Ao longo da Semana Santa, este artigo será atualizado com as homilias e os vídeos do Papa Leão XIV de cada dia:
- Domingo de Ramos
- Quinta-feira Santa (Missa Crismal)
- Quinta-feira Santa (Ceia do Senhor)
- Sexta-feira Santa - Via Sacra / Vídeos
- Sábado Santo - Vigília Pascal
- Domingo de Páscoa / Bênção Urbi et Orbi.
Neste artigo pode seguir em direto as celebrações do Santo Padre na Cidade do Vaticano.
Homilia - Domingo de Ramos, Praça de São Pedro - 29 de março
Queridos irmãos e irmãs,
Enquanto Jesus percorre o caminho da cruz, coloquemo-nos atrás d’Ele, sigamos os seus passos. E, caminhando com Ele, contemplemos a sua paixão pela humanidade, o seu coração que se parte, a sua vida que se torna dom de amor.
Olhemos para Jesus, que se apresenta como Rei da paz, enquanto à sua volta se prepara a guerra. Ele, que permanece firme na mansidão, enquanto os outros se agitam na violência. Ele, que se oferece como uma carícia para a humanidade, enquanto outros empunham espadas e paus. Ele, que é a luz do mundo, enquanto as trevas estão prestes a cobrir a terra. Ele, que veio trazer a vida, enquanto se cumpre o plano para o condenar à morte.
Como Rei da paz, Jesus quer reconciliar o mundo no abraço do Pai e derrubar todos os muros que nos separam de Deus e do próximo, porque «Ele é a nossa paz» (Ef 2, 14).
Como Rei da paz, entra em Jerusalém montado num jumento, não num cavalo, cumprindo a antiga profecia que convidava a exultar pela chegada do Messias: «Eis que o teu rei vem a ti; / Ele é justo e vitorioso; / vem, humilde, montado num jumento, / sobre um jumentinho, filho de uma jumenta. / Ele exterminará os carros de guerra da terra de Efraim / e os cavalos de Jerusalém; / o arco de guerra será quebrado. / Proclamará a paz para as nações» (Zc 9, 9-10).
Como Rei da paz, quando um dos seus discípulos desembainha a espada para o defender e fere o servo do sumo sacerdote, imediatamente Ele o detém, dizendo: «Mete a tua espada na bainha, pois todos quantos se servirem da espada morrerão à espada» (Mt 26, 52).
Como Rei da paz, enquanto era carregado com os nossos sofrimentos e traspassado pelas nossas culpas, Ele «não abriu a boca,
como um cordeiro que é levado ao matadouro, ou como uma ovelha emudecida nas mãos do tosquiador» (Is 53, 7). Não se armou, nem se defendeu, nem travou nenhuma guerra. Manifestou o rosto manso de Deus, que sempre rejeita a violência, e, em vez de se salvar a si mesmo, deixou-se cravar na cruz, para abraçar todas as cruzes erguidas em cada tempo e lugar da história da humanidade.
Irmãos, irmãs, este é o nosso Deus: Jesus, Rei da paz. Um Deus que rejeita a guerra; que ninguém pode usar para justificar a guerra; que não escuta mas rejeita a oração de quem faz a guerra, dizendo: «Podeis multiplicar as vossas preces, que Eu não as atendo. É que as vossas mãos estão cheias de sangue» (Is 1, 15).
Olhando para Ele, que foi crucificado por nós, vemos os crucificados da humanidade. Nas suas chagas vemos as feridas de tantas mulheres e homens de hoje. No seu último grito dirigido ao Pai ouvimos o choro de quem se encontra abatido, sem esperança, doente, sozinho. E, sobretudo, ouvimos o gemido de dor de todos aqueles que são oprimidos pela violência e de todas as vítimas da guerra.
Da sua cruz, Cristo, Rei da paz, ainda clama: Deus é amor! Tende piedade! Deponde as armas, lembrai-vos de que sois irmãos!
Com as palavras do Servo de Deus, o bispo Tonino Bello, gostaria de confiar este clamor à Maria Santíssima, que está ao pé da cruz do Filho e chora também aos pés dos crucificados de hoje:
«Santa Maria, mulher do terceiro dia, dá-nos a certeza de que, apesar de tudo, a morte já não terá mais poder sobre nós. Que os dias das injustiças dos povos estão contados. Que os clarões das guerras se estão a reduzir a luzes crepusculares. Que os sofrimentos dos pobres chegaram aos seus últimos suspiros. […] E que, finalmente, as lágrimas de todas as vítimas da violência e da dor em breve secarão, como a geada ao sol da primavera» (Maria, mulher de nossos dias).
Homilia da Missa Crismal - Quinta-feira Santa - 2 de abril
Queridos irmãos e irmãs,
Estamos já às portas do Tríduo Pascal. O Senhor conduzir-nos-á, mais uma vez, ao ápice da sua missão, para que a sua paixão, morte e ressurreição se tornem o centro da nossa missão. Efetivamente, o que estamos prestes a reviver tem em si a força de transformar aquilo que o orgulho humano tende geralmente a endurecer: a nossa identidade, o nosso lugar no mundo. A liberdade de Jesus muda o coração, cura as feridas, perfuma e faz brilhar os nossos rostos, reconcilia e reúne, perdoa e ressuscita.
Neste primeiro ano em que presido à Missa Crismal como Bispo de Roma, desejo refletir convosco sobre a missão à qual Deus nos consagra como seu povo. É a missão cristã, a mesma de Jesus, e não outra. Cada um participa nela de acordo com a sua vocação e com uma obediência muito pessoal à voz do Espírito, mas nunca sem os outros, nunca negligenciando ou rompendo a comunhão! Bispos e presbíteros, ao renovarmos as nossas promessas, estamos ao serviço de um povo missionário. Somos, com todos os batizados, o Corpo de Cristo, ungidos pelo seu Espírito de liberdade e consolação, Espírito de profecia e unidade.
O que Jesus vive nos momentos culminantes da sua missão é antecipado pelo oráculo de Isaías, por Ele referido na sinagoga de Nazaré como a Palavra que «hoje» se cumpre (cf. Lc 4, 21). Com efeito, na hora da Páscoa, torna-se definitivamente claro que Deus consagra para enviar: «Enviou-me» (Lc 4, 18), diz Jesus, descrevendo aquele movimento que une o seu Corpo aos pobres, aos prisioneiros, àqueles que caminham às cegas na escuridão e àqueles que se encontram oprimidos. E nós, membros do seu Corpo, chamamos “apostólica” a uma Igreja que foi enviada, impulsionada para além de si mesma, consagrada a Deus no serviço das suas criaturas: «A paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós» (Jo 20, 21).
Sabemos que ser enviado implica, em primeiro lugar, um desapego, ou seja, o risco de deixar o que é seguro e familiar para se aventurar no novo. É interessante que Jesus, «impelido pelo Espírito» (Lc 4, 14) que desceu sobre Ele após o batismo no Jordão, regresse à Galileia e vá «a Nazaré, onde tinha sido criado» (Lc 4, 16). É o lugar que agora deve deixar. Ele move-se «segundo o seu costume» (v. 16), mas para inaugurar um tempo novo. Terá agora de partir definitivamente daquela aldeia, para que amadureça o que ali germinou, sábado após sábado, na escuta fiel da Palavra de Deus. Da mesma forma, chamará outros a partir, a arriscar, para que nenhum lugar se torne um recinto; nenhuma identidade, um esconderijo.
Caríssimos, seguimos Jesus, que «não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto, esvaziou-se a si mesmo» (Fl 2, 6-7): toda a missão começa por esse tipo de esvaziamento, no qual tudo renasce. A nossa dignidade de filhos e filhas de Deus não nos pode ser tirada, nem se perder, e nem mesmo os afetos, os lugares e as experiências que estão na origem da nossa vida podem ser apagados. Somos herdeiros de tanto bem e, simultaneamente, das limitações de uma história na qual o Evangelho deve ser portador de luz e salvação, perdão e cura. Assim, não há missão sem reconciliação com as nossas origens, com os dons e as limitações da formação recebida; mas, ao mesmo tempo, não há paz sem partidas, não há consciência sem desapego, não há alegria sem correr riscos. Somos Corpo de Cristo se seguirmos em frente, acertando as contas com o passado sem ficarmos prisioneiros dele: tudo se reencontra e se multiplica se antes se deixar ir, sem medo. É um primeiro segredo da missão. É algo que não se experimenta uma vez só, mas em cada recomeço, em cada novo envio.
O caminho de Jesus revela-nos que a disponibilidade para perder, para se esvaziar, não é um fim em si mesma, mas condição para o encontro e para a intimidade. O amor só é verdadeiro se estiver desarmado – desprovido de muitos empecilhos e sem nenhuma ostentação –, se guarda delicadamente a fraqueza e a nudez. Temos dificuldade em lançar-nos numa missão tão exposta e, no entanto, não há «Boa-nova aos pobres» (Lc 4, 18) se formos ao seu encontro com sinais de poder, nem há libertação autêntica se não nos libertarmos do possuir. Tocamos aqui um segundo segredo da missão cristã. Depois da lei do desapego, vem a lei do encontro. Sabemos que, ao longo da história, a missão foi não poucas vezes pervertida por lógicas de domínio, totalmente estranhas ao caminho de Jesus Cristo. São João Paulo II teve a lucidez e a coragem de reconhecer que «por causa daquele vínculo que nos une uns aos outros dentro do Corpo místico, todos nós, embora não tendo responsabilidade pessoal por isso e sem nos substituirmos ao juízo de Deus – o único que conhece os corações –, carregamos o peso dos erros e culpas de quem nos precedeu»[1].
Consequentemente, é portanto prioritário recordar que o bem não pode advir da prevaricação, nem no âmbito pastoral, nem no âmbito sócio-político. Os grandes missionários são testemunhas de aproximações feitas com delicadeza, cujo método consiste na partilha da vida, no serviço desinteressado, na renúncia a qualquer estratégia calculista, no diálogo, no respeito. É o caminho da encarnação, que assume sempre de novo a forma da inculturação. A salvação, realmente, só pode ser acolhida por cada um na sua língua própria materna: «Que se passa, então, para que cada um de nós os ouça falar na nossa língua materna?» (At 2, 8). A surpresa de Pentecostes repete-se quando não pretendemos dominar os tempos de Deus, mas confiamos no Espírito Santo, que «como no tempo de Jesus e dos Apóstolos, está presente também hoje: está presente e está a agir, chega antes de nós, trabalha mais e melhor do que nós; não nos cabe nem semeá-lo nem despertá-lo, mas, antes de mais, reconhecê-lo, acolhê-lo, cooperar com ele, abrir-lhe caminho, seguir-lhe os passos. Ele está presente e nunca desanimou em relação ao nosso tempo; pelo contrário, sorri, dança, penetra, investe, envolve, chega mesmo onde nunca teríamos imaginado»[2].
Para estabelecer esta sintonia com o invisível, é necessário chegar ao lugar para onde somos enviados com simplicidade, honrando o mistério que cada pessoa e comunidade traz consigo. Somos hóspedes: somo-lo enquanto bispos, sacerdotes, religiosas e religiosos, enquanto cristãos. Na verdade, para acolher temos de aprender a deixar-nos acolher. Mesmo os lugares onde a secularização parece estar mais avançada não são terra de conquista ou reconquista: «Novas culturas continuam a nascer nestas enormes geografias humanas onde o cristão já não costuma ser promotor ou gerador de sentido, mas recebe delas outras linguagens, símbolos, mensagens e paradigmas que oferecem novas orientações de vida, muitas vezes em contraste com o Evangelho de Jesus. […] É necessário chegar onde se formam as novas narrativas e paradigmas, alcançar com a Palavra de Jesus os núcleos mais profundos da alma das cidades»[3]. Isto só acontece se, na Igreja, caminhamos juntos, se a missão não for uma aventura heroica de alguém, mas o testemunho vivo de um Corpo com muitos membros.
Existe ainda uma terceira dimensão – talvez a mais radical – da missão cristã. A dramática possibilidade de incompreensão e de rejeição que se manifesta já na reação violenta dos habitantes de Nazaré à palavra de Jesus: «Ao ouvirem estas palavras, todos, na sinagoga, se encheram de furor. E, erguendo-se, lançaram-no fora da cidade e levaram-no ao cimo do monte sobre o qual a cidade estava edificada, a fim de o precipitarem dali abaixo» (Lc 4, 28-29). Embora a leitura litúrgica tenha omitido esta parte, o que nos preparamos para celebrar a partir desta noite compromete-nos a não fugir, mas a “passar pelo meio” da provação, como Jesus, que, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho (cf. Lc 4, 30). A cruz é parte da missão: o envio torna-se mais amargo e assustador, mas também mais gratuito e perturbador. A ocupação imperialista do mundo é então interrompida a partir de dentro, a violência que até hoje se faz lei é desmascarada. O Messias pobre, prisioneiro, rejeitado, precipita-se na escuridão da morte, mas assim traz à luz uma nova criação.
Quantas ressurreições nos são dadas experimentar quando, livres de uma atitude defensiva, descemos ao serviço como a semente à terra! Na vida, podemos passar por situações em que tudo parece ter chegado ao fim. Perguntamo-nos, então, se a missão terá sido inútil. É verdade: ao contrário de Jesus, vivemos também fracassos que dependem da nossa insuficiência ou da dos outros, muitas vezes de um emaranhado de responsabilidades, luzes e sombras. Mas podemos fazer nossa a esperança de muitos testemunhos. Recordo-me de um, que me é particularmente querido. Um mês antes da sua morte, no caderno dos Exercícios Espirituais, o santo Bispo Óscar Romero anotava assim: «O núncio da Costa Rica alertou-me para um perigo iminente precisamente nesta semana… As circunstâncias imprevistas serão enfrentadas com a graça de Deus. Jesus Cristo ajudou os mártires e, se for necessário, sentirei a sua presença muito próxima quando lhe entregar o meu último suspiro. Todavia, mais do que o último instante de vida, o que conta é entregar-lhe toda a vida e viver para Ele… Basta-me, para ser feliz e confiante, saber com certeza que n’Ele está a minha vida e a minha morte; que, apesar dos meus pecados, n’Ele depositei a minha confiança e não ficarei dececionado, e outros prosseguirão, com mais sabedoria e santidade, o trabalho pela Igreja e pela pátria».
Queridos irmãos e irmãs, os santos escrevem a história. Esta é a mensagem do Apocalipse: «Graça e paz […] da parte de Jesus Cristo, a Testemunha fiel, o Primeiro vencedor da morte e o Soberano dos reis da terra» (Ap 1, 4-5). Esta saudação resume o caminho de Jesus num mundo dividido entre potências que o devastam. No seu seio surge um povo novo, não de vítimas, mas de testemunhas. Nesta hora sombria da história, foi do agrado de Deus enviar-nos para difundir o perfume de Cristo onde reina o odor da morte. Renovemos o nosso “sim” a esta missão que nos exige unidade e que traz a paz. Sim, aqui estamos! Superemos o sentimento de impotência e de medo! Anunciamos a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!
[1] São João Paulo II, Bula de proclamação do Grande Jubileu do ano 2000 “Incarnationis mysterium” (29 de novembro de 1998), 11.
[2] C. M. Martini, Tre racconti dello Spirito, Milano 1997, 11.
[3] Francisco, Exort. Ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 73-74.
Homilia da Missa da Ceia do Senhor - Quinta-feira Santa - 2 de abril
Queridos irmãos e irmãs,
A solene liturgia desta tarde introduz-nos no Santo Tríduo da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. Atravessamos este limiar não como meros espetadores, nem por inércia, mas comprometidos de forma especial pelo próprio Jesus, como convidados para a Ceia em que o pão e o vinho se tornam para nós Sacramento de salvação. Participamos, assim, num banquete durante o qual Cristo, «que amara os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo» (Jo 13, 1): o seu amor torna-se gesto e alimento para todos, revelando a justiça de Deus. No mundo, ali mesmo onde o mal impera, Jesus ama definitivamente, para sempre, com todo o seu ser.
Durante esta Última Ceia, Ele lava os pés aos seus apóstolos, dizendo: «Dei-vos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também» (Jo 13, 15). O gesto do Senhor é parte integrante da refeição para a qual nos convidou. É um exemplo do sacramento: ao mesmo tempo que confirma o seu sentido, confia-nos uma tarefa que queremos tomar como alimento para a nossa vida. Para descrever o evento em que esteve presente, o evangelista João escolhe a palavra grega upódeigma, que significa “aquilo que é mostrado mesmo diante dos olhos”. O que o Senhor nos faz ver, pegando na água, na bacia e na toalha, é muito mais do que um modelo moral. Com efeito, Ele transmite-nos a sua própria forma de vida: lavar os pés é um gesto que sintetiza a revelação de Deus, sinal exemplar do Verbo feito carne, a sua memória inconfundível. Ao assumir a condição de servo, o Filho revela a glória do Pai, derrubando os critérios mundanos que mancham a nossa consciência.
Com a surpresa silenciosa dos seus discípulos, até mesmo o orgulho humano nos faz abrir os olhos para o que está a acontecer: tal como Pedro, que inicialmente resiste à iniciativa de Jesus, também nós devemos «aprender sempre de novo que a grandeza de Deus é diversa da nossa ideia de grandeza, […] porque sistematicamente desejamos um Deus do sucesso e não da Paixão» (Homilia da Missa in coena Domini, 20 de março de 2008). Estas palavras do Papa Bento XVI admitem com lucidez que somos sempre tentados a procurar um Deus que “nos sirva” e nos faça vencer, que seja prestativo como o dinheiro e o poder. Não compreendemos, porém, que Deus nos serve de verdade, sim, mas com o gesto gratuito e humilde de lavar os pés: eis a omnipotência de Deus. Assim se cumpre a vontade de dedicar a vida a quem, sem este dom, não pode existir. Por causa do seu amor, o Senhor ajoelha-se para lavar o homem. E o dom divino transforma-nos.
Com o seu gesto, Jesus purifica a nossa imagem de Deus das idolatrias e blasfémias que a mancharam, mas purifica também a nossa imagem do homem, que se considera poderoso quando domina, que quer vencer matando quem lhe é igual, que se considera grande quando é temido. Verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Cristo dá-nos, pelo contrário, um exemplo de dedicação, serviço e amor. Precisamos do seu exemplo para aprender a amar, não porque sejamos incapazes disso, mas precisamente para nos educarmos a nós próprios, e uns aos outros, no amor verdadeiro. Aprender a agir como Jesus, Sinal que Deus imprime na história do mundo, é tarefa para a vida inteira.
Ele é o critério autêntico, «o Senhor e o Mestre» (Jo 13, 13) que remove todas as máscaras do divino e do humano. O seu exemplo não é dado quando todos estão felizes e o amam, mas na noite em que foi traído, na escuridão da incompreensão e da violência, para que fique bem claro que o Senhor não nos ama porque somos bons e puros: Ele ama-nos e, por isso, nos perdoa e purifica. O Senhor não nos ama se nos deixarmos lavar pela sua misericórdia: Ele ama-nos e, por isso, nos lava, de modo que possamos corresponder ao seu amor.
Aprendamos de Jesus este serviço recíproco. Ele não nos pede, efetivamente, que lho retribuamos, mas que o partilhemos entre nós: «Deveis lavar os pés uns aos outros» (Jo 13, 14). O Papa Francisco comentava assim: isto «é um dever que me vem do coração: amo-o. Amo-o e amo fazê-lo porque o Senhor assim me ensinou» (Homilia da Missa in coena Domini, 28 de março de 2013). Não falava de um imperativo abstrato, de uma ordem formal e vazia, mas expressava o seu fervor obediente pela caridade de Cristo, fonte e exemplo da nossa caridade. O exemplo dado por Jesus não pode, pois, ser imitado por conveniência, de má vontade ou com hipocrisia, mas apenas por amor.
Portanto, deixar-nos servir pelo Senhor é condição para servir como Ele serviu. «Se Eu não te lavar», disse Jesus a Pedro, «nada terás a haver comigo» (Jo 13, 8): se não me acolheres como servo, não podes acreditar em mim e seguir-me como Senhor. Ao lavar a nossa carne, Jesus purifica a nossa alma. N’Ele, Deus deu o exemplo não de como se domina, mas de como se liberta; de como se doa a vida e não de como se a destrói.
Face a uma humanidade de joelhos devido a muitos exemplos de brutalidade, ajoelhemo-nos também nós, como irmãos e irmãs dos oprimidos. É assim que queremos seguir o exemplo do Senhor, concretizando o que ouvimos no livro do Êxodo: «Aquele dia será para vós um memorial» (Ex 12, 14). Sim, toda a história bíblica converge para Jesus, o verdadeiro Cordeiro pascal. Graças a Ele, as figuras antigas encontram o seu pleno significado, pois o Cristo Salvador celebra a Páscoa da humanidade, abrindo para todos a passagem do pecado ao perdão, da morte à vida eterna: «Isto é o meu corpo, que é para vós; fazei isto em memória de mim» (1Cor 11, 24).
Ao renovarmos, precisamente nesta tarde, os gestos e as palavras do Senhor, fazemos memória da instituição da Eucaristia e da Sagrada Ordem. O vínculo intrínseco entre os dois Sacramentos representa a entrega perfeita de Jesus, Sumo Sacerdote e Eucaristia viva por toda a eternidade: no pão e no vinho consagrados está, realmente, o «Sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é concedido o penhor da glória futura» (Const. dogm. Sacrosanctum Concilium, 47). Nos bispos e nos presbíteros, constituídos «sacerdotes da Nova Aliança» segundo o mandamento do Senhor (Concílio de Trento, De Missae Sacrificio, 1), está o sinal da sua caridade para com todo o Povo de Deus, a quem nós, amados irmãos, somos chamados a servir com todo o nosso ser.
A Quinta-feira Santa é, portanto, um dia de fervorosa gratidão e de autêntica fraternidade. Que a adoração eucarística desta noite, em todas as paróquias e comunidades, seja um momento para contemplar o gesto de Jesus, ajoelhando-nos como Ele fez e pedindo-Lhe a força para, com o mesmo amor, O imitarmos no serviço.
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Sábado Santo - Vigília Pascal
«Esta noite santa […] derruba os poderosos, dissipa os ódios, estabelece a concórdia e a paz» (Precónio Pascal).
Assim, queridos irmãos e irmãs, no início desta celebração, o diácono exaltou a luz de Cristo Ressuscitado, simbolizada no Círio Pascal. A partir deste único Círio, todos acendemos as nossas velas e, cada um levando uma pequena chama tirada do mesmo fogo, iluminámos esta grande basílica. É o sinal da luz pascal, que nos une na Igreja como lâmpadas para o mundo. À proclamação do diácono respondemos “amém”, afirmando o nosso compromisso de abraçar esta missão, e dentro de pouco repetiremos o nosso “sim”, renovando as Promessas Batismais.
Caríssimos, esta é uma Vigília repleta de luz, a mais antiga da tradição cristã, conhecida como «a mãe de todas as vigílias». Nela revivemos o memorial da vitória do Senhor da vida sobre a morte e sobre os infernos. Fazemo-lo depois de ter percorrido, nos últimos dias, como numa única grande celebração, os mistérios da Paixão do Deus que por nós se fez «alguém cheio de dores» (Is 53, 3), «menosprezado e desconsiderado» (ibid.), torturado e crucificado.
Existe caridade maior? Existe gratuidade mais completa? O Ressuscitado é o próprio Criador do universo que, tal como nos primórdios da história nos deu a existência a partir do nada, assim também na cruz, para nos mostrar o seu amor sem limites, nos deu a vida.
Recordou-no-lo a primeira leitura, com o relato das origens. No princípio, Deus criou os céus e a terra (cf. Gn 1, 1), tirando do caos o cosmos, da desordem a harmonia, e confiando a todos nós, criados à sua imagem e semelhança, a tarefa de sermos seus guardiões. E mesmo quando, com o pecado, o homem não correspondeu a este projeto, o Senhor não o abandonou, mas revelou-lhe, de forma ainda mais surpreendente, no perdão, o seu rosto misericordioso.
«Esta noite santa» tem, portanto, as suas raízes também ali onde se consumou o primeiro fracasso da humanidade, e estende-se ao longo dos séculos como um caminho de reconciliação e de graça.
A liturgia propôs-nos algumas etapas desse caminho através dos textos sagrados que acabámos de escutar. Recordou-nos como Deus segurou a mão de Abraão, prestes a sacrificar o seu filho Isaac, para nos indicar que não deseja a nossa morte, mas antes que nos consagremos a ser, nas suas mãos, membros vivos de uma descendência de gente salva (cf. Gn 22, 11-12.15-18). Da mesma forma, convidou-nos a refletir sobre como o Senhor libertou os israelitas da escravidão do Egito, fazendo do mar – lugar de morte e obstáculo intransponível – a porta de entrada para o início de uma vida nova e livre. A mesma mensagem ressoou como um eco nas palavras dos Profetas, nas quais ouvimos os louvores do Senhor como esposo que chama e une a si (cf. Is 54, 5-7), fonte que mata a sede, água que fecunda (cf. Is 55, 1.10), luz que mostra o caminho da paz (cf. Br 3, 14), Espírito que transforma e renova os corações (Ez 36, 26).
Em todos estes momentos da história da salvação, vimos como Deus, face à dureza do pecado que divide e mata, responde com o poder do amor que une e restitui a vida. Recordámo-los juntos, intercalando a narrativa com salmos e orações, para lembrarmos que, pela Páscoa de Cristo, «sepultados com Ele na morte […] também nós caminhemos numa vida nova […] mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus» (Rm 6, 4-11), consagrados no Batismo ao amor do Pai, unidos na comunhão dos santos, tornados, pela graça, pedras vivas para a construção do seu Reino (cf. 1Pd 2, 4-5)
É nesta perspetiva que lemos o relato da Ressurreição, que acabámos de ouvir no Evangelho segundo São Mateus. Na manhã de Páscoa, as mulheres, vencendo a dor e o medo, puseram-se a caminho. Queriam ir ao túmulo de Jesus! Esperavam encontrá-lo selado, com uma grande pedra à entrada e soldados a guardá-lo. Isto é o pecado: uma barreira pesadíssima que nos fecha e nos separa de Deus, tentando fazer morrer em nós as Suas Palavras de esperança. Maria Madalena e a outra Maria, porém, não se deixaram intimidar. Foram ao sepulcro e, graças à sua fé e ao seu amor, foram as primeiras testemunhas da Ressurreição. No terramoto e no anjo, sentado sobre a pedra derrubada, viram o poder do amor de Deus, mais forte do que qualquer força do mal, capaz de “dissipar os ódios” e “derrubar os poderosos”. O homem pode matar o corpo, mas a vida do Deus do amor é vida eterna, que vai além da morte e que nenhum túmulo pode aprisionar. Assim, o Crucificado reinou a partir da cruz, o anjo sentou-se sobre a pedra e Jesus apresentou-se diante delas vivo, dizendo: «Salve!» (Mt 28, 9).
Hoje, caríssimos, é esta também a nossa mensagem ao mundo, o encontro que queremos testemunhar, com as palavras da fé e com as obras da caridade, cantando com a vida o “Aleluia” que proclamamos com os lábios (cf. Santo Agostinho, Sermão 256, 1). Tal como as mulheres, que correram a levar o anúncio aos irmãos, também nós queremos partir, esta noite, desta Basílica, para levar a todos a boa nova de que Jesus ressuscitou e de que, com a sua força, ressuscitados com Ele, também nós podemos dar vida a um mundo novo, de paz, de unidade, enquanto «multidão de homens e, ao mesmo tempo, […] um único homem, pois, embora os cristãos sejam muitos, Cristo é um só» (Santo Agostinho, Enarrationes in Psalmos, 127,3).
A esta missão se consagram os irmãos e irmãs aqui presentes, provenientes de várias partes do mundo, que daqui a pouco receberão o Batismo. Após o longo caminho do catecumenato, renascem hoje em Cristo para ser nova criação (cf. 2Cor 5, 17), testemunhas do Evangelho. A eles e a todos, repetimos o que Santo Agostinho dizia aos cristãos do seu tempo: «Anunciai Cristo, semeai […], espalhai por toda a parte o que concebestes no vosso coração» (Sermão 116, 23-24).
Irmãs, irmãos, também nos nossos dias não faltam sepulcros para abrir, e muitas vezes as pedras que os fecham são tão pesadas e tão bem vigiadas que parecem inamovíveis. Algumas oprimem o coração do homem, como a desconfiança, o medo, o egoísmo, o rancor; outras, consequência daquelas que se encontram no interior, destroem os vínculos entre nós, como é o caso da guerra, da injustiça, do fechamento entre povos e nações. Não nos deixemos paralisar por elas! Muitos homens e mulheres, ao longo dos séculos, com a ajuda de Deus, removeram-nas, talvez com grande esforço e por vezes à custa da própria vida, mas com frutos de bem dos quais ainda hoje beneficiamos. Não se trata de personagens inacessíveis, mas de pessoas como nós que, fortalecidas pela graça do Ressuscitado, na caridade e na verdade, tiveram a coragem de falar, como diz o Apóstolo Pedro, «para transmitir palavras de Deus» (1Pd 4, 11) e de agir «com a força que Deus lhe concede, para que em todas as coisas Deus seja glorificado» (ibid.).
Deixemo-nos inspirar pelo seu exemplo e, nesta Noite Santa, façamos nosso o seu empenho, para que, em todo o lado e sempre, cresçam e floresçam no mundo os dons pascais da concórdia e da paz.
Domingo de Páscoa - homilia na Praça de São Pedro
Queridos irmãos e irmãs,
Hoje, toda a criação resplandece com uma nova luz; da terra se eleva um cântico de louvor; o nosso coração exulta de alegria: Cristo ressuscitou da morte e, com Ele, também nós ressuscitamos para uma vida nova!
Este anúncio pascal abraça o mistério da nossa vida e o destino da história, alcançando-nos nas profundezas dos abismos da morte, onde nos sentimos ameaçados e, por vezes, oprimidos. Ele abre-nos à esperança que não falha, à luz que não se põe, àquela plenitude de alegria que nada pode apagar: a morte foi vencida para sempre, a morte já não tem poder sobre nós!
Esta é uma mensagem nem sempre fácil de aceitar, uma promessa que nos custa acolher, porque o poder da morte ameaça-nos constantemente, por dentro e por fora.
Dentro de nós, quando o fardo dos nossos pecados nos impede de voar; quando as desilusões ou a solidão que experimentamos esgotam as nossas esperanças; quando as preocupações ou os ressentimentos sufocam a alegria de viver; quando estamos tristes ou cansados, quando nos sentimos traídos ou rejeitados, quando temos de lidar com a nossa fraqueza, com o sofrimento, com o desgaste do dia a dia, parecendo que fomos parar a um túnel do qual não vemos a saída.
Mas também fora de nós, a morte está sempre à espreita. Vemo-la presente nas injustiças, nos egoísmos de parte, na opressão dos pobres, na escassa atenção para com os mais fracos. Vemo-la na violência, nas feridas do mundo, no grito de dor que se eleva de todas as partes devido aos abusos que oprimem os mais vulneráveis, devido à idolatria do lucro que saqueia os recursos da terra, devido à violência da guerra que mata e destrói.
Nesta circunstância, a Páscoa do Senhor convida-nos a erguer o olhar e a alargar o coração. Ela continua a alimentar, no nosso espírito e no percurso da história, a semente da vitória prometida. Ela põe-nos em movimento, tal como Maria Madalena e os Apóstolos, para nos fazer descobrir que o sepulcro de Jesus está vazio e que, por isso, em cada morte que experimentamos, há também espaço para uma nova vida que renasce. O Senhor está vivo e permanece connosco. Através de frestas de ressurreição que surgem na escuridão, Ele entrega o nosso coração à esperança que nos sustenta: o poder da morte não é o destino último da nossa vida. De uma vez para sempre, estamos orientados para a plenitude, porque, em Cristo ressuscitado, também nós somos ressuscitados.
O Papa Francisco, na sua primeira Exortação apostólica, Evangelii gaudium, recordou-nos isso mesmo com palavras sentidas, afirmando que a ressurreição de Cristo «não é algo do passado; contém uma força de vida que penetrou o mundo. Onde parecia que tudo morreu, voltam a aparecer por todo o lado os rebentos da ressurreição. É uma força sem igual. É verdade que muitas vezes parece que Deus não existe: vemos injustiças, maldades, indiferenças e crueldades que não cedem. Mas também é certo que, no meio da obscuridade, sempre começa a desabrochar algo de novo que, mais cedo ou mais tarde, produz fruto» (n. 276).
Irmãos e irmãs, a Páscoa do Senhor dá-nos esta esperança, lembrando-nos que, em Cristo ressuscitado, uma nova criação é possível todos os dias. É o que nos diz o Evangelho hoje proclamado, que situa com precisão o evento da ressurreição: «No primeiro dia da semana» (Jo 20, 1). O dia da ressurreição de Cristo remete-nos assim para a criação, para aquele primeiro dia em que Deus criou o mundo, e anuncia-nos, ao mesmo tempo, que uma vida nova, mais forte do que a morte, está agora a brotar para a humanidade.
A Páscoa é a nova criação realizada pelo Senhor Ressuscitado, é um novo começo, é a vida finalmente tornada eterna pela vitória de Deus sobre o antigo Adversário.
É deste canto de esperança que hoje precisamos. E somos nós, ressuscitados com Cristo, que devemos levá-lo pelas estradas do mundo. Corramos, pois, como Maria Madalena, anunciemo-lo a todos, levemos com a nossa vida a alegria da ressurreição, para que, onde quer que ainda paira o espectro da morte, possa brilhar a luz da vida.
Que Cristo, nossa Páscoa, nos abençoe e conceda a sua paz ao mundo inteiro!
Bênção Urbi et Orbi
Irmãos e irmãs,
Cristo ressuscitou! Feliz Páscoa!
Desde há séculos, a Igreja canta exultante o acontecimento que é a origem e o fundamento da sua fé: «O Senhor da vida estava morto / mas agora, vivo, triunfa. / Sabemos e acreditamos: / Cristo ressuscitou dos mortos: / Ó Rei vitorioso, / tende piedade de nós» (Sequência Pascal).
A Páscoa é uma vitória: da vida sobre a morte, da luz sobre as trevas, do amor sobre o ódio. Uma vitória a um preço muito alto: Cristo, o Filho do Deus vivo (cf. Mt 16, 16), teve de morrer, e morrer numa cruz, depois de ter sofrido uma condenação injusta, de ter sido ridicularizado e torturado, e de ter derramado todo o seu sangue. Como verdadeiro Cordeiro imolado, tomou sobre si o pecado do mundo (cf. Jo 1, 29; 1Pe 1, 18-19) e assim nos libertou a todos do domínio do mal, e connosco também a criação.
Mas como é que Jesus venceu? Com que força derrotou de uma vez para sempre o antigo Adversário, o Príncipe deste mundo? (cf. Jo 12, 31). Com que poder ressuscitou dos mortos, não regressando à vida anterior, mas entrando na vida eterna e abrindo assim, na sua própria carne, a passagem deste mundo para o Pai?
Esta força, este poder é o próprio Deus, Amor que cria e gera, Amor fiel até ao fim, Amor que perdoa e resgata.
Cristo, o nosso «Rei vitorioso», travou e venceu a sua batalha através do abandono confiante à vontade do Pai, ao seu desígnio de salvação (cf. Mt 26, 42). Assim, percorreu até ao fim o caminho do diálogo, não com palavras, mas com obras: para nos encontrar a nós, que estávamos perdidos, fez-se carne; para nos libertar a nós, que éramos escravos, fez-se escravo; para nos dar vida a nós, mortais, deixou-se matar na cruz.
A força com que Cristo ressuscitou é completamente não violenta. É semelhante à de um grão de trigo que, ao decompor-se na terra, cresce, abre passagem pelas leivas, germina e transforma-se numa espiga dourada. É ainda mais semelhante à do coração humano que, ferido por uma ofensa, rejeita o instinto de vingança e, cheio de piedade, reza por quem o ofendeu.
Irmãos e irmãs, esta é a verdadeira força que traz a paz à humanidade, porque gera relações respeitosas a todos os níveis: entre as pessoas, as famílias, os grupos sociais, as nações. Não visa o interesse particular, mas o bem comum; não pretende impor os próprios planos, mas contribuir para os conceber e concretizar em conjunto com os outros.
Sim, a ressurreição de Cristo é o princípio da nova humanidade, é a entrada na verdadeira terra prometida, onde reinam a justiça, a liberdade e a paz, onde todos se reconhecem irmãos e irmãs, filhos do mesmo Pai que é Amor, Vida e Luz.
Irmãos e irmãs, com a sua ressurreição, o Senhor coloca-nos ainda mais intensamente perante o drama da nossa liberdade. Diante do sepulcro vazio, podemos encher-nos de esperança e admiração, como os discípulos, ou de medo, como os guardas e os fariseus, obrigados a recorrer à mentira e ao subterfúgio para não reconhecerem que aquele que fora condenado tinha realmente ressuscitado (cf. Mt 28, 11-15)!
À luz da Páscoa, deixemo-nos surpreender por Cristo! Deixemos transformar o nosso coração pelo seu imenso amor por nós! Quem tem armas nas mãos, que as deponha! Quem tem o poder de desencadear guerras, que opte pela paz! Não uma paz conseguida com a força, mas com o diálogo! Não com a vontade de dominar o outro, mas de o encontrar!
Estamos a habituar-nos à violência, resignamo-nos a ela e tornamo-nos indiferentes. Indiferentes à morte de milhares de pessoas. Indiferentes às repercussões de ódio e divisão que os conflitos semeiam. Indiferentes às consequências económicas e sociais que produzem e que todos sentimos. Há uma “globalização da indiferença” cada vez mais acentuada, para retomar uma expressão cara ao Papa Francisco, que há um ano, desta lógia, dirigiu ao mundo as suas últimas palavras, recordando-nos: «Quanto desejo de morte vemos todos os dias em tantos conflitos que ocorrem em diferentes partes do mundo!» (Mensagem Urbi et Orbi, 20 de abril de 2025).
A cruz de Cristo recorda-nos sempre o sofrimento e a dor que envolvem a morte, e o tormento que ela acarreta. Todos temos medo da morte e, por medo, voltamo-nos para o outro lado, preferimos não olhar. Não podemos continuar indiferentes! Não podemos resignar-nos ao mal! Santo Agostinho ensina: «Se tens medo da morte, ama a ressurreição!» (Sermão 124, 4). Amemos também nós a ressurreição, que nos recorda que o mal não é a última palavra, porque foi derrotado pelo Ressuscitado.
Ele atravessou a morte para nos dar vida e paz: «Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou» (Jo 14, 27). A paz que Jesus nos entrega não é aquela que se limita a silenciar as armas, mas aquela que toca e transforma o coração de cada um de nós! Convertamo-nos à paz de Cristo! Façamos ouvir o grito de paz que brota do coração! Por isso, convido todos a unirem-se a mim na vigília de oração pela paz que celebraremos aqui, na Basílica de São Pedro, no próximo sábado, 11 de abril.
Neste dia de festa, abandonemos toda a vontade de contendas, domínio e poder, e imploremos ao Senhor que conceda a sua paz ao mundo atormentado pelas guerras e marcado pelo ódio e pela indiferença, que nos fazem sentir impotentes perante o mal. Ao Senhor confiamos todos os corações que sofrem e esperam a verdadeira paz que só Ele pode dar. Confiemos n’Ele e abramos-Lhe o nosso coração! Só Ele faz novas todas as coisas (cf. Ap 21, 5)!
Feliz Páscoa!
