A comunhão dos santos: mais unidos que nunca

Trabalhar por dentro, rezar, acompanhar e cuidar das pessoas que amamos, talvez distantes, mas muito próximas do nosso coração cristão. E de todos. É um esplêndido programa de vida espiritual para estes dias difíceis de confinamento e quarentena.

Opus Dei - A comunhão dos santos: mais unidos que nuncaPhoto by Miltiadis Fragkidis on Unsplash

"Não vos deixarei órfãos" (Jo 14, 18). São palavras carinhosas de Jesus aos Seus apóstolos - Seus amigos, como gosta de chamá-los - na Sua despedida terrena antes de seguir em direção à Sua paixão.Não quer que se sintam sozinhos nos tempos difíceis que vão chegar. É lógico que fiqueis tristes - parece dizer- quando presenciardes a Minha paixão e morte na cruz; mas será uma tristeza passageira. E a seguir "manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa." (Jo 15,11).

A melhor das companhias

Nada e ninguém tira a alegria de um coração cristão que se sabe sempre acompanhado pelo maior amor que se pode sonhar. O amor infinito e incondicional de um Deus que me criou, me redimiu e me perdoou tantas vezes. Um Deus que, por amor, se tornou um de nós para ficar o mais próximo possível, para compartilhar a nossa história e morrer por pecados que não eram d'Ele. Um amor que não conhece limites, mais forte do que a morte. Deus - Jesus Cristo, sempre vivo - está sempre ao nosso lado. Prometeu-o explicitamente: "Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos" (Mt 28, 20).

Nesta situação peculiar e difícil - com tons dramáticos - que estamos a viver com a expansão da pandemia do Covid-19, as verdades da nossa fé - como esta da contínua presença amorosa de Deus ao nosso lado - enchem-nos de conforto e de esperança.

NÃO ESTAMOS NUNCA SOZINHOS.JESUS CRISTO VIVO ESTÁ AO NOSSO LADO E ACOMPANHA-NOS SEMPRE. É UMA PRESENÇA REAL, NÃO IMAGINÁRIA

Não estamos nunca sozinhos.Jesus Cristo vivo está ao nosso lado e acompanha-nos sempre. é uma presença real, não imaginária. Uma presença poderosa, íntima e próxima. A presença de Jesus Cristo que, unido ao Pai no Espírito, Se torna mais íntimo a nós do que a nossa própria intimidade: intimior intimo meo, dizia Santo Agostinho com a paixão da própria experiência.

Estes dias são uma ocasião preciosa para olhar para dentro, orar, descobrir - ou revitalizar - essa presença de Deus nas nossas vidas. Juntamente com o Filho, o Pai e o Espírito Santo, Três Pessoas muito próximas, que me chamam por dentro e por fora; que me procuram, que abrem na nossa intimidade - quando sabemos escutar e aceitar livremente o dom - um diálogo apaixonante, cheio de luz e de consolo. Um diálogo que ressoa, às vezes de modo inefável, nas profundezas do nosso espírito.

Estamos criados para essa companhia. Deus é a melhor das companhias: a que nos enche de verdade, a que dá um novo significado, pelo amor, a todas as situações, também às de dor e da morte que se apresentam com o seu aparente absurdo aflitivo.

"Se conhecesses o dom de Deus" (Jo 4,10), dizia Jesus à samaritana, convidando-a assim a não deixar de procurar. Se nestes dias de confinamento forçado descobríssemos um pouco mais o dom de Deus ... O convite ressoa sempre nas nossas vidas, chamando-nos - ainda mais quando a dificuldade aumenta - a procurar sem desfalecer. Como nos negará Deus o Seu dom, se nos sentirmos necessitados, e o pedimos e o procuramos ?...

A comunhão dos santos

Deus também nos acompanha através da proximidade dos outros. Uma proximidade que vai além da presença física, para mergulhar nos mistérios da nossa união com Deus. O amor une-nos. Que bem se entende isso quando não podemos estar fisicamente junto das pessoas que amamos! O amor supera os limites do espaço e do tempo para unir as pessoas distantes que realmente se amam no Amor que une tudo, que tem um rosto de Pessoa de que todos os outros rostos participam. É uma das verdades da nossa fé que rezamos tantas vezes no Credo: "Creio na comunhão dos santos".

A comunhão dos santos é uma realidade maravilhosa - de certa forma, é a própria Igreja - pela qual todos os crentes formam um único corpo com Cristo, que é a Cabeça. A vida de Cristo no Espírito Santo torna-se extensiva a todos nós que estamos unidos a Ele e entre nós como membros do Seu próprio corpo, explica o Catecismo da Igreja Católica (cf. n. 947).

O AMOR UNE-NOS. QUE BEM SE ENTENDE ISTO QUANDO NÃO PODEMOS ESTAR FISICAMENTE JUNTO DAS PESSOAS QUE AMAMOS!

Assim, lemos também que a expressão "comunhão dos santos" tem dois significados intimamente relacionados: "comunhão nas coisas santas" e "comunhão entre os santos" (n. 948).

Os bens espirituais são um "fundo comum" que existe na Igreja, dons universais e ilimitados porque vêm de Deus em Cristo. Cristo é a fonte inesgotável donde vêm esses bens: a fé comum, a graça dos sacramentos e os dons, carismas e bens materiais que se distribuem entre os membros do mesmo corpo de Cristo (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 949-952).

O fruto dos sacramentos pertence a todos. A vida e a graça que qualquer membro do corpo recebe repercutem no corpo inteiro. O que de bom acontece a uma pessoa é uma coisa boa que acontece a todos os outros.

Quanto pode ajudar-nos essa verdade da nossa fé a sentir-nos muito unidos a todos, especialmente em situações difíceis. O que eu rezo é bom para todos os meus irmãos na fé, para todos aqueles a quem amo, mesmo que estejam fisicamente distantes, mesmo que eu não os conheça. Tudo o que une a Cristo, tudo o que vem d’Ele, é compartilhado por todos, ajuda-nos a todos nós. Os sacramentos, que nestes momentos estão limitados em muitos lugares, estão a atuar em todos. Mesmo que só se celebrasse uma Eucaristia no planeta, todos vivemos dela, porque nela se torna atual a fonte infinita da redenção: a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo.

OS SACRAMENTOS, QUE NESTES MOMENTOS ESTÃO LIMITADOS EM MUITOS LUGARES, ESTÃO A ATUAR EM TODOS

O meu amor a Deus com uma oração serena e confiada, as minhas devoções a Santa Maria, a S. José, aos santos; o meu trabalho, os meus deveres diários realizados com amor, as minhas contrariedades levadas com paciência ... tudo é um bem para toda a Igreja: para os meus familiares, meus amigos, meus entes queridos ...; também para aqueles que mais precisam, talvez desconhecidos, mas nunca ignorados; para os falecidos; para todos! Os doentes, moribundos, afetados pela situação, também estão a receber a vida de Deus através da minha união com Deus: a minha oração, a minha penitência, o meu trabalho, o meu serviço em casa, os meus pormenores diários de amor, etc.

O amor que me leva a procurar um serviço, um consolo, uma atenção material é o mesmo amor que, com sentido sobrenatural, me leva a rezar e oferecer pequenos sacrifícios por pessoas, talvez fisicamente distantes, mas muito próximas no coração de Cristo. É uma ajuda real e um amor e carinho efetivos.

Mais perto do que nunca

“Nenhum de nós vive para si mesmo e nenhum morre para si mesmo.” (Rm 14, 7). "Se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros" (1 Cor 12: 26). Diz o catecismo: "O mais insignificante dos nossos atos, realizado na caridade, reverte em proveito de todos, numa solidariedade com todos os homens, vivos ou defuntos, que se funda na comunhão dos santos." (n. 953). Estamos todos juntos para participar da mesma vida de Cristo. Todos nos ajudamos, todos nos acompanhamos. Todos juntos: com os santos no céu, a quem recorremos como intercessores; com os falecidos que já nos deixaram e ainda se purificam (pelos quais rezamos). Todos juntos, unidos a Cristo, aqueles de nós que peregrinamos aqui na terra, às vezes no meio de dificuldades e sofrimentos. Todos juntos!

Com esta realidade de fundo da nossa fé, como nos sentimos acompanhados, com que força devemos agir, com que segurança e confiança! Sempre foi tradição na Igreja recorrer à intercessão dos santos a quem temos devoção. E com a força da sua companhia e da nossa união com Deus, estar pendentes uns dos outros, ajudando-nos por esta comunhão dos santos.

NESTA APARENTE INATIVIDADE, TEMOS A POSSIBILIDADE DE TRABALHAR MUITO POR DENTRO E ACOMPANHAR CADA UM DOS VOSSOS IRMÃOS EM PERIGO

S. Josemaria, em circunstâncias duríssimas de guerra e perseguição, teve que viver em confinamento forçoso - verdadeira superlotação - com alguns dos seus filhos espirituais. Foi entre os meses de abril e agosto de 1937, numa minúscula divisão da Legação de Honduras em Madrid, durante a Guerra Civil em Espanha. Conservam-se alguns textos da sua pregação durante esses dias.

Cheio de preocupação e dor por tantas pessoas queridas, fisicamente distantes e dispersas pela geografia, sem poder ter nenhum contacto com elas; e, ao mesmo tempo, cheio de serenidade, sentido sobrenatural e confiança em Deus, dizia: “Pela comunhão dos santos, nunca podemos sentir-nos sós, porque constantemente nos chegam alentos espirituais … A consideração desta realidade leva-nos a um exame cuidadoso da nossa conduta neste lugar, que é como uma prisão para nós. Porque aqui, nesta aparente inatividade, temos a possibilidade de trabalhar muito por dentro e acompanhar cada um dos vossos irmãos em perigo, e velar por eles” (Notas da meditação de 8 de abril de 1937).

NÃO TEMOS OUTRO REMÉDIO SENÃO RECORTAR A NOSSA ATIVIDADE, MAS ... NÃO RECORTAMOS O NOSSO AMOR!

Trabalhar por dentro, rezar, acompanhar e cuidar das pessoas que amamos, talvez distantes, mas muito próximas do nosso coração cristão. E por todos. É um esplêndido programa de vida espiritual para estes dias difíceis de confinamento e quarentena. Não temos outro remédio senão recortar a nossa atividade, mas ... não recortamos o nosso amor! Continuamos a enviar, através desta comunhão de vida e amor na Igreja, a nossa ajuda a todos, a toda a humanidade. Manifestamos a nossa proximidade através dos meios ao nosso alcance. Não recortamos, pelo contrário, ampliamos a nossa oração diária por todos, a verdadeira ajuda espiritual para os outros. E sentimo-nos acompanhados e amados mais do que nunca.

Se os santos nos acompanham e nos ajudam do céu, dizia S. Josemaria na mesma ocasião, com quanta mais razão a nossa Mãe Imaculada cuidará de nós. Que confiança nos dá a sua intercessão! E recorremos também a S. José, a quem Deus pôs à frente da sua família na terra, para que cuide de nós e nos ensine a cuidar de todos com generosidade, vivendo esta companhia e união de todos no amor de Deus.

José Manuel Fidalgo Alaiz