Monsenhor, bom dia e bem-vindo. Monsenhor Mariano Fazio, vigário auxiliar do Opus Dei.
O livro intitula-se “Protagonistas do bem comum. São Josemaria Escrivá e os cristãos na sociedade contemporânea”. É uma forma não só de percorrer a herança que Escrivá nos deixou, mas também de a situar na sua dimensão real, porque ser cristão não significa estar afastado do mundo, mas viver no mundo.
Claramente. Pareceu-me importante escrever um livro sobre este tema porque hoje se fala bastante pouco do bem comum. Vivemos numa sociedade muito individualista e, por isso, penso que tomar consciência da responsabilidade dos cristãos de ajudar a construir uma sociedade mais de acordo com o projeto de Deus é bastante urgente.
De que modo o fundador do Opus Dei dava, por assim dizer, coordenadas aos cristãos?
Sim. Sobretudo, a sua mensagem foi a chamada universal à santidade. Isto era algo bastante geral no início do século XX, mas o específico era que o Senhor chama a maioria dos cristãos a santificar-se no meio das circunstâncias ordinárias da vida. E aí o Senhor pede-nos coerência. Devemos ser bons cristãos não só na igreja, na capela ou nas associações católicas – também aí –, mas sobretudo na família, no trabalho e em todas as relações sociais, etc. Em suma, ser católicos a cem por cento. Utilizava uma imagem: a unidade de vida. Não podemos ter uma dupla personalidade: católicos na igreja e, fora dela, fazer o que nos parece melhor segundo os nossos próprios interesses. É preciso dar testemunho em todas as dimensões da vida.
Em tudo isto sublinha-se também a importância da condição laical. Não é algo que diga respeito apenas a quem abraça uma vocação sacerdotal ou religiosa, mas refere-se realmente a todos.
Totalmente. O Senhor chama todos à santidade. A alguns concede a vocação sacerdotal ou religiosa, mas todos temos uma vocação à santidade e, na grande maioria dos casos, esta vive-se na vida quotidiana de cada dia. Penso que este é também o ponto mais central do Concílio Vaticano II. Ontem soube que D. [Erik] Varden, que está a pregar o retiro ao Papa e à Cúria romana, sublinhou precisamente este aspeto do Concílio: a chamada universal à santidade.
Nesse sentido, o livro não é um conjunto de regras teológicas, mas antes uma forma de aprofundar o compromisso real de um cristão. Se quisermos dar algumas coordenadas concretas, o que seria necessário fazer?
É difícil fazer um resumo, mas parece-me que, antes de mais, devemos amar o mundo sem ser mundanos. O Papa Francisco falava muito da tentação da mundanidade. Nós estamos no mundo para o transformar, e para mudar uma realidade é preciso primeiro amá-la. Por isso, é necessário amar o mundo para tentar transformá-lo e torná-lo mais de acordo com os projetos de Deus para a nossa sociedade.
Depois, ter responsabilidade social, isto é, dar-nos conta de que cada um de nós, nas diversas situações, tem a responsabilidade de mudar este mundo, de ajudar os mais frágeis e os mais pobres, de levar a mensagem do Evangelho a todas as estruturas da sociedade, etc.
E também capacidade de diálogo. Isto parece-me fundamental. Hoje vivemos numa sociedade – e não só em Itália, mas em todo o mundo – em que há uma forte polarização e perdemos a capacidade de dialogar.
O cristão deve ser uma pessoa de diálogo, aberta, respeitando todos. E, além disso, não basta viver apenas a justiça – que é fundamental, é o ponto de partida –; a justiça deve ser complementada com a caridade. Penso que, seguindo os passos do Senhor, podemos construir uma sociedade onde haverá sempre limites, porque somos humanos, mas onde, com a caridade, a vida é muito mais bela e podemos viver com mais paz, serenidade e esperança.
Há uma palavra que talvez hoje seja menos utilizada: profissionalismo. O chamamento cristão implica também ser profissional, por exemplo no âmbito do trabalho, algo que por vezes não se associa diretamente a ser cristão.
Sem dúvida. São Josemaria falava muito da santificação do trabalho. E como se santifica o trabalho? Antes de mais, trabalhando bem. Um advogado, um arquiteto, uma dona de casa, uma médica, um funcionário público, devem ter, antes de mais, um forte espírito de serviço: estou aqui a exercer a minha profissão para servir os outros. E isto penso que também altera muito as relações sociais. E depois, trabalhar bem, isto é, ser um bom médico, um bom arquiteto, uma boa enfermeira. Trabalhar bem significa também estudar, formar-se, etc.
Creio que isto ajudará muito também à evangelização da sociedade, porque ver uma pessoa católica que, além disso, é bom profissional, torna-se algo muito atraente. Não podemos ser bons fiéis e, ao mesmo tempo, profissionais medíocres.
São Josemaria dizia que é preciso colocar Cristo no cume de todas as atividades humanas, não por vaidade nem por superioridade, mas para servir todos os outros.
Por isso, santificar o trabalho.
Unir fé, serviço, trabalho e ação significa também ter um elemento que une todas estas partes da pessoa humana, e esse elemento é a coerência.
Sim. Recordo que há muitos anos, antes da sua eleição, João Paulo I escrevia alguns artigos, acho que era no Messaggero di Sant’Antonio. O último artigo era sobre São Josemaria e citava Étienne Gilson, um grande filósofo tomista francês, que dizia: «As catedrais medievais foram feitas pela fé, mas também por grandes arquitetos, que eram grandes matemáticos». É preciso juntar a fé e a matemática, e penso que esta é uma mensagem muito atrativa e muito atual.
Falar de santidade no quotidiano, no trabalho e na vida diária recorda-nos também a “santidade da porta ao lado” de que falava o Papa Francisco, de quem também foi amigo. Para concluir a nossa conversa desta manhã, poderia partilhar uma recordação sua do Papa Francisco?
Tenho muitíssimas recordações. Vem-me agora à mente uma. Uma vez estive com ele e contei-lhe que tinha feito duas viagens: uma à Costa do Marfim e outra às Filipinas. O Papa disse-me: “Bom, vejo que estás a dar a volta ao mundo”. Eu respondi-lhe: “Sim, mas a culpa é sua, porque diz que é preciso estar perto de todas as pessoas. No Opus Dei, temos muitas pessoas em todo o mundo e por isso tive de fazer estas viagens. Mas não se preocupe, porque aproveito as viagens para falar muito do Papa”.
Então mudou um pouco a expressão, ficou um bocado sério e disse-me: “Seria melhor falar menos do Papa e mais de Jesus”. Respondi-lhe: “De acordo, percebi, obrigado”.
Isto mostra a centralidade de Cristo e também a humildade do Papa.
