Flores no deserto: fé viva no Médio Oriente

O Opus Dei está há trinta anos a semear esperança no Líbano. Um novo livro recolhe as histórias dos que aí os viveram.

Há livros que têm origem numa viagem e acabam por ser muito mais do que uma crónica. Flores en el desierto, do jornalista e guionista Jaume Figa Vaello, publicado pelas Edições Rialp(Madrid), é um deles. O seu autor passou um tempo no Líbano – esse país que João Paulo II chamou «mais do que um país: uma mensagem» – e regressou com algo difícil de sintetizar em títulos: o retrato de uma Igreja viva, criativa e desarmada, que floresce no meio da guerra, da crise económica e do caos político.

O livro abrange o Líbano, a Síria, o Iraque e a Terra Santa através de vinte e seis histórias pessoais. Um menino de doze anos, refugiado iraquiano, que tinha visto morrer parte dos seus familiares, e que rezava todos os dias pelos seus verdugos. Um arcebispo que reconstruiu igrejas em aldeias drusas onde acabavam de massacrar a sua própria família e lhes reconstruiu as casas. Uma mulher judia ortodoxa que recebeu o batismo em aramaico – a língua de Jesus – em Jerusalém. E inserida em boa parte do relato, discreta e profundamente transformadora, a atividade apostólica do Opus Dei no Líbano.

Uma semente plantada em 1996

A história do Opus Dei no Líbano começa depois de quinze anos de guerra civil. Dominique Helou, atualmente sacerdote, protagonista dum dos capítulos do livro, era então um jovem matemático libanês que tinha conhecido a Obra quando adolescente num colégio interno em Paris. Durante anos escreveu cartas ao Prelado, o beato Álvaro del Portillo, pedindo-lhe que a Obra começasse no seu país. Quando no Congresso Geral de 1992 o Líbano não figurava na lista de países prioritários, Helou disse-lhe sem rodeios: «Aborreci-me. Um pouco. Disse-o ao Padre por carta e agrada-me pensar que contribuí dalguma maneira para a mudança de rumo».

Em 23 de fevereiro de 1996, chegou a Beirute juntamente com o sacerdote Dominique Le Tourneau: um país em ruínas – estradas desfeitas, edifícios destruídos, sem luz –, mas também um país com sede. O primeiro supranumerário libanês, Mitri, tinha conhecido a Obra em Vancouver. A primeira Missa em honra do beato Josemaria foi celebrada em 27 de junho desse mesmo ano, concelebrada pelos arcebispos maronitas de Beirute, Biblos e Baalbek. Era um bom começo.

Hoje a Obra está plenamente estabelecida no Líbano, com casas de retiros, centros de formação profissional para a mulher e um conjunto de pessoas que encontraram no espírito de São Josemaria – a santidade na vida habitual, no trabalho de cada dia – uma âncora firme no meio das dificuldades.

A filha do imã

Entre todas as histórias do livro, há uma que se destaca pela sua capacidade de resumir numa só vida a complexidade do Médio Oriente. É a de Magda, nascida no Brasil, filha dum imã, criada entre o Corão e o Catecismo lido às escondidas, que hoje é numerária do Opus Dei e vive no Líbano.

Este capítulo – intitulado “O meu pai é um imã” – é o que reproduzimos integralmente neste link que se pode descarregar, graças às Edições Rialp.

A história de Magda não é uma raridade exótica. É um exemplo extremo de algo que o livro documenta repetidamente: que no Médio Oriente, a religião não é uma escolha pessoal, mas um estado civil inscrito no documento de identidade. E quando a verdadeira fé se manifesta, ela possui uma profundidade e criatividade surpreendentes que dão que pensar.

Um livro necessário

Flores en el desierto chega num momento em que os cristãos do Médio Oriente – presentes nessas terras desde o século I – atravessam um dos seus períodos mais difíceis. A guerra, o colapso económico do Líbano, a emigração em massa e a pressão de grupos radicais reduziram de uma forma alarmante a sua presença. Contudo, como documenta Figa Vaello, eles não desapareceram, nem estão dispostos a fazê-lo.

«Existir aqui é resistir», diz um dos protagonistas do livro, um padre árabe, palestiniano e católico na Galileia. Não diz isso com amargura, mas com a serenidade de quem sabe que a sua presença é teológica e não demográfica.

O livro pode ser adquirido (em espanhol) no site das Edições Rialp.