Que é a filiação divina?

Saber que nos ama como um pai ama os seus filhos e que dá a vida por eles é o grande mistério da filiação divina. Como dizia São Josemaria, somos portadores da única chama capaz de acender os corações. Este artigo aprofunda sobre este dom do Espírito Santo que, desde o batismo, nos torna participantes da própria vida de Jesus Cristo.

Sumário:

1. Que é a filiação divina

2. A filiação como dom

3. Filiação e entrega aos outros

4. O dom de piedade


1. Que é a filiação divina

A vida cristã baseia-se na realidade de que Deus nos ama. Esta é a verdade fundamental que ordena toda a nossa vida. Ele ama-nos não só quando correspondemos às suas exigências, mas também quando não o fazemos. Quando nos afastamos de Deus, Ele procura o modo de vir ao nosso encontro para que voltemos a Ele.

Chamamos sentido da filiação divina a esta consciência do amor de Deus por nós. Saber que nos ama como um pai ama os seus filhos e dá a vida por eles. Esta convicção baseia-se numa realidade sobrenatural: a nova relação que Deus Pai estabelece connosco através da graça, pela qual nos torna filhos no seu Filho Jesus Cristo ao dar-nos como dom o Espírito Santo.

Este é um grande mistério. Por esta razão, temos dificuldade em nos apercebermos desta verdade: somos realmente filhos de Deus. Cristo, pela sua Paixão e Morte, ganhou-nos este dom incomensurável.

Torna-se ousado que nós, pobres pessoas, nos dirijamos a Deus como Pai. Mas o próprio Cristo nos ensinou a tratá-l’O desse modo, e fazemo-lo sempre que rezamos o Pai-nosso. Jesus ensinou-nos esta oração e, com o batismo, tornou-nos participantes da sua própria vida, a vida da graça: por ela somos filhos adotivos de Deus.

O Catecismo da Igreja assim o explica: «A relação pessoal do Filho com o Pai (cf. Jo 1, 1), que o homem não pode conceber nem os poderes angélicos podem entrever, eis que o Espírito do Filho nos faz participar dela, a nós que cremos que Jesus é o Cristo e que nascemos de Deus (cf 1Jo 5, 1)» (Catecismo da Igreja Católica, n. 2780).

Todos temos um conceito, uma certa ideia do que é a paternidade, ideia de algum modo condicionada pela relação que tivemos com os nossos próprios pais. Essa imagem de pai que guardamos dentro de nós pode ser muito positiva mas, por vezes, também poderá ser deficiente pelo simples facto de que a relação com o nosso pai da terra também o foi. No entanto, Deus é o Pai perfeito, não há n’Ele nenhuma falta, nenhuma distorção; n’Ele se realizam plenamente as notas da paternidade: o seu amor infinito, o cuidado por cada pessoa, a providência com que dispõe da melhor maneira os acontecimentos. O sentido da filiação divina pode, pois, curar qualquer ferida deixada no nosso coração por um vínculo paterno-filial que não tenha sido plenamente conseguido.

Textos de São Josemaria para meditar

[A filiação divina] Pressupõe um autêntico programa de vida interior, que é preciso canalizar através das tuas relações de piedade com Deus (…), que te permitirão adquirir os sentimentos e as maneiras de um bom filho.

(Amigos de Deus, n. 150)

Descansa na filiação divina. Deus é um Pai – o teu Pai! – cheio de ternura, de infinito amor. Chama-Lhe Pai muitas vezes e diz-Lhe, a sós, que O amas, que O amas muitíssimo, que sentes o orgulho e a força de ser seu filho.

(Forja, n. 331)

A alegria é consequência necessária da filiação divina, de nos sabermos queridos com predileção pelo nosso Pai Deus que nos acolhe, nos ajuda e nos perdoa. Lembra-te bem e sempre: mesmo que alguma vez pareça que tudo vem abaixo, nada se desmorona, porque Deus não perde batalhas.

(Forja, n. 332)

Um filho de Deus não tem medo da vida nem medo da morte, porque o fundamento da sua vida espiritual é o sentido da filiação divina: Deus é meu Pai, pensa, e é o Autor de todo o bem, é toda a Bondade. – Mas tu e eu procedemos, de verdade, como filhos de Deus?

(Forja, n. 987)


2. A filiação como dom

O que poderíamos chamar “sentido da filiação divina” não é algo teórico, não é possuir um conceito. «É um dom divino, uma imensa graça de Deus destinada a orientar todo o pensar e o querer, o sentir e o atuar. (...) Mas é um dom que precisa de ser avivado, como uma brasa, para que irradie a sua luz e o seu calor à conduta do cristão» (Vida cotidiana y santidad en la enseñanza de San Josemaría – II, p. 20).

Para São Josemaria, a filiação divina é uma verdade que serve de fundamento à nossa vida. O fundador do Opus Dei tinha muito presentes as palavras de São Paulo na carta aos Romanos, quando o Apóstolo recorda que não somos servos, mas filhos, que não atuamos por temor, mas recebemos o Espírito de adoção filial (cf. Rm 8, 15.27). E porque somos filhos, somos também herdeiros: a nossa meta é chegar ao Céu e participar eternamente da vida divina. Esse pode ser o tom da nossa relação com Deus: Ele confiou-nos uma tarefa que ocupa toda a nossa vida e assiste-nos constantemente, leva-nos pela mão, como um pai leva o filho que ainda não sabe andar sozinho. Por isso, não temos medo de nada nem de ninguém, nem sequer de nós mesmos, das nossas fraquezas ou da nossa rebeldia: Deus Pai conhece-as, conta com elas e ajuda-nos a avançar. Podemos sempre recomeçar.

O facto de sermos filhos de Deus traz consigo o desejo e a vontade de nos assemelharmos a Ele. Fomos criados à sua imagem e semelhança, queremos que a beleza do Pai se impregne na nossa alma (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2784). A experiência da filiação divina realiza-se também quando se torna presente o sofrimento, a cruz. É aí que se realiza a identificação com Cristo, que sofreu e morreu por nós para cumprir a vontade de seu Pai.

São Josemaria compreende a filiação divina adotiva à luz do mistério da Encarnação. Graças a esta realidade divina, todas as tarefas nobres podem ser atividades de um filho de Deus, porque todas elas foram assumidas por Cristo.

Outra atitude que está unida à filiação é a humildade e a confiança que nos faz ser como crianças. O próprio Jesus disse que o Pai se revela “aos pequeninos” (cf. Mt 11, 25; cf Catecismo da Igreja Católica, n. 2785).

Textos de São Josemaria para meditar

A filiação divina é o fundamento do espírito do Opus Dei. Todos os homens são filhos de Deus, mas um filho pode reagir de muitos modos diante do seu pai. Temos de esforçar-nos por ser filhos que procuram lembrar-se de que o Senhor, querendo-nos como filhos, fez com que vivamos em sua casa no meio deste mundo; que sejamos da sua família; que o que é seu seja nosso e o nosso, seu; que tenhamos com Ele a mesma familiaridade e confiança com que um menino é capaz de pedir a própria Lua!

Um filho de Deus trata o Senhor como Pai. Não servilmente, nem com uma reverência formal, de mera cortesia, mas cheio de sinceridade e de confiança. Deus não se escandaliza com os homens. Deus não Se cansa das nossas infidelidades. O nosso Pai do Céu perdoa qualquer ofensa quando o filho volta de novo até Ele, quando se arrepende e pede perdão. Nosso Senhor é tão verdadeiramente pai, que prevê os nossos desejos de sermos perdoados e se adianta com a sua graça, abrindo-nos amorosamente os braços.

(Cristo que passa, n. 64)

“O Senhor é minha luz e salvação: a quem temerei?” (Sl 26, 1). A ninguém. Tratando deste modo com o nosso Pai do Céu, não sintamos medo de ninguém nem de nada.

(Amigos de Deus, n. 95)

Não se pode dizer rigorosamente que haja realidades – boas, nobres e até indiferentes – que sejam exclusivamente profanas, uma vez que o Verbo de Deus fixou morada entre os filhos dos homens (…),trabalhou com as suas mãos, conheceu a amizade e a obediência

(Cristo que passa, n. 112)


3. Filiação e entrega aos outros

A consciência da filiação divina, juntamente com esta confiança no nosso Pai Deus, impele-nos a darmo-nos aos outros e a querer partilhar este dom com todas as pessoas, pois encontrámos a razão da nossa existência.

O desejo de tornar as outras pessoas participantes da graça divina é parte da filiação e leva-nos a ser mais irmãos de todos e a desenvolver a capacidade de nos entregarmos aos outros sem contarmos apenas com as nossas próprias forças, mas com as que derivam do facto de sabermos que somos filhos de Deus. Porque o sentido da filiação divina leva-nos a colocar toda a nossa confiança no cuidado amoroso do nosso Pai Deus e a difundir esta realidade entre as pessoas que nos rodeiam, para que também elas vivam animadas por esta confiança. O sentido apostólico autêntico surge da certeza de que o braço de Deus não diminuiu, de que Ele está sempre junto de nós.

A confiança que provém da filiação divina permite-nos fixar metas altas. De um modo muito belo, diz Santo Agostinho: «Que pode Ele, de facto, negar à oração dos seus filhos, quando já previamente os deixou ser seus filhos?» (Serm. Dom. 2, 4, 16). No Salmo 2, Deus Pai dirige-se a Cristo dizendo: «Pede-me e eu te darei as nações em herança». Esta confiança em Deus pode aplicar-se a todas as situações da nossa vida: as pequenas e as mais importantes. A nova condição que o homem alcança através da graça batismal culminará na glória do Céu, que não é senão «a plenitude da filiação divina» (São Josemaria, Carta 02/02/1945, n. 8).

Textos de São Josemaria para meditar

Iesus Christus, Deus Homo, Jesus Cristo, Deus-Homem! Eis uma magnalia Dei, uma das maravilhas de Deus em que temos de meditar e que temos de agradecer a este Senhor que veio trazer a paz na terra aos homens de boa vontade, a todos os homens que querem unir a sua vontade à Vontade boa de Deus. Não só aos ricos, nem só aos pobres! A todos os homens, a todos os irmãos! Pois irmãos somos todos em Jesus; filhos de Deus, irmãos de Cristo: sua Mãe é nossa Mãe. Na terra há apenas uma raça: a raça dos filhos de Deus. Todos devemos falar a mesma língua: a que o nosso Pai que está nos Céus nos ensina; a língua dos diálogos de Jesus com seu Pai; a língua que se fala com o coração e com a cabeça; a que estais a usar agora na vossa oração. É a língua das almas contemplativas, dos homens espirituais por se terem dado conta da sua filiação divina; uma língua que se manifesta em mil moções da vontade, em luzes vivas do entendimento, em afetos do coração, em decisões de retidão de vida, de bem-fazer, de alegria, de paz.

(Cristo que passa, n. 13)

“Frater qui adjuvatur a fratre quasi civitas firma” – O irmão ajudado pelo seu irmão é tão forte como uma cidade amuralhada. – Pensa um pouco e decide-te a viver a fraternidade que sempre te recomendo.

(Caminho, n. 460)

Por isso vos repito com São João: “vede que amor teve por nós o Pai, querendo que nos chamássemos filhos de Deus e que o fôssemos na verdade!” (1Jo 3, 1). Filhos de Deus, irmãos do Verbo feito carne, d'Aquele de Quem foi dito: “n'Ele estava a vida, e a vida era a luz dos homens!” (Jo 1, 4). Filhos da Luz, irmãos da Luz – isso é o que somos! Portadores da única chama capaz de iluminar os corações feitos de carne!

(Cristo que passa, n. 66)


4. O dom de piedade

O dom de piedade, um dos sete dons do Espírito Santo, ajuda-nos a tratar Deus como Pai, a estabelecer esta relação filial de forma habitual. Concretamente, o dom de piedade «dispõe a alma a ser dócil ao impulso do Espírito Santo para tratar filialmente a Deus Pai» (Ernst Burkhart - Javier López, Vida cotidiana y santidad en la enseñanza de San Josemaría. Estudio de teología espiritual - II, Rialp 2011, p. 110). São Paulo diz-nos: «Aqueles que são conduzidos pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus» (Rm 8, 14).

Na filiação divina encontramos também o fundamento da autêntica liberdade, porque o filho não atua por obrigação, mas pelo desejo de agradar aos seus pais, pela confiança de que o que lhe pedem é bom para ele. O amor, que é a verdadeira força motriz da liberdade, expressa-se no desejo de viver segundo a vontade de Deus, de integrar na sua vida os ensinamentos de Cristo e de acolher com docilidade as inspirações do Espírito Santo.

Finalmente, a filiação divina é também o fundamento da nossa alegria. O que mais pode entristecer uma pessoa é a solidão. Podemos, por vezes, sentir-nos sós no trabalho, na família, mas, se pensarmos bem, em todas estas situações estamos muito acompanhados pelo Senhor. Saber que podemos contar sempre com Ele é a maior fonte de confiança, serenidade e alegria.

Como podemos crescer neste fundamento da nossa vida espiritual? Podemos pedir a graça de crescer nesta consciência de filhos, mas também está ao nosso alcance cultivar a nossa relação com Deus, apoiarmo-nos n’Ele, confiar n’Ele até no mais ínfimo pormenor. Desconfiar um pouco de nós próprios, da nossa opinião, das nossas forças. Deixar que o prato da balança de Deus pese muito mais do que o nosso. Dar-nos conta e valorizar tantas ajudas divinas que recebemos na nossa vida e que Deus nos dá em cada dia. Às vezes, coisas muito pequenas, mas que refletem o seu carinho de Pai por nós.

A maternidade da Virgem Maria é participação na paternidade de Deus: somos filhos de Deus também graças à sua maternidade: o «Mulher, eis aí o teu filho» (Jo 19, 26) tornou-nos irmãos de Cristo e, portanto, filhos no Filho. Viver a filiação mariana é um aspeto da filiação divina: «sereis alimentados, sereis levados ao colo e acariciados sobre os joelhos. Como a mãe que anima o seu filho, também Eu vos confortarei» (Is 66, 12-13).

Textos de São Josemaria para meditar

Esta luta de um filho de Deus não implica tristes renúncias, obscuras resignações, privações de alegria; é a reação do enamorado que, enquanto trabalha e enquanto descansa, enquanto se alegra e enquanto padece, põe o seu pensamento na pessoa amada e, por ela, enfrenta gostosamente os diferentes problemas. No nosso caso, além disso, como Deus – insisto – não perde batalhas, nós, com Ele, seremos vencedores.

(Amigos de Deus, n. 219)

O Evangelista São Lucas conta que Jesus estava a orar… Como seria a oração de Jesus! Contempla devagar esta realidade: os discípulos têm intimidade com Jesus e, nessas conversas, Nosso Senhor ensina-lhes – também com as obras – como hão de rezar, e o grande portento da misericórdia divina: que somos filhos de Deus e que podemos dirigir-nos a Ele, como um filho fala com o Pai.

(Forja, n. 71)

A vida de oração e de penitência e a consideração da nossa filiação divina transformam-nos em cristãos profundamente piedosos, como meninos pequenos diante de Deus. A piedade é a virtude dos filhos e, para que o filho possa entregar-se nos braços do seu pai, há de ser e sentir-se pequeno, necessitado. Tenho meditado com frequência na vida de infância espiritual, que não se contrapõe à fortaleza, porque requer uma vontade rija, uma maturidade bem temperada, um carácter firme e aberto

(Cristo que passa, n. 10)

Porque Maria é Mãe, a sua devoção ensina-nos a ser filhos – a amar deveras, sem medida; a ser simples, sem as complicações que nascem do egoísmo de pensar só em nós; a estar alegres, sabendo que nada pode destruir a nossa esperança

(Cristo que passa, n. 143)


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