Recensão publicada no The Times ao "Código Da Vinci"

Incluimos, pelo seu interesse e qualidade, a crítica literária completa saída no diário "The Times" ao livro "O Código da Vinci".

Santa Farsa

Há algo nas investigações arqueológicas, os contos de antigas relíquias e a iconografia mística que consegue converter as típicas histórias de bobas e balas em verdadeiras histórias do mistério mágico.

Neste sentido, uma novela que começa com o estranho assassinato de um conservador do Louvre, sucessor de Leonardo da Vinci e Isaac Newton como chefe de uma sociedade secreta e dedicada à ocultação e a verdade sobre Cristo, consegue pôr os cabelos em pé e quase inspira a piedade pelo seu editor.

O título da novela de Dan Brown - "O Códigio Da Vinci" deveria ser uma advertência, pois evoca a fórmula infame usada por Robert Ludlum: um artigo determinado e palavra ordinárias, à qual se interpõe um exótico adjectivo qualificativo.

Desde "A Herança Scarlatti", passando por "O Círculo Materese" até ao "O Erro de Prometheus", Ludlum teceu uma trama de complots extravagantes protagonizados por personagens secos que estabelecem diálogos ridículos.

Dan Brown, temo, é seu digno sucessor.

Este livro é. sem dúvida, o mais estúpido, inexacto, pouco informado, estereotipado, descomedido e popularucho exemplo de "pulp fiction" que já li.

É por si mau que Brown esmague o leitor com referências "New Age", misturando o Gral com Maria Madalena, os Cavaleiros Templários, o Priorado de Sião, o Rosacrucianismo, Fibonacci, o culto a Ísis e a Idade de Aquário. Mas é que além disso o faz mal.

Ao começo da novela, encontramos um exemplo. Sophie, a heroína, polícia francesa perita em criptografia, conta que o seu avô lhe disse que "assombrosamente 62" palavras podiam derivar da palavra inglesa "planets". "Sophie passou três dias às voltas de um dicionário inglês até acabar por encontrar todas". Não sou criptógrafo, mas, incluindo plurais, consegui 86 em 30 minutos.

Não surpreende, assim, que Sophie e o seu companheiro fiquem desorientados diante de um estranho texto de que suspeitam que está escrito nalguma língua semítica. Finalmente, acaba por se ver que é um texto inglês escrito como se estivesse reflectido num espelho (e assim parece exactamente).

Isto seriam coisas sem importância se não fosse porque a trama se baseia na busca de um tesouro ao qual conduzem estas pistas. Demoram uma eternidade, por exemplo, em comprender que o nome da protagonista - Sophie - é uma derivação de "Sofia" que significa "sabedoria".

Além dos quebra-cabeças, o livro está mal composto, com ideias falsas, desorientações e descrições tomadas directamente de guias turísticos para viajantes.

Surpreendentemente, Brown crê que é difícil fazer chamadas internacionais com um telefone móvel francês, que a Interpol regista todas as noites quem dorme nos hotéis parisienses, que alguém na Scotland Yard responde às chamadas com um "aqui é da polícia de Londres", que o inglês é uma língua que não tem nenhumas raízes latinas e que a Inglaterra é um país onde está sempre a chover (bom, talvez nisto tenha razão).

Como não podia deixar de ser, o soberbo personagem britânico, chamado Leigh Teabing, é uma caricatura de Sir John Gielgud, cuja contra-senha de segurança é perguntar como se quer tomar o chá. A resposta correcta - o que é estranho… - é "Earl Grey com leite e limão".

A solução do mistério é totalmente insatisfatória e os tipos presumivelmente malvados, o Opus Dei e o Vaticano, saem ao fim airosamente (talvez por medo aos pleitos).

Os editores de Brown obtiveram um punhado de elogios brilhantes de escritores de filmes de suspense americanos, desses de terceira categoria. Só me vem à cabeça que a razão destes louvores exagerados se deve a que as suas obras fiquem elevadas à categoria de obra-mestra quando os comparamos com este livro.

  • The Times (Londres) // Petre Millar, 21 de Junho de 2003