Nesta entrevista exclusiva, que apresentamos, Claudio Caruso conversa com o prelado da Obra, Mons. Fernando Ocáriz, num diálogo profundo que percorre os desafios da família contemporânea, o verdadeiro impacto da instituição nos seus primeiros cem anos de vida e a vitalidade da Igreja em continentes como o africano.
São Josemaria nasceu numa família praticante. Começou o seu apostolado entre jovens, muitos deles provenientes de famílias católicas. Mas ao longo da sua vida, a Obra desenvolveu-se noutros países, onde a realidade era diferente. E falava até do apostolado “ad fidem”. Que considera ser a chave do apostolado em ambientes onde a família não só contribui pouco para a fé, mas está até desagregada? Neste sentido, como se poderia promover na sociedade famílias que fossem “lares luminosos e alegres”, como dizia São Josemaria?
Desde o primeiro momento, São Josemaria deu grande importância à amizade como lugar privilegiado de evangelização, pois é aí que se partilha o Evangelho de coração a coração. Nesses laços de amizade, a fé vai-se expandindo às famílias, aos colegas, aos vizinhos… e abre novos horizontes a cada pessoa. Assim imaginava ele o papel dos primeiros cristãos, que mostravam com naturalidade a sua amizade com Cristo através de uma alegria contagiante. E isto continua plenamente atual. O encontro com Jesus lança os alicerces para construir o próprio projeto de vida: ajuda a acreditar no amor para sempre, reconhece nos filhos uma bênção, dá forças para cuidar dos mais velhos e dos doentes. As famílias cristãs são também chamadas a ajudar muitas outras famílias.
São Josemaria dizia que a Obra existe para servir a Igreja. Qual considera ser o principal serviço prestado pela Obra à Igreja nestes primeiros cem anos?
O principal contributo do Opus Dei está ligado à essência do espírito que Deus quis difundir através da Obra desde 1928: uma multidão de pessoas que querem amar a Deus no seu dia a dia, procurando que o Evangelho dê sentido ao seu trabalho e ao seu descanso, às relações com familiares e colegas, contribuindo para humanizar – e cristianizar – os pequenos e grandes sofrimentos da vida, bem como as alegrias e os desafios que surgem, transformando o trabalho quotidiano num serviço generoso, numa sementeira de paz e de alegria cristã em todos os ambientes.
Seria mais fácil responder a esta pergunta a partir dos projetos institucionais e apontar a inspiração que a mensagem do Opus Dei deu origem a tantas iniciativas educativas, formativas, solidárias e assistenciais em muitos lugares do mundo. Poderiam citar-se exemplos variados, como o Strathmore College, no Quénia, o primeiro colégio inter-racial de África, que começou em 1961 impulsionado pelo espírito de São Josemaria; centros de formação profissional na América do Sul, uma escola de direção no México ou um colégio universitário em Espanha. Estando em Roma, é conhecido o trabalho da Pontifícia Universidade da Santa Cruz, um centro de estudos eclesiásticos que já formou estudantes de 129 países provenientes de mais de 1200 dioceses.
No entanto, sem diminuir o valor destas iniciativas, encheu-me de gratidão voltar a constatar – depois de escutar mais de 50 mil vozes de 70 países – que o caminho mais fiel para servir a Igreja a partir do nosso espírito é identificar-nos de tal modo com Cristo que tenhamos os mesmos sentimentos d’Ele, para não permanecermos indiferentes às vicissitudes do nosso mundo e comprometermos a própria vida na resposta às aspirações e necessidades de todos.
Os cem anos da Obra são um momento de ação de graças, de reflexão e de olhar em frente: como vê a Obra projetada nos próximos anos?
O meu sonho para os próximos anos é que o centenário da fundação do Opus Dei seja uma ocasião para que cada uma e cada um se renove interiormente e, a partir dessa renovação interior – que implica também reconhecer os erros e retificar –, possamos servir melhor a Deus, à Igreja e a todas as pessoas, inspirando a transformação do mundo segundo o coração de Cristo.
Que haja pessoas do Opus Dei por detrás dessas famílias unidas porque souberam pedir perdão umas às outras. Que haja jornalistas que dizem a verdade, docentes empenhados em ensinar com humildade e valentia; idosos alegres e jovens solidários; casais que inspiram os seus filhos na fé; doentes que levam as suas dores com serenidade; médicos que tratam os seus pacientes com humanidade, e engenheiros que investem as suas melhores capacidades em resolver os problemas dos mais vulneráveis, ainda que não seja o negócio mais rentável.
Estes são os meus sonhos para os próximos anos: que a Obra seja uma grande catequese para ajudar a tornar realidade a santidade na vida de todos os dias e «contribuir para que o amor e a liberdade de Cristo presidam a todas as manifestações da vida moderna» (São Josemaria, Sulco, n. 302).
O Papa realizou uma viagem a África, passando por vários países durante dez dias. Quais foram, na sua opinião, os principais temas dessa visita?
A intensa viagem apostólica de dez dias pela Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial foi uma manifestação eloquente da solicitude do Papa e da Igreja por todo o género humano e, de modo particular, pelo continente africano, uma terra de esperanças e desafios igualmente grandes. Ao mesmo tempo, constitui uma oportunidade para renovar a gratidão, o afeto filial e a oração constante pelos frutos do pontificado.
Em cada viagem, o Santo Padre é testemunha do Evangelho e da proximidade de Deus às pessoas que o recebem. Reiterou a sua mensagem de paz e reconciliação como resposta cristã aos conflitos. A sua peregrinação à terra de Santo Agostinho revela-nos a sua própria identidade como filho espiritual do santo de Hipona e convida-nos a procurar em Jesus Cristo as respostas para as nossas inquietações existenciais. As celebrações litúrgicas multitudinárias e cheias de alegria – como a comovente Missa de encerramento em Malabo – demonstram que a Igreja em África transborda de vitalidade. O Papa recordou-nos a todos que este continente é um verdadeiro pulmão espiritual e um tesouro de fé para o mundo inteiro.
E que espera a Obra dos apostolados nesse continente?
A resposta breve é que esperamos muitíssimo, tanto em projetos de formação como na fidelidade pessoal a Jesus Cristo. Ambos os sentidos são importantes, mas no Opus Dei damos uma importância primordial à espontaneidade apostólica de cada pessoa, à sua iniciativa livre e responsável, guiada pelo Espírito Santo.
São Josemaria amava profundamente África, com a sua grande variedade de culturas e povos, e intuía o imenso bem que os seus homens e mulheres trariam à sociedade e à edificação da Igreja. Convidava-nos frequentemente a sonhar com grandes ideais. O que mais me entusiasma na tarefa do Opus Dei em África é a vida dos africanos que vivem o espírito da Obra. O Opus Dei não está em África como algo de exterior; há já quase 70 anos que africanos de diferentes países vivem o espírito do Opus Dei, com o seu próprio estilo, na sua própria realidade. O Opus Dei é africano porque é católico, universal, como a mensagem do Evangelho. E já estamos a ver como o Opus Dei se expande de África para outros lugares do mundo, levando um testemunho vibrante de fé e de alegria.
No próximo mês de junho, o Papa Leão visitará Espanha pela primeira vez. Como considera que nos devemos preparar para esse acontecimento no país de nascimento da Obra?
O lema da viagem – “Levantai o olhar” – é um convite a olhar para a nossa realidade saindo das lógicas humanas e entrando nesta visão sobrenatural que o amor de Deus nos oferece. Aproximando-nos d’Ele nos mais necessitados, com gestos e obras de misericórdia, preparamos o coração para receber Jesus neles: «Tudo o que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes» (Mt 25, 40).
São Josemaria chamava ao Papa, evocando Santa Catarina de Sena, o “doce Cristo na terra”. Outra forma fundamental de preparar-nos para receber a visita do Santo Padre é rezar pela sua pessoa e pelos frutos da viagem, para que os corações de todos estejam abertos a escutar as suas palavras, acolhê-las com devoção e, depois, fazê-las ecoar em todos os cantos da sociedade. A fé cristã tem grandes implicações sociais e isso costuma estar presente numa viagem de um Romano Pontífice, que é também uma viagem de Estado. Mas o principal, o essencial, é que o Papa nos ajuda a encontrar-nos com Jesus Cristo. Só em Jesus Cristo e com Jesus Cristo a vida tem sentido e os desafios da humanidade podem ser olhados com esperança.
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