Confiança, lealdade, gratidão

Extraído do livro "Apontamentos sobre S. Josemaria Escrivá de Balaguer", escrito por Salvador Bernal e editado em português (cf. capítulo 4).*

O que disseram sobre S. Josemaria?
Opus Dei - Confiança, lealdade, gratidão

A amizade do Fundador do Opus Dei transbordava sempre de humanidade, de pormenores delicados e cordiais, capazes de superar a distância ou a ausência prolongada. Assinalava-o Juan Antonio Iranzo, seu companheiro de estudos na Universidade de Saragoça. Muitos anos depois, também em Saragoça, participou na Missa em que deu a Primeira Comunhão ao filho de outro velho amigo, Juan Antonio Cremades. Ao terminar “viu-me, e deixou as crianças dizendo: Tenho que estar com este meu colega que não vejo há muitos anos. E esteve comigo numa salinha uns vinte minutos. Sempre que eu insinuava que estavam muita gente à sua espera, dizia-me: Esses têm-me sempre, mas nós só raramente nos vemos”.

Monsenhor Avelino Gómez Ledo, que viveu em 1927 na Residência Sacerdotal da rua Larra de Madrid, acrescenta um desses pormenores típicos da boa amizade: celebrava o seu santo na festa de Santo André Avelino, pouco conhecido em Espanha, e nesse dia “Mons. Escrivá foi o único a felicitar-me carinhosa e sobrenaturalmente”.

Mas não era só uma questão de temperamento ou boa memó­ria. Monsenhor Escrivá de Balaguer foi assim, por tantos motivos, porque sabia confiar nos outros. E transmitiu este critério a todos os que têm alguma missão de governo dentro da Obra: o Opus Dei funciona baseado na confiança. Essa realidade deriva da confiança com que o seu Fundador sempre tratou todos aqueles com quem se relacionou. Não fazia teorias quando aconselhava os pais de família a não darem nunca aos filhos a impressão de que desconfiavam deles, que era preferível deixar-se enganar uma ou outra vez, pois a confiança que se tem nos filhos faz com que eles próprios se envergonhem de ter abusado e se corrijam; ao contrário, se não têm liberdade, se veem que não se confia neles, sentir-se-ão tentados a enganar sempre.

Podia dar estes conselhos porque já os tinha posto em prática. De facto, confiava mais na palavra dum amigo, ou dum fiel do Opus Dei, que no testemunho unânime de cem notários, como costumava afirmar com frase gráfica. Ele, que aconselhou sempre os pais de família a procurarem tornar-se amigos dos filhos, viveu-o profundamente como Fundador e como Pai - Padre - que era, dentro da numerosa família do Opus Dei. Ao contemplar esta marca da sua amizade, é impossível deixar de pensar nas palavras de Jesus aos Apóstolos na Última Ceia, vos autem dixi amicos – “chamei-vos amigos” (Jo, XV, 15) – , que compendiam o sentido humano e divino da Redenção.

Muitas vezes lhe preguntaram qual a virtude humana que mais apreciava, a mais importante. A sinceridade, respondia. Ao mesmo tempo, e sobretudo nos últimos anos, como um estribilho, enalteceu a lealdade, porque “como ser leal, fiel a Deus, se não se saboreia a delícia da lealdade humana, da fidelidade aos outros?”

Quando se trata da amizade, a lealdade é inseparável da gratidão. Mons. Escrivá de Balaguer dava graças a Deus por tudo, etiam pro ignotis, também pelos benefícios desconhe­cidos que o Senhor lhe tivesse feito e não tivesse conseguido ver.

E era grato também para com os homens. Nada tem de estranho que fosse especialmente agradecido com os que o ajudaram nos começos do Opus Dei ou quando aumentavam as dificuldades.

Pouco depois da guerra de Espanha, deu os primeiros passos para começar o trabalho do Opus Dei em Bilbau. Álvaro del Portillo ePedro Casciaro fizeram algumas viagens e encontra­ram um clima bastante tenso. Pairavam no ambiente as sequelas de sérios ataques pessoais contra o Fundador do Opus Dei, criando preconceitos contra a Obra. Muitas portas se fecharam então. Em compensação, a Viúva de Ibarra, Carito Mac Mahon, agindo com a sua habitual generosidade e fidalguia, abriu-lhe as portas da sua casa e confiou nele. Mons. Escrivá de Balaguer nunca mais o esqueceu; qualquer ocasião era boa para ter alguma atenção especial com esta família. A Marquesa de Mac Mahon testemunhou em 1975 que “era especialmente agradecido, porque recordava sempre com uma gratidão excessiva o pouco que eu e os meus fizemos para com ele naquela época em que não era conhecido, e a Obra menos ainda”.

O Padre Garganta, O.P., viu os começos do apostolado do Opus Dei em Valência, antes de conhecer pessoalmente o Fundador. O seu primeiro contacto foi através do Provincial dos Dominicanos das Filipinas, Padre Tomás Tascón, que esteve um dia em Valência e lhe disse: “O Pe. Escrivá pediu-me que lhe diga estas palavras: Padre Garganta, estou muito agradecido e muito contente com o que faz pelos meus rapazes; um abraço fraterno. No verão de 1975, o Padre Garganta confirma: “O Padre era muito grato pelo que eu podia fazer por ele e pelos seus filhos; talvez me tenha agradecido mais do que devia porque era generosíssimo, e eu fazia-o com muito boa vontade.”

A sua gratidão não era apenas cortesia; uma palavra que se diz e logo se esquece. Pelo contrário, o Fundador do Opus Dei continuava a agradecer muitos anos depois.

Em 1943, instalou-se na residência de estudantes da Moncloa. O Fundador da Obra conhecia a Madre Superiora das Religiosas do Serviço Doméstico, e recorreu a ela para ver se lhe podia dispensar alguma rapariga para trabalhar na nova residência. Atendeu-o a Madre Carmen Barraza, na ausência da Madre Superiora. Recentemente a Madre Barrasa dizia que Mons. Escrivá de Balaguer não tinha esquecido aquele gesto, e tinha assistido à cerimónia de beatificação da sua Fundadora (Roma, 1950) e que, além disso, tinha disposto que assistissem também as empregadas domésticas, fiéis do Opus Dei, que estavam então em Roma. Pela tarde daquele dia, compareceu na Casa Mãe para felicitá-las pessoalmente, com uma bela caixa de bombons, como manifestação da estima que lhes tinha.

D. José María García Lahiguera também testemunha a gratidão de Mons. Escrivá de Balaguer, que na sua época de diretor espiritual do Seminário Maior de Madrid o confessou semanal­mente entre 1940 e 1944. “Sempre de um modo delicado e com obras, demostrou a sua gratidão para comigo por lhe administrar durante aqueles anos o Sacramento da Confissão”.

Exemplos deste género podem multiplicar-se. No segundo capítulo, aludiu-se à Missa que celebrou em Andorra. Aquela Missa impressiono­u muito o mosén Pujol Tubau que, [como vimos], foi o sacerdote que lhe facilitou todas as coisas para celebrar. Quando Pujol ordena as suas memórias do Fundador do Opus Dei, refere-se a como viveu a amizade, lealdade , gratidão – e isto também é admirável – como soube inculcá-la aos fiéis da Obra: “Não podia imaginar que daquele breve encontro em Andorra, com aquela enxurrada constante de refugiados, se estabelecesse um trato tão afetuoso e permanente como o que mantenho com os fiéis do Opus Dei”.

Desde aqueles dias de dezembro de 1937, mosén Pujol e o Fundador da Obra mantiveram contacto com as tradicionais felicitações de Natal e onomásticos. Em abril de 1944, por ocasião da ordenação em Saragoça de D. Ramón Iglesias Navarri como Bispo de Seo de Urgel, mosén Pujol compareceu na capital aragonesa na sua qualidade de Arcipreste de Andorra. Na receção prévia à cerimónia, pôde comprovar a boa recordação, a leal gratidão que o Pe. Josemaria tinha porque, ao ser apresentado ao futuro bispo, este disse que lhe tinham falado muito bem dele. Tinha sido o Pe. Josemaria Escrivá: “Fiquei surpreendido por um momento, pensando como poderia recordar-se o Pe. Josemaria de um sacerdote com quem tinha privado tão pouco, mas depois compreendi que tanta afabi­lidade era consequência de um profundo sentido da amizade”.

Nutria uma especial gratidão pelos seus professores. Sempre teve para com eles provas de afeto e reconhecimento. Mais de uma vez elogiou em público o seu professor de Química no seundário. Dava-o como exemplo de homem organizado que, quando fazia uma experiência na aula, assim que acabava de usar uma proveta ou um tubo de ensaio, limpava tudo – também as estantes – e deixava cada coisa no seu sítio. O Fundador do Opus Dei comentava que esse exemplo foi um dos caminhos que usou o Senhor para ensiná-lo a ter o cuidado de fazer bem até as coisas mais pequenas.

Miguel Sancho Izquierdo foi seu professor na Faculdade de Direito de Saragoça. Com o passar dos anos, viria a ser Reitor desta Universidade, muito vinculada – por várias razões – à de Navarra. De facto, os dois primeiros títulos de doutores honoris causa da Universidade de Navarra, da qual Mons. Escrivá de Balaguer era Magno Chanceler desde a sua erecção jurídica, foram concedidos a dois reitores de Saragoça,Juan Cabrera y Felipe e Miguel Sancho Izquierdo. O ato académico de investidura celebrou-se a 28 de novembro de 1964, e no seu discurso, o Magno Chanceler da Universidade de Navarra enalteceu com particular alegria o galardão que recebia o seu professor: tenho a honra de ter sido seu aluno nas aulas «cesaraugustanas».

A gratidão de Mons. Escrivá de Balaguer serviu-lhe também para viver a justiça com rasgos de destacada generosidade. Sentia-a especialmente, e vivi-a, quando se tratava da recompensa dos que trabalhavam para o Opus Dei nas tarefas apostólicas promovidas pela Obra. Sempre se preocupou para que essas pessoas fossem bem pagas, fazendo todo o esforço necessário para conseguir os meios económicos para esses trabalhos quase sempre deficitários.

Foi um autêntico Pai - Padre - , e em mais de uma ocasião disse que admirava o bom paternalismo, porque para o seu coração cristão era insuficiente o frio cumprimento da justiça. Nunca aceitou, por exemplo, que o ensino fosse gratuito nas obras apostólicas docentes promovidas pelo Opus Dei; a sua ideia era que os alunos pagassem alguma coisa – ainda que fosse o que costumavam gastar no elétrico, disse uma vez de modo muito expressivo –, para que tivessem consciência do seu direito e pudessem reclamá-lo em caso de necessidade... E, ao mesmo tempo, queria que os professores e os empregados tivessem todos os seus direitos bem determinados, incluindo o descanso conveniente, para que também pudessem trabalhar com ordem e eficácia.

Como um caso entre centenas, narra Encarnación Ortega: em 1945 foi-se embora a cozinheira da Residência da Moncloa, porque tinha uma idade avançada e o trabalho daquela residência era excessivo para ela. Mons. Escrivá de Balaguer indicou expressa­mente que se tivessem para com ela as máximas atenções, e que lhe fosse dada uma generosa gratificação. O seu modo agradecido de ser fez que nunca se limitasse a cumprir estritamente os deveres da justiça.

Outra manifestação do seu sentido de amizade – detalhe muito significativo nos nossos dias – é que sempre soube ter tempo para os amigos, para estar com eles, especialmente nos momentos difíceis. O Pe. Antonio Rodilla, muitos anos Vigário Geral de Valência, Reitor do Seminário Arquidiocesano e Director do Colegio Mayor San Juan de Ribera em Burjasot, amigo do Fundador do Opus Dei desde os anos 30, numa carta a um sacerdote da Obra, descreve o vasto leque de amabilidades e delicadezas que teve com ele e com a sua família; desde o consolo em situações íntimas muito dolorosas até à presença física no funeral da sua mãe.

Algum dia, com um pouco de paciência, talvez se possam calcular as muitas horas que passou a convidar para almoçar esses múltiplos amigos seus, com (a frase é de Caminho, n.º 974) a velha hospitalidade dos Patriarcas, com o calor fraterno de Betânia.

E, por último, as cartas. Também será necessária uma paciente investigação para reconstituir a correspondência do Funda­dor do Opus Dei. Escreveu milhares de cartas, que eram o modo de dar continuidade às amizades profundamente sentidas.

Não deixou de escrever nem sequer durante os anos da Guerra de Espanha, em que a censura postal tornava arriscado o correio. A amizade, o carinho, conhece mil recursos. Foi nessa altura que começou a assinar Mariano, um dos quatro nomes próprios com que foi batizado, e no qual se refletia também a sua devoção à Virgem. As suas cartas desses anos estão cheias de nomes convencionais, de imagens tiradas da vida familiar, que iludiam os riscos da censura das duas zonas em que esteve dividido o país entre 1936 e 1939. Muitos foram os que testemunharam a sua alegria e gratidão quando, nas linhas da frente, recebiam periodicamente as notícias do Fundador do Opus Dei, que os animava a estarem prontos para outros combates: aluta interior, o empenho apostólico, a preocupação pelos outros, a reconstrução das suas vidas para continuarem a sementeira cristã de paz, quando terminasse o conflito.

* Tradução revista