Contemplativos no meio do mundo (verbete do Dicionário de São Josemaria)

Esta entrada explica a expressão «contemplativos no meio do mundo» como traço essencial do espírito do Opus Dei, mostrando como o cristão corrente pode alcançar a plenitude da contemplação no e através do trabalho e das atividades comuns.

Com a expressão «contemplativos no meio do mundo», São Josemaria resumia um dos traços essenciais do espírito do Opus Dei, afirmando que o cristão corrente, chamado a santificar-se no meio do mundo, pode alcançar a plenitude da contemplação sem necessidade de se afastar da sua condição secular, mas precisamente no e através das realidades temporais.

Esta doutrina não é fruto de uma reflexão abstrata, mas consequência de algo que São Josemaria tinha encarnado na sua própria existência, como se lê no Decreto sobre a heroicidade das suas virtudes: «Os traços mais característicos da sua personalidade não devem ser procurados tanto nas suas excelsas qualidades para a ação como na sua vida de oração e na assídua experiência unitiva que fez verdadeiramente dele um contemplativo itinerante»[1].

São Josemaria proclamou abertamente a contemplação no meio do mundo: «A contemplação não é coisa de privilegiados. Algumas pessoas com conhecimentos elementares de religião pensam que os contemplativos estão todo o dia como que em êxtase. E isso é uma grande ingenuidade. Os monges, nos seus conventos, estão todo o dia ocupados com mil trabalhos: limpam a casa e dedicam-se a tarefas com as quais ganham a vida. Frequentemente escrevem-me religiosos e religiosas de vida contemplativa, com entusiasmo e carinho pela Obra, dizendo que rezam muito por nós. Compreendem o que muita gente não compreende: a nossa vida secular de contemplativos no meio do mundo, no meio das atividades temporais»[2].

Segundo São Josemaria, o cristão corrente deve ser contemplativo precisamente – como já dizíamos – no e através da sua vida comum, uma vez que a contemplação não deve limitar-se a alguns momentos concretos durante o dia: momentos expressamente dedicados à oração pessoal e litúrgica, participação na Santa Missa, etc., mas deve abranger todo o dia, até chegar a ser uma oração contínua, em que a alma «se sente e sabe também olhada amorosamente por Deus, a toda a hora»[3]. Por isso afirma: «Eu gostaria que hoje (...) nos persuadíssemos definitivamente da necessidade de nos dispormos a ser almas contemplativas no meio do mundo e do trabalho, com uma conversa contínua com o nosso Deus, a qual não deve esmorecer ao longo do dia. Se pretendemos seguir lealmente os passos do Mestre, este é o único caminho»[4].

No seu ensinamento, a possibilidade de alcançar a plenitude da contemplação no meio do mundo está unida a uma realidade que constitui o núcleo da sua mensagem espiritual: a santificação do trabalho e das atividades ordinárias, pois a chave para ser contemplativos no meio do mundo consiste em transformar o trabalho em oração: «Trabalhemos, e trabalhemos muito e bem, sem esquecer que a nossa melhor arma é a oração. Por isso, não me canso de repetir que havemos de ser almas contemplativas no meio do mundo que procuram converter o seu trabalho em oração»[5]; e também: «A nossa vida é trabalhar e rezar, e, ao contrário, rezar e trabalhar. Porque chega um momento em que já não se sabe distinguir estes dois conceitos, estas duas palavras, contemplação e ação, que acabam por significar o mesmo na mente e na consciência»[6]. Nestes textos aponta-se a ideia de que o trabalho pode transformar-se não só em oração, mas também em oração contemplativa.

Afirma assim São Josemaria que é possível alcançar a contemplação «nas ocupações diárias, que não me servem de estorvo; que são – pelo contrário – o caminho e a ocasião de amar cada vez mais e de cada vez mais me unir a Deus»[7]. Mais ainda, quanto mais imerso estiver um cristão corrente nas realidades temporais, mais profundamente há de sentir a necessidade de crescer na presença de Deus, pois, de outro modo, não poderia santificar essas realidades. «A nossa condição de filhos de Deus levar-nos-á – insisto – a ter espírito contemplativo no meio de todas as atividades humanas – luz, sal e levedura, pela oração, pela mortificação, pela cultura religiosa e profissional –, fazendo realidade este programa: quanto mais dentro do mundo estivermos, tanto mais temos de ser de Deus»[8].

Seguindo a tradição espiritual cristã, considera que a contemplação consiste essencialmente em «olhar para Deus sem descanso e sem cansaço»[9], e, ao mesmo tempo, ensina que Deus concede a sua graça para que ela possa ser alcançada também numa existência secular e laical: «Nunca compartilharei a opinião – ainda que a respeite – dos que separam a oração da vida ativa, como se fossem incompatíveis.

Os filhos de Deus têm de ser contemplativos: pessoas que, no meio do fragor da multidão, sabem encontrar o silêncio da alma em colóquio permanente com Nosso Senhor: e olhá-lo como se olha um Pai, como se olha um Amigo, a quem se quer com loucura»[10]. O cristão corrente pode reconhecer Deus no seu trabalho quotidiano: «O trabalho nasce do amor, exprime o amor, ordena-se ao amor. Não reconhecemos Deus apenas no espetáculo da natureza, mas também na experiência do nosso próprio trabalho, do nosso esforço»[11]. A atitude contemplativa está unida a uma revalorização, com sentido teologal, da atividade diária: «Deus vos chama a servi-l’O em e a partir das ocupações civis, materiais, seculares da vida humana: Deus espera-nos todos os dias no laboratório, no bloco operatório, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no lar e em todo o imenso panorama do trabalho. Ficai a saber: escondido nas situações mais comuns há um quê de santo, de divino, que toca a cada um de vós descobrir. (...). Realizai o vosso trabalho com perfeição, a amar a Deus e os homens fazendo com amor as pequenas coisas da vossa jornada habitual, descobrindo esse quê divino que está encerrado nos pormenores»[12].

O ensinamento de São Josemaria pode sintetizar-se nestas palavras: «“Contemplativos no meio do mundo”, unidos a Deus e reconhecendo a sua realidade no e através das variadas ocupações e situações do mundo, este é, em suma, o ideal que Mons. Escrivá propõe como meta da vida de oração»[13]. Com a expressão «contemplativos no meio do mundo», São Josemaria propõe aos cristãos correntes que cresçam na sua vida de oração, chegando a essa meta que é a contemplação. A segunda parte da expressão, «no meio do mundo», deve, pois, ser entendida num pleno sentido teológico-espiritual, pressupondo que o mundo não é apenas um âmbito sociológico, mas também o meio ou instrumento para poder santificar-se e alcançar a plenitude da comunhão com Deus. Em definitivo, a afirmação da contemplação no meio do mundo leva às últimas consequências a valorização simultânea da oração contemplativa e da vida secular que caracteriza o ensinamento de São Josemaria.


[1] Congregação para as causas dos santos, Decreto, 09/04/1990.

[2] Cit. em Manuel Belda, 1998, p. 331.

[3] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 307.

[4] Ibid., n. 238.

[5] São Josemaria, Sulco, n. 497.

[6] Cit. em Pedro Rodríguez, 1986, p. 212.

[7] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 310.

[8] São Josemaria, Forja, n. 740.

[9] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 296.

[10] São Josemaria, Forja, n. 738.

[11] São Josemaria, Cristo que passa, n. 48.

[12] São Josemaria, Entrevistas a São Josemaria, n. 114 e 116.

[13] José Luis Illanes, «Iglesia en el mundo: la secularidad de los miembros del Opus Dei», em OIG, p. 269-270.

Manuel Belda