"Se um jovem é capaz de seguir um instagramer ou um youtuber, por que não será capaz de seguir Cristo? "

Carlos Santana (Granada 1995) trabalha na Direção de comunicação nos Agostinianos Recoletos

Opus Dei - "Se um jovem é capaz de seguir um instagramer ou um youtuber, por que não será capaz de seguir Cristo? "

1. Existe uma desconexão entre a mensagem do Evangelho e os jovens?

Existe, tanto entre a mensagem do Evangelho e os jovens, como entre a Igreja e os jovens, mas não creio que seja um problema de conteúdo. A mensagem do Evangelho é actual e muito juvenil. Como diz o jornalista Juan Vicente Boo, “é muito twitteiro”.

2. Então, qual é o problema?

Na minha opinião, não temos sabido explicá-lo bem nem adaptá-lo à linguagem e às mensagens recorrentes de que necessitam os jovens. Mas o importante é que ainda estamos a tempo, porque Deus também é jovem: nasce e ressuscita todos os anos e os seus valores são aqueles de que a juventude precisa e está a pedir.

3. Pessoalmente, que esperas deste Sínodo?

Toda a Igreja, e especialmente os jovens, têm muita esperança nele, em que saiam propostas e ideias para pensar na juventude de outra maneira, de dentro da Igreja. Algo falha quando estamos habituados a ver pessoas idosas na Missa e, contudo, estranhamos quando encontramos uma pessoa nova. O Papa Francisco dizia recentemente, “sem os jovens, a Santa Madre Igreja converte-se na Santa Avó Igreja” e, na minha opinião, estão a ser colocadas muitas pedras para construir o grande edifício que pode surgir depois do Sínodo.

4. A partir da instituição dos Agostinianos Recoletos, estão a fazer algo especial para o preparar?

A ordem está a celebrar neste ano de 2018 o “Ano Vocacional” e o Sínodo entra dentro dele. Em todos os países onde a obra está presente estamos a realizar a “expedição vocacional”, um modo de dar a conhecer o carisma dos Agostinianos Recoletos aos jovens, chamando-os a discernir a sua vocação com um sentido amplo, como nos está a pedir o Papa. O ponto mais alto deste projecto será a JMJ do Panamá, em janeiro de 2019.

5. Encarregas-te da comunicação de uma instituição da Igreja, como pensas que estas devem agir para que as conclusões deste Sínodo falem internamente a todos os níveis?

Temos de esperar para ver as conclusões, o que dizem os Bispos e o documento que o Papa publicará a posteriori. Porém, para além disto, creio que o grande desafio que as instituições da Igreja têm é essa adaptação da mensagem do Evangelho aos jovens de hoje em dia: adaptá-la ao Twitter, ao Instagram, ao Facebook… e mostrar-lhes os frutos do Sínodo através dessas plataformas.

6. O facto de a maioria dos pastores da Igreja serem pessoas idosas dificulta a sua conexão com os jovens…

Sim, é um problema, mas também tem uma parte positiva. As vocações jovens, que estão a aparecer, são testemunhos que causam um grande impacto dentro de um panorama em que a maioria vive no seu mundo e diz não ter nada a ver com Deus. Que no meio disto apareça alguém - no nosso caso, vestido de frade - e nos conte como conheceu Deus e como decidiu segui-Lo, chega muito mais ao coração do que se houvesse muitas vocações e toda a gente falasse.

7. O documento da reunião pré-sinodal dizia “é necessário que a Igreja reflita sobre o seu conceito quanto aos jovens e ao modo de interagir com eles, para ser um guia que seja efetivo, relevante e dador de vida”. Achas que é uma questão de tecnologia, de discurso, de reputação devido a algumas crises…?

Mais do que tudo isso – que, evidentemente, não tem ajudado – penso que o problema é que, durante muitos anos, não se contou com os jovens. Também porque os jovens tinham menos presença na sociedade, mas hoje em dia há rapazes e raparigas muito bem preparados, que estão a fazer coisas importantes em todo o mundo. Contudo, na Igreja não os procurámos. Pensávamos que vinham por eles, e não foi assim. Tudo isto nos levou ao atual ambiente, onde há tanta gente que vive sem querer saber nada de Deus. Para a Igreja, este Sínodo é uma oportunidade de aproximação.

8. Diz também que “os jovens procuram fiéis que os acompanhem”, algo a que as instituições da Igreja deveriam dar resposta. Como podemos fazê-lo melhor?

Talvez tenhamos que melhorar a imagem que damos de Deus e da fé. Muitas pessoas pensam que ser cristão significa cumprir umas normas: Ir à Missa todos os domingos, confessar-se… mas, pelo contrário, quando os jovens descobrem Deus, passam a ir à Missa porque vão sentir a necessidade de o fazer. Temos de mostrar a cada pessoa um Cristo próximo, que a ama, que morreu na cruz por ela e, ao mesmo tempo, é capaz de perdoar sempre, faça o que fizer.

9. Depois de umas gerações em que a fé foi enfraquecendo lentamente, quais pensas serem as maiores dificuldades da juventude actual para se encontrar com Deus?

Os jovens de hoje são “vítimas” de uma sociedade individualista (que pensa em si própria, no seu telemóvel…) e bastante distanciada dos outros. De um modo geral, há um grande desconhecimento sobre o que é o amor e também sobre certos valores cristãos, como o perdão e a reflexão. Agora vive-se a correr, sem pensar muito.

10. E, quanto a outras gerações, que mais lhes pode facilitar o encontro com Cristo?

A esperança e a paixão que sentem por tudo. O que lhes agrada, seguem-no com muita força. Se um jovem é capaz de seguir um instagramer ou um youtuber, por que não será capaz de seguir Cristo?