Homilia da Missa em Fátima nos 90 anos do Opus Dei

Reproduzimos o vídeo (10 minutos) e o texto da homília do Pe. José Rafael Espírito Santo na Eucarístia que presidiu em Fátima no dia 6 de Outubro.

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Caríssimas irmãs e caríssimos irmãos:

Há 90 anos Deus depositou a semente do Opus Dei no coração jovem de S. Josemaria. Pouco tempo depois ele registou esse momento em que Deus o iluminou sobre toda a Obra: “Comovido, ajoelhei-me (…) e recordo com emoção o repicar dos sinos da paróquia de Nossa Senhora dos Anjos”. Hoje, nós ajoelhamos, comovidos, aos pés da Nossa Mãe, a Senhora de Fátima. É como se ainda hoje ouvíssemos no coração o ressoar dos sinos, em louvor da Santíssima Trindade, honrando Santa Maria, os Santos Anjos, todos os Santos do Céu.

Damos graças a Deus porque o que S. Josemaria viu então, é o que nós estamos a ver.

Aqui, a Fátima, S. Josemaria veio muitas vezes refugiar-se, encher-se da força de Deus, amar e agradecer. Hoje, aniversário da canonização de S. Josemaria, pedimos-lhe os seus mesmos sentimentos de peregrino. Deste modo, receberemos uma nova esperança.

Nesta ocasião pode ajudar-nos o que S. João Paulo II disse no Jubileu do ano 2000: “Duc in altum! Estas palavras ressoam hoje aos nossos ouvidos, convidando-nos a lembrar com gratidão o passado, a viver com paixão o presente, abrir-se com confiança ao futuro” (Novo millenio ineunte, n. 1).

Agradecemos a Deus todos os seus dons, tudo o que nos concedeu ao longo destes 90 anos. A “história das misericórdias de Deus” (como S. Josemaria se referia à história do Opus Dei) sabemos que é também a história da nossa vida pessoal. Deus cuida de cada um de nós, prepara o caminho que previu para cada um desde a eternidade: Ouvimos na segunda leitura: “do alto dos Céus nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo” “nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos” “nos predestinou” “a fim de sermos seus filhos”. Por isso, a nossa fé tem de ser, como refere o Papa Francisco na “Alegria do Evangelho”, uma memória agradecida, que está ligada à esperança, e por isso é memória do futuro (cf. Evangelii gaudium, n. 13).

Esta gratidão leva-nos a viver com paixão o presente. E isto é importante pois quando olhamos com olhos meramente humanos para o mundo, para a Igreja, podemos ficar numa atitude pessimista, saudosista de um passado que já não volta. E vivermos o presente não com paixão, entusiasmo, mas com preocupação e desânimo.

A luz da fé em muitos lugares quase desapareceu e às vezes é mesmo perseguida. Em muitos ambientes Deus foi esquecido, posto de lado.

E temos também a atual situação da Igreja, que passa por dificuldades, fruto dos erros dos homens. Mas por isso é bom recordar e agradecer a garantia que Jesus nos deu: apoiados na Pedra, que é Pedro, as portas do Inferno não hão de prevalecer. A barca de Pedro é agitada por tempestades e as ondas ameaçam submergi-la, e é nestes momentos que queremos estar ainda mais unidos ao Santo Padre, procurando dar-lhe o conforto da nossa oração e afeto. Não há Cristo sem Igreja, e não há Igreja sem Pedro. Portanto vivemos com paixão o presente que nos cabe viver, recorrendo ao Céu com confiança. E assim, seguindo a sugestão do Papa, estamos a rezar com mais afinco o terço e a difundir a sua recitação, bem como a da oração “Sub Tuum Præsidium” e da oração a S. Miguel Arcanjo. Em 1970, S. Josemaria fez aqui em Fátima uma romaria penitente. Rezou o terço caminhando descalço, pedindo pela Igreja e pelo Opus Dei. A essa sua oração nos acolhemos para nos enchermos da força de Deus.

Deus depositou no nosso coração a mesma semente que confiou a S. Josemaria a 2 de outubro de 1928. Nós estávamos lá e a força que inundou o nosso Fundador também atua agora na nossa vida. Temos toda a graça de Deus, as graças convenientes, para aqui e agora fazer render o tesouro que Deus nos fez encontrar. A santificação da vida corrente; a união entre trabalho, apostolado e contemplação; mostrar Deus presente na família, na oficina, no escritório, na universidade, nos locais de diversão; dar testemunho da alegria e da beleza de saber-nos filhos de Deus, tornando a vida e o mundo mais humanos: tudo isso é a nossa missão! Foi-nos confiada e é mais necessária do que nunca.

Amamos este nosso mundo, veeemo-lo com os olhos de Deus. Sabemos, como dizia S. Josemaria, que Deus não cortou as suas mãos, e quer contar connosco.

Por isso, vivemos com paixão cada instante do presente e olhamos com audácia e confiança para o futuro. O Beato Álvaro disse num aniversário como este: “é uma excelente ocasião para recordar que sempre temos de caminhar com o espírito estimulante e cheio de novidade dos começos: aquele espírito com o que o nosso Fundador se lançou a realizar no dia 2 de outubro de 1928 a tarefa que Deus lhe confiava e que fazia dele a pessoa mais feliz do mundo, pela confiança com que o Nosso Pai do Céu sempre o tratou” (Carta, 29.09.1988 n.35).

Sim: hoje é um bom dia para começar de novo. É um momento para olhar para o Céu e deixar-nos envolver pelo dom de Deus. “Duc in altum!”, faz-te ao largo, lança as tuas redes. Pede a Deus para conheceres a missão que tem para ti e que te fará chegar mais longe. “Não tenhas medo”, diz o Papa Francisco, “de apontar mais alto, de te deixares amar e libertar por Deus. Não tenhas medo de te deixares guiar pelo Espírito Santo” (Gaudete et exultate, n. 34). O Papa Francisco espera muito do Sínodo sobre os jovens que está a decorrer em Roma, para que cada jovem aprenda a viver a vida como vocação e saiba optar por Deus em todas as suas decisões. Esta é a audácia com que temos de olhar para o nosso futuro.

Numa ocasião S. Josemaria dizia a um grupo de pessoas do Opus Dei que Deus estava contente com eles, e ao mesmo tempo pedia-lhes que chegassem mais longe. Hoje agradecemos as maravilhas que Deus operou através do Opus Dei. Isso há-de ajudar-nos a encher-nos de alegria e entusiasmo e a propor-nos com decisão metas audazes.

Oxalá cada uma e cada um aproveite as graças que Deus nos concede hoje.

“A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador”. Recorremos à Nossa Mãe, feliz porque “acreditou no cumprimento de tudo quanto lhe foi dito da parte do Senhor”. Que Nossa Senhora nos ajude a recordar as maravilhas que Deus fez e faz, e assim dar à nossa vida um sentido de missão, correspondendo fielmente à vocação.