Diálogo com Mons. Fernando Ocáriz: «Com Cristo, a unidade nasce a partir de dentro»

Num encontro com estudantes, o Prelado do Opus Dei refletiu sobre a unidade enquanto dom divino e dimensão essencial da vida cristã, com especial atenção a como se vive e se preserva na Igreja e no Opus Dei a partir da experiência quotidiana da fé.

Mons. Fernando Ocáriz imparte una clase

«Uma Igreja unida, sinal de unidade e comunhão, que se torne fermento para um mundo reconciliado». Com estas palavras, o Papa Leão XIV exprimia, na Missa de início do seu ministério petrino, um desejo que, em muitos sentidos, está a marcar o horizonte do seu pontificado.

Oito meses depois, vimo-lo encerrar a Porta Santa e concluir o Jubileu da Esperança. Nesse intervalo de tempo, a unidade vai-se revelando como aquilo que verdadeiramente é: não um conceito abstrato, mas uma nota constitutiva da Igreja, da sociedade e do próprio ser humano; e, por isso, aquilo que mantém aberta a porta da esperança.

Este artigo resume uma aula de Mons. Fernando Ocáriz, Prelado do Opus Dei, em diálogo com estudantes de Teologia e de Filosofia de vários países que vivem em Roma. A partir das perguntas – situadas na sua experiência real – desenrola-se uma reflexão concreta sobre a unidade enquanto dom recebido, tarefa partilhada e – usando uma expressão de São Josemaria – paixão dominante.


A seguir, a introdução da aula, seguida de um intercâmbio de perguntas e respostas.


Introdução do Prelado, Mons. Fernando Ocáriz

A unidade da Obra é, no essencial, uma participação da unidade da Igreja. São Josemaria recordava frequentemente que a Obra é uma pequena parte – uma «partezinha» – da Igreja. Daqui decorre que os elementos que constituem a unidade da Obra são, na sua essência, os mesmos que sustentam a unidade eclesial.

A unidade é uma das notas fundamentais da Igreja, juntamente com a catolicidade, a santidade e a apostolicidade. É, além disso, uma das mais explicitamente expressas no Evangelho, quando o próprio Senhor, ao falar dos seus discípulos, pede: «Que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti» (Jo 17, 21). Esta oração oferece-nos uma chave muito profunda para compreender a unidade cristã.

Com efeito, a substância última da unidade da Igreja – e, portanto, também da unidade dos discípulos de Jesus Cristo – é uma participação na própria unidade de Deus, que, na medida limitada em que podemos conhecer o mistério da Trindade, se manifesta de modo particular no Espírito Santo, porque o que une é o amor, e o Espírito Santo é o Amor.

Por isso, também os elementos mais humanos da unidade da Igreja – e da Obra – alcançam o seu verdadeiro valor quando são informados pela caridade. Não se trata de os ver apenas como elementos organizativos, embora também o sejam, mas de reconhecer que o seu valor mais profundo está em serem expressão do amor que une.

A partir desta perspetiva, a unidade da Obra, enquanto parte da Igreja, pode ser considerada segundo três dimensões, seguindo uma distinção que o então professor Joseph Ratzinger utilizou em certa ocasião ao falar da Igreja: aquilo que a Igreja é visivelmente, aquilo que é constitutivamente e aquilo que é operativamente.

Em primeiro lugar, a Igreja é visível. Que significa isto? Que é um povo, um conjunto de pessoas humanas, com uma característica singular: é um povo formado por muitos povos. A Primeira Carta de São Pedro exprime-o com uma fórmula muito significativa ao falar da Igreja como «populus acquisitionis» (1Pd 2, 9), um povo que Deus adquiriu para Si.

Desde o Pentecostes, a Igreja universal é um conjunto: é a realidade visível de um povo visível, pequeno nos seus começos, mas chamado desde o início à universalidade. E o que dá unidade visível a este povo, humanamente formado por povos tão diversos, são sobretudo três elementos: a profissão comum da fé, a vida sacramental e a existência de uma cabeça comum, o Romano Pontífice. Uma mesma fé professada externamente, uma mesma vida sacramental – com os seus diferentes ritos e liturgias – e um mesmo princípio de governo universal são os elementos visíveis que tornam possível a unidade de povos e culturas tão distintas.

O outro aspeto referido por Ratzinger acerca da Igreja é aquilo que ela é constitutivamente. Aqui entramos no coração do mistério. A Igreja é o Corpo de Cristo. São Josemaria recordava-o com força ao afirmar que a Igreja é «Cristo presente entre nós»[1].

Esta é a realidade mais profunda da Igreja, aquela que dá sentido e eficácia a tudo o que é visível. Não se trata apenas de Cristo estar presente a dar força a partir de dentro, mas de a Igreja, enquanto conjunto, ser verdadeiramente um Corpo. O Corpo Místico não é uma metáfora: é uma realidade espiritual, uma união verdadeira de todos os membros com Jesus Cristo. Isto é a Igreja no seu ser constitutivo.

Neste contexto, Joseph Ratzinger dava uma definição muito conhecida e muito sintética: a Igreja é o povo que vive do Corpo de Cristo – referindo-se à Eucaristia –; vive do Corpo de Cristo e torna-se o próprio Corpo de Cristo na celebração da Eucaristia. Vive do Corpo de Cristo na Eucaristia e torna-se Corpo de Cristo na Eucaristia.

Passemos à terceira dimensão a partir da qual podemos considerar a unidade da Igreja. Se a primeira se referia ao facto de a Igreja ser, de modo visível, um povo formado por pessoas, e a segunda ao facto de, na sua realidade mais profunda, ser o Corpo de Cristo, a terceira exprime que a Igreja, na sua ação no mundo, é o sacramento universal da salvação[2]. Isto é, a força santificadora da Igreja manifesta-se na pregação do Evangelho e nos sacramentos, sobretudo ao conduzir as pessoas à Confissão e à Eucaristia e, consequentemente, ao despertar nelas o ardor apostólico.

A unidade da Igreja – e, nela, a unidade da Obra – é, em última análise, um dom de Deus. É profundamente sobrenatural, ainda que tenha também expressões humanas e organizativas. E é um dom concedido a todos; por isso mesmo, é também responsabilidade de todos cuidar dele.


Perguntas


Se a unidade é um dom que pertence a toda a Igreja, que há no espírito do Opus Dei que faz com que seja vivida e cuidada como uma das suas paixões dominantes?

A unidade que se vive na Obra é, essencialmente, a mesma unidade da Igreja, como acontece em qualquer outra realidade eclesial. Mas, naturalmente, na Obra existem aspetos próprios do espírito que configuram o seu modo de ser.

A Obra tem uma espiritualidade determinada e, na medida em que todos participamos desse espírito, dá-se uma unidade profunda

O ponto fundamental é a unidade de espírito. A Obra tem uma espiritualidade determinada e, na medida em que todos participamos desse espírito, dá-se uma unidade profunda. Não se trata de uniformidade, mas de um modo comum de pensar e de viver segundo esse espírito, com grande liberdade em tudo o que é opinável. São Josemaria falava de um denominador comum pequeno – o espírito do Opus Dei – com um numerador amplíssimo. A unidade é dada por esse denominador comum.

Esse espírito «é velho como o Evangelho e, como o Evangelho, novo»[3]. Por isso, não se deve pensar que na Obra exista algo completamente distinto daquilo que é comum à Igreja. Trata-se, antes, de modos próprios de viver realidades que pertencem à própria essência do cristianismo.

Quais são esses aspetos? Se nos detivermos em alguns pontos centrais do espírito da Obra, podemos começar pelo centro e pela raiz da vida espiritual: a Eucaristia. É o centro de toda a Igreja, mas na Obra vive-se com uma consciência muito clara da sua importância e com uma exigência vital de fidelidade diária: participar na Santa Missa, ser almas de Eucaristia, procurar até – como diz São Josemaria – que «os nossos pensamentos»[4] estejam muito centrados na Eucaristia.

Se a Eucaristia é o centro e a raiz, o fundamento do espírito do Opus Dei é o sentido da filiação divina. É algo comum a todos os cristãos, sem dúvida, mas na Obra ocupa um lugar especialmente central como fundamento da vida espiritual: viver as práticas de piedade, o trabalho e a vida quotidiana a partir dessa consciência de filhos de Deus.

Juntamente com isto, está o eixo do espírito do Opus Dei: a santificação do trabalho. Todos somos chamados a santificar-nos e a anunciar a muitos a possibilidade de santificar o seu trabalho. Mas na Obra este aspeto é algo muito próprio e muito central: é o ponto em torno do qual gira o esforço de santificação e de apostolado.

Assim, com todos os elementos comuns da unidade da Igreja, na Obra existem estes traços próprios que nos tornam um na medida em que vivemos um mesmo espírito: a Eucaristia como centro e raiz, a filiação divina como fundamento e a santificação do trabalho como eixo.


Padre, se a unidade é um dom de Deus que pedimos para toda a Igreja e para a Obra, podemos pedi-la também como um dom pessoal para cada um de nós?

Sim, claro. A unidade é um dom de Deus para cada pessoa, precisamente ao aumentar em nós o desejo de unidade e, depois, com a sua graça, ao dar-nos a força para sermos elementos de unidade através da caridade e do afeto.

Por isso, a unidade é uma condição de eficácia a todos os níveis. São Josemaria exprimia-o com especial clareza numa das suas cartas de 1931: «Deus conta com as nossas fraquezas, com a nossa debilidade e com a debilidade dos outros. Mas conta também com a fortaleza de todos, se a caridade nos unir»[5]. A unidade dá fortaleza, se a caridade nos unir. E o que une verdadeiramente é o afeto.

Convém aqui distinguir o afeto do mero sentimento. O verdadeiro carinho, o verdadeiro amor, manifesta-se sobretudo nas obras: na entrega, na dedicação, no interesse pelos outros. Muitas vezes, esse amor é acompanhado por um afeto sensível; outras vezes, não. Mas quando há amor verdadeiro, há unidade.

No fundo, o aspeto pessoal tem muito a ver com a unidade. É também fonte de empenho apostólico, porque nos leva a viver a missão apostólica dos outros como se fosse nossa. Isso anima e dá impulso, mesmo quando a própria atividade é mais limitada ou tem menos campo de ação. O que os outros fazem é também nosso, e essa consciência gera força e fecundidade.


A Obra aproxima-se do seu primeiro centenário e a sua mensagem chegou a pessoas de diferentes gerações, culturas e lugares do mundo. Como podemos hoje ser instrumentos de unidade, assumindo essa responsabilidade no meio das mudanças culturais e das circunstâncias do nosso tempo?

Por um lado, podemos meditar frequentemente sobre a unidade e pedi-la verdadeiramente ao Senhor, para que nos dê luzes concretas sobre como vivê-la onde quer que cada um se encontre.

Depois, há muitos elementos que ajudam, mas um muito importante é compreender que a unidade da Obra é a unidade própria de uma família. Não se pode falar nem compreender a unidade da Obra sem pensar na unidade da família. É algo muito próprio e essencial do seu espírito.

Uma unidade que se manifesta sempre como uma união direta com o nosso santo fundador. São Josemaria continua a ser o nosso Padre a partir do Céu, através dos seus escritos, do seu espírito, daquilo que nos deixou como herança e do que conhecemos da sua vida. Parte da responsabilidade pessoal no cuidado da unidade consiste também em ajudar, onde quer que estejamos, a manter viva a figura do nosso Padre: recorrendo à sua intercessão nas diversas necessidades, mantendo presente a sua memória e procurando agir segundo o seu modo de pensar. É aquilo que o Papa São Paulo VI disse ao Beato Álvaro del Portillo: «Quando tiver de fazer alguma coisa, pense em como o faria o fundador». D. Álvaro ficou muito agradecido e alegre, porque já fazia assim desde o primeiro momento. A união com São Josemaria é uma parte importantíssima da unidade da Obra.

Juntamente com tudo isto, está também a filiação ao Padre, seja quem for em cada momento: uma filiação que dá unidade real a toda a Obra, às duas secções, sempre apoiada no mais fundamental, que é a unidade de espírito.


Padre, por vezes mal-entendidos ou feridas do passado podem tornar-se obstáculos para viver a unidade. Como podemos reconstruir a confiança quando houve dor ou ressentimento?

Nestes casos, o primeiro passo é ajudar as pessoas a pensar na atitude do Senhor: Deus ama infinitamente cada pessoa, muito mais do que nós somos capazes de amar. Voltar a esta verdade tão profunda muda a forma de nos colocarmos perante os outros e ajuda-nos, especialmente quando subsiste algum ressentimento ou motivo de mágoa do passado ou do presente, a recordar que Deus ama infinitamente essa pessoa.

São Paulo exprime-o com força na Carta aos Efésios, num texto que bem conhecemos: «Eu, o prisioneiro no Senhor, exorto-vos, pois, a que procedais de um modo digno do chamamento que recebestes; esforçando-vos por manter a unidade do Espírito mediante o vínculo da paz. Há um só Corpo e um só Espírito, assim como a vocação vos chamou a uma só esperança» (Ef 4,1-4). Aqui aparecem já aspetos muito concretos: a unidade mediante o vínculo da paz.

Dar paz. São Josemaria animava-nos muitas vezes a sermos semeadores de paz e de alegria. Já muito jovem, nos seus apontamentos íntimos, escrevia com admiração: «Julgo que o Senhor colocou na minha alma outra característica: a paz, ter paz e dar paz».

E que paz é esta? O próprio Jesus Cristo. Ipse est pax nostra, «Ele é a nossa paz» (Ef 2,14). Por isso, todo o trabalho de cuidar da unidade é, necessariamente, um trabalho de unir a Jesus Cristo. Como diz São Paulo: «mediante o vínculo da paz, sendo um só Corpo e um só Espírito» (Ef 4,3-4). É o Espírito Santo – com o dom da caridade – que une. A fé une, sem dúvida, mas, de forma mais radical, o que une é o amor, e o Espírito Santo é o amor infinito de Deus.


Vivemos num contexto marcado pela desunião e pelo individualismo, na sociedade, na política, nas instituições e até na família. Como viver a unidade de modo autêntico, não apenas exterior, mas que nasça de dentro de cada um, quando faltam referências?

São Josemaria falava de sermos instrumentos de unidade: pessoas que criam, defendem e cuidam da unidade. Para viver isto, o principal referente é sempre Jesus Cristo.

Em que sentido pode tornar-se dominante na nossa vida a paixão, o desejo, a tendência para cuidar da unidade? Quando chega a impregnar os pensamentos e os sentimentos e, portanto, move espontaneamente a maneira de viver. É então que aquilo que é dos outros passa a ser também nosso: a sua vida interior, o seu trabalho, a sua saúde, a sua doença, sempre do modo adequado em cada caso. Interessa-nos rezar por eles, facilitar-lhes o caminho, alegrar-nos com os seus êxitos. Tudo o que é dos outros é nosso. Isso é unidade.

A unidade leva também a sofrer com quem sofre e manifesta-se de modo muito concreto na atitude perante os defeitos ou as limitações dos outros.

Além disso, quando domina o desejo de unidade, surge naturalmente uma atenção especial a promover aquilo que une e a evitar – ou mesmo a rejeitar, conforme os casos – aquilo que possa tornar-se, ainda que ligeiramente, um princípio de desunião.


Padre, por vezes trabalhar e decidir em conjunto pode parecer mais lento do que fazê-lo individualmente. Na Obra, a colegialidade é um modo habitual de trabalhar. Como podemos compreendê-la e vivê-la como uma riqueza e não como um obstáculo?

Dentro da organização da Obra, a colegialidade é um aspeto muito importante da unidade: deve ser vivida a todos os níveis, tanto no governo como nas atividades apostólicas. É uma grande medida de prudência, porque evita que alguém mande sozinho sem contar com o parecer dos outros. São Josemaria estabeleceu-a – com luz de Deus – desde o princípio e quis que fosse assim em toda a Obra.

Recordou-o com muita força numa das suas cartas: «Tenho-vos repetido – é um texto que já conheceis – em inúmeras circunstâncias, e repeti-lo-ei muitas vezes ao longo da minha vida, que exijo na Obra, em todos os níveis, um governo colegial para não se cair na tirania»[6].

Existe o risco de cair em estilos de trabalho unilaterais simplesmente por causa da pressa: pensar que algo é urgente e que não é preciso esperar pelos outros nem contar com a sua opinião. São Josemaria costumava dizer que «as coisas urgentes podem esperar, e as muito urgentes devem esperar». Não para perder tempo, mas para as estudar como está previsto. Este modo de proceder é uma garantia de eficácia e também de tranquilidade.

Decidir sozinho pode até gerar inquietação, sobretudo quando os assuntos são complexos. Em contrapartida, contar com os contributos de outras pessoas ajuda a ver melhor. Isto também e válido quando alguém tem mais experiência ou sabe mais sobre um determinado tema. A experiência mostra que uma pessoa que sabe menos pode dar uma luz, uma solução ou um matiz que a outra não tinha considerado.

Por isso, embora a colegialidade exija mais tempo, vale a pena. É um preço que merece ser pago, porque aquilo que se alcança tem um valor muito grande. Não é apenas um sistema para fazer as coisas, mas sobretudo um espírito: a convicção de que todos precisamos das luzes dos outros. E isto deve ser vivido a todos os níveis.


Surge-me frequentemente uma inquietação: às vezes podemos não nos sentir seguros para dizer o que pensamos, com receio de discordar ou de criar divisão. Como encontrar o equilíbrio entre a liberdade de exprimir o próprio parecer e o cuidado da unidade, sabendo que nem sempre estaremos de acordo em tudo?

Outro aspeto desta paixão dominante pela unidade leva necessariamente a valorizar a diversidade. Pode parecer contraditório, mas não o é. A unidade não consiste em pensarem todos da mesma maneira, mas em amar os outros como são e em encontrar aí pontos de união. Nesse sentido, a compreensão está ligada ao que foi dito antes: tudo o que é dos outros é também nosso. E isso ajuda a evitar o espírito crítico.

Para viver assim, o primeiro passo é propô-lo conscientemente: compreender que uma parte importante da unidade é aceitar as opiniões dos outros. Mas isso está também ligado a não ter medo de dizer aquilo que se pensa. Sempre com prudência, claro. Não se trata de dizer qualquer coisa, em qualquer momento ou de qualquer maneira. Mas nos espaços adequados – por exemplo, numa reunião ou numa conversa – é bom exprimir o próprio parecer, mesmo quando se pensa que se estará em minoria. Não se trata de impor as próprias ideias, mas de dizer com simplicidade aquilo que, em consciência, se pensa. Isso, longe de quebrar a unidade, constrói pontes na sua direção.

Recordo que, há anos, quando fui nomeado consultor da Congregação para a Doutrina da Fé, visitei o filósofo Cornelio Fabro – via-o com alguma frequência –, que também tinha sido consultor durante muitos anos. Disse-me com ênfase: «Dou-lhe apenas um conselho, fruto da minha experiência: nas reuniões, diga sempre aquilo que pensa, mesmo que veja que todos os outros pensam o contrário. Faça sempre isso». Deixo-vos o mesmo conselho.

Além disso, cuidar da unidade passa, de modo muito direto e visível, por cuidar da fraternidade cristã. Isto implica o esforço constante por unir, evitar a formação de grupos dentro da Obra, tratar todos de igual modo e fomentar um interesse sincero pela vida dos outros. São Josemaria ficava muito entusiasmado com esta atitude de pessoas que unem.

Não devemos estranhar as diversidades de carácter, de gostos ou as dificuldades de relação humana que surgem dessas diferenças. Dizia São Josemaria numa das suas cartas: «Deveis praticar também constantemente uma fraternidade que esteja acima de toda a simpatia ou antipatia natural, amando-vos uns aos outros como verdadeiros irmãos, com o trato e a compreensão próprios de quem forma uma família bem unida»[7]. São palavras belas e exigentes ao mesmo tempo, e está nas nossas mãos vivê-las e transmiti-las.

Gostaria de recordar, para terminar, um texto que bem conhecemos, mas que dá sempre muito que meditar. É de uma carta de São Josemaria, escrita em 1957: «No sacrário do oratório do Conselho Geral mandei colocar estas palavras: Consummati in unum. Todos com Jesus Cristo somos uma só coisa. Que, colocados na forja de Deus, conservemos sempre esta maravilhosa unidade de mente, de vontade e de coração. E que a nossa Mãe, por quem chegam aos homens todas as graças, canal esplêndido e fecundo, nos conceda, com a unidade, a clareza, a caridade e a fortaleza».

Não se trata apenas de um final piedoso de discurso. É uma conclusão piedosa, sim, mas profundamente lógica. Conduz-nos naturalmente a rezar pela unidade. De facto, rezamos por ela todos os dias. E convém fazê-lo com uma alma agradecida e otimista, porque rezamos por alguma coisa que já existe: para que se mantenha, para que saibamos cuidá-la e para dar graças a Deus pela unidade da Obra, que é um dom muito grande.

Talvez estejamos tão habituados à unidade que corremos o risco de não a valorizar suficientemente. Por isso, vale a pena pedir a graça de a apreciar mais, de a agradecer mais e de a cuidar melhor: não como uma ideia abstrata, mas em gestos, decisões e atitudes concretas, onde a unidade se torna uma verdadeira paixão.


[1] São Josemaria, Cristo que passa, n. 131.

[2] Sobre esta tripla dimensão da Igreja, cf. Lumen Gentium.

[3] São Josemaria, Cartas (II), Carta 6, n. 31.

[4] São Josemaria, Forja, n. 268 e 835; Cristo que passa, sobre a Eucaristia.

[5] São Josemaria, Cartas (I), Carta 2, n. 56.

[6] São Josemaria, Carta 24/12/1951, n. 5.

[7] São Josemaria, Cartas (I), Carta 2.

Mons. Fernando Ocáriz, prelado do Opus Dei