Contemplação (verbete do Dicionário de São Josemaria)

Esta entrada analisa o conceito de contemplação na tradição cristã e nos ensinamentos de São Josemaria, destacando o chamamento universal para sermos «contemplativos no meio do mundo» através da oração diária e da filiação divina.

A linguagem corrente identifica o termo «contemplação» com a operação física de centrar o olhar num objeto ou espaço material, e também com o seu derivado espiritual de fixar a atenção sobre um assunto. No âmbito religioso, «a contemplação é o ato pelo qual a mente do crente penetra e saboreia a esfera luminosa das verdades divinas»[1].

1. Distinção do conceito

A linguagem cristã assumiu o termo «contemplação» da reflexão filosófica do pensamento greco-romano e dotou-o de novos elementos: a passagem do mundo da contemplação das ideias ou da beleza para a consciência de se estar em comunhão vital com a Trindade; a exclusão de todo o panteísmo e a afirmação de um Deus criador e transcendente que chama o homem a participar da sua vida divina, e que situa a contemplação como uma realidade nova, da qual derivam a influência mútua entre conhecimento e amor no processo de aproximação a Deus; e o desembocar da contemplação na ação, no amor a Deus e ao próximo manifestado através de obras[2].

Na história da espiritualidade, a contemplação foi objeto de estudo por parte dos teólogos e – no caso particular da contemplação mística – de descrição fenomenológica por parte dos místicos, oferecendo uma grande riqueza de reflexões, embora sem chegar, como é lógico perante um tema tão profundo, a dar resposta plena a todas as questões que a sua noção suscita. Da amplitude desses contributos dão testemunho as mais de quinhentas colunas compactas que o Dictionnaire de Spiritualité dedica ao tema. Essa mesma amplitude dispensa-nos de tentar apresentar aqui sequer uma brevíssima síntese. Podemos, por isso, limitar-nos a assinalar, situando-nos já nos nossos dias, que, nas primeiras quatro décadas do século XX – e contemporaneamente à afirmação da teologia espiritual como disciplina científica –, diversos autores deram origem ao debate sobre a chamada «questão mística»: «os problemas suscitados pela polémica poderiam reduzir-se, essencialmente, ao chamamento universal à contemplação e às relações entre o ascético e o místico na vida cristã»[3]. Este debate e a doutrina do chamamento universal à santidade, recordada e enfatizada pelo Concílio Vaticano II, conduziram à aceitação generalizada da contemplação como dimensão conatural da vocação cristã: todo o batizado deve aspirar a ser contemplativo, a alcançar uma união íntima de conhecimento e amor com Deus que impregne todo o seu agir. É nesta linha que se move o Catecismo da Igreja Católica, como demonstram o número 2014 e os números relativos à oração contemplativa[4]. E esse mesmo princípio encontra-se no coração da doutrina espiritual de São Josemaria.

2. A doutrina de São Josemaria

Nas obras publicadas de São Josemaria aparecem com alguma frequência o substantivo «contemplação» (15 ocorrências) e o adjetivo «contemplativo/a» (25), bem como, com maior frequência, o verbo «contemplar» (116). Chama a atenção o uso repetido do verbo em comparação com o que se faz do substantivo e do adjetivo. Em parte, pode justificar-se pelo seu emprego com o significado genérico de «olhar», «ver», «presenciar»; um estudo recente assinala, contudo, que em oitenta passagens se recorre ao verbo «contemplar», precisamente para aconselhar que, na oração ou meditação, «se considerem e revivam na presença de Deus as cenas do Evangelho»[5], o que também explicaria essa diferença numérica. Nestes casos, São Josemaria usou frequentemente a expressão «contemplativos no meio do mundo» para indicar que o cristão cresce na vida de oração e se abre à contemplação também «nas atividades da vida corrente e através delas, constituindo, portanto, um modo específico e secular de viver a oração contemplativa»[6]. Deixando para outras entradas do Dicionário um estudo mais aprofundado do tema, sublinhemos, contudo, desde já, que, para São Josemaria, a consciência da filiação divina, isto é, o saber-se filho de Deus, leva o cristão a «contemplar com amor e com admiração todas as coisas que saíram das mãos de Deus Pai Criador»[7]. E também, consequentemente, a ver Deus em todas as coisas, com as suas implicações práticas. Escreve, por exemplo: «Contempla o Senhor por detrás de cada acontecimento, de cada circunstância, e assim saberás tirar de todos os acontecimentos mais amor a Deus e mais desejos de correspondência»[8]. E, no mesmo sentido, como algo próprio dos filhos de Deus, alude a falar «a língua das almas contemplativas, dos homens que são espirituais, por terem consciência da sua filiação divina»[9].

A santidade cristã, que se apoia necessariamente na oração, procura traduzir-se em vida contemplativa. Sendo universal o chamamento dos batizados à santidade, pode também dizer-se que, pela mesma razão, todos são chamados à contemplação amorosa de Deus, quaisquer que sejam as circunstâncias em que a sua existência se desenvolve. São Josemaria, que dirige o seu ensinamento a todos os cristãos, e de modo particular ao fiel cristão que denomina «cristão corrente», escreve: «A oração é o fundamento de todo o trabalho sobrenatural; com a oração somos omnipotentes e, se prescindíssemos deste recurso, nada conseguiríamos»[10].

São Josemaria ensina também – como quem o experimentou profundamente – que, na base dessa atitude contemplativa ou oração contínua, devem encontrar-se alguns momentos especialmente dedicados diariamente à oração mental. Une-se assim à Tradição cristã, da qual também é eco o Catecismo da Igreja Católica: «não se pode orar «em todo o tempo», se não se orar em certos momentos, voluntariamente: são os tempos fortes da oração cristã, em intensidade e duração»[11]. A mais alta expressão da oração é, com efeito, a oração de contemplação[12], cujo início se encontra, com a ajuda da graça, na busca constante da presença de Deus. São Josemaria exprime-o, por exemplo, entre outros lugares, no itinerário espiritual que apresenta na sua homilia Rumo à santidade: «Começamos com orações vocais, que muitos de nós repetimos desde crianças: são frases ardentes e simples, dirigidas a Deus e à sua Mãe, (...) Não será isto – de algum modo – um princípio de contemplação, uma demonstração evidente de confiante abandono?»[13].

A oração progride por meio dos atos de fé, esperança e amor, que dão forma à própria existência; e a meditação – segunda expressão da oração[14] – tem no Evangelho, atualizado e revivido, o seu alimento preferido: «Queres aprender com Cristo e seguir o exemplo da sua vida? Abre o Santo Evangelho e escuta o diálogo de Deus com os homens…, contigo»[15]. É neste contexto que São Josemaria emprega mais vezes a noção de contemplar, com o significado de reviver e tornar presentes as cenas da vida de Jesus e de Maria: «A Igreja anima-nos à contemplação dos mistérios: para que se gravem na nossa mente e na nossa imaginação a alegria, a dor e a glória de Santa Maria, o exemplo admirável de Nosso Senhor, nos seus trinta anos de obscuridade, nos seus três anos de pregação, na sua Paixão afrontosa e na sua gloriosa Ressurreição»[16].

E do trato com a Humanidade Santíssima de Jesus, com Maria e José, passa-se ao trato com as Pessoas divinas: «da trindade da terra à Trindade do Céu», segundo uma expressão que São Josemaria gostava de repetir. «O coração sente então a necessidade de distinguir e adorar cada uma das pessoas divinas. De certo modo, é uma descoberta que a alma faz na vida sobrenatural, como as de uma criancinha que vai abrindo os olhos à existência»[17]. São Josemaria tinha plena consciência da gratuidade da contemplação e, ao mesmo tempo, considerava-a meta e horizonte de todo o cristão, pois comporta união com Deus: «Se procuras meditar, o Senhor não te negará a sua assistência. Fé e obras de fé, porque o Senhor (...) é cada dia mais exigente. Isso já é contemplação e é união; esta há de ser a vida de muitos cristãos (...)»[18].


[1] Alvarez – Ancilli, Dictionnaire de Spiritualité, p. 472.

[2] Cf. Illanes, 2003, p. 308-309.

[3] Bosch, 2007, p. 477.

[4] Catecismo da Igreja Católica, n. 2709-2719.

[5] Illanes, 2003, p. 313.

[6] Belda, 2007, p. 175.

[7] São Josemaria, Cristo que passa, n. 65.

[8] São Josemaria, Forja, n. 96.

[9] São Josemaria, Cristo que passa, n. 13.

[10] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 238.

[11] Catecismo da Igreja Católica, n. 2697.

[12] Cf. Ibid., n. 2699.

[13] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 296.

[14] Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2699.

[15] São Josemaria, Forja, n. 322.

[16] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 299.

[17] Ibid., n. 306.

[18] Ibid., n. 308.

Vicente Bosch