Como decorreu a Última Ceia?
O mais provável é que Cristo celebrasse a Páscoa no dia anterior ao dia oficial, como já tinha alvitrado nalguma ocasião Bento XVI. É uma questão em aberto, mas não seria estranho, pois naqueles dias confluía muita gente em Jerusalém (cerca de 250 000 pessoas, quando a população normal era de 35 000) e daí que não se poderiam sacrificar todos os cordeiros num único dia.
Assim temos de concluir que a sexta-feira era o dia de imolar os cordeiros.
Com efeito: antecipando a Última Ceia, o verdadeiro Cordeiro foi sacrificado na Cruz, sexta-feira, o dia da Páscoa.

Como começava a ceia pascal?
Como em qualquer festa judaica, o início era determinado pela dona da casa: quando via o sol a ocultar-se por detrás da casa do vizinho, ou quando contemplava a primeira estrela no céu, acendia as lamparinas: com esse gesto, começava a ceia. Simbolicamente, essas luzes lembravam a criação do mundo por Deus, cujo início os judeus situam no mês de Nissan, o “mês das espigas”, pois é quando começa a crescer uma nova vida (embora depois da Idade Média, essa datação tenha mudado).
É pois assim que Páscoa e Criação se relacionam?
De qualquer modo, depois, com Cristo, compreendemos um significado mais profundo (a Páscoa é a nova Criação). Que esta festa se celebrasse no “mês das espigas” revela que as festas de Israel estão ligadas, na sua origem, a festas do mundo rural: a Páscoa coincide com a data da colheita do primeiro trigo e do nascimento dos primeiros animais (cordeiros, etc.); no Pentecostes chega a primeira colheita; e a festa dos Tabernáculos está unida às primeiras vindimas. Por isso o pão, o vinho e o cordeiro são tão importantes. Deus – primeiro no Egito, e depois com Nosso Senhor – foi dando um sentido novo e mais profundo a estas celebrações.
Voltando à Ceia, como se dispunham os convidados?
Embora a ceia se iniciasse de pé, os convivas recostavam-se depois formando um quadrado: as pessoas apoiavam-se sobre o braço esquerdo, praticamente estendidas, e comiam com a mão direita. À direita do Senhor, situar-se-ia a pessoa de maior dignidade, provavelmente Pedro; e à esquerda estaria João, que assim estava em posição de poder descansar sobre o peito de Jesus.

De que modo terá começado a Última Ceia?
Podemos supor que seguiu a “ordem da Páscoa”, isto é, a divisão da ceia em quatro partes, e cada uma delas concluia-se com um cálice de vinho.
Então o primeiro cálice…
A ceia começa com uma bênção (salmos 113 e 114), e no final toma-se o primeiro cálice de vinho, enquanto se diz: Bendito sejais Vós, Adonai nosso Deus, rei do Universo, que criou o fruto da videira”…
O segundo…
Antes de beber o segundo, um dos convivas recorda um grande acontecimento: a “Haggadah”, isto é, a narração da fuga do Egito, tal como é narrada no livro do Êxodo. O vinho que se bebe a seguir recorda-lhes as dez pragas que assolaram o povo do Egito.

Quando é que o Senhor lavou os pés aos apóstolos?
Embora não tenhamos a certeza, talvez tenha sido depois deste segundo cálice, que é o momento em que se realiza tradicionalmente a primeira ablução ou o lavar das mãos, a que o Senhor quis dar um profundo significado. Depois vêm as “bênçãos”, uma série de perguntas que a pessoa de mais idade ou de maior dignidade faz à mais nova: Ma manishtaná halaila hazé micom haleilot? (Por que razão esta noite é diferente de todas as outras noites?). Podemos imaginar que Cristo ou S. Pedro fariam essas perguntas a S. João.
E depois do lava-pés?
Aí começa a ceia propriamente dita. A pessoa de maior dignidade distribui o primeiro pão ázimo, o Matzá, enquanto repete esta bênção Bendito sejais, nosso Senhor, Rei do Universo, que extrais pão da terra”. Pode ter sido neste momento que o Senhor consagrou o Pão, embora não tenhamos a certeza absoluta. Como se sabe, este pão sem fermento – que se comerá mais vezes ao longo da ceia – recorda a pressa com que fugiram ao Faraó. Cada comensal tem igualmente de si um prato fundo com ervas amargas que se lançam no jaroset, molho especial (água salgada e algum ingrediente), que lhes lembra o sofrimento daquela fuga.
E depois, o cordeiro.
Com efeito, previamente tinha sido sacrificado no templo por um sacerdote, ou então pelo pai de família. Não se podia partir qualquer osso, e todo ele devia ser comido.

Qual a razão de dar tanta importância ao cordeiro?
Cristo é o “Cordeiro de Deus”, cujo sacrifício liberta os homens. Para os judeus, o cordeiro é o animal, cujo sangue nas ombreiras das portas das suas casas, tinha livrado os seus primogénitos do anjo exterminador no Egito. Desde essa libertação, que precede e permite a fuga pelo Mar Vermelho, comiam o cordeiro como Moisés lhes tinha indicado.
Mas ainda faltam dois cálices de vinho.
O terceiro bebe-se no fim da ceia. Dá-se-lhe o nome de “cálice de redenção” e com ela se recorda o derramamento do sangue dos cordeiros inocentes que redimiram Israel no Egito; é o cálice com o qual se “dão graças”, pelo que se pensa que é neste cálice que Nosso Senhor ofereceu o seu Sangue aos discípulos.
E o último?
O quarto, já prestes a irem embora, vai unida ao grande hino final: o Hallel, uma bela oração composta pelos salmos 115 a 118. Recebe-se um quinto cálice, que não se bebe: este cálice é para Elias , que o povo judeu espera para anunciar a vinda do Messias(Malaquias 4, 5). Ao terminar a ceia, manda-se uma criança à porta para abrir e ver se lá está Elias. Todos os anos, o menino regressa desanimado e o vinho é derramado sem ninguém o beber.