O Espírito da Juventude

A 29 de setembro de 1939, numa modesta tipografia de Valência que já não existe (Gráficas Turia, na Rua Pintor Salvador Abril) foi publicada a primeira edição de Caminho. O seu autor era o jovem sacerdote Josemaria Escrivá.

Opus Dei - O Espírito da Juventude

Levante EMV O espírito da juventude

“És calculista. Não me digas que és jovem. A juventude dá tudo quanto pode; dá-se a si mesma sem medida”. (Caminho, n. º 30)

A 29 de Setembro de 1939, numa modesta tipografia de Valência que já não existe (Gráficas Turia, na Rua Pintor Salvador Abril) foi publicada a primeira edição de Caminho. O seu autor era o jovem sacerdote Josemaria Escrivá.

Tratava-se de uma edição revista e atualizada de outra anterior, muito mais pequena e simples, publicada em 1936. Contém frases breves, incisivas, que bebem no inesgotável manancial do Evangelho, nas quais se descobre o eco da sua pregação oral e da sua rica experiência na orientação cristã das pessoas.

São Josemaria desejava colocar à disposição dos jovens que se aproximavam do seu incipiente apostolado textos cuja leitura os ajudaria a pensar, a examinar a própria vida na presença de Deus, a descobrir luzes e sombras, e a encher-se de desejos de serem melhores pessoas.

Os jovens, protagonistas da evangelização

O filósofo Alejandro Llano, ao recordar a especial preocupação de S. Josemaria Escrivá pela formação da juventude, fez notar que é significativo que os anos fundacionais do Opus Dei (1928-1975) tenham coincidido com a grande mudança social que cristalizou na revolução de Maio de 68, que desejava abrir caminho a um modo mais livre e espontâneo de viver a própria existência, de pôr a política e a economia ao serviço da pessoa e não o contrário.

Esse movimento efervescente que culminou em 1968 veio a coincidir com o despertar que provocavam nas consciências de muitos jovens as palavras de S. Josemaria, desde o início da sua pregação em 1925, fazendo-os sentir-se chamados a serem protagonistas da evangelização e a participar no amadurecimento cristão dos seus companheiros.

Conta o professor Llano que, quando no final dos anos 50, sendo adolescente, começou a frequentar um centro do Opus Dei, ouviu dizer pela primeira vez na vida que ser santo não era algo para quando fosse adulto mas para já, de forma peremptória, com responsabilidade pessoal. «Até então todos me tratavam como alguém sem grande responsabilidade».

Uma vida cristã com dimensões sociais

Para o autor de Caminho, a juventude não é uma mera etapa de preparação para a maturidade. A maturidade não chegará se não se começam a viver já as virtudes humanas (solidariedade, alegria, laboriosidade, fortaleza, generosidade), e com elas as sobrenaturais, com responsabilidade pessoal. É nesse esforço por adquirir virtudes que se formam de uma maneira decisiva personalidades maduras.

Em Caminho, como na sua pregação oral, as palavras de S. Josemaria Escrivá mergulham no Evangelho. Sentirmo-nos como mais um personagem entre aqueles que escutam Jesus, um daqueles jovens sentados ao redor do Mestre, que O escutam porque fala com simplicidade e autoridade do Reino de Deus e do nosso papel na sua realização na terra.

Em Caminho ouve-se falar de abertura à solidariedade, que não consiste em meras palavras mas se concretiza em obras de serviço. Percebe-se que a vida cristã tem dimensões sociais para além do meramente devocional, e aprende-se a tomar consciência da livre responsabilidade dos leigos, cristãos correntes, na orientação da vida pública.

Um livro de fogo porque nos aproxima de Jesus Cristo

Aqueles jovens liam e refletiam sobre valores que neste momento milhares de jovens de todas as raças tratam de fazer seus. O primeiro valor é que todos somos filhos de Deus, e que sabê-lo nos enche de alegria. Que Deus é um pai com quem podemos falar serenamente em diálogo íntimo e pessoalíssimo. Que o estudo ou o trabalho não são uma imposição incómoda, mas ocasião de encontro com Deus e de serviço aos outros, enquanto tratamos de construir um mundo melhor. Que a pobreza, mais do que ser proclamada, é para ser vivida. Que um cristão pode e deve ser apóstolo entre os seus amigos e companheiros. E que ninguém os vai pressionar para assumirem esses desafios; tem que ser uma decisão livre.

«Procuraremos conseguir que, nos nossos jovens, esteja a profunda palavra sobrenatural que move, que incita, que é a expressão de uma disposição vital comprometida; nunca a repetição grotesca e insípida de frases e palavras, que não podem ser de Deus».

Essa profunda palavra sobrenatural é a que emerge das páginas de Caminho. É um livro de fogo porque nos aproxima de Jesus Cristo, verdadeiro protagonista. Por isso Caminho continua a incendiar tantos corações jovens, fascinados pelo encontro com Jesus, que nos convida a segui-l’O para transformar a nossa vida numa aventura, a acabar com as lamúrias de uma sociedade materialista e consumista, a dispormo-nos a trabalhar com otimismo e capacidade de inovar por um mundo mais justo e mais humano. Abertos ao futuro, que em bom cristão significa também um olhar constante para a eternidade.

Hoje, Caminho é um clássico da literatura espiritual, de que já foram publicados mais de cinco milhões de exemplares em cinquenta e duas línguas. E a Valência cabe a honra de ter visto nascer esta obra universal, faz agora 80 anos. Universal pelo seu alcance geográfico, mas sobretudo pela marca de bem que tem deixado e continua a deixar em tantos corações jovens, incluindo não cristãos, de todas as raças e nações.