Em 1987, recebi da secretaria do Politécnico de Milão, onde me tinha inscrito, uma lista de residências universitárias, entre as quais Torrescalla. Depois das entrevistas de admissão, mudei-me para lá, vindo de Turim. Foi nessa residência que ouvi falar pela primeira vez do Opus Dei.

A descoberta do chamamento universal à santidade e de que é possível encontrar o Senhor nas pequenas coisas de cada dia foi decisiva para mim. Encontrei finalmente aquilo que procurava desde os anos em que frequentava o Oratório. Deus não está reservado aos mosteiros nem ligado a gestos heroicos; encontra-se na vida comum: no trabalho, na família, nas relações, nas pequenas coisas.

Uma vida de família
As refeições partilhadas, as conversas, os jogos de futebol, os festejos de aniversários e de fins de curso, as tarefas na residência, o voluntariado, os passeios fora de Milão, as atividades de verão, os encontros com convidados ao serão, nos quais partilhavam as suas experiências profissionais e de vida, as horas – naturalmente – passadas na sala de estudo, as conversas com os sacerdotes... e a naturalidade com que nos ajudavam: era assim a vida na residência.
Não era apenas um lugar onde dormir, comer e estudar: era um ambiente que fazia sobressair o melhor de cada um. Aprendi que é possível levar os estudos a sério sem perder o sorriso; que a verdadeira amizade passa por pequenas coisas; que o quotidiano se constrói com pontualidade, ordem, atenção aos outros, muitas gargalhadas e boa disposição, num clima de serenidade, amizade sincera e desejo de crescer.
A vocação: não um discurso teórico
Os momentos mais simples da vida em família tornavam concreta a mensagem de São Josemaria. A vocação não surgiu de um discurso teórico, mas do exemplo diário de pessoas que procuravam Deus sem parecer diferentes, mas simplesmente autênticas. Nesses anos aprendi também a valorizar o trabalho discreto das pessoas da Administração, que asseguravam a gestão dos serviços básicos da residência. Mulheres que foram para mim como mães, sem procurarem protagonismo nem esperarem nada em troca, tal como fazem as boas mães. Além disso, viver ao lado de pessoas da minha idade que encaravam os estudos, o trabalho, os compromissos, a amizade e a oração de forma séria, mas natural, ajudou-me a compreender o meu caminho. Ver pessoas comuns empenhadas em fazer tudo – estudar, limpar uma casa de banho, organizar um passeio, pôr a mesa – com o maior amor possível mudou a minha vida.
As soft skills antes de se falar de soft skills
Hoje fala-se muito de soft skills, isto é, das competências pessoais e relacionais que facilitam o trabalho e a vida quotidiana. Nesse aspeto, a residência foi uma formação excecional. Partilhar o dia com cerca de setenta estudantes e profissionais ensina, de forma muito concreta, a lidar com situações diferentes, a colaborar, a comunicar e a construir relações sólidas.

Em Torrescalla aprendi que o profissionalismo não exclui a amabilidade, que a firmeza não exclui a capacidade de escutar e que a competência cresce com a humildade. E experimentei que o trabalho pode tornar-se verdadeiramente uma oportunidade para construir algo de belo para os outros e para Deus.
Aprendi a envolver-me, a assumir responsabilidades, a enfrentar projetos exigentes, como a organização de umas memoráveis férias de trabalho nos Estados Unidos para cerca de vinte estudantes: três semanas em Chicago com alojamento, alimentação, aulas de inglês e duas carrinhas disponíveis aos fins de semana, em troca de algumas horas de trabalho por dia (arranjámos o jardim de uma residência, pintámos o interior, reparámos as caixilharias e uma escada exterior de emergência).
Apesar de não haver internet nem mensagens instantâneas, em seis meses consegui organizar tudo, respeitando o objetivo de reduzir verdadeiramente ao mínimo os gastos de cada um dos participantes. Ainda recordo as gargalhadas, os desafios, incluindo os profissionais, e sobretudo as amizades que, passados quarenta anos, continuam vivas.
Reconhecermo-nos filho de Deus
No Opus Dei encontrei um ambiente de confiança, liberdade, apoio mútuo e amizade verdadeira: aquilo que deveria existir em todas as famílias. Não é um grupo perfeito, como não o é nenhuma família, mas é um ambiente onde podes ser tu próprio e, ao mesmo tempo, aprender a tornar-te melhor; um contexto onde o carinho se demonstra com ações, e não apenas com palavras.

Tudo o que aprendi e continuo a aprender leva-me a agradecer frequentemente a São Josemaria, ao Beato Álvaro e ao Opus Dei por me terem ajudado a enfrentar uma vida rica em momentos belíssimos, mas naturalmente também marcada por algumas dificuldades e obstáculos a superar. Nos anos passados em Torrescalla compreendi a importância da filiação divina, a beleza de me abandonar confiadamente nas mãos de Deus, reconhecendo-me como filho de Deus, amado pessoal e continuamente por Ele. Esta consciência dá alegria, liberdade interior e confiança, e transforma a forma de trabalhar, de enfrentar as dificuldades e de olhar para as pessoas que o Senhor coloca todos os dias no meu caminho.

