizar” a mensagem”. Creio que com este pré-sínodo a Igreja teve uma oportunidade única de ouvir como chegar melhor às pessoas.

7. A Igreja preocupa-se com o facto de estar desligada da situação real dos jovens de hoje?

Sim, creio que a Igreja tem consciência de que, hoje em dia, está desligada… ou que bastantes jovens estão desligados dela. Mas não sei se realmente está consciente da sua responsabilidade nesta desconexão. Porque muitas vezes ouvimos falar do aumento da secularização, do auge de diversas correntes modernas que fazem com que as pessoas se afastem da Igreja, mas a Igreja não reconhece que também tem de fazer um mea culpa. Hoje em dia, havendo tanta competição pela atenção das pessoas, não podemos ficar sentados à espera de que as pessoas venham, porque não vêm. A menos que se seja S. Pedro, as pessoas não vêm. Daí a insistência do Papa no que chama “uma Igreja em saída”.

8. O Sínodo também vai abordar a questão do discernimento vocacional. Por quê? A Igreja tem crise de vocações?

Estatisticamente sim, há uma crise de vocações mas parece-me que a profundidade dessa crise varia muito, dependendo do continente de que falamos. Também penso que a Igreja está a falhar na comunicação com a família. Quando falamos de falta de vocações esquecemo-nos do chamamento a ser pais, a ser esposos, que é a vocação central na Igreja, creio eu. Na minha opinião, mais importante do que a vocação para o sacerdócio, porque é da família que saem os sacerdotes.

9. A quem se dirigem as conclusões do Sínodo?

O Sínodo tem diferentes interlocutores. Por um lado, os Bispos e a hierarquia, que têm de retransmitir essa mensagem, mas também de a interiorizar e aplicar a nível local. Obviamente, os outros interlocutores são os jovens, porque este é um apelo que a Igreja está a fazer para que se envolvam. Não esqueçamos que quando falamos de Igreja não falamos de Bispos e sacerdotes mas principalmente dos leigos, porque temos só 400 000 sacerdotes e 1200 milhões de católicos.

10. Como chegar aos jovens que não procuram a Igreja, que talvez nem sequer tenham ouvido dizer que há um Sínodo?

Há muita gente que vai à Igreja, muita gente que vai à Missa e a quem talvez não interesse o Sínodo nem saiba que o Papa convocou os Bispos para falar do tema. Por isso, os sacerdotes têm um papel muito importante na homilia: falar deste tema, convidar e convocar os jovens…

E os leigos têm um papel um papel muito importante para se mobilizarem e, como diz o Papa Francisco, “estabelecer ligação”. Serem eles a impulsionar a pastoral juvenil, a pastoral universitária… não ficarem sentados à espera de que um sacerdote os convoque, mas antes serem eles a convidar um sacerdote.

Este seria um elemento importante em que todos falamos: falam os Bispos, muitas vezes até o Papa e falam os leigos, que não se apercebem de que os responsáveis da mudança, da mobilização, têm de ser os próprios protagonistas.