Homilias do prelado do Opus Dei na Semana Santa

Facultamos as homilias que Mons. Fernando Ocáriz pregou durante o Tríduo Pascal.


Vigília do Domingo de Páscoa, 17 de abril de 2022

«No primeiro dia da semana, ao romper da manhã, as mulheres que tinham vindo com Jesus da Galileia foram ao sepulcro, levando os perfumes que tinham preparado» (Lc 24, 1). As mesmas mulheres que tinham seguido o Senhor até à cruz são as que agora vão embalsamar o corpo morto de Jesus. Um gesto que mais ninguém se atreveu a fazer por medo das autoridades. Nem o povo que O aclamou quando entrou em Jerusalém, nem sequer os apóstolos: apenas estas mulheres. A sua atitude valente revela a missão do génio feminino no mundo; em palavras do Papa Francisco: «ensinam-nos a valorizar, a amar com ternura, fazendo do mundo uma coisa bela» (Francisco, Homilia, 9-2-2017). Enquanto o resto dos seguidores de Jesus permaneciam fechados no seu desespero, elas queriam ter este último pormenor de afeto pelo corpo do Senhor. Estavam convencidas de que desta forma o mundo, mesmo no meio da mais completa escuridão, seria um pouco mais formoso.

Deus, porém, tinha uma surpresa reservada para estas mulheres. Em lugar do corpo morto de Jesus, encontraram dois anjos que lhes disseram: «Porque buscais entre os mortos Aquele que está vivo?» (Lc 24, 5). Quem segue Cristo com fidelidade está aberto a surpresas deste tipo. Ele excede sempre as nossas expectativas, os nossos desejos, os nossos planos. Estas mulheres contentavam-se em dizer um último adeus ao seu Senhor e, de repente, deparam-se com esta notícia: Jesus vive. Tão desconcertadas e assustadas estavam elas que tão-somente «inclinaram o rosto para o chão» (Lc 24, 5). Mas, ao recordarem as palavras de Jesus, nas quais dizia que convinha que fosse crucificado para que ressuscitasse, o temor converte-se rapidamente em alegria. E esta foi a sua reação: anunciar a todos que Jesus tinha ressuscitado. De certo modo, pode dizer-se que elas foram apóstolos de apóstolos.

Esta tarefa não foi algo imposto, mas a coisa mais natural que podiam realizar. É o impulso espontâneo de quem recebeu um dom que enche o coração e muda a vida: Cristo vive. Este é o fundamento da nossa fé, da nossa esperança, do nosso amor: Jesus ressuscitou. Quebrou as cadeias da morte. O mal já não tem a última palavra, mas sim o Filho de Deus. Nós, cristãos, como estas mulheres, comunicamos esta realidade aos outros: Deus manifestou-nos o seu imenso amor em Cristo morto e ressuscitado por cada um de nós.

«Que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos, para glória do Pai – escreve S. Paulo –, também nós vivamos uma vida nova» (Rm 6, 4). A ressurreição de Jesus renovou toda a nossa vida. Esta segurança torna fecundo todo o nosso atuar, ainda que muitas vezes não seja totalmente visível. Esta é a força da nova vida da ressurreição.

«Porque buscais entre os mortos Aquele que está vivo?» (Lc 24, 5). Esta nova vida faz com que o centro dos nossos anseios e dos nossos desejos mais profundos se encontre no Senhor. Se baseássemos a nossa felicidade nas coisas aqui de baixo – no prazer, no êxito, na riqueza... – seria como se estivéssemos à procura entre os mortos daquele que vive. Cristo convida-nos a olhar para cima, a viver com a certeza de nos sentirmos sempre amados por Ele. Esse amor, que não muda, realiza os desejos mais profundos do nosso coração.

Como dizia S. Josemaria, a ressurreição «revela-nos que Deus não abandona os seus, (...) continua a ter as suas delícias entre os filhos dos homens». Cristo permanece entre nós na sua Igreja, especialmente na Eucaristia, «raiz e consumação da sua presença no Mundo» (S. Josemaria, Cristo que passa, n. 102). E permanece também em cada um de nós, tal como prometera aos apóstolos: «Se alguém Me ama, guardará a minha palavra, meu Pai O amará e faremos nele a nossa morada» (Jo 14, 23). O cristão está chamado à identificação com Cristo: a pensar, reagir e atuar como o Senhor o faria; em suma, a procurar a união com Jesus em tudo o que fazemos.

Podemos pensar que a primeira pessoa a quem Jesus ressuscitado apareceu foi a sua Mãe. Durante os três dias anteriores, Ela aguardaria esse momento com uma esperança que haveria de explodir em alegria ao tê-Lo de novo com Ela. Podemos pedir a Nossa Senhora que saibamos também estar com Jesus ressuscitado com essa mesma alegria, sabendo-nos abertas e abertos a uma vida nova.


Sexta-feira Santa, 15 de abril de 2022

Acabámos de ler o relato da Paixão e acompanhámos Jesus desde Getsémani até ao Calvário. De entre todas as personagens que aparecem neste caminho, gostaria de deter-me em três, aos quais Jesus dirige um olhar especial: Pedro, João e a Virgem Maria.

O Pedro que aqui presenciamos é distinto do da Última Ceia. Naquele momento vimos um Pedro enérgico, capaz de fazer o que for preciso pelo Senhor: «Eu estou pronto a ir contigo, até para a prisão e para a morte» (Lc 22, 34). Tinha-o dito com plena convicção. De facto, vemos esta intenção posta em prática no Horto das Oliveiras: desembainhou a espada e com esta feriu o servo do sumo sacerdote. Queria defender o Mestre, mesmo à custa do risco que tal gesto implicava.

No entanto, no momento da prova, enquanto Jesus estava a ser interrogado, mostra-se incapaz de dar a cara pelo seu Senhor, e jura não o ter conhecido. As lágrimas amargas depois mostram a sua dor e marcam o começo da sua conversão. A partir de então, já não confiará tudo às suas qualidades, mas à sua contrição. Pedro será agora muito mais Rocha do que antes porque está mais consciente da sua debilidade e da grandeza do amor de Deus. O olhar que Jesus lhe dirigiu, como viria a fazer mais tarde na margem do lago, não é de reprovação, mas de confirmação no seu papel como cabeça da Igreja, «um olhar que toca o coração e dissolve as lágrimas do arrependimento» (Francisco, Homilia, 29-VI-2016).

De João sabemos que era «o discípulo amado». Foi aquele apóstolo adolescente que «amava Cristo com toda a pureza e toda a ternura de um coração que nunca se corrompera» (S. Josemaria, Amigos de Deus, n. 266). Desde muito cedo, Cristo se tinha convertido no centro da sua existência, e é por isso que o encontramos muito próximo d’Ele durante toda a Paixão até à morte na cruz. Não se importava que o reconhecessem como um dos seus discípulos.

João mostra-nos assim um testemunho valente e sem complexos que não teme dar a cara pelo Senhor no momento mais difícil. Vemo-lo no meio da multidão durante o julgamento, na flagelação, no caminho para o Calvário. Quando talvez o mais simples teria sido fugir, como os outros, permanece. Sem medo do ambiente, mostra-se tal como é: um enamorado de Cristo. Jesus, crucificado, seguramente lhe terá dirigido um olhar agradecido pela sua fidelidade e, acima de tudo, por se encontrar a cuidar da Virgem Maria naquele dia de dor. Por isso exclamou: «Eis a tua Mãe» (Jo 19, 27).

Isto leva-nos a pôr agora os nossos olhos na Virgem. Chegou o dia em que se tornou realidade a profecia de Simeão: «Uma espada trespassará a tua alma» (Lc 2, 35). Não há dor como a sua dor. Mas não foge. Tal como o seu Filho, que abraçou a cruz que lhe ia causar a morte, Ela abraça também a sua Paixão e acompanha Jesus em cada um dos seus sofrimentos. «Quem fizer a vontade de meu Pai, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe» (Mt 12, 50). Maria é a Mãe de Jesus não só no sentido físico, mas também pela sua perfeita união à vontade de Deus, que abraça agora sem reservas.

A sede que o Senhor tem nesses momentos é sede da nossa salvação, da nossa felicidade. E ao contemplar agora a sua Mãe, encontra n’Ela um olhar de consolo que alivia essa sede. Com a sua mera presença Maria ofereceu-lhe o maior dos consolos. Por isso Cristo nos entregou a sua Mãe, para que nós também possamos encontrar n’Ela o mesmo consolo.

Jesus também dirige estes olhares a cada um de nós. Quando o negamos como Pedro, Ele olha para nós convidando-nos a ser fiéis à nossa vocação de cristãos. E, tal como a João, olha-nos com carinho agradecido quando, com um coração indiviso, O seguimos com fidelidade nos momentos mais sombrios. E, tal como à Virgem Maria, olha-nos com o desejo de encontrar em nós o mesmo consolo que encontrou na sua Mãe.

* * *

O prelado pronunciou as seguintes palavras em inglês:

No seu caminho para o Calvário, Jesus olha para três pessoas de uma forma especial: Pedro, João, e Nossa Senhora.

Pedro tinha dito na Última Ceia que faria o que fosse preciso por Nosso Senhor, e depois vemos que é incapaz de dar a cara por Ele. As lágrimas amargas de Pedro testemunham a sua tristeza e marcam o início da sua conversão. Jesus olha para ele. O seu olhar não é de reprovação, mas uma confirmação do papel de Pedro como chefe da Igreja.

Quanto a João, sabemos que ele era o "discípulo amado". Desde muito cedo, Cristo tinha-se tornado o centro da sua existência. É por isso que encontramos João muito próximo do nosso Senhor ao longo de toda a Paixão. Jesus certamente olhou para João com gratidão da cruz, tanto pela sua fidelidade como particularmente por ter cuidado de Nossa Senhora nesse dia de dores.

Quando olhamos para Nossa Senhora, vemos que não há tristeza como a sua tristeza. Mas Ela não foge. O seu filho abraçou a cruz que o iria levar à morte, e Ela também abraça a Paixão e acompanha Jesus em todos os seus sofrimentos. Quando Jesus contempla a sua Mãe, encontra n'Ela um olhar consolador que traz algum alívio à sua tristeza. É por isso que Ele no-La-quis dar, para que também possamos encontrar n’Ela a mesma consolação.


Quinta-feira Santa, 14 de abril de 2022

«Sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao extremo». Nestes dias do Tríduo Pascal vamos reviver este "amor extremo" de Jesus. Um amor que não é abstrato, mas concreto, manifestado constantemente durante a sua existência terrena.

Como demonstra Jesus esse amor sem limites? Em primeiro lugar, S. João assinala que deitou água numa bacia e começou a lavar os pés dos seus discípulos. Jesus realiza um trabalho próprio dos escravos. Ele próprio já o tinha dito antes: «O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir» (Mt 20, 28). Quando os apóstolos discutiam sobre quem seria o maior, Jesus disse que «aquele que quiser entre vós ser o primeiro, será vosso escravo» (Mt 20, 27). Com este gesto de lavar os pés, o Senhor faz-se servidor de todos. «Enquanto os grandes da Terra constroem “tronos” para o próprio poder – diz o Papa Francisco –, Deus escolhe tronos incómodos, a cruz, do qual reinar dando a vida» (Angelus, 21-X-2018). O serviço não é algo humilhante, mas aquilo que podemos fazer de mais elevado, pois encarna o estilo de vida de Cristo.

Mas o amor de Jesus não se ficou apenas por este gesto. Na segunda leitura, escutámos o relato da Última Ceia pela mão de S. Paulo. «Na noite em que ia ser entregue, tomou o pão e, dando graças, partiu-o e disse:
“Isto é o meu corpo, entregue por vós.
Fazei isto em memória de Mim”» (1 Cor 11, 24). Jesus ficou connosco para sempre. S. Josemaria usava a imagem das fotografias entre os enamorados como um símbolo que recorda a outra pessoa quando a vida as separa. Mas o que Jesus Cristo nos deixou não é simplesmente uma imagem ou uma recordação: «Fica Ele mesmo. Embora vá para o Pai, permanece entre os homens» (Cristo que passa, n. 83).

Jesus conhece as nossas debilidades; ao fazer-se homem, quis experimentar os limites da natureza humana, à exceção do pecado. Sabe que estamos a atravessar dificuldades e sofrimentos. Por isso, o seu amor extremo levou-O a dar-se a Si mesmo como alimento, que nos fortalece. Cada vez que O recebemos, unimo-nos a Ele, transformamo-nos n’Aquele que é amor vivo. «Quando nos alimentamos com fé do seu Corpo e do seu Sangue, o seu amor vem a nós e torna-nos capazes (…) de dar a vida pelos fiéis e não de a termos para nós mesmos» (Bento XVI, Angelus, 18-III-2007).

Na primeira leitura, recordámos a instituição da Ceia Pascal, memória da libertação da escravidão no Egito. Trata-se de uma imagem profética da Páscoa de Cristo, que liberta o mundo do pecado. A Paixão é o culminar do amor extremo de Jesus pelos homens: «Não há maior prova de amor do que dar a vida pelos amigos» (Jo 15, 13). Um pai, quando vê o filho sofrer, sofre com ele, e faz tudo o que está ao seu alcance para aliviar essa dor. E Deus, vendo-nos escravos do pecado, não hesitou em enviar o seu único Filho para nos dar uma libertação mais profunda do que a vivida pelo povo de Israel: a liberdade dos filhos de Deus. Já não estamos à mercê do maligno. Jesus, com a sua Paixão, derrotou o príncipe deste mundo. E agora também nós podemos repetir com S. Paulo: «Tudo posso n’Aquele que me conforta» (Fl 4, 13).

Jesus ama-nos até ao extremo. Sem limites, mas de um modo concreto. Lava-nos os pés em cada confissão, purificando-nos dos nossos pecados. Oferece-Se-nos como alimento na Eucaristia, para que encontremos forças na luta diária para viver como filhos de Deus. Hoje podemos pedir à nossa Mãe Santa Maria que saibamos acolher sem limites esse amor extremo do seu Filho.

* * *

O prelado pronunciou as seguintes palavras em inglês:

Durante o Tríduo Pascal, recordamos o amor extremo de Jesus. O seu amor não é abstrato - torna-se concreto antes de mais na lavagem dos pés. Cristo empreende uma tarefa que estava reservada aos escravos. Ao fazê-lo, ele torna-se o servo de todos nós. O serviço não é humilhante, mas a atividade mais elevada que podemos fazer, porque encarna a forma como Cristo viveu.

Vemos também a radicalidade do seu amor na sua decisão de permanecer connosco na Eucaristia. Ele conhece a nossa debilidade. Ele sabe que passamos por tempos difíceis e de sofrimento. E precisamente esse seu amor ilimitado o levou a oferecer-se a nós como alimento, para nos ajudar a fortalecer. Cada vez que o recebemos unimo-nos a ele, transformamo-nos n’Aquele que é o Amor vivo.

A Paixão é o culminar do amor extremo de Jesus pelos homens. Quando Deus nos viu escravizados pelo pecado, não hesitou em enviar o seu único Filho, para nos oferecer a liberdade no sentido mais profundo da palavra: a liberdade dos filhos de Deus. Já não estamos à mercê do maligno.

O amor de Jesus até ao extremo. Não tem limites e é sempre concreto. Lava-nos os pés em cada confissão, purificando-nos dos nossos pecados. Oferece-Se-nos como alimento na Eucaristia, para que encontremos forças na nossa luta diária para amar como filhos de Deus. Que saibamos sempre acolher esse amor extremo sem lhe impor quaisquer limites. Pedimos a Maria, nossa Mãe, que nos ajude nesta tarefa.