Mons. Ocáriz: «O Senhor guia o nosso barco»

Homilia do Prelado do Opus Dei na Santa Missa da Festa de São Josemaria que se realizou no dia 26 de junho, na Basílica de Santo Eugénio, em Roma.

Opus Dei - Mons. Ocáriz: «O Senhor guia o nosso barco»

Nesta nova festa de São Josemaria, no dia do aniversário da sua chegada ao céu, agradecemos primeiramente a Deus por permitir-nos celebrá-la com certa normalidade, dentro destas circunstâncias. Há um ano exatamente, somente algumas pessoas puderam participar da celebração realizada em Santa Maria da Paz, que foi oferecida pelos falecidos na pandemia. Hoje rezamos mais uma vez por todos os falecidos e doentes, com as suas famílias, e recorremos à intercessão de São Josemaria para protegê-los do céu.

Na primeira leitura, ouvimos o relato da criação do homem. Deus formou o homem do pó da terra, e então criou o mundo para ele e para a sua descendência ut operaretur, para que o trabalhasse e guardasse. São Josemaria chamava a atenção para o facto de que o trabalho é uma missão “que Deus nos confia aqui na terra (...) fazendo-nos participar do seu poder criador, para que ganhemos o nosso sustento e simultaneamente colhamos frutos para a vida eterna[1].

O próprio Jesus passou a maior parte da sua vida terrena a trabalhar numa oficina com José. Tanto que quando começou a sua vida pública, era conhecido pelo seu ofício entre as pessoas do lugar: “Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria?”[2] O seu trabalho não despertava nenhuma surpresa, como aconteceria mais tarde com os seus milagres e a sua pregação. Os seus dias na oficina fazem-nos compreender que a santidade é construída também ali: entre as ferramentas do trabalho, no desejo de servir e cuidar os que nos rodeiam, em meio às alegrias e ao cansaço que, de uma forma ou de outra, nunca falta.

Considerar o trabalho desta maneira ajuda-nos a vê-lo não apenas como uma realidade meramente material, mas como uma resposta à vocação que Deus deu a cada um e que abraça toda a nossa existência. Como afirma o Papa Francisco: no trabalho “estão em jogo muitas dimensões da vida: a criatividade, a projeção do futuro, o desenvolvimento das capacidades, a exercitação dos valores, a comunicação com os outros”[3].

Na segunda leitura, São Paulo fala do espírito que deve permear o nosso relacionamento com Deus: “Vós não recebestes um espírito de escravos (...), mas recebestes um espírito de filhos adotivos, no qual todos nós clamamos: Abá, Pai!”[4].

É precisamente a consciência da nossa filiação divina que nos permite viver sem medo: “Não tenho medo de nada nem de ninguém, nem mesmo de Deus, que é meu Pai”, dizia São Josemaria. Esta realidade leva-nos a enfrentar todas as dificuldades com serenidade e sem desânimo, especialmente perante os erros e limitações, nossos e dos outros, porque com a graça divina sempre temos a luz e a força para transformá-los em caminho de santidade. Com confiança filial em Deus, podemos abandonar-nos nos seus braços, sem confiar somente nas nossas próprias forças.

Este abandono filial foi o fundamento da vida espiritual de São Josemaria. Espontaneamente considerava-se a si mesmo um menino que balbucia, e não fazia mais do que começar e recomeçar a cada dia. Esta intimidade com o seu Deus Pai transparecia especialmente na oração.

No Evangelho, depois, ouvimos o convite que Jesus dirige aos Apóstolos a “avançar para águas mais profundas”. Depois dessas palavras vemos uma certa relutância por parte de Simão Pedro, fruto do fracasso do trabalho que acabava de concluir: “Mestre, trabalhamos a noite inteira e nada pescamos”. E, no entanto, responde imediatamente: “Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes”[5]. Ainda não conhecia bem Jesus, mas isso não o impediu de confiar nele e desconfiar das suas próprias forças, sem pensar no que teria mais sentido do ponto de vista humano. O resultado apagou todas as dúvidas: “apanharam tamanha quantidade de peixes que as redes se rompiam”[6].

Hoje, também, Jesus chama-nos a lançar-nos num apostolado que não admite medo, porque sabemos que Ele, o Senhor, guia o nosso barco. Nesta situação marcada pela pandemia, nós também encontramos dificuldades que limitaram a nossa ação apostólica. Limitaram sim, mas não a detiveram, porque para o cristão tudo é apostolado, como aprendemos de São Josemaria.

De fato, durante estes longos meses muitas iniciativas apostólicas foram empreendidas com paixão, criatividade e constância. Em momentos em que o mundo tem uma necessidade especial de Deus, devemo-nos comprometer a fazer com que as pessoas ao nosso redor compreendam, com sincera amizade, o que significa viver perto de Jesus. O Senhor garantirá que a eficácia do nosso trabalho seja tão grande quanto a pesca milagrosa.

Recorramos à intercessão materna de Nossa Senhora, com a simplicidade e a confiança que São Josemaria tinha. Numa ocasião, confidenciou a um grupo de filhos seus, dizendo: “Eu geralmente abandono-me, tento tornar-me pequeno e colocar-me nos braços de Nossa Senhora”[7]. Que seja assim também para nós.


[1] Amigos de Deus, 57.

[2] Mc 6,3.

[3] Papa Francisco, Laudato si’, n. 127.

[4] Rm 8, 15.

[5] Lc 5, 5.

[6] Lc 5, 6.

[7] São Josemaria, Anotações da pregação de 20-XII-1974, em E. Burkhart, J. López, Vida cotidiana y santidad en la enseñanza de San Josemaria, vol. 2, p. 68.