O Papa na vida do cristão

O lema de S. Josemaria – “Omnes cum Petro ad Iesum per Mariam! – todos, bem unidos ao Papa, vamos a Jesus por Maria”, não era apenas uma frase bem formulada; expressava um anseio do seu coração, que deve existir também em todos os católicos.

Opus Dei - O Papa na vida do cristãoFoto: Sonia Trujillo G.

“Nós, os católicos, temos de pensar que depois de Deus e da nossa Mãe, a Virgem Santíssima, na hierarquia do amor e da autoridade vem o Santo Padre”[1]. Estas palavras de S. Josemaria Escrivá traçam um programa muito preciso da existência cristã, caraterizado pelo amor, por aquele caminhar na caridade, que é a contrassenha dos filhos de Deus[2]. Caridade, cuja natureza e dinamismo são determinados pela sua fonte, o próprio Dom incriado – o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado[3]– e pelo seu objeto, o próprio Deus, em primeiro lugar, e por Ele, todos os filhos de Deus, de que a primeira entre todosé a Filha, Mãe e Esposa de Deus, e aqui na Terra, imediatamente depois, o Papa.

Quanto vale um coração humano? O valor que tiverem os seus amores. E o coração do fiel católico é enobrecido pelo chamamento a esta hierarquia do amor: Deus, Nossa Senhora, o Papa. A caridade, ordenada desta forma, converte-se num potente motor da vida diária, daquele caminhar na caridade, como diz S. Paulo assumindo um hebraísmo muito expressivo do quotidiano, ou seja, da conduta cristã que se vive mais ao ritmo marcado pela cadência regular dos dias comuns e sem surpresas do que por acontecimentos extraordinários.

Como dar um destaque relevante ao Papa na nossa vida se as ocasiões de encontro pessoal com ele, pelo menos fisicamente, são tão raras ou inexistentes? Não podendo confiar em momentos tão singulares para expressar o afeto pessoal ao Romano Pontífice, é necessário aprofundar as razões do seu lugar tão alto na hierarquia do Amor.

A primeira razão que nos vem à cabeça é o seu título de Vigário de Cristo. No entanto, a palavra “vigário”, que parece dizer muito, necessita de um enriquecimento na compreensão de seu conteúdo. Basta pensar que o Concílio Vaticano II diz dos bispos que “governam as igrejas particulares que lhes foram confiadas como vigários e legados de Cristo”[4]; e a respeito dos presbíteros, o mesmo Concílio ensina que “ficam assinalados com um caráter particular e assim configurados a Cristo Sacerdote, de tal modo que possam agir como pessoa de Cristo cabeça”[5].

Pois bem, não me parece que o povo cristão, com o seu sentido de fé, veja o Papa apenas como o primeiro na hierarquia eclesiástica, como aquele que está no vértice. Mesmo que os sacerdotes, sobretudo no momento da Consagração eucarística, tenham uma particular identificação sacramental com Cristo e “na pessoa dos bispos (...), o Senhor Jesus Cristo esteja presente no meio dos fiéis”[6], é preciso ver o ministério papal noutra perspetiva: para cada cristão, o Papa não é como o seu pároco, com mais poder ou categoria mais elevada, nem como o seu bispo, ainda que revestido de maior dignidade. É outra relação e está estreitamente ligada à própria relação com Cristo. É esta relação que devemos analisar agora, para tirar dela indicações mais precisas sobre o que significa para o cristão que o Papa seja o Vigário de Cristo na Terra.

Especial pertença a Cristo em virtude do batismo

O cristão pelo batismo pertence a Cristo. É este sacramento que o coloca em relação imediata com Cristo, cujas caraterísticas podemos deduzir, com progressiva luminosidade e nitidez, através da análise de uma série de textos neotestamentários.

O primeiro sinal desta pertença a Cristo vem da resposta de Pedro à pergunta dos convertidos no dia de Pentecostes: “Irmãos, que devemos fazer?” Pedro respondeu: “Convertei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para o perdão dos vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo”[7]. Em nome de Jesus Cristo quer dizer que o batismo é administrado com a autoridade de Jesus, e a esta se atribuem os efeitos da remissão dos pecados e do dom do Espírito Santo[8]. Os Actos dos Apóstolos também nos mostram como o batismo, além de se basear na autoridade de Jesus, também implica a invocação do Seu Nome[9], ou seja, reconhecer em Jesus o Cristo, e colocar-se sob a Sua potestade.

As cartas paulinas fazem-nos saber que a potestade de Cristo, que atua no batismo, alcança uma profundidade tal, que o batizado se torna partícipe do mesmo acontecimento pascal que se realizou em Cristo, isto é, da Sua morte e da Sua ressurreição. A Carta aos Romanos e a Carta aos Colossenses são particularmente explícitas a esse respeito[10]. Tal participação na morte e ressurreição do Senhor dá origem a uma nova vida com Cristo e em Cristo[11].

E S. Paulo não pára por aqui. Recorre a uma metáfora muito expressiva: “Vós que fostes batizados em Cristo fostes revestidos de Cristo”[12]. Os destinatários da carta paulina podiam compreender bem esta metáfora, já que aparece várias vezes no Antigo Testamento, no sentido de assumir uma disposição moral tanto boa como má[13]. A linguagem profana também conhecia o uso metafórico do termo ‘revestir-se’[14]. No entanto, as palavras do Apóstolo vão além das disposições morais de imitação de Cristo, para chegar a uma certa identificação com Ele. Isto é tão certo que nos fazemos filhos de Deus e nos unimos aos outros batizados até sermos um só em Jesus Cristo, superando toda a discriminação tanto religiosa (judeu ou grego) como social (escravo ou livre) e natural (homem ou mulher)[15].

S. Paulo explica o ser um em Cristo com a doutrina do corpo que formam todos os batizados[16]. A imagem da coletividade como um corpo podia de certo modo ser familiar aos destinatários das cartas paulinas, já que a literatura pagã também a aplicava tanto ao cosmos como um todo como à cidade ou a outras comunidades humanas[17]. No entanto, S. Paulo não fica só no sentido da metáfora profana e, superando-a amplamente, apresenta Cristo como o princípio unificante deste corpo a que chama corpo de Cristo[18]. As cartas aos Efésios e aos Colossenses deixam claro que Cristo é a cabeça do Seu corpo que é a Igreja[19].

Corpo de Cristo, porque Ele é a Sua cabeça, o Seu princípio unificante e vivificante, mas também porque o homem novo, que inclui em si judeus e gentios, se formou no Corpo de Cristo crucificado[20]. Como fim da atividade redentora do Senhor, o Apóstolo indica a criação de um único homem novo em Cristo, e menciona a Cruz para fazer compreender que é no Corpo de Cristo sobre a Cruz que ela se realiza[21]. O fundo batismal de toda a Carta aos Efésios mostra claramente que através do batismo cada cristão se insere neste processo salvífico.

Logo depois, apresenta o homem novo criado em Cristo usando outra imagem, a da construção, que tem como pedra angular o próprio Cristo; nela os fiéis são edificados como templo de Deus no Espírito[22]. É necessário prestar atenção à comparação com o edifício, porque também se encontra no texto da promessa do primado de Pedro. Com esta e outras imagens, o Apóstolo faz-nos ver com profundidade, com sinais fortes, as diferentes dimensões desta pertença a Cristo em virtude do batismo.

Cristo e Pedro

Conscientes dos limites da aproximação até aqui realizada, esboçamos uma resposta à questão: qual a relação do cristão com Cristo? Mas a pergunta inicial referia-se à relação com o Papa. A resposta passa através do estudo da relação entre Cristo e Pedro.

Também Eu te digo: tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela[23]. A autenticidade destas palavras do Senhor, juntamente com as do versículo precedente e as do seguinte, está solidamente demonstrada não só pela sua presença em todos os códices mais antigos deste Evangelho – o que seria mais do que suficiente –, mas também pelo seu evidente carácter semítico, confirmado pelos recentes estudos comparativos com o vocabulário de Qûmran[24].

O diálogo do Senhor com Simão Pedro está tão carregado de referências à própria pessoa do Apóstolo, que exclui qualquer interpretação que reduza o sentido da rocha[25] à simples confissão da fé messiânica ou a Pedro como representante de todos os crentes[26]. A metáfora da rocha referida a Deus é frequente no Antigo Testamento[27]. Cristo aplica esta imagem a Pedro e diz que sobre ele edificará a Sua Igreja, dando-lhe uma função que é própria de Cristo. S. Leão Magno explica assim: “Tu és Pedro. Isto significa que se eu sou a pedra inviolável, a pedra angular que fez dos dois povos um só (Ef 2, 20.14), o fundamento que ninguém pode substituir, tu também és pedra porque a minha força te faz firme, e assim o que me pertence em potestade tu o tens em comum comigo por participação”[28].

A Igreja de Cristo, apresentada como uma construção erigida por Ele próprio, está edificada sobre Pedro como sobre uma rocha. Cristo edificou a Igreja não só dotando-a de meios de salvação e estruturas organizativas, mas também e principalmente criando no Seu Corpo sobre a Cruz o homem novo, o novo povo de Deus herdeiro das promessas[29]. Este último aspeto torna-se mais evidente na primeira Carta de S. Pedro, sempre com a imagem da construção: Aproximando-nos de Cristo, pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e valiosa aos olhos de Deus, também vós, como pedras vivas, formais um edifício espiritual, em ordem a um sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo. (...) Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido[30]. S. Pedro aplica aos batizados os mais altos títulos de nobreza do povo da Antiga Aliança: agora constituem o novo povo messiânico, edificado por Cristo como templo e sacerdócio santo, povo que Deus adquiriu para Si. Como lemos em At 20, 28, foi uma aquisição com o Seu sangue, ou seja, por meio do sacrifício redentor da Cruz[31].

A Igreja é de Cristo porque a adquiriu com o Seu sacrifício redentor e a edificou com no Seu corpo sobre a Cruz. Por isso, quando Cristo diz: “Minha Igreja”, no adjetivo “minha” vibram a força e o drama do Gólgota. Acrescentar depois “sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” significa associar Pedro de um modo singular à obra admirável que terá de realizar sobre a Cruz. Neste sentido, é especialmente exata e acertada a expressão “Cristo na terra”, com que Santa Catarina de Sena gostava de designar o Papa[32].

Um texto clássico sobre o ministério petrino é o diálogo transmitido por Jo 21,15-17: Depois de ter comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: “Simão, filho de João, tu amas-Me mais do que estes?” Pedro respondeu: “Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo”. Jesus disse-lhe: “Apascenta os Meus cordeiros”. Voltou a dizer-lhe segunda vez: “Simão, filho de João, tu amas-Me?”. Pedro respondeu: “Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo”. Jesus disse-lhe: “Apascenta as Minhas ovelhas”. Perguntou-lhe terceira vez: “Simão, filho de João, tu amas-Me?” Pedro entristeceu-se por Jesus lhe ter perguntado pela terceira vez se O amava. E respondeu-Lhe: “Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que Te amo”. Jesus disse-lhe: “Apascenta as minhas ovelhas”. Aqui Pedro não representa nem todos os discípulos nem o grupo mais restrito dos apóstolos, ainda que todos devamos ter uma resposta de amor, e todos os Apóstolos terão depois uma parte na missão de apascentar os fiéis. Este diálogo diz respeito a Pedro de um modo completamente pessoal: evoca, ainda que sem a mencionar diretamente, a sua tripla negação na casa do Sumo Sacerdote, e o que Jesus pede a Pedro é uma resposta que corrija profundamente aquelas negações.

À resposta de amor de Pedro, o Senhor corresponde confiando-lhe os Seus cordeiros, as Suas ovelhas. Esta linguagem era muito compreensível à luz do que tinha dito de Si próprio: Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas[33]. Ao servir-se da imagem do bom pastor, não faz outra coisa senão atribuir-se a Si mesmo, como cumprida, a profecia de Javé pastor do Seu povo e com Ele a do seu servo David[34]. No entanto, agora acrescenta um elemento não explicitado na profecia de Ezequiel: a entrega da Sua vida em favor das suas ovelhas. E o rebanho inicial será completado com outras ovelhas que atualmente não lhe pertencem: Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil; também a essas devo conduzir; ouvirão a Minha voz e haverá um só rebanho e um só Pastor[35]. A referência aos gentios é clara, mas é preciso notar que a extensão do rebanho se une ao sacrifício da própria vida de Jesus, como se indica tanto no versículo precedente como no seguinte[36].

Como Jesus disse a Pedro que sobre ele edificaria a Sua Igreja, e isto sucedeu na Cruz, de modo semelhante confia-lhe agora as suas ovelhas, ou seja, o rebanho reunido com o Seu sacrifício. Pedro deu uma tríplice resposta de amor pessoal e Jesus corresponde de um modo igualmente pessoal: confia a Pedro o que Lhe custou a Sua vida sobre o Gólgota. Então quem é Pedro para os membros do rebanho a ele confiado? De novo a expressão de Santa Catarina “Cristo na terra” parece-nos a resposta mais exata.

Pedro está presente nos seus sucessores

Pedro não é apenas o primeiro elemento de uma sucessão histórica de bispos na Sede Romana; ele coexiste com seus sucessores[37]. No Concílio de Éfeso de 431, quando o legado papal proclamou que o Apóstolo Pedro “vive e julga até agora e para sempre nos seus sucessores” e que o Papa Celestino “é o seu sucessor e ocupa o seu lugar (= é o seu vigário = topotêrêtês)”[38], expressava com sintética clareza o sentido da fé da Igreja[39].

O Papa, Bispo de Roma, independentemente do nome e da pessoa, é sempre “Cristo na terra”, porque permanece nele o ministério petrino, esse ministério que Jesus confiou ao Príncipe dos Apóstolos com tónicas tão pessoais. Sobre ele, o Senhor edificou a Sua Igreja e este fundamento não pode ser substituído nunca e muito menos suprimido. O Papa S. Leão Magno explicava, em meados do século V, num dos seus célebres sermões: “Pedro, perseverando na solidez que recebeu, não abandona o leme da Igreja que lhe foi confiado (...). Ele, agora com maior plenitude e eficácia, realiza tudo o que lhe foi confiado e cumpre totalmente todas as suas funções e cuidados n’Aquele e com Aquele que o glorificou. Portanto, o que fazemos e decretamos retamente, o que obtemos da misericórdia de Deus pelas preces diárias, é obra e mérito daquele em cuja sede vive a Sua potestade e é grande sua autoridade”[40].

O fiel cristão, por pertencer a Cristo pelo batismo, tem uma relação especial com Pedro; com Pedro aqui em baixo, na visibilidade própria da Igreja peregrina, porque o ser “Cristo na terra”, no modo caraterístico e próprio que corresponde ao Príncipe dos Apóstolos, nunca se perde, apesar do seu martírio e da sua ausência física. Isto acontece porque nos Romanos Pontífices permanece o ministério petrino: continuam a ser Pedro e, portanto, “Cristo na terra”.

Pedro na vida diária do cristão

As considerações anteriores ajudaram-nos a compreender melhor porque Pedro – dizer o Papa e dizer Pedro na prática é o mesmo – ocupa um lugar tão alto na hierarquia do Amor. Um lugar tão próximo de Cristo, precedido apenas por Nossa Senhora, tem a sua razão de ser na peculiar relação vicária de Pedro com Cristo. Pois bem, assim como o ser Cristo, que constitui a essência da vida cristã, tem múltiplas expressões no quotidiano da nossa existência, analogamente a nossa relação com “Cristo na terra” tem que se traduzir em actos diários concretos.

Mais do que qualquer argumento, mesmo que bem elaborado, talvez seja útil recorrer ao exemplo de vida de S. Josemaria Escrivá. Sendo um sacerdote ainda jovem, adquiriu o hábito de rezar o terço todos os dias pela pessoa e intenções do Romano Pontífice. Imaginava-se ao lado do Papa ao celebrar a Missa, e ao terminar fazia uma comunhão espiritual com o desejo de receber o Santíssimo Sacramento das suas mãos[41]. Esta prova tangível de fé faz-nos compreender que o seu lema “Omnes cum Petro ad Iesum per Mariam! – todos, bem unidos ao Papa, vamos a Jesus por Maria”[42], não era uma mera frase bem conseguida, mas expressava um anseio real do seu coração.

A união com Cristo, procurada com empenho na própria existência, não pode, não deve estar separada do “Cristo na terra”. Por muitas razões, a sua relação com Jesus, como sucessor de Pedro, é tão singular que ninguém mais pode partilhá-la; mas também é verdade que cada geração cristã está chamada a reproduzir a atitude orante da primeira comunidade de Jerusalém: a Igreja orava instantemente a Deus por ele[43]. A súplica pode subir incessantemente a Deus porque além dos momentos de oração – seja comunitária, como na liturgia da Missa, ou individual –, todas as atividades humanas, se exercidas com rectidão e oferecidas a Deus, unem-se ao hino ininterrupto de louvor e acção de graças, de expiação e de súplica que desde o Gólgota se eleva ao Pai Celestial[44].

O edifício da Igreja, construído sobre Pedro, pode chegar a ser tão insustentável que excede qualquer força humana; mas ao mesmo tempo a oração ininterrupta de toda a Igreja possui uma força capaz de levantar qualquer carga, mesmo que seja muito pesada. Se além disso, a oração se encarna e se materializa em sacrifício, então enriquece-se ainda mais pelo poder da Cruz. Esta é a convicção que exprimem as palavras de S. João Paulo II, na sua meditação sobre o sofrimento: “A Igreja vê em todos os irmãos e irmãs de Cristo que sofrem como que um sujeito multíplice da Sua força sobrenatural. Quantas vezes os pastores da Igreja recorrem precisamente a eles e procuram neles concretamente apoio e ajuda!”[45]. Nesta alusão aos pastores, discretamente velada pelo uso do plural, transparece a confiança do Papa, confirmada pela experiência pessoal, do apoio que lhe oferece a fidelidade na dor de inúmeros cristãos, anónimos para os homens, mas cujas orações, bem conhecidas por Deus, sobem até Ele como incenso de suavíssimo odor[46].

A união efetiva e afetiva com o Papa faz com que a oração seja acompanhada pela obediência. “Pensai, queridos irmãos e irmãs, filhas e filhos meus, que essa tremenda herança que Jesus deixou ao Papa de apascentar todo o rebanho, também o disperso e que não o reconhece como pastor, pode ser suavizada, sustentada e até compartilhada pela obediência e docilidade de todos nós que temos a honra, o orgulho e a ventura de noschamarmos católicos”[47].

Acolher sinceramente os ensinamentos e as disposições do sucessor de Pedro é expressão plena e verdadeira do desejo de união com Cristo, de aceitação da Sua palavra. Isto incidirá certamente na conduta pessoal e converter-se-á, pelo exemplo e pela palavra esclarecedora, em apostolado eficacíssimo, contribuindo realmente para a unidade da Igreja, pois torna mais forte a comunhão dos fiéis com a Cabeça visível da Igreja. No caso de ser necessário retificar critérios de acção e opiniões, inclusive arreigadas, tal fidelidade, que não raramente se encontrará em contradição com modas de pensamento e valores generalizados, será a demonstração real de que se está a apoiar sobre o fundamento de rocha da Igreja; e as forças do Inferno não prevalecerão contra ela[48].

Estudo de Antonio Miralles, Professor da Faculdade de Teologia na Universidade Pontifícia da Santa Cruz, publicado em Romana, n.º 10 (janeiro-junho 1990)



[1] Josemaria Escrivá, Forja, n.º 135.

[2] Ef 5, 1-2.

[3] Rom 5, 5.

[4] Const. Dogm. Lumen Gentium, n.º 27a.

[5] Decr. Presbyterorum Ordinis, 2c.

[6] Const. dogm. Lumen gentium, 21a.

[7] At 2, 37-38.

[8] C. Spicq, Teologia Moral do Novo Testamento, I, Ed. Universidade de Navarra, Pamplona-1970, p. 61.

[9] Ver advertência de Ananias a Saulo: Levanta-te, recebe o batismo e purifica-te dos teus pecados, invocando o Seu Nome (Act 22, 16).

[10] Sepultados com Ele no batismo, foi também com Ele que ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que O ressuscitou dos mortos. Pelo batismo sepultámo-nos juntamente com Ele, para que assim como Cristo ressuscitou dos mortos, mediante a glória do Pai, assim caminhemos nós também numa vida nova. Uma vez que nos tornámos com Ele num mesmo ser por uma morte semelhante à Sua, também o seremos por uma ressurreição semelhante (Col 2, 12; Rm 6, 4-5).

[11] ComEle viveremos (Rm 6, 8); E vivos para Deus em Cristo Jesus (Rm 6, 11).

[12] Gal 3, 27.

[13] Revestidos de força (Is 51, 9). Reina o Senhor, vestido de esplendor, reveste-Se o Senhor cingindo-Se de poder (Sal 92, 1). Cubram-se de confusão e de ignomínia os que se envaidecem à minha custa (Sal 34, 26). Revestia-me de justiça (Job 29, 14).

[14] F. Messner, La lettera ai Galati - Comentário teológico do Novo Testamento, IX, Paideia, Brescia 1987, pp. 408-409.

[15] Gal 3, 26-29.

[16] Como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, embora sejam muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo. Foi num só Espírito que todos nós fomos batizados, a fim de formarmos um só corpo, judeus ou gregos, escravos ou livres; e todos bebemos de um só Espírito (1Cor 12, 12-13).

[17]H. Schlier, La lettera agli Efesini-Comentário teológico do Novo Testamento, X/2, Paideia, Brescia 1973, pp. 132-134.

[18] Vós sois corpo de Cristo e seus membros, cada um na parte que lhe toca (1Cor 12, 27).

[19] Ef 1, 22-23; 4, 15-16; 5, 23; Col 1, 18; 2, 19.

[20] Ele é a nossa paz, Ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro da inimizade que os separava, anulando pela Sua carne a Lei, os preceitos e as prescrições, a fim de, em Si mesmo, fazer dos dois um só homem novo, estabelecendo a paz e reconciliando com Deus, pela Cruz, uns e outros num só Corpo, levando em Si próprio a morte à inimizade (Ef 2, 14-16).

[21] Schlier, obra citada, pp. 207-209.

[22] Já não sois hóspedes nem peregrinos, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus; edificados sobre o alicerce dos apóstolos e dos profetas, com Cristo por pedra angular. N’Ele qualquer, bem ajustada, cresce para formar um templo santo no Senhor, em união com o Qual também vós sois integrados na construção, para vos tornardes, no Espírito, morada de Deus. (Ef 2, 19-22).

[23] Mt 16, 18.

[24] J.M. Casciaro Ramírez, Qumrân y el Nuevo Testamento - Aspectos eclesiológicos y soteriológicos, EUNSA, Pamplona 1982, pp. 64-66, 70-73, 135-139.

[25] Sobre esta Pedra (pétra) edificarei a minha Igreja. Pétra é o fundamento natural sobre o qual se apoia o artificial (themélion); a diferença entre estes dois fundamentos aparece claramente na parábola do homem sábio que construiu a sua casa sobre a rocha: é semelhante a um homem que para construir uma casa cavou, aprofundou e assentou os alicerces (themélion) sobre a rocha (epì tên pétran) (Lc 6, 48).

[26] A interpretação desta passagem como promessa feita a Pedro do primado de jurisdição sobre toda a Igreja foi solenemente definida pelo Concílio Vaticano II, Const. Dogm. Pastor Aeternus, 18-VII-1870, cap. 1 (DS 3053-3054).

[27] Sal 30, 4; 2Sam 23, 3; Is 17, 10.

[28] Tractatus IV in Natale eiusdem, 2: CCL 138, p. 19

[29] É o que vimos acima em Ef 2, 16, 19-22.

[30] 1Pe 2, 4-5.9.

[31] Cuidai de vós mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos estabeleceu como guardiães, como pastores da Igreja de Deus que ele adquiriu com o Seu sangue. (Act 20, 28)

[32] “Sabeis bem que Cristo nos deixou o Seu vigário, e fê-lo para remédio de nossas almas; porque não podemos ter saúde senão no corpo místico da Santa Igreja, cuja cabeça é Cristo, e nós somos os membros. E aquele que não for obediente a Cristo na terra, o qual faz às vezes de Cristo no céu, não participa do fruto do Filho de Deus”. (Santa Catarina de Sena, Le lettere, III, a cuidado de P. Misciatelli, COE Giunti — G. Barberà, Firenze 1970, pp. 207-208)

[33] Jo 10, 11.

[34] Porque assim fala o Senhor Deus: Eis que Eu mesmo cuidarei das minhas ovelhas e Me interessarei por elas. (...) Procurarei a ovelha perdida, reconduzirei a tresmalhada, enfaixarei a que está ferida, tratarei a doente e vigiarei a gorda e robusta. A todas apascentarei com justiça. (...) Estabelecerei sobre elas um único pastor: o meu servo David. Ele as apascentará e lhes servirá de pastor. Eu, o Senhor, serei o seu Deus, e o meu servo David será príncipe no meio delas. Eu, o Senhor, disse. (Ez 34, 11.16.23-24).

[35] Jo 10, 16

[36] Eu dou a vida pelas Minhas ovelhas (v.15). Por isso o Pai Me ama, porque dou a Minha vida para tornar a tomá-la (v.17).

[37] M. Guerra, Los nombres del Papa. Estudio filológico-teológico de varios nombres del Papa en los primeros siglos del cristianismo, ("Teología del sacerdocio", 15), Aldecoa, Burgos 1982, pp. 484-488.

[38] Acta Conciliorum Œecumenicorum, t. I: Concilium Universale Ephesenum, vol. I: Acta Græca, pars III: Collectio Vaticana, ed. E. Schwartz, Walter de Gruyter, Berolini-Lipsiæ 1927, p. 60, linhas 32-34.

[39] Uma parte destas palavras do legado papal, o presbítero Felipe, foi retomada pelo Concílio Vaticano I, Const. Dogm. Pastor aeternus de Ecclesia Christi, cap. 2: DS 3056.

[40] Tractatus III in Natale eiusdem, 3: CCL 138, pp. 12-13

[41] “Durante anos, pela rua, rezei uma parte do Rosário pela Augusta Pessoa e pelas intenções do Romano Pontífice. Imaginava-me junto ao Santo Padre, quando o Papa celebrava a Missa; eu não sabia, nem sei, como é a capela do Papa, e ao terminar o meu terço fazia uma comunhão espiritual, desejando receber das suas mãos Jesus sacramentado” (Carta, 9-1-1932, n.º 20: citado por Ana Sastre, Tiempo de caminar. Semblanza de Monseñor Josemaría Escrivá de Balaguer, Rialp, Madrid 1989, pp. 331-332).

[42] Josemaria Escrivá, Forja, n.º 647.

[43] At 12, 5.

[44] “Pois todos os trabalhos, orações e empreendimentos apostólicos, a vida conjugal e familiar, o trabalho de cada dia, o descanso do espírito e do corpo, se realizados no Espírito, e os próprios incómodos da vida, suportados com paciência, tornam-se em outros tantos sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo (1 Ped. 2,5), que na celebração da Eucaristia, com a oblação do Corpo do Senhor, são piedosamente oferecidos ao Pai.” (Concílio Vaticano II, Const. dogm. Lumen gentium, 34b).

[45] João Paulo II, Carta apost. Salvifici doloris, 11-II-1984, n.º 27.

[46] Ap 8, 3-4.

[47] Álvaro del Portillo, Homilia do 27 de junho de 1988: "Romana", 6 (1988/1) 108.

[48] Mt 16, 18.