S. Josemaria a Nossa Senhora do Pilar: “Senhora, que seja!”

A uma simples imagem da Virgem do Pilar confiava eu naqueles anos a minha oração, para que o Senhor me concedesse entender o que a minha alma já pressentia. Domina! – dizia-lhe com termos latinos, não precisamente clássicos, mas embelezados pelo carinho –, ut sit!, que seja de mim o que Deus quer que seja.

Relatos biográficos
Opus Dei - S. Josemaria a Nossa Senhora do Pilar: “Senhora, que seja!”

Em Saragoça, nas margens do Ebro, ergue-se a esplêndida basílica do Pilar, no lugar onde na época muçulmana havia um templo dedicado a Santa Maria. A sua construção inicia-se durante o Renascimento, atravessa o barroco e é concluída, em pleno século XVIII, com soluções neoclássicas. Dentro da basílica, fica a Santa Capela de Nossa Senhora do Pilar, um magnífico estojo que encerra a coluna onde, segundo conta a tradição, a Virgem pousou os seus pés. Esse pilar está forrado a bronze e prata, e suporta uma estatueta que representa uma Virgem de manto amplo com o Menino nos braços.

A basílica do Pilar, ao fundo, encontra-se à beira do rio Ebro

Desde a sua chegada a Saragoça que Josemaria impôs a si próprio o grato costume de visitar o Pilar, aproveitando os tempos livres entre as aulas. E, enquanto morou em Saragoça, como ele próprio refere, viveu diariamente este costume:

A devoção à Virgem do Pilar começa na minha vida no momento em que, com a sua piedade de aragoneses, os meus pais a infundiram na alma de cada um dos seus filhos. Mais tarde, durante os meus estudos sacerdotais, e também quando frequentei o curso de Direito na Universidade de Saragoça, as minhas visitas ao Pilar eram diárias. (1)

Ao visitar a basílica do Pilar, teria muitas vezes de aguardar em fila, como os outros fiéis, para beijar o pedaço da coluna que ficava a descoberto, gasto pelos lábios de gerações de cristãos. Ali, na Santa Capela, repetia as suas insistentes jaculatórias: Domine, ut sit!, que seja isso que Tu queres, e que eu não sei o que é! E a mesma coisa à Santíssima Virgem: Domina, ut sit! (2)

Não se contentava em beijar a coluna, desejava aproximar-se da imagem. Segundo conta, meses antes tinha-se valido de um ardil para o conseguir, porque só as crianças e as autoridades podiam beijar o manto de que a imagem estava revestida:

Como tinha boas relações de amizade com vários dos clérigos que cuidavam da Basílica, um dia pude ficar na igreja depois de fechadas as portas. Dirigi-me à Virgem, com a cumplicidade de um daqueles bons sacerdotes, já falecido, subi os poucos degraus que as crianças conhecem tão bem e, aproximando-me, beijei a imagem da nossa Mãe. (3)

No seu quarto, em São Carlos, S. Josemaria tinha uma reprodução em gesso dessa imagem. Não valia grande coisa. Provinha de um familiar do Cardeal Soldevilla, e a ela recorria pedindo de maneira incessante a sua mediação para que se realizasse quanto antes a vontade divina:

Esta pequena imagem de Nossa Senhora encontra-se atualmente na sede central do Opus Dei em Roma

A uma simples imagem da Virgem do Pilar confiava eu naqueles anos a minha oração, para que o Senhor me concedesse entender o que a minha alma já pressentia. Domina! – dizia-lhe com termos latinos, não precisamente clássicos, mas embelezados pelo carinho –, ut sit!, que seja de mim o que Deus quer que seja. (4)

Não voltou a vê-la até 1960

Tão insistente era a sua oração, que acabou por gravar a jaculatória com a ponta de um prego na base da estatueta. Aquela imagem ficou em Saragoça quando Josemaria teve que sair da cidade. E só voltou a vê-la em 1960, em Roma, quando uma das suas filhas do Opus Dei lhe mostrou uma estátua da Virgem do Pilar, que até então estivera em casa de uns parentes seus de Saragoça. Enviavam-lha – conta-nos - porque tinha sido sua:

Padre, chegou-nos uma imagem da Virgem do Pilar, que o Padre tinha em Saragoça. Respondi-lhe: não, não me lembro. E ela: olhe bem; há uma coisa escrita pelo Padre. Era uma imagem tão feia, que não me pareceu possível que tivesse sido minha. Mostrou-ma e, debaixo da imagem, estava escrito sobre o gesso com um prego: Domina, ut sit!, com um ponto de exclamação, como costumo pôr nas jaculatórias que escrevo em latim. Senhora, que seja! E uma data: 24-5-924.

Base da pequena imagem de Nossa Senhora do Pilar, onde S. Josemaria escreveu a jaculatória Domina, ut sit! – Senhora que seja! -, com a ponta de um prego.

Muitas vezes, meus filhos, o Senhor humilha-me. Ao passo que com frequência me dá clareza abundante, muitas outras vezes tira-ma, para que não tenha nenhuma segurança em mim. Então vem e oferece-me uma dedada de mel.

Eu tinha-vos falado muitas vezes desses pressentimentos, embora em certas ocasiões pensasse: Josemaria, és um enganador, um mentiroso... Aquela imagem era a materialização da minha oração de anos, sobre a qual vos tinha falado tantas vezes. (5)

Textos extraídos de Andrés Vázquez de Prada, Josemaria Escrivá. Fundador do Opus Dei, (I): Senhor, que veja!, Lisboa, Verbo, 2002 (trad. port.)

Notas

(1) “La Virgen del Pilar”, in AA.VV - Libro de Aragón. Zaragoza, 1976, p. 97 ss. Também se encontram referências noutros escritos; por exemplo: Durante o tempo que passei em Saragoça, a fazer os meus estudos sacerdotais ..., as minhas visitas ao Pilar eram pelo menos diárias (Recuerdos del Pilar, artigo publicado em “El Noticiero”, jornal de Saragoça, 11-X-1970). Cf. também Álvaro del Portillo, Sum. 142.

A história arquitectónica do templo do Pilar é realmente complexa, devido às vicissitudes dos projectos, trabalhos, ampliações e restaurações, que só terminaram no presente século. Sobre esse e outros aspectos históricos: cf. R. del Arco – “El templo de Nuestra Señora del Pilar en la Edad Media”, in AA.VV. - Estudios de la Edad Media de la Corona de Aragón, vol. I. Zaragoza, 1945; F. Fita – “El templo del Pilar y San Braulio de Zaragoza. Documentos anteriores al siglo XVI”, in Boletín de la Real Academia de la História, 44 (1904).

(2) Carta 29-XII-1947/14-II-1966, n. 19.

Os seminaristas de São Francisco de Paula publicaram em Janeiro de 1924 um número da revista “La Verdad”, indubitavelmente com conhecimento do Inspector, pelo que conta Augustín Callejas: “Empenhámo-nos muito em publicar uma revista do Seminário, para que se notasse a nossa presença no Conciliar. Deu-nos muito trabalho mas, por fim, veio à luz o primeiro número, que depois acabou por ser o último, porque não nos deixaram publicar mais nenhum. Chamava-se ‘La Verdad’. Josemaria escreveu um artigo sobre cultura e literatura e eu outro sobre alguns aspectos da vida pública espanhola do momento” (Augustín Callejas, AGP, RHF, T-02861, p. 5).

Pela ambiguidade da descrição, não é fácil saber a que artigo se refere, já que foram assinados com pseudónimos. Mas é interessante assinalar que se encontra na revista uma longa poesia intitulada La venida de la Virgen del Pilar, assinada por O Trovador, e que na apresentação da revista pela Redacção se lê: “Santíssima Virgem do Pilar ... abençoai, pois, a nossa humilde revista e sede Vós, pedimo-vo-lo, a Directora, não apenas honorária mas também efectiva, de ‘La Verdad’” (cf. cópia de “La Verdad”, em AGP, RHF, D-15488).

(3) “Recuerdos del Pilar” (in “El Noticiero”, Zaragoza, 11-X-1970); cf. também AGP, P03 1978, pp. 21-22.

(4) J. Escrivá de Balaguer, La Virgem del Pilar, em Libro de Aragón, op. cit., p. 97.

(5) AGP, P03 1975, pp. 222-223; cf. também Álvaro del Portillo, Sum. 141; Javier Echevarría, Sum. 2556; Jesús Alvarez Gazapo, Sum. 4281.

O primo, Pascual Albás Llamas, testemunha: “Aquela imagem provinha da casa do Sr. Carlos Albás, e Manolita, sua sobrinha, entregou-a à minha mulher” (Pascual Albás, AGP, RHF, T-02848, p. 2).

Entre outros relatos do mesmo facto, cf., por exemplo, o de Encarnación Ortega:

“Aproveitando uma viagem de Roma a Espanha ..., Mercedes Morado, na altura Secretária da Assessoria Central da Secção feminina da Obra, recebeu em Saragoça – entregue por uns familiares do nosso Padre – uma imagem da Virgem do Pilar, em gesso, que tinha pertencido ao nosso Fundador.

Logo que chegou a Roma quisemos entregá-la ao Padre:

- “Padre”, dissemos-lhe, “chegou-nos uma imagem da Virgem do Pilar que o Padre tinha em Saragoça”.

O nosso Padre respondeu que não se lembrava da imagem e eu insisti:

- “Sim, veja, há uma coisa escrita pelo Padre”.

Mostrei-lhe a base da imagem, onde se podia ler uma jaculatória escrita com um prego: Domina ut sit!, seguida de uma data: 24-5-924. As palavras latinas terminavam com um ponto de exclamação, como o nosso Padre costumava pôr sempre que escrevia uma jaculatória em latim.

O Padre reconheceu então a imagem e a sua própria escrita, e ficou emocionado” (Encarnación Ortega, AGP, RHF, T-05074, p. 169).

Ao contrário do que erradamente se escreveu em alguma publicação, a data escrita na base não é 24 de Setembro, mas 24 de Maio (24-5-924); o algarismo do mês, 5, foi confundido com um 9.